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domingo, 17 de maio de 2009

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sábado, 16 de maio de 2009

Meu amigo

Antes de qualquer coisa, me dou o direito de não usar letra maiúscula, nem chamá-lo de senhor. Essa idolatria toda só te afasta das pessoas. Amigo é amigo. E eu espero que você seja um dos meus.
Já faz tempo que eu penso em te escrever. Não sei nem como entregar esses pedaços de papéis já amarelados. Tão romântico isso de ver a tinta rasgando as folhas que até tinha esquecido como era emocionante. Esses dias me disseram que podias me ler, ler meus pensamentos. Mas nada pode ser menos divino do que esta minha loucura. Talvez pensar nas frases facilite as coisas pra mim e pra você.
Claro: sou desses hipócritas que chegam ao final da vida e só então lembrar que você existe. Tenho pedidos, embora devesse só agradecer. Mas os humanos são assim mesmo, meu amigo: nunca se agradece pela companhia, pelo conselho, pela verdade: pede-se mais. Malditos insatisfeitos, todos nós.
Estou morrendo e o que fiz a minha vida inteira foi escrever. Não poderia me meter a fazer qualquer outra coisa para chamar a tua atenção. Minha juntas doem: como doem esses ossinhos. Se chocam e me provocam dores quase alucinantes. É quase como seu eu estivesse pagando pelo que fiz nessa vida. Vivendo o inferno no final de uma vida inteira no limbo.
Não sou sujeito que se preste. Acho que foi por isso que meus livros venderam tanto. Recebi cartas dizendo que eu escrevia com maestria. É bem simples: as pessoas liam meu livro e se sentiam boas. Elas só não sabiam que meus Pedros, minhas Helenas, meus Caios e minhas Paolas eram, na verdade, todos eu. Alguns jornalistas metidos a besta desconfiavam e queriam me fazer confessar. Ia ser o escândalo do ano. Eu preferia morrer no anonimato a admitir a minha completa falta de tato com a vida e com as pessoas.
Vou explicar. Lá pelos vinte e poucos, eu era um sujeito normal. E escrevia. Esse foi meu principal pecado. Eu sei, eu sei. Mas já que a vida inteira foi assim, não se há porque mudar agora. Pois bem: escrevi um livro pra vender. Uma editora me contratou, eu ganhei dinheiro. Eu ganhava dinheiro para escrever sobre a podridão do universo. Era perfeito. Eu tinha mulheres, cigarros, uísques. Já tinha vivido o lado bom da vida. Eu queria era ser famoso. E consegui.
No começo, ah, era um tesão – desculpe, mas não achei outro termo. Passava o dia entre filmes, livros, passeios ao sol. Bem rápido consegui uma casa. Tinha algumas amantes. Sempre fui bom com as mulheres. Cedo aprendi que uma mulher bem comida sempre volta. E eu mantinha alguns relacionamentos. Algumas até amigas. Era divertido. Amava todas elas, ao mesmo tempo que poderia viver sem nenhuma.
Eu sofria, apesar de tudo. Aí me apareceu Ceci. E eu cheguei ao fundo do poço. Mas nem vou me incomodar e te contar tudo em detalhes. Homem apaixonado fica burro e depois sofre. Qualquer um poderia escrever sobre isso. Foi meu auge profissional. As pessoas começaram a dizer que eu era genial porque escrevia sobre o sofrimento. Filhos-de-uma-mãe-velha. Eles não entendiam que eu sofria: e eu só conseguia escrever porque sofria e eles não podiam respeitar isso.
Aí passaram a me encontrar na rua e pedir autógrafos. E eu me perguntava porquê. Eles não sofrem? Passei a pedir autógrafos para eles também. Quem sobrevive a tristeza deve mesmo merecer a fama.
Até que não agüentei mais. Passei quase dois anos sem escrever. Todos me esqueceram. As mulheres, os fornecedores de uísque. Eu pude sofrer sozinho. Ah, eu senti a verdadeira felicidade. Sofrer sozinho. Sem escrever. Sem colocar em palavras os sentimentos se esvaem mais fácil. Aí a comida acabou. E eu tive que voltar.
Eu vendi a minha felicidade. Eu vendi as minhas verdades e me sentia na obrigação de mentir mais e melhor. Meus livros foram um sucesso.
Aí eu fui ficando velho. E achei uma mulher que me quisesse de verdade. Nunca esqueci Ceci – ou Amanda, ou Amélia, ou Cibele, nas páginas dos meus livros. Mas entendi que o amor, essa coisa besta que inventaram por aí, não leva a nada. Encontrei uma mulher que quisesse cuidar de mim. Que dançasse a mesma música, que agüentasse as minhas viagens para o lado de dentro, que nem eu mesmo conseguia entender. Jamais me atrevi a dizer que não a amo. E a amo. Mas amor não existe. Então, digo que a amo e ela sorri.
Tivemos um filho. E eu cheguei abaixo do fundo do posso. Colocar uma pessoa no mundo! Absurdo. Eu me senti uma criança inconseqüente, que colocou mais um sofredor nessa vida. Um brinquedinho pra ver se quando eu me visse multiplicado minha dor acabaria. E eu disse isso pra ela. Sou um perfeito imbecil. Nosso filho morreu, aos dois anos. Ela diz que não, mas eu sei que me culpa pela culpa.
Enquanto meus livros vendiam, eu tinha que responder a todo tipo de gente porque escrevia, como era meu processo de criação. Uma coisa ridícula demais. Escrevia porque sim. Criava porque sim. Não se pergunta essas coisas, malditos.
E assim foi minha vida inteira, que você deve ter visto em um canal alternativo, daqueles que ninguém vê. Uma merda de vida. Que agora está acabando.
Quando dizem pra gente que a vida acaba, passa tanta coisa aqui dentro que dá até medo do que vem. Eu sempre detestei essa minha vida, mas nunca quis que ela acabasse. Um masoquismo existencial. Parece que quanto mais se apanha, mas se quer viver pra apanhar mais. A vida, então, deve ser esse eterno tapa na cara.
Então eu resolvi pedir perdão. Perdão a você. E por conseqüência a todo mundo.
Perdão pelo quanto menti. Perdão as mulheres, aos leitores, aos críticos. Perdão àqueles que depositaram em mim qualquer tipo de fé.
Eu quis tanto ser Bukowski, que esqueci que pra amar a todas elas eu precisava amar a mim. Eu quis tanto ser Sartre, que esqueci que para teorizar a tristeza e a solidão eu precisava viver a alegria e a sociedade. Eu quis tanto ser os outros, que esqueci, meu amigo, quem eu era. E no final passei a vida inteira não sendo nada.
Também tenho que pedir perdão a Ceci, aquela mulher que disse que amei. Não cheguei a citar, mas só não fomos felizes por causa da maldita cruz da escrita. Ela me lançava um olhar bonito, e eu escrevia páginas inteiras. E ela se apavorou. Eu podia ter vivido o melhor amor do mundo. E acabei transformando a nossa vida num inferno.
Não sei onde ela anda, mas, meu amigo, transmite meu perdão a ela. Faz ela lembrar de mim só por um minuto com piedade. Ela era um anjo. Sei que me perdoaria.
Claro, na minha lista de perdões está com estrelinhas minha esposa. Ela que me amou tão incondicionalmente, e que recebeu em troca os meus medos todos. Ela me carregou nas costas. E quando as pessoas diziam que eu amava outra, que meus personagens não eram ela, ela respondia a um por um que não se importava: era ela quem estava comigo.
Que um dia ela, que não sabe que merece meus pedidos de perdão, consiga sentir meus apelos.
E o meu maior pedido de perdão é a meu filho, que morreu pela minha falta de amor ao mundo. Que ele saiba que eu o amei. E por isso não pude soltar uma lágrima quando ele foi embora desse absurdo todo.
Enfim, parceiro. Sou um fracasso. E o pior é que as pessoas me tratam como sucesso. Escrevo versos idiotas, invento verdades e todos acreditam.
Então, vou pedir. Meu amigo, parceiro, quase comparsa: me deixa morrer sozinho. Eu e meus personagens. Eu e minhas mentiras. Eu, que sempre fui mais verdade do que qualquer um conseguiria.

Sobre o tempo

Aos 74 anos, já não se tem muita pressa. Mário, ou vô Mário, como gostava tanto de ser chamado pelos netos e crianças que corriam descalças pelas redondezas, acordava todos os dias antes do sol nascer. Mas não porque o trabalho, os filhos ou a vida lhe exigiam. Simplesmente porque era assim que acontecia todos os dias. Seu corpo despertava sempre alguns minutos antes do dia amanhecer.

Os olhos se abriam lentos e, inconscientemente, procuravam por Helena ao seu lado na cama. Mas ela já não estava mais lá. Sentava-se dia após dia na mesma ponta da cama e dava um suspiro discreto, quanse imperceptível, enquanto procurava, tateando com os pés as pantufas azul-desbotadas que estavam o esperando embaixo do colchão manchado. Levantava e estalava as costas. Primeiro, alongando a coluna, cada vez para um lado, com a mão apoiando-se na cintura. Depois, com as mãos unidas na metade das costas, empurrava as costelas para frente. Sentia um prazer indescritível com a sensação relaxante do ato, mesmo sabendo que isso fazia mal para suas costas, já doloridas pelos anos que se passavam depressa. O médico já cansara de lhe dizer, mas mesmo assim, ele continuava insistindo. Depois, era a vez do pescoço. Com a mão por cima da cabeça, esticava com força até sentir o estalo alto. Só então acendia a luz.

Caminhava até o banheiro, que ficava na parte de fora da casa, obrigando-o a passar por um corredor de vento gelado que arrepiava os pelos que lhe cobriam a canela. Tirava a calça de moletom velho e a camiseta promocional de político ou supermercado que serviam de pijama, e ligava o chuveiro no quente. Escovava os dentes, nu, enquanto o banheiro se enchia de vapor. Escrevia sempre algo com o dedo indicador no espelho do banheiro, quando ele ficava embaçado pelo calor. Podia ser uma frase de alguma música que ouvia nos tempos de juventude e dos amores platônicos de colégio, algum lembrete de algo que não podia se esquecer de fazer durante aquele dia, ou simplesmente o nome de Helena.

Deixava a frase ali, para ser apagada pelo próprio vapor que fez com que ela pudesse ser escrita. Dia após dia, os nomes se sobrepondo, invisíveis e esquecidos. O banho era sempre da mesma forma. Quente, terrivelmente quente. A pele avermelhava-se com o contato da água escaldante, enquanto Mário deixava a cabeça baixa pender para frente, embaixo das gotas grossas que explodiam em contato com sua nuca.

O banho era demorado, muito demorado. A água lhe escorria por cada pedaço de pele, corria pelas articulações, pelos músculos frágeis e pelos cabelos grisalhos. Cobria e aquecia seu corpo nu. Um corpo feio, velho, magro e enrugado. Mário olhava para os dedos apáticos e uma lágrima salgada se misturava com as gotas que já lhe escorriam pela face. Lembrava-se das mãos fortes e calejadas que ergueram casas, consertaram carros, plantaram fumo, empunharam armas. Lembrava-se de escaladas, corridas, cavalgadas, pescarias. Do mar, do pôr do sol, das gaivotas, das pipas coloridas, do camargo matinal, bebido ainda dentro do rancho.

Se lembrava de toda uma vida que se passou. Vivida ou não, bem aproveitada ou não, se passou. Seu corpo já não tinha a mesma força, as pernas, destruídas pelo cigarro, já não conseguiam mais levá-lo tão rápido quanto gostaria. Os olhos estavam fracos, míopes e borrados. As costas estavam arquejadas, os ouvidos danificados. O rosto, abandonado. O pulmão, negro como seu futuro, já o alertava que não iria muito longe, em breve, simplesmente deixaria de funcionar. E vô Mário nunca iria poder esquiar, seu sonho de infância, de um garoto que nunca viu sequer a neve. E não veria seu neto caçula se formar. Nem poderia dançar no casamento da neta, a alegria maior de uma época tão bonita e que infelizmente já se foi.

Mário desligava o chuveiro lentamente, e se arrastava já cansado para fora do box. Secava-se e vestia-se ainda coberto pelo vapor que tomava o ambiente e enchia-lhe as narinas. Quando saía do banheiro, via o sol nascer. Sempre no mesmo horário. A claridade surgia por detrás das colinas que delimitavam o vale, jogando os raios amarelos, quase laranjas, para o alto. A luz forte atingia os olhos com força, quando a primeira parte do astro rei se mostrava visível. Mais ou menos nessa hora, é que Mário percebia que estava de pé, no frio do quintal de casa, olhando o sol nascer.

Entrava apressado na casa, se achando meio tolo, e essa sensação o tomava todos os dias. Parecia um jovem sonhador, um bobo apaixonado. Entrava na cozinha de azulejos brancos e azuis e preparava um café. Eram duas colheres de pó, exatamente duas colheres de pó colocadas na chaleira de moccha, quantia que aprendeu nem lembrava como. Enchia de água e colocava no fogo baixo, em cima do fogão.

Esse era o pior momento do seu dia. O momento da água fervendo o café. Ele nunca sabia ao certo o que fazer com as mãos. Esfregava-as compulsivamente, estalava os dedos irritantemente, mas não tinha ninguém lá para ver ou se irritar. Ele as colocava nos bolsos da calça, unia-as em frente à boca e soprava o ar quente dos pulmões venenosos, juntava-as no meio das pernas.

Era um tempo livre que o assustava. O que era estranho até, ao se pensar que todo o seu tempo era livre. Ele não tinha mais nenhuma ocupação, passava o dia inteiro dentro de casa, fazia o que bem quisesse. Comia a hora que tivesse fome, dormia a hora que tivesse sono, chorava a hora que a tristeza lhe esmagasse o peito.

Mas àquela hora, ali, em frente à água fervente, esperando o café transbordar seu aroma matinal, ele não sabia o que fazer. Não era um período de tempo longo o suficiente para ligar a televisão, molhar as plantas ou ir buscar o jornal diário, que esta hora devia estar repousando sobre as rosas de Helena. Ao mesmo tempo, não era algo instantâneo, ele precisava esperar. Esperar e pensar, pois pensar era automático, uma ação condicional ao ato do ser sozinho. E ele esperava, os olhos focados no azul da chama dançarina. E ele pensava, os olhos focados no mesmo azul.

Nunca percebeu que aumentou a quantia de café que bebia todos os dias. Agora, ele bebia o café em dobro. Preparava, todas as manhãs a quantia exata para o seu café e o de Helena. E há dois anos, bebia os dois cafés sozinho, um seguido do outro. O café nunca foi tão amargo, o sol nunca demorou tanto para se erguer no horizonte, a água nunca foi tão preguiçosa para começar a ferver. O mundo nunca girou tão depressa, os dias nunca se arrastaram tão lentamente. O tempo nunca teve tão pouco significado. O tempo nunca teve tanto significado.

Sorvia os goles fumegantes e, inevitavelmente, queimava a língua. O tempo lhe pregava peças. Um gole o queimava, o outro gelava a língua, e quando reparava, já era noite. A tardes, passava cuidando do jardim, das roseiras de Helena que as formigas insistiam em atacar. Ou então dentro do velho galpão de madeira, onde guardava as ferramentas que foram sua principal fonte de renda durante boa parte da vida. Tudo que estava lá dentro era uma preciosidade para o vô Mário. Cada lâmina, cada parafuso, cada foice, cada torno, cada pedaço de cano amarelado pelo tempo. Tudo tinha significado, tudo tinha história. Há quanto tempo guardava tudo isso, já não lembrava mais. Mas o tempo já não era mais o mesmo. As lembranças se confundiam, se apagavam, se estranhavam umas com as outras.

Ele afiava cada uma das lâminas e limpava cada uma das ferramentas, mesmo sabendo que era bem provável que não mais as utilizaria. Seriam deixadas para o filho mais velho, empilhadas em um depósito qualquer, cobertas de poeira e esquecimento. E quando pensava nisso – nas ferramentas cobertas pelo temido pó do esquecimento – sentia a vontade impossível de se agüentar, que lhe acompanhou durante toda a vida. Que lhe perseguiu, enfraqueceu e fez sofrer. Sentia a vontade de um cigarro para encher-lhe de fumaça e dor. O maldito cigarro que lhe tirou a vida, tanto a sua quanto a de Helena.

Helena nunca fumou. Ela não tinha a mínima vontade de provar o gosto do veneno que Mário carregava eternamente pendurado no canto esquerdo da boca de lábios finos. Desde os oito anos de idade, ele era seu fiel companheiro, o mais fiel e presente companheiro que já teve. E que ironia vã fez o destino levar sua Helena antes dele? Sua Helena, passional e passiva, que tragava no ar, a contragosto, a fumaça de Mário, o assassino.

Mas agora, isso já não importava mais. Nada mais importava. O tempo que se passou, as causas dos sofrimentos, os causadores de toda a dor que se fazia presente na vida do velho e esquecido homem. O que importava era que Helena se fora, e Mario não. Ele continuava ali, com seu tempo de sobra, mais tempo para sentir saudades e sofrer calado e abandonado pelos erros que o passado insistia em lhe revelar todos os dias. O que importava era apenas o dia trazendo o sol e a noite o levando embora. Os almoços solitários no bar sujo e vazio da esquina de casa, os cafés quentes e frios. Seus cafés, por mais quentes que fossem, sempre tinham o gosto frio do café solitário. Os programas sobre a vida da natureza selvagem que a televisão mostrava durante as longas horas da tarde afundado no sofá, a liberdade dos animais selvagens, a falta de razão no viver daqueles seres. A falta de razão no viver.

Nada mais fazia muito sentido para ele, por mais que tentasse encontrar um significado para os fatos cotidianos da vida. Não iria se matar, isso era certo. Não havia o menor sentido em causar um alvoroço tão grade por uma coisa que já nem importava mais. Se já ia morrer em breve, para que trazer tanto sofrimento para os que ficariam? Então ele continuava, quieto e silencioso, contando os dias que se passavam e o aproximavam da morte. Contando o tempo, que às vezes não se fazia mais passar. E ele lembrava do jovem atlético que jogava bola na praia, da bela garota que lia sob o sol forte, dos passeios de mãos dadas nas manhãs de inverno, do crescimento da cidade ao seu redor, da pressa dos homens de gravata, do tempo.

Do tempo que passou tão depressa. Do tempo que insistia em não passar.

O Grande Encontro

Joselito estava no auge dos seus 33 anos quando recebeu um telefonema de seu irmão caçula, há muito esquecido. Pedro Paulo não era lá muito parecido com Joselito no quesito personalidade, mas o biótipo da família era inegável em ambos. Pedro. Não se falavam desde uma vez que Pedrinho ligou desesperado por ter tomado um fora de um travesti ninfomaníaco. Percebia-se por aí que as semelhanças entre Joselito e seu irmão paravam na parte física mesmo. O mais velho sempre foi o tipo mulherengo incorrigível desde a pré-adolescência. Forte e com 1,85m já aos quatorze anos, era o cara mais popular da escola, do bairro, e, não fosse pelo Rivanildo, até da cidade. Pedro já era mais gordinho e isso sempre foi um fator preponderante na sua timidez. Aliado ao fato de viver sempre às sombras da popularidade do irmão, os traços da personalidade do caçula foram marcados pelo seu insucesso sexual desde os primeiros anos da adolescência.

Mas o que importa é que Pedrinho resolveu ligar mais uma vez para seu irmão mais velho. Só não sabia muito bem o motivo da ligação e deixou que o instinto fraternal guiasse a conversa.

- Lito. To indo passar uns dias aí na tua terra porque a empresa resolveu fazer uns cursos pro pessoal do telemarketing. Eles vão pagar o hotel, mas a gente podia passar num bar pra botar o papo em dia, né?

Aquilo soava um tanto quanto estranho para Joselito.

- Tu não bebe, não fuma e não fode. Mal e mal joga sinuca. O que vais fazer num BAR? Pelo menos dominó já aprendesse a jogar?

- Não, mas queria conversar contigo. Acho que preciso de umas dicas de como ir atrás das mulheres.

- Pô. Por que demorou tanto pra falar? Veio atrás do cara certo. Sabes que sempre fui o preferido da mulherada.

- Sim, eu sei. Não precisa me lembrar disso que eu não me canso de lembrar das tuas peripécias juvenis.

- Ta bom. Chegas quando?

- Já to aqui no Bar Celona. Falando do orelhão, e minhas fichas vão acabar.

Não deu outra. O telefone ficou mudo de repente. Joselito pegou as chaves do fuscão e saiu calmamente rumo ao bar do seu amigo Gil, parceiro de tantos desafios de sinuca, dominó, caxeta e esportes importantes como estes. Ovacionado por seus amigos logo na entrada do bar, entrou desfilando toda sua imponência, no auge de seus quase 120 quilos. Sentado em frente ao balcão com uma garrafa de gasosão de framboesa, seu irmão, Pedro Paulo. Curvado no banco giratório, com a bermuda na altura do umbigo, Pedro Paulo parecia desolado, como sempre, mas demonstrou alegria ao ver o irmão entrando no bar. Levantou e foi abraçá-lo.

- Me poupe dessas frescuras. Vamos logo ao assunto. – E virando-se para o rapaz atrás do balcão – Gil. Desce duas doses de Tonturinha pra nós.

- Mas eu não bebo. Você sabe disso. – Lamuriou o caçula.

- Viu. Começou errado já. Quer se dar bem com as mulheres como, sendo fresco desse jeito. Toma essa porcaria e não chia.

Pedro Paulo colocou um pouco de gasosão dentro do copo de cachaça e virou num gole só, como se tomasse um remédio de gosto horrível. Em poucos segundos já estava tonto e bêbado a ponto de falar qualquer coisa que lhe fosse perguntada. Restava ver se aquilo lhe proporcionava coragem para encarar o grande desafio de tomar a iniciativa com uma mulher. Tudo bem que o Bar Celona não era o lugar ideal para encontrar alguém para ele, mas o papo que seguiria já era o suficiente pra testar um possível desempenho dele em situações mais favoráveis.

- Agora quero mais uma.

- Começou errado e continua errado. Tu não tem jeito, né, desgraçado? Ta de porre já e quer mais uma? Como vais fazer alguma coisa com uma mulher passando desse estado?

Dava pra entender porque os dois não se falavam há tanto tempo.

- Ó, aí, Gil. Não falei que tinha um irmão mais frouxo que cueca sem elástico? Esse é o Pedrinho, meu irmão caçula.

- Deixa o cara, Lito. Ninguém tem que ser igual não. Mas qual o problema dele?

Pedro Paulo ainda tentava se recuperar do gole de Tonturinha enquanto Gil e Joselito conversavam.

- É um frouxo. Não bebe, não fuma, não fode, não joga cartas, sinuca, futebol. Não faz nada o traste. Só se mata na frente daquela televisão e conversando com um cacto de estimação. É uma vergonha.

Semi-recuperado, o alvo das críticas retoma a palavra.

- A culpa disso tudo é tua, que sempre ficou me subestimando, ignorando e intimidando.

- Cala a boca. Tu que sempre foi um frouxo, desde moleque nessa merda de dizer que é tímido e acaba não fazendo nada que presta.

- Pra mim chega. To voltando pro hotel. Amanhã passo lá pra ver meus sobrinhos.

- Nem precisa passar, melhor eles nem verem esse mau exemplo.

Pedro Paulo paga seu gasosão e vai embora, deixando a conta da cachaça para seu irmão. Segue a pé até o hotel, enquanto Joselito continua no bar.

- Vai um sinuquinha aí, Marcel? Quem perder paga uma dose.

Jogando sinuca, Joselito nem lembra que seu irmão passou por ali, mas a recíproca não é nem um pouco verdadeira. Sem conseguir esconder a tristeza, Pedro Paulo entra em um prostíbulo ou, como preferem chamar, casa de tolerância. As cortinas vermelhas e as músicas do ambiente deixam Pedro Paulo constrangido, mas ele precisaria enfrentar aquilo se quisesse provar para seu irmão de que era um cara bom. Ele sabia que seria um tio legal para os pequenos Fotolito e Linotipo, mas precisava primeiro ser razoável com ele mesmo. Depois de uma cachaça, as coisas começam a mudar de figura, mas mesmo assim ele não conseguia se desinibir. Sentou-se numa das cadeiras em frente ao palco e decidiu esperar o efeito do álcool. Cochilou. Dormiu pesado.

- Não é o irmão do Joselito? Vamos lá. Botar o cara pra fazer festa também.

Após horas de sono na cadeira do prostíbulo, foi acordado com surpreendentes abraços masculinos. Eram os seres com mais cheiro de cachaça que ele já tinha visto. Marcel e Gil. Freqüentador e dono do Bar Celona, respectivamente. Juntos, bêbados e prontos para uma noite de esbórnia como qualquer outra.

- Marinês, esse aqui é irmão do Joselito. Parece que ele é meio tímido e não tem muita experiência na coisa. Apresenta a Jucelaine pra ele.

Marinês era a cafetina desde que seu irmão, Rubens, morreu num acidente de moto. Rubens era um dos melhores amigos de Joselito, e Marinês sempre teve “um carinho especial” por esse amigo em específico. Em épocas um pouco mais distantes, antes de casar com Maria das Dores, Joselito até se atreveu a encontrar a irmã do amigo às escondidas. Mas pulou fora quando percebeu que ela além de sexo tinha sentimentos. Mesmo assim, Marinês não tinha ressentimentos em relação à relação que nunca existiu de fato. E não custava nada pra ela oferecer um agrado ao irmão caçula daquele com quem ela sonhava ter casado.

Fez um sinal de positivo para os amigos e saiu em direção ao camarim. Após algumas horas de conversas com a mais famosa de suas garotas, saiu rumo a mesa dos rapazes.

- Os shows só vão começar daqui a uma hora, mas venham comigo que preparei algo especial pra vocês hoje. Considerem que é um presente de natal antecipado para meus clientes mais fiéis. E pra ti, irmãozinho do Lito, só vou retribuir os favores que teu irmão me fez há muito tempo.

Marcel e Gil foram com Jucelaine para um quarto reservado, enquanto Pedro Paulo foi praticamente arrastado pela própria Marinês para outro. Pensou, por um momento que pudesse ainda estar dormindo, sonhando, ou talvez bêbado demais. Em todos os casos, não acreditava se tratar da realidade. Ele? Sendo arrastado para um quarto por uma mulher? Realmente era difícil de imaginar.

Entrando no ambiente preparado para aquilo que Pedro Paulo mais queria e menos fazia na vida, ele quase delirava. Era como se seus desejos mais íntimos virassem realidade “automagicamente”. A luz, fraca no fundo do quarto, era suficiente para realçar os contornos daquela bela mulher que o conduzia pra uma dança inesperada. Pedro Paulo suspirava só de ver as curvas salientes. Marinês não era igual as outras mulheres daquele lugar. Ela apenas administrava a casa e se divertia com um ou outro cliente quando tinha vontade. Pedro Paulo deu sorte de ser imão de Joselito nessa hora. Ela o atacou vorazmente como se tivesse à sua frente o irmão pela qual era apaixonada, mas logo o deixou ir, acabado. Arrastando-se madrugada adentro, Pedro Paulo parou em um bar, comprou fichas de orelhão e ligou para seu querido e estimado irmão.

- Muito obrigado. Você é o máximo! – E desligou sem direito a resposta, partindo em direção ao hotel. Parecia o dia mais feliz da vida de Pedro Paulo, que dormiu feito um anjo na cama dura daquele hotel de quinta categoria.

No dia seguinte ele só tinha duas horas de treinamento e estava livre para fazer turismo até a hora de voltar pra casa. Como era um sábado, Fotolito não tinha aula, e ele estava curioso para conhecer seus sobrinhos. Imaginou dois meninos fortes, como o pai, e já se enchia de orgulho por fazer parte daquela família. Caminhou por horas até encontrar a casa certa, mas quando a fome começou a apertar, acertou a porta.

(Toc Toc)

- Quem é você? – Indaga um pequeno garoto ao abrir a porta.

- Pedro Paulo, irmão do Joselito. Ele ta por aí?

- Paaaaaaaaaaiiiêêêê. Tem um gordinho aqui que diz que é teu irmão.

- Deixa ele entrar. É o Pedrinho.

- Humm. Vamos ver se adivinho. Você é o Linotipo. Certo?

- Não. O Lino ta ali no berço. Eu sou o Fotolito. Fiz oito anos na segunda-feira e esses dias a mamãe me deixou sozinho em casa. Eu não podia mexer no fogão, mas fiquei com fome, daí fiz macarrão instantâneo no chuveiro mesmo. Se você é irmão do papai, quer dizer que é meu tio, não?

“Meu Deus. Enganaram meu irmão. Esse não pode ser filho dele”, pensou Pedro Paulo instantaneamente ao ver o menino franzino que se apresentava à sua frente. No meio do pensamento, Joselito apareceu sem nenhuma empolgação.

- Eu te mato seu desgraçado. Tava bêbado ainda aquela hora da madrugada? Me ligou pra quê?

- Só pra te agradecer por ter feito alguma coisa pra Marinês que eu não sei o que é. Sei que ela gostou e resolveu retribuir pra mim ontem à noite. Tens cigarro? Que tal a gente sair pra jogar um sinuquinha? Ou preferes jogar cartas?

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Além dos sonhos

Escrevo estas palavras em um dos raros momentos de vigília que ainda permeiam minha vida. Sinto o torpor possuir meus membros, enrijecendo até os menores músculos, tornando um desafio prodigioso mesmo o simples ato de deslizar a caneta sobre o papel. As pálpebras lutam a cada segundo para serem fechadas, mas eu devo resistir, pois sei que o fim está próximo. Devo buscar toda força que ainda possuo, advinda da vontade de ficar vivo e do horror do meu conhecido destino, para avisar a humanidade do que a espreita em cada noite de repouso. Pois aqueles que dormem tranqüilamente em suas camas, imaginando-se seguros no interior de cobertas, paredes e muros, não têm a consciência dos abismos morféticos de horror imaterial e incognoscível no qual estão mergulhados.

Sempre busquei nas visões oníricas da noite a satisfação para as desilusões contínuas da vida mundana, que já não ouso mais chamar simplesmente de real. Os mundos mágicos e inacreditáveis por onde vagava no sono mascaravam minha incompetência nos assuntos da vida, como estudo, trabalho e relações humanas. Porém, como ocorre em todas as pessoas, minhas madrugadas foram ficando mais estéreis de sonhos etéreos conforme os anos passavam. Mesmo me esforçando para retornar aos universos fantásticos de outrora, as noites eram vazias e obscuras, sempre terminando em um decepcionante despertar para o mundo frio, tedioso e insípido da realidade.

De alguns anos para cá, essa aridez se tornou mais pronunciada do que nunca. Apenas alguns pensamentos fugazes e repentinos relampejavam em minha mente durante o sono. Comparado aos devaneios da tenra infância, não passavam de pobres impressões, tão distantes das aventuras oníricas de antes como o homem o está da compreensão total do universo. Ao mesmo tempo, e de modo assustadoramente rápido, eu me tornava progressivamente mais sonolento e caía dormindo sem aviso, às vezes mais de uma vez por dia, não importando qual atividade realizava no momento.

Os médicos diziam que eu sofria da rara doença da narcolepsia, na qual a vítima cochila em qualquer hora e incontrolavelmente. Diziam também ser comum a vítima sonhar durante esses cochilos, coisa que nunca me aconteceu. A ausência de sonhos e o aspecto progressivo da moléstia atraíram certa atenção de especialistas, vendo ali uma variante incomum e a chance de acrescentar mais um artigo científico aos seus currículos. Porém, desde aqueles tempos não me convenci com a inocência dos médicos diante da complexidade incompreendida do multiverso. Mesmo desconfiado de que as origens do meu mal estavam além do seu determinismo especulativo, tomei toda sorte de estimulantes e anfetaminas que me receitavam para manter-me desperto. Rapidamente estes se tornaram um vício, por fui dominado por um desconforto mórbido em relação ao repouso. Todo o momento em que dormia por longos períodos, meu último pensamento era o de que talvez minha consciência não voltasse a emergir daquele reino de escuridão e vácuo.

O que a princípio não passava de uma pequena intranqüilidade se tornou um horror incontrolável. Os poucos a quem ousei confessar meus medos me disseram que era só minha mente imaginativa que criava tais fantasias, que meu problema era pouco conhecido, mas possível de ser tratado. Realmente, se minha imaginação fosse fraca e comum, como a de quase toda humanidade, talvez eu tivesse me deixado ir há muito, em relativa paz.

Mas eu sou um daqueles seres com raros dons perceptivos, capazes de romper o véu da mediocridade e enxergar por trás do espesso manto de ignorância que resguarda o homem da loucura total. E por esse dom eu paguei caro. O tormento constante acabou por minar aos poucos minha sanidade, me levando a certas conclusões que hoje tremo só de lembrar. Eu começava a raciocinar que, se durante a inconsciência o mundo era um éter congelado de negrume morto, e nenhuma preocupação ou sentimento de perda me atacava, o sono era a melhor fuga para a dor. Bastava vencer o pavor fóbico da imersão no ignoto. Meu próprio problema era a solução!

A mente alquebrada me fez largar os remédios, junto com qualquer círculo social ou familiar ao qual ainda me ligava, e passei a viver isolado de tudo e de todos numa cabana distante da civilização. Lá ninguém tentaria me convencer a voltar ao tratamento ou continuar lutando.

Agora que tenho maior compreensão dos fatos, as implicações daquelas ações se tornaram mais grotescas e terríveis do que a simples degeneração cerebral. Ah, como eu adoraria ainda crer apenas na insanidade! Mas a sonolência está novamente me atacando, não posso me dar ao luxo de divagar muito.

Em uma manhã qualquer, após passar doze horas desde o anoitecer anterior dormindo, senti uma nova onda de embriaguez imediatamente após abrir os olhos. Jamais antes o sono viera tão cedo após a noite, sendo mais forte do que nunca. Não resisti muito àquela altura, me entregando novamente ao abraço de Hipnos. Subitamente, em meio às trevas, me senti novamente vivo, como se os sonhos estivessem voltando. Mas era apenas eu em um vazio infinito e apagado. Algo, que não ouso nem tentar chamar de alguém, parecia próximo a mim, me vigiando, me cercando, observando camuflado o humano solitário. Eu me sentia em um estado de consciência diferenciado, como se pudesse romper o vácuo, como se o nada fosse alguma coisa, e com a ação certa eu conseguisse ver através dele. Comecei a captar algumas impressões vindas do infinito, e apurei sentidos recém-descobertos para captá-las. Subitamente, aquilo me tocou. O tecido da escuridão ondulou, dobrou-se e se rasgou, abrindo-se para uma torrente de informações jorrar em minha mente completamente aberta, me mostrando o quão inocentes foram até as minhas piores suspeitas e medos.

Pois fiquei sabendo que o mundo material e único que os homens normais conhecem é apenas um dentre tantos interpostos no multiverso. Essa plenitude à qual eu chamo multiverso possui tantas dimensões quanto o número de seus planos, simplesmente o infinito. Os planos se cruzam com outros, que se cruzam com outros, formando uma cadeia de interconexões, portais e sobreposições, incompreensível até para mentes muito superiores à humana. Cada universo possui sua cota de entidades, suas formas de vida, embora nenhum conceito humano de vida possua a amplitude necessária para abarcar a incomensurável diversidade de aberrações a rastejar em uma miríade de paisagens bizarras.

Uma das ligações nossas com um outro plano ocorre nos momentos em que perdemos a consciência, mais comumente durante o sono. Cada forma de vida de nosso plano é ligada a uma entidade deste outro, que curiosamente só adquire consciência quando a nossa se vai. A tendência a nos mantermos despertos é uma luta inconsciente contra essas entidades, que lutam para tomar nossas consciências para sempre e assim alcançar a sua vigília plena. Os mais fracos costumam se render em uma única e súbita vez, caindo naquele estado que relacionamos a diversas causas e chamamos de morte. Outros resistem até o último segundo, permanecendo em coma por meses ou anos, antes de se irem. Ou, em raros casos, voltarem triunfantes da batalha, sem nada lembrarem e conseguindo apenas mais um breve período de paz. Os mais fortes, ou mais sensíveis a essas verdades, lutam alternando períodos de consciência com inconsciência, assim como eu. Cada vez é necessário um estupendo esforço de vontade para voltar.

E eu vi e senti mais: os sonhos, os adoráveis sonhos, são uma defesa que nossas mentes tem contra esse ataque, nos isolando em semiplanos frágeis e fugazes de nossa própria criação, de modo que as malignas entidades não usufruam sua vida parasita. Mas às vezes elas conseguem encontrar e penetrar nos refúgios, e destroem nosso mundo onírico ou o pervertem em forma de pesadelos. Progressivamente, esse mundo vai sendo dilacerado, e a mente sonhadora da criança vai se transformando na aridez estática do adulto, sem que ninguém perceba que aquilo nada mais é do que o início da morte.

Porém, a mais terrível das certezas foi a de que, enquanto nós nada sabemos sobre a verdade, seguindo nosso caminho de modo desapercebido e estúpido, as entidades (jamais ousarei chamá-las de seres ou criaturas) possuem o conhecimento completo, sabendo que por trás de toda a placidez da ignorância jaz uma guerra entre universos. O que gera em minha entorpecida consciência toda sorte de perturbadoras implicações. Teriam essas assombrosas entidades a capacidade de interagir diretamente com o nosso plano? Seriam elas as causadoras de toda essa assustadora onda de racionalidade que assola nosso mundo, sepultando os sonhos nos mais profundos recônditos da mente, em detrimento de uma vida voltada aos pífios prazeres materiais? E as outras formas de vida que povoam nosso limitado universo, como reagiriam a isto? Ou elas já têm essa sabedoria e lutam contra a ameaça? Seriam essas entidades as causadoras diretas de todo tipo de morte que assola as criaturas deste plano?

Diante dessa aterradora questão, senti uma repulsa imediata da coisa que se aproximava. Foi com uma incrível força de vontade que tentei me desenvencilhar daquela monstruosa terra de visões e verdades. Senti as garras viscosas do esquecimento me agarrando e me arrastando em direção ao oblívio, tentando iludir minha mente com a falsa promessa de tranqüilidade que o fim apresenta. Cada fibra do corpo relaxava e se entregava, enquanto apenas um fiapo de consciência resistia, como o último soldado espartano de pé ante as Termópilas. Era uma luta quase física entre minha consciência e a vil entidade que tentava, por todos os deuses, o termo é exatamente este: me matar! A guerra ocorreu durante milênios, eras completas, tempo que já foram e ainda serão, em lugares e planos infinitamente distantes e outros assustadoramente familiares. Por fim, senti os tentáculos se soltarem relutantemente, como se dissessem: "na próxima, você será meu!".

Abri os olhos, enxergando o teto úmido e bolorento da isolada cabana em que passei os últimos meses. Sabia que deveria registrar imediatamente tudo o que havia sentido, pois, como nos sonhos, as lembranças começavam logo a se apagar. O esforço sobre-humano para me livrar do abraço ímpio da entidade quase me exauriu, tornando-me mais vulnerável ainda a um novo torpor. Com cada membro pesando toneladas, tombei da cama, rastejando de modo dolorosamente lento ao criado-mudo, onde um frasco quase esquecido de estimulantes repousava. Ingeri os comprimidos em uma virada só, sentindo as drogas penetrarem na corrente sanguínea e estimularem os músculos e nervos entorpecidos. Conseguindo apenas me mover com dificuldade, quando qualquer humano normal teria convulsionado por overdose, comecei a redigir este relato, determinado a avisar a humanidade do terror que a assola. Meu maior medo, porém, é o de que estas palavras sejam consideradas apenas delírios de um louco e caiam no esquecimento, o que quase certamente ocorrerá. As pessoas sempre preferem continuar chafurdando em uma ilusão que lhes traga uma paz momentânea do que enfrentar os demônios de uma existência difícil, com apenas uma vaga esperança de triunfar.

Já não posso resistir muito. Mesmo tendo tomado todas os estimulantes que ainda guardava, sinto a dormência se espalhando pelos membros, embotando meu raciocínio, borrando minha visão... A próxima vez em que fechar os olhos, certamente será a última. Cada piscadela é uma guerra inteira travada entre planos do multiverso, meu corpo em frangalhos já não agüenta mais. Cada partícula do meu ser deseja desistir e se render a esse destino nefasto, buscando o lúgubre descanso final. Mas minha mente ainda luta! Eu ainda tenho força! Mostrarei a essa entidade maldita o que a força de vontade de um homem é capaz! Resistirei até o último instan

Relato em azul

Percorreu a última letra com menos pressa. A bola metálica da esferográfica rolando sobre o papel com um ruído inaudível, deixando para trás um rastro azul, uma letra e, finalmente, um ponto. Embainhou com calma a caneta no porta-canetas inox. Releu com atenção a página. Amassou a folha até que se tornasse uma bola compacta de celulose e alguma tinta desperdiçada. Atirou-a, pela janela aberta, contra o fim de tarde mal cheiroso que o vento trazia do rio. No contraluz, silhuetas de hotéis luxuosos e centros empresariais milionários se erguiam do amontoado de casebres rotos e baixos espalhados ao redor. Ali, a distância entre a miséria e a riqueza se media em andares. Se se esforçasse, poderia ver um daiquiri sendo mexido no ofurô de uma das sacadas distantes. Muito mais abaixo, no rés do chão, uma poça servia de refresco para uma criança barriguda ou um cachorro magro. É tudo lixo, tudo é podre.

Já tinha atirado mais páginas pelas janelas do que colocado na rasa pilha sobre a mesa, quando um ruído abaixo da janela dispersou-lhe os pensamentos. Debruçado no parapeito pôde ver, dois andares abaixo, duas crianças, pouco menos que adolescentes, a revirar o seu lixo. A primeira estava abrindo as folhas, transformando as bolas de papel novamente em folhas mais ou menos planas. A outra as empilhava umas sobre as outras. Pôde jurar que um resto de sol tinha brilhado sobre os meninos, numa luz muito fraca para ser percebida por alguém além dele. Um dos garotos olhou para cima e, ao vê-lo, assustou-se. Juntou as folhas e partiu correndo, no que foi seguido imediatamente pelo outro.

Ele ficou observando até os garotos sumirem por entre os casebres escurecidos pela hora. Demorou-se na janela, ruminando algo que lhe nascia junto com a noite. Retornou à mesa, tomou mais uma folha em branco, desembainhou a caneta e fez a esfera metálica na ponta do artefato correr veloz pelo papel, cuspindo letras, palavras, personagens, amarrados por um fio azul que seguia a bola prateada de uma nova história. Escreveu três páginas de um conto breve de aventuras ribeirinhas juvenis. Amassou as folhas em uma bola frouxa de papel e tornou a abri-las. Apoiando-as sobre a mesa, passou-lhes a mão por cima duas vezes, para suavizar os vincos. Desceu com o conto nas mãos, entrou no beco ao lado do prédio e, bem abaixo de sua janela, pousou as folhas abertas sobre um caixote de madeira, calçando com uma carcaça quebrada de celular descartado. Subiu ao apartamento e escreveu mais algumas páginas. Desta vez, colocadas sobre a pilha de folhas escritas em sua mesa. Jantou satisfeito olhando pela janela a cidade escura onde, em algum lugar, havia alguém para quem escrever.

O cheiro do rio chegando pela janela denunciava o horário. Foi ao beiral e ficou espiando ao canto, escondido. Os dois vultos jovens não tardaram a aparecer, esgueirando-se rentes ao prédio. Um dos garotos começou a remexer o lixo quando o outro lhe chamou a atenção. Tomou as folhas, percorrendo rapidamente de cima a baixo, os olhos saltando rapidamente pelas linhas preenchidas à caneta. Os garotos se olharam com um início de sorriso trocado e logo olharam para cima, de repente. Da janela ele não pôde perceber se eles o haviam visto. Mas viu-os partirem correndo em seguida, com risos trocados e, se ele não se confundira, um pequeno e discreto saltitar de alegria. Respirou fundo o ar úmido de aroma duvidoso e retornou à escrita, colocando a esfera metálica na ponta da caneta para trabalhar novamente.

Mais um conto breve, de quatro páginas. Uma continuação do anterior, repetindo personagens em novas aventuras. Numa vida ribeirinha e difícil, mas cheia de esperança, descobrindo um caminho para além das dificuldades. Dessa vez não amassou as folhas. Desceu novamente à viela ao lado do prédio e pousou-as de novo sobre o mesmo caixote. Cobriu-as com a mesma carcaça de celular abandonado. A alvura das laudas perfeitas com as letras de azul vivo destoava do lixo triste, mas ele achava que isso já não assustaria os seus novos leitores.

Subiu devagar os degraus até o seu quarto, imaginando em que condições aqueles textos estariam sendo lidos. Surpreendeu-se com a mente percorrendo as vielas à procura de um abrigo onde folhas amassadas de uma história juvenil entretinham um par de crianças que ainda se permitiam sonhar além daquela planície, do rio, dos casebres e das torres luxuosas dos hotéis inacessíveis.

Entrou no quarto e debruçou-se novamente na janela aberta, olhando aquele marrom acumulado de madeira descartada e zinco velho que forma uma massa de casas e vidas e papelão empilhado. Do meio daquele emaranhado de vidas amontoadas, cresciam resplandecentes as paredes envidraçadas dos hotéis. Como se os primeiros fossem o adubo que, enterrado, alimentava o crescimento dos segundos. Nas paredes envidraçadas, o reflexo da podridão. Como a lembrar-lhes de quem eram. A esfregar-lhes nas fuças o cheiro que tinham. Enquanto, lá no alto da torre espelhada, as janelas eram só reflexo de sol, céu e nuvens.
Da sua janela olhava a planície com aquele cenário com o qual se acostumara, como tinha se acostumado ao cheiro forte do rio nos fins de tarde quentes. Baixou os olhos para o lixo na viela ao lado do prédio, onde viu as páginas do conto contrastarem brancas contra os rejeitos. E percebeu-se no segundo andar.

Foi como se uma lufada forte do vento fedido o tivesse golpeado. Desequilibrou-se levemente, a cabeça tonteou como quem se levanta rápido demais. Agarrou-se ao batente até recuperar a estabilidade. Levantou o olhar de novo para planície. Viu os casebres tristes e encontrou, refletido nos vidros de um dos grandes hotéis, o seu prédio. Na parede refletida cravejada de janelas, em uma delas, muito distante, pequena demais, um homem olhava-o de volta. Àquela distância, sem feições. Mas irremediavelmente familiar. Travou uma guerra com o homem refletido, que o fitava severo, como uma aparição que insiste em assombrar o assombrado. Encarou o antagonista distante por vários minutos, na esperança que ele desistisse ou se cansasse. Mas era irredutível, o homem reflexo. Não pôde suportar o confronto por muito tempo. Acabou por baixar o olhar às casas podres, às cercanias, à viela ao lado do seu prédio e, finalmente, ao lixo onde repousavam as folhas alvas marcadas de tinta azul.

Deu as costas à janela num movimento brusco, sentou-se à mesa de madeira e, com um acenar violento do braço, limpou-a de tudo que a cobria. Tomou o bloco de folhas brancas, resgatou a caneta que havia caído no chão, já fora do porta-canetas, arrancou a tampa com os dentes e a cuspiu longe. Baixou a cabeça sobre a primeira lauda, pousou a ponta da caneta na primeira linha e, com um leve impulso, pôs a esfera metálica em movimento, deixando para trás um rastro de azul pastoso. A esfera acelerou sozinha e foi ganhando velocidade. Deixando para trás letras, palavras, parágrafos. Personagens e histórias e críticas e idéias e sonhos impossíveis. Deixando para trás uma pasta azulada de pedaços de autor esmagados por uma minúscula esfera metálica que não cessava de rodar. Não percebeu o cheiro ribeirinho que vinha se esgueirando pelo ar, escalando as paredes do prédio e espiando pela janela aberta. Não percebeu a escuridão que o acompanhava ao encalço, esticando os dedos por sobre a planície, cobrindo os casebres, esgueirando-se pelas paredes, apartamento a dentro. Deu, instintivamente, um tapa no botão da luminária que havia se equilibrado na ponta da mesa, elevando uma redoma de luz que impediu a entrada da noite nas páginas que iam se preenchendo rapidamente. Não viu quando a noite recuou da sua janela para englobar o resto do mundo. Nem reparou nas poucas estrelas refletidas nas torres espelhadas e nas águas dos ofurôs das sacadas distantes. O tubo azul dentro da caneta ia diminuindo de tamanho enquanto as folhas se empilhavam ao lado, prenhas de algum gozo azulado que vertera o autor. Prenhas de um gozo estéril.

Não notou a luz amarelada que se ergueu do rio e escalou suas margens, se esgueirando por entre os casebres e se refletindo, já azulada, nas fachadas de vidros acordando. Não pensou se a viela ao lado do prédio havia recebido a visita de duas crianças na noite anterior, como não pensou se a luz acordara o homem refletido na janela distante na parede de vidro. Apenas olhava a folha branca se maquiando de azul e a mão dormente seguindo os movimentos constantes da caneta que obedecia às vontades de uma bola de metal rolando sobre o papel, a tinta e a luz já desnecessária da lâmpada fluorescente sobre a mesa.

De repente a esfera parou. A caneta estancou. A mão relaxou. Os olhos cansados acompanharam a última folha ser levada até o topo da pilha. Largou a caneta, desligou a luminária e, finalmente, levantou a cabeça para ver um dia amanhecendo pela janela aberta. Arrastou-se até a cama e deixou-se cair sobre as cobertas e num sono raso de sonhos vacilantes.

Acordou ao fim da tarde. Retornou à sala e ficou, da porta, admirando a pilha de folhas sobre a mesa. Preparou um café e deixou que o cheiro da bebida tomasse o apartamento, antes que o cheiro do rio o fizesse. Xícara em mãos, ficou de pé ao lado da mesa. Alternando o olhar entre as folhas escritas e a janela aberta. Pousou a xícara na mesa, abriu uma das gavetas e tomou um barbante com o qual envolveu as folhas amarrando-as em um fardo. Foi à janela, olhou para baixo e viu apenas lixo, com a carcaça de celular inútil diretamente sobre o caixote de madeira. Conferiu as horas, calçou um par de sapatos velhos e terminou o café. Pegou o fardo de folhas, saiu pela porta do apartamento e deu duas voltas na chave pelo lado de fora. Desceu as escadas até o térreo, saiu pela porta principal e entrou na viela lateral. Deixou o fardo sobre o caixote com o resto de celular em cima. Deixou a viela, atravessou a rua, afastou-se mais alguns metros e pôs-se a esperar, encostado em um muro forrado de cartazes sujos com imagens serigrafadas de jogadores de futebol.

Decidira deixar a torre de marfim. Não seria digno escrever, lá de cima, sobre ali embaixo. Era preciso estar lá. Onde a história era feita, onde a história era lida, onde os personagens se encontravam com os leitores. O cheiro do rio chegou lembrando-lhe das horas. O sol era agora só um reflexo alaranjado nas fachadas de vidro do alto dos prédios. Ali embaixo, a noite já chegava aos poucos. Não tardou, o cheiro do rio trouxe o que prenunciava. Os dois garotos entraram na viela correndo, agitados. Àquela distância poderia supor, felizes. Uns dois minutos passaram até que eles saíram, ainda mais agitados, com o volumoso fardo nas mãos e com sorrisos desenhados nos dentes protuberantes. Saíram saltitando, lépidos, com o mais recente volume de suas histórias. Muito maior que os anteriores.

Mantendo uma distância segura para não ser percebido, seguiu os dois jovens, disfarçando o melhor que podia sem perder os dois de vista. Percorreu ruas feias e estreitas, desviou dos olhares desconfiados, até que viu, de longe, os garotos se esgueirarem por uma portinhola estreita para dentro de um barraco muito pequeno para ser considerado mesmo um casebre. Passou vários minutos ponderando se deveria intervir, se deveria ter com os leitores antes da leitura. Se deveria esperar para retornar mais tarde para conversar só depois que a história tivesse sido lida. E se eles não gostassem da história? Talvez nem tivessem entendido as histórias desde o começo. Talvez pedissem para os pais lerem para os pôr a dormir. Talvez, ao contrário, tinham de ler escondidos, escapando à vista dos pais. Que diria, ao chegar? Não sabia como se apresentar. “Olá, eu sou fulano, sou eu que escrevi essa história. Vocês gostaram?”. “Como vai? Boa noite, gostaram da história? Eu tenho mais algumas, posso trazer”. Sem tomar decisão alguma, como se os minutos o empurrassem, como nos fazem os minutos fez por outra, a nos levar de cá para lá e a dirigir-nos assim como fôssemos pontas de canetas sobre papel, deu por si frente à porta de madeira emendada. Bateu duas vezes na porta, mas a segunda pancada não chegou a acertar a madeira. Ao primeiro golpe a porta se abriu devagar, revelando um interior humilde de um cômodo pequeno.

Numa parede lateral, uma portinhola coberta por uma cortina de tecido velho apenas, provavelmente um banheiro ou um quartinho. Na parede dos fundos, um pedaço de cartaz de jogador de futebol colado à madeira um tanto furada. Na outra lateral, três tábuas horizontais encostadas à parede faziam às vezes de bancos e camas. No centro um fogãozinho improvisado com tijolos, com o braseiro aceso e água borbulhando espumante numa panela de ferro enegrecido. Ao redor dela, além dos dois garotos, uma menina bastante mais jovem, com uma boneca manca nos braços, e outra, um pouco mais velha que todos. Essa, com o fardo de folhas numa mão enquanto, com a outra, arrancava as páginas colocando-as na sopa borbulhante. Um dos garotos, com uma colher, mantinha a infusão em movimento. O outro mastigava uma pasta esbranquiçada e úmida. A pequena mandíbula cessou o movimento ao surgir do visitante. As quatro crianças se refugiaram, abraçadas, junto às camas. Olhos temerosos, corpos tremendo, um chorar baixinho e assustado da mais jovem. Do lado da panela ao fogo, uma boneca manca caída e um fardo de papel prenhe de um gozo estéril.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Tema da rodada

Vamos a um novo tema para uma nova rodada.

E dessa vez vai ser moleza.

O tema é livre! Escrevam sobre o que bem entenderem, da forma como quiserem...

... maaass, nem tudo é alegria: os textos devem ter, no mínimo, 10 mil caracteres, incluindo espaços (isso dá cerca de duas páginas e meia do Word).

O marcador padronizado fica como "10 mil caracteres".

Vamos criar!

ps: essa já era minha próxima idéia de tema bem antes de escrever o matacão da rodada anterior. ;)