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quinta-feira, 16 de julho de 2009

Cronologia, percepção e convenção: um breve ensaio sobre o tempo

Um velho conhecido costumava andar pela Grécia e vivia rodeado de pensadores. Todos demonstravam grande habilidade na oratória e raciocínio lógico deveras apurado, mas nenhum conseguiu ajudá-lo a sanar sua dúvida mais cruel. Os gregos usavam duas palavras distintas para se referir ao tempo. “Chronos”, tempo cronológico, mensurável, dos dias, anos, épocas. E o “kairos”, tempo divino, anacrônico, incomensurável, ou apenas “um momento”. Sempre entendi o tempo mais como kairos do que como chronos. Deixem-me explicar.

Há muito venho refletindo acerca do que é, de fato, o tempo. Se tempo é a duração de algo em relação a um determinado padrão estabelecido, como uma rotação “do Sol em torno da Terra”, por exemplo, estou certo de que os dias, meses e anos nada mais são do que convenções. O tempo é uma convenção? Com efeito, afirmo que não.

O tempo é algo muito além do que a visão simplista das convenções sociais. O tempo é divino. O tempo é mundano. O tempo é vivido. O tempo sou eu. Sim, sou eu. É você também. Se pensarmos que o tempo pode ser a sua percepção da duração dos fatos, o tempo nada mais é do que a resposta de seu cérebro para estímulos aos quais a ele seus sentidos apresentam. “Essa tarde está custando a passar, não?”

Será que o tempo de uma jornada de oito horas de trabalho na segunda-feira é o mesmo de uma sexta-feira? Se o tempo é uma percepção individual, será que podemos mudá-lo a nosso bel prazer? São dúvidas sensatas, meus caros. Pensem nisso. E não me venham com perguntas tolas, afinal! O que mais é o presente se não o exato momento em que o futuro vira passado? Tudo o que podemos esperar, tudo o que podemos ver, tudo o que podemos sentir é apenas um momento. O momento kairos, costumo dizer. Um único instante que resume toda a existência. Um único instante que não nos diz absolutamente nada. Isto é o tempo. Isto é a vida.

Sem mais delongas, quero cumprimentar o reitor desta nobre universidade e, em nome dele, todos os demais componentes desta mesa, assim como os acadêmicos participantes dessa jornada. Peço perdão pelo atraso e tenham todos um bom dia.

A sétima badalada

Olhou para trás. Pouco via além das duas linhas fundas sulcadas na neve que se estendiam até debaixo de suas rodas de madeira. No mais, tudo era branco. À exceção dos troncos escuros dos pinheiros que conseguiam se fazer ver através do nevoeiro.

Um bufar resmungado atraiu-lhe a atenção para ao enorme animal à sua frente, com as patas peludas enfiadas na neve e lufadas nebulosas saindo-lhe das narinas. Sacudia a crina, vez por outra, para livrar-se dos flocos que se acumulavam. Mesmo a besta já estava impaciente. Sacou da casaca grossa o relógio de bolso. Já chegava a aurora, diziam os ponteiros na linguagem muda dos relógios. O dia, ainda mais calado, não dizia nada, enterrado na neve e névoa.

Longe, um sino soou a badalada lúgubre do aguardo vão. À segunda badalada, a besta resmungou, com que adivinhando o comando para partir. Uma terceira badalada soou enquanto a neve começava a já cobrir os rastros da carroça. À quarta badalada, nada mudou. À quinta, apenas um suspiro quente em forma de nuvem despencou por baixo do bigode penteado. A sexta badalada trouxe o som de algo se quebrando. Frágil, perdido na neve, próximo e irremediavelmente distante.

Quando uma forma finalmente divisou-se tênue, entre os troncos encobertos pela neve, já não havia mais badalos, marcas na neve ou aguardo. Havia apenas o silêncio branco. E um suspiro quente em forma de nuvem pendurado no ar.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Irregular

Tudo começou com um atraso menstrual. E eu adianto, tudo nessa história tem a ver com o atraso da menstruação dela.

A gente estava bem. Bem mesmo. Eu até achei que finais felizes existiam – aquela coisa, no começo, sabe como é. A gente saia, ia ao cinema, dançava, bebia, se descobria e transava com freqüência. Bem início. Na verdade, era uma coisa meio maluca. E só então ela me disse que tinha um ciclo menstrual maluco.

Aí começou o inferno. Primeiro que a gente não transava mais. Nem se eu tentasse explicar se um espermatozóide tivesse fecundado o óvulo dela, uma foda a mais ou a menos não mudaria muita coisa. Depois que ela começou a querer ficar em casa, ou porque estava pensando em como contar para os pais dela ou e como seria o quarto do bebê. Até nomes ela já tinha.

Eu imaginava – juro que às vezes até sentia – algodões bem fofos nos meus ouvidos. E ela falava e eu não ouvia e continuava lá, pensando que essa porcaria de menstruação tinha que vir pra eu não enlouquecer logo. Eu quase morria quando pensava que ia ser pai, mas é aquilo: se não fosse e eu me desesperasse, teria perdido cabelos a toa. O caso seria negociar a pensão.

Ela começou a ficar histérica com o fato de eu não falar no assunto. Até que eu comecei a não ir mais até a casa dela para vê-la. E era pra me estressar, ficava em casa ouvindo minha mãe. Pelo menos não gastava combustível. Aí eu comecei a sair com os amigos, pra desbaratinar até que um belo dia ela me liga.

A menstruação dela veio. Atrasada, mas veio. E aí ela me ligou a disse que a gente podia voltar a ser o que a gente era antes e que aquilo tudo era só TPM. E eu disse que não queria vê-la nunca mais. Estava atrasado para ver uma gatinha, que eu já sei que tem um ciclo menstrual regular.

O atraso

Ela não era de atrasos. Nunca atrasava, para falar a verdade. Toda sua vida era como um relógio, tudo com data e hora marcada, sem atrasos, sem adiamentos, sem cancelamentos.

Mas nesse dia, percebeu que estava atrasada. Podia ser qualquer dia, menos esse. Justo no seu aniversário de um mês de namoro. Ela sabia que o namorado nunca deu muita bola para essa coisa de datas, mas ainda assim, para ela isso era muito importante. Se já fossem, sei lá, uns quatro anos de namoro, ou até depois de casados, tudo bem. Mas atrasada justo no primeiro aniversário que comemoravam juntos? Não podia ser verdade.

Pensou em ligar para sua mãe. Choraria as mágoas como sempre fazia. Não importava o motivo, grande ou pequeno, sempre que algo a preocupava ou desapontava, ela ligava para sua mãe. Mas dessa vez, ela titubeava. Sabia exatamente o que sua mãe iria dizer. Sua mãe não aprovava seu namoro, nunca gostou do rapaz. Com certeza ia colocar a culpa no namorado da filha, falando sobre más influências e falta de respeito. Ia discursar sobre como a garota havia deixado de ser aquela menina correta. Ia colocar a culpa no namorado. E o pior é que ela sabia que era verdade. Ela, que nunca foi disso, agora estava atrasada e não sabia o que fazer.

Talvez devesse ligar para o namorado. Dizer que estava atrasada e pedir desculpas. Talvez até perguntar o que devia fazer. Mas ficou com medo. Não que tivesse medo do namorado, claro que não, mas ela nunca esteve atrasada antes, então não sabia qual seria sua reação. Será que ficaria nervoso? Poderia, quem sabe, brigar com ela e terminar o namoro? Será que iria xingar? Talvez até bater? Não, não, ele não era disso, tinha certeza. Mas como nunca tinha atrasado antes, não tinha ideia de qual seria sua reação, não sabia o que esperar.

Resolveu, então, respirar fundo e acabar com tantas dúvidas. Mesmo com medo, sabia que adiar ainda mais os problemas não iria resolver nada. Quem sabe seus medos eram bobos, e ela nem tinha com o que se preocupar? Quem sabe era um atraso normal, sem maiores complicações? Fez um rápido sinal da cruz, em silêncio, e entrou na farmácia. Com o pacote do exame de gravidez na mão, sabia que descobriria, de uma vez por todas, se era apenas um atraso, ou se devia se preocupar.

terça-feira, 14 de julho de 2009

O demônio e o Pensador

- Tu estás atrasado.

- Eu sei. Na verdade, eu não deveria estar aqui.

- Para onde pretendias rumar?

- Para lugar algum.

- Caminhando sem destino?

- Nem caminhando eu pretendia estar.

- Mas teu caminho te trouxe até aqui.

- E aqui estou.

- Atrasado.

- Se soubesse, talvez não tivesse vindo.

- Virias, em alguma hora. E tal hora já deveria ter chegado há tempos.

- Concordo.

- E por que então te atrasastes?

- Sempre havia algo a me segurar.

- Motivos para vir tinhas aos montes. Motivos que estavam além dos simples e normais.

- Estar além dos simples e mortais era um motivo por si.

- Não mintas. Estar além te dava forças.

- Mas era a raiz das minhas fraquezas.

- Justificavas fraquezas com aléns. Tuas fraquezas não eram simples e normais?

- Talvez, algumas. Se eu fosse todo aléns, não teria vindo.

- Isto é certo. O que te segurava, então?

- Nunca a vida foi mais que o Inferno.

- Se teu diálogo com o fim fosse tão além quanto acreditavas, não te atrasarias por tal insignificância. Farias de qualquer insignificância um Inferno e tomarias o teu rumo.

- Eu e o fim tínhamos um pacto firmado. Achar que o fim era o Fim era o alento.

- Então a possibilidade de acabar era tua força para continuar?

- Paradoxal, mas havia a simplicidade e normalidade.

- A hipocrisia.

- E havia a prática e o medo. A dor, o método e a incerteza.

- Medo de falhar na solução para todas as falhas.

- E de sofrer. Na alma e no corpo. Medos que me atrasaram muito.

- Justificas atraso com covardia e hipocrisia.

- Foi o que me manteve lá.

- É simples e normal considerar lá melhor, mas tal crença não transforma falhas em virtudes. O que te fez vir, afinal?

- Eu falhei em tudo.

- Poderias ter pedido ajuda.

- Não o teria feito.

- Crês que não te ajudariam?

- Talvez alguém estendesse a mão. Mas não poderia ser qualquer um.

- Havia alguém especial?

- Havia alguéns especiais. Mas eu não poderia ser especial por piedade.

- Preferistes vir intacto a mostrar tua fraqueza.

- Não suplicaria. É melhor encontrar o Fim idôneo do que seguir lá em vergonha.

- O orgulho mata. E foi maior que teu limite.

- Chegou um momento em que já era demais. E o Inferno se tornou desejável.

- Mas por ele não esperavas.

- Não, e me pergunto o que aqui faço.

- Estás morto.

- Então não é a morte o Fim?

- É. Mas deliras.

- Se estou morto, não deliro. Não tenho mente para iludir.

- Mas escreves. E as palavras do escritor nada são apenas para ele.

- É preciso um público.

- E é um público que procuras no Fim?

- O Fim deveria ser o adeus a todo público. Mas, mesmo em morte, sonho.

- A vida é um sonho, diria o Poeta.

- Mas eu não sou o Poeta.

- Não. És o Pensador. E a beleza do verbo sem sentido não te satisfaz.

- E tu? És o Demônio, ou meu demônio?

- Sou teu demônio e teu confronto. Tua dor, teu desespero. A mão que não afaga tuas virtudes, mas pune teus pecados. Teu espelho monolítico de argumento e arbítrio. Sou tua Gárgula da Incerteza.

- E aqui me desafias, na Suprema Hipocrisia.

- E perdes teu tempo em virar a volta e refazer teus passos.

- Retorno, agora?

- Nunca partistes. Segues abraçado à covardia e hipocrisia. Elas te aguardam no sonho do Poeta, pois ainda não estás pronto para o Inferno do Pensador.

- Há um Fim, então.

- Não há descoberta sem tentativa. Vá, e não te demores mais. Tu estás atrasado.

domingo, 12 de julho de 2009

Tema da Rodada

O tema desta rodada é "Atraso".

Postar até 16/07.