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sexta-feira, 27 de março de 2009
Caídos
Uno levantou-se e caminhou com seus passos pesado até o meio do salão. As vestimentas brancas e azuis reluziam no ambiente claro. Olhou em volta e viu que todos estavam ali, esperando suas ordens.
- Iremos intervir.
Sua voz grave, emudecida na maior parte do tempo fez tremer o chão do templo, e criou feições de medo e preocupação no rosto de cada um de seus seguidores. O Uno uniu as mãos esticadas à sua frente e voltou a afastá-las, deixando com que um pó brilhante caísse por entre os dedos e tomasse o chão. Nos brilhos faiscantes que emitiam, viam-se diversas estrelas, e logo elas uniram-se formando o que parecia ser um mapa.
O Uno olhou para o mensageiro, que logo começou a explicar o plano. As frentes organizadas estavam ocupando um território amplo, tanto em terras quanto em poder. Estavam causando danos umas às outras, mas muito além disso, estavam perdendo o controle e atingindo todos ao seu redor.
O anjos se prepararam todos, desde o portador das curas até o das bênçãos. Mas Uno surpreendeu ao chamar dois dos renegados: Penélopos e Ramiriel.
Penélopos há muito vivia trancafiado nos cantos escondidos do palácio celestial. Ele, o Anjo da Discórdia era renegado por todos os outros. Foi convocado para se infiltrar nas organizações armadas que traziam tanto dano aos que as cercam. Depois de suas ações, outro anjo considerado de classe inferior foi chamado por Uno.
Ramiriel nunca conseguiu se enturmar com os outros, que sempre o deixavam de lado. O Anjo do Desapego raramente fazia trabalhos por ordem de Uno. Mas dessa vez foi chamado a intervir, e atuar lado a lado com Penélopos.
E assim, os dois anjos esquecidos deram sua contribuição novamente ao exército celestial. Penélopos foi indispensável para desmontar as estruturas organizacionais dos grupos em combate, com intrigas, traições e golpes inesperados. Ramiriel, por sua vez, atuou logo em seguida, apagando o fanatismo cego de ambos os lados do conflito.
Nas batalhas deste mundo, não há apenas mocinhos e vilões. Muitas vezes os heróis são os que sempre foram considerados os errados. E quem era chamado de mocinho, apenas é mais uma parte da engrenagem bélica.
- Iremos intervir.
Sua voz grave, emudecida na maior parte do tempo fez tremer o chão do templo, e criou feições de medo e preocupação no rosto de cada um de seus seguidores. O Uno uniu as mãos esticadas à sua frente e voltou a afastá-las, deixando com que um pó brilhante caísse por entre os dedos e tomasse o chão. Nos brilhos faiscantes que emitiam, viam-se diversas estrelas, e logo elas uniram-se formando o que parecia ser um mapa.
O Uno olhou para o mensageiro, que logo começou a explicar o plano. As frentes organizadas estavam ocupando um território amplo, tanto em terras quanto em poder. Estavam causando danos umas às outras, mas muito além disso, estavam perdendo o controle e atingindo todos ao seu redor.
O anjos se prepararam todos, desde o portador das curas até o das bênçãos. Mas Uno surpreendeu ao chamar dois dos renegados: Penélopos e Ramiriel.
Penélopos há muito vivia trancafiado nos cantos escondidos do palácio celestial. Ele, o Anjo da Discórdia era renegado por todos os outros. Foi convocado para se infiltrar nas organizações armadas que traziam tanto dano aos que as cercam. Depois de suas ações, outro anjo considerado de classe inferior foi chamado por Uno.
Ramiriel nunca conseguiu se enturmar com os outros, que sempre o deixavam de lado. O Anjo do Desapego raramente fazia trabalhos por ordem de Uno. Mas dessa vez foi chamado a intervir, e atuar lado a lado com Penélopos.
E assim, os dois anjos esquecidos deram sua contribuição novamente ao exército celestial. Penélopos foi indispensável para desmontar as estruturas organizacionais dos grupos em combate, com intrigas, traições e golpes inesperados. Ramiriel, por sua vez, atuou logo em seguida, apagando o fanatismo cego de ambos os lados do conflito.
Nas batalhas deste mundo, não há apenas mocinhos e vilões. Muitas vezes os heróis são os que sempre foram considerados os errados. E quem era chamado de mocinho, apenas é mais uma parte da engrenagem bélica.
quinta-feira, 26 de março de 2009
Em vão
- Por Deus, não faça isso!
- Ele precisa descansar.
- Tenha piedade, eu suplico.
- É justamente por isso que devo matá-lo.
- Não podes. A vida a Deus pertence.
- Ha ha ha. A minha não. Há tempos rompi meus grilhões. A deste aqui... deixe-me ver... creio que não pertença também. Pois bem, é o que veremos na hora que eu apertar o gatilho.
- Por que fazes isso? Não vês que estás no caminho do inferno?
- Qual parte do “Bem-vinda ao inferno” você não entendeu quando nasceu?
- Ó, pobre alma. Deus, perdoa-o. Ele não sabe o que faz e fala.
Ouve-se um clique. É o som da trava sendo puxada.
- Quero ver esse desgraçado estuprar alguém de novo.
Um corpo cai no ribeirão, levando consigo uma grande barra de ferro. Imerge, lentamente, enquanto ela reza entre lágrimas e um silêncio devastador.
- Ele precisa descansar.
- Tenha piedade, eu suplico.
- É justamente por isso que devo matá-lo.
- Não podes. A vida a Deus pertence.
- Ha ha ha. A minha não. Há tempos rompi meus grilhões. A deste aqui... deixe-me ver... creio que não pertença também. Pois bem, é o que veremos na hora que eu apertar o gatilho.
- Por que fazes isso? Não vês que estás no caminho do inferno?
- Qual parte do “Bem-vinda ao inferno” você não entendeu quando nasceu?
- Ó, pobre alma. Deus, perdoa-o. Ele não sabe o que faz e fala.
Ouve-se um clique. É o som da trava sendo puxada.
- Quero ver esse desgraçado estuprar alguém de novo.
Um corpo cai no ribeirão, levando consigo uma grande barra de ferro. Imerge, lentamente, enquanto ela reza entre lágrimas e um silêncio devastador.
A Ilusão
- Sabe, às vezes eu fico pensando se poderia ter sido diferente...
- Todos os tolos pensam nisso. É o refúgio dos fracos.
“Lá vamos nós de novo...”
- Você acha tão ruim assim refletir sobre o que passou, quem sabe como forma de aprendizado para situações futuras?
- Quando não haverá situações futuras, sim. Há coisas que não podem ser modificadas. Quando você descobre pela primeira vez que seus pais trepam, não consegue voltar a acreditar na cegonha.
- Isso é verdade.
Caminhei pela velha catedral abandonada, observando suas minúcias empoeiradas. Era perceptível que ela nunca fora lapidada como deveria. Havia remendos provisórios por toda parte, que nunca se tornaram permanentes. Uma pretensiosa obra abortada em seu início.
- Não é de se admirar que tantas pessoas se neguem a abrir os olhos. Deve ser reconfortante sentir algum sentido maior em sua vida.
- Além de sobreviver e reproduzir? Sim, não é de se admirar que existam tantos idiotas no mundo.
- Você fala deles como se escolhessem voluntariamente a Ilusão. Muitas vezes é apenas uma questão de ignorância.
- Correto. E os ignorantes são idiotas.
Eu sorri. Era um dos raros momentos em que não estávamos em franco conflito, mas mesmo assim era impossível falarmos a mesma língua. Decidi experimentar uma abordagem mais incisiva.
- Mais idiotas me parecem aqueles que se conformam em ver um universo complexo de modo simplista.
- Olhe quem fala. Não tente entrar num duelo de ironia, você não terá chance comigo.
- Eu sei.
Parei diante do altar, vendo o corpo ensangüentado pregado à cruz. Redenção pela dor, alegria e tristeza em uma morte só. Não era só em desertos mortos e igrejas velhas que a Contradição praticava seu jogo sujo.
- Mas não é difícil ver que essas situações possuem muito mais variáveis do que aparentam.
- Sim, sim. Foi a educação familiar, foi a falta de conhecimento, foi uma necessidade por um objetivo cretino em um universo obtuso, etc., etc. Há uma imensidão de desculpas esfarrapadas para justificar a preguiça em pensar.
- Não posso discordar inteiramente. É fácil encontrar nas próprias Escrituras falhas internas que justifiquem a dúvida.
Ele tocou a cruz, que se desintegrou a pó, juntamente com o corpo.
- Por favor, não vamos reduzir a questão a um segmento medíocre de um problema maior. Já passamos dessa fase.
- Mostre-me o problema, então.
- Há!
As paredes da velha catedral se afastaram em uma velocidade alucinante. De repente, as suas abóbadas rivalizavam com o céu. Por todos os lados, ergueram-se símbolos e altares, exibindo desde símbolos abstratos a monstruosidades deformadas. O Cristo morto retornou, ladeado pelo hexagrama e pelo crescente. Aos seus pés, o pequeno Baphomet de cinco pontas estendia seus chifres. Ganesha, Shiva e Visnu apareciam liderando um panteão de enormes proporções. A eles se misturavam deuses desconhecidos, divindades sem nome e titãs de eras passadas. De Zeus a Marte, de Júpiter a Ares, as sedutoras Afrodite, Juno e Astarte lado a lado. Nenhuma mente poderia apreender, mesmo em uma longa observação, toda aquela diversidade de Senhores e Senhoras, sombras esquecidas ou luzes acesas nos corredores do tempo.
E então todas desapareceram em um piscar de olhos. A velha catedral voltou à sua pequenez opressiva, vazia em seu interior. No centro, uma solitária estátua humana, desprovida de qualquer característica chamativa, um altar insosso que a nenhum grande líder inspiraria.
- E este é o rosto do problema.
- O humano?
- O humano. Que outra criatura teria o poder de pensar tanto a ponto de se esquecer da vida real?
- O real varia para cada humano.
- Não me venha com essa, sei que nem você acredita nisso. O real é apenas um, a percepção do real é que varia.
- Não acaba se tornando a mesma coisa, se ninguém jamais terá como se despir de suas percepções particulares?
- Claro que não! Esse é outro refúgio de imbecilidade, achar que sua percepção particular tem alguma relevância para o universo real. Achar que tudo depende de sua própria mente é um meio preguiçoso de se esconder das coisas como elas são. O que nos leva a uma das raízes do problema...
- Fé?
- Ou, como eu prefiro dizer, o ato mentecapto de acreditar nas coisas sem se perguntar o porquê.
- Muitos dirão que a fé traz muitos benefícios para a manutenção da sanidade humana.
- Muitos já disseram que a terra era achatada. Qualquer forma de vida possui mecanismos intrínsecos que zelam pela sua continuidade. As pessoas continuarão sobrevivendo e reproduzindo, quer falem com as paredes ou não. Nada justifica a Ilusão, a não ser a ignorância.
- E os ignorantes são idiotas.
Ele sorriu.
- Vejam só, o papagaio aprendeu a repetir.
Alguma coisa nas suas últimas falas fez ressoar algum acorde no fundo da minha mente. Nada relacionado ao seu último sarcasmo. Mas uma idéia começava a tomar forma. No humano jaziam todas as contradições. Os outros seres, com ou sem mente, seguiam seus rumos de um modo relativamente linear. Pode-se dizer que havia um sentido muito claro e definido em sua vida. Por que não com o humano? Por que a busca pelo que não se pode obter? Quanto mais simples a mente, mais previsível a ação. Quanto mais derivada, mais caótico o comportamento. Onde jazia o cerne da contradição?
Ele, é claro, tomava meu silêncio prolongado como o fim de mais um embate. Se dirigiu para a saída da catedral, onde o portal se abria para a desolação.
- E se... – comecei a falar.
Ele parou.
- E se a fé for um destes... mecanismos intrínsecos de sobrevivência?.. A evolução deu aos humanos seus cérebros enormes e sua capacidade de abstração, abrindo-lhes os olhos para o mundo da imaginação...
- E eles começaram a imaginar toda sorte de tolices. Os desenhos animados japoneses são a prova disso.
- Esse é o ponto... Eles começaram a imaginar toda sorte de tolices e a procurar significados onde estes não existem. Começaram a caçar fantasmas, uma maldição originada de sua própria bênção.
- Vejam só, ele está aprendendo. Eu poderia ter dito essa frase.
- Porém, para conciliar as vantagens da abstração com seus pesares, desenvolveu-se um mecanismo que permita aos humanos lidar com sua abstração, mesmo quando eles prezam por utilizar um outro mecanismo mais adequado, a racionalidade para entender o mundo. Isso faz com que a fé seja uma necessidade humana, mesmo que desprovida de sentido lógico.
- Então a fé é um produto evolutivo que existe para que os miseráveis humanos não pirem todos diante da loucura de universo sem sentido?
- Bem, em outros termos... sim.
Ele parou por um instante. Senti uma pequena ponta de insegurança no modo como ele me olhava.
Mas logo respondeu com sua costumeira expressão de desprezo.
- Ora, que gênio! Acabou de descobrir que a hipocrisia é um atributo evolutivo do humano. Agora crie um grupo de bebês em laboratório para testar sua teoria. Tudo é possível neste mundo, mas só algumas coisas acontecem. Se essa é sua grande idéia, até mais ver.
Ele saiu sem mais palavras. Aquilo só podia significar uma coisa: eu tinha obtido algum tipo de triunfo. Não era uma grande idéia, nem fazia muito sentido, é verdade. Mas eu o havia feito pensar. Não era todo dia que um embate terminava daquele modo. Quem sabe um dia os conflitos poderiam terminar... será?
Fiquei mais um tempo na catedral, observando aquela ruína de tempos passados, lembrando de uma breve e distante época em que ela era revestida de significado. Será que houvera tal período, ou os primeiros tijolos já haviam sido lançados sob um manto de descrença? Bem, como ele havia dito, tudo é possível... Sem mais o que ver ou pensar ali dentro, atravessei o portal e segui seus passos em direção ao deserto morto.
- Todos os tolos pensam nisso. É o refúgio dos fracos.
“Lá vamos nós de novo...”
- Você acha tão ruim assim refletir sobre o que passou, quem sabe como forma de aprendizado para situações futuras?
- Quando não haverá situações futuras, sim. Há coisas que não podem ser modificadas. Quando você descobre pela primeira vez que seus pais trepam, não consegue voltar a acreditar na cegonha.
- Isso é verdade.
Caminhei pela velha catedral abandonada, observando suas minúcias empoeiradas. Era perceptível que ela nunca fora lapidada como deveria. Havia remendos provisórios por toda parte, que nunca se tornaram permanentes. Uma pretensiosa obra abortada em seu início.
- Não é de se admirar que tantas pessoas se neguem a abrir os olhos. Deve ser reconfortante sentir algum sentido maior em sua vida.
- Além de sobreviver e reproduzir? Sim, não é de se admirar que existam tantos idiotas no mundo.
- Você fala deles como se escolhessem voluntariamente a Ilusão. Muitas vezes é apenas uma questão de ignorância.
- Correto. E os ignorantes são idiotas.
Eu sorri. Era um dos raros momentos em que não estávamos em franco conflito, mas mesmo assim era impossível falarmos a mesma língua. Decidi experimentar uma abordagem mais incisiva.
- Mais idiotas me parecem aqueles que se conformam em ver um universo complexo de modo simplista.
- Olhe quem fala. Não tente entrar num duelo de ironia, você não terá chance comigo.
- Eu sei.
Parei diante do altar, vendo o corpo ensangüentado pregado à cruz. Redenção pela dor, alegria e tristeza em uma morte só. Não era só em desertos mortos e igrejas velhas que a Contradição praticava seu jogo sujo.
- Mas não é difícil ver que essas situações possuem muito mais variáveis do que aparentam.
- Sim, sim. Foi a educação familiar, foi a falta de conhecimento, foi uma necessidade por um objetivo cretino em um universo obtuso, etc., etc. Há uma imensidão de desculpas esfarrapadas para justificar a preguiça em pensar.
- Não posso discordar inteiramente. É fácil encontrar nas próprias Escrituras falhas internas que justifiquem a dúvida.
Ele tocou a cruz, que se desintegrou a pó, juntamente com o corpo.
- Por favor, não vamos reduzir a questão a um segmento medíocre de um problema maior. Já passamos dessa fase.
- Mostre-me o problema, então.
- Há!
As paredes da velha catedral se afastaram em uma velocidade alucinante. De repente, as suas abóbadas rivalizavam com o céu. Por todos os lados, ergueram-se símbolos e altares, exibindo desde símbolos abstratos a monstruosidades deformadas. O Cristo morto retornou, ladeado pelo hexagrama e pelo crescente. Aos seus pés, o pequeno Baphomet de cinco pontas estendia seus chifres. Ganesha, Shiva e Visnu apareciam liderando um panteão de enormes proporções. A eles se misturavam deuses desconhecidos, divindades sem nome e titãs de eras passadas. De Zeus a Marte, de Júpiter a Ares, as sedutoras Afrodite, Juno e Astarte lado a lado. Nenhuma mente poderia apreender, mesmo em uma longa observação, toda aquela diversidade de Senhores e Senhoras, sombras esquecidas ou luzes acesas nos corredores do tempo.
E então todas desapareceram em um piscar de olhos. A velha catedral voltou à sua pequenez opressiva, vazia em seu interior. No centro, uma solitária estátua humana, desprovida de qualquer característica chamativa, um altar insosso que a nenhum grande líder inspiraria.
- E este é o rosto do problema.
- O humano?
- O humano. Que outra criatura teria o poder de pensar tanto a ponto de se esquecer da vida real?
- O real varia para cada humano.
- Não me venha com essa, sei que nem você acredita nisso. O real é apenas um, a percepção do real é que varia.
- Não acaba se tornando a mesma coisa, se ninguém jamais terá como se despir de suas percepções particulares?
- Claro que não! Esse é outro refúgio de imbecilidade, achar que sua percepção particular tem alguma relevância para o universo real. Achar que tudo depende de sua própria mente é um meio preguiçoso de se esconder das coisas como elas são. O que nos leva a uma das raízes do problema...
- Fé?
- Ou, como eu prefiro dizer, o ato mentecapto de acreditar nas coisas sem se perguntar o porquê.
- Muitos dirão que a fé traz muitos benefícios para a manutenção da sanidade humana.
- Muitos já disseram que a terra era achatada. Qualquer forma de vida possui mecanismos intrínsecos que zelam pela sua continuidade. As pessoas continuarão sobrevivendo e reproduzindo, quer falem com as paredes ou não. Nada justifica a Ilusão, a não ser a ignorância.
- E os ignorantes são idiotas.
Ele sorriu.
- Vejam só, o papagaio aprendeu a repetir.
Alguma coisa nas suas últimas falas fez ressoar algum acorde no fundo da minha mente. Nada relacionado ao seu último sarcasmo. Mas uma idéia começava a tomar forma. No humano jaziam todas as contradições. Os outros seres, com ou sem mente, seguiam seus rumos de um modo relativamente linear. Pode-se dizer que havia um sentido muito claro e definido em sua vida. Por que não com o humano? Por que a busca pelo que não se pode obter? Quanto mais simples a mente, mais previsível a ação. Quanto mais derivada, mais caótico o comportamento. Onde jazia o cerne da contradição?
Ele, é claro, tomava meu silêncio prolongado como o fim de mais um embate. Se dirigiu para a saída da catedral, onde o portal se abria para a desolação.
- E se... – comecei a falar.
Ele parou.
- E se a fé for um destes... mecanismos intrínsecos de sobrevivência?.. A evolução deu aos humanos seus cérebros enormes e sua capacidade de abstração, abrindo-lhes os olhos para o mundo da imaginação...
- E eles começaram a imaginar toda sorte de tolices. Os desenhos animados japoneses são a prova disso.
- Esse é o ponto... Eles começaram a imaginar toda sorte de tolices e a procurar significados onde estes não existem. Começaram a caçar fantasmas, uma maldição originada de sua própria bênção.
- Vejam só, ele está aprendendo. Eu poderia ter dito essa frase.
- Porém, para conciliar as vantagens da abstração com seus pesares, desenvolveu-se um mecanismo que permita aos humanos lidar com sua abstração, mesmo quando eles prezam por utilizar um outro mecanismo mais adequado, a racionalidade para entender o mundo. Isso faz com que a fé seja uma necessidade humana, mesmo que desprovida de sentido lógico.
- Então a fé é um produto evolutivo que existe para que os miseráveis humanos não pirem todos diante da loucura de universo sem sentido?
- Bem, em outros termos... sim.
Ele parou por um instante. Senti uma pequena ponta de insegurança no modo como ele me olhava.
Mas logo respondeu com sua costumeira expressão de desprezo.
- Ora, que gênio! Acabou de descobrir que a hipocrisia é um atributo evolutivo do humano. Agora crie um grupo de bebês em laboratório para testar sua teoria. Tudo é possível neste mundo, mas só algumas coisas acontecem. Se essa é sua grande idéia, até mais ver.
Ele saiu sem mais palavras. Aquilo só podia significar uma coisa: eu tinha obtido algum tipo de triunfo. Não era uma grande idéia, nem fazia muito sentido, é verdade. Mas eu o havia feito pensar. Não era todo dia que um embate terminava daquele modo. Quem sabe um dia os conflitos poderiam terminar... será?
Fiquei mais um tempo na catedral, observando aquela ruína de tempos passados, lembrando de uma breve e distante época em que ela era revestida de significado. Será que houvera tal período, ou os primeiros tijolos já haviam sido lançados sob um manto de descrença? Bem, como ele havia dito, tudo é possível... Sem mais o que ver ou pensar ali dentro, atravessei o portal e segui seus passos em direção ao deserto morto.
Querido Deus,
Não sei se você vai ler essa carta. Não sei nem se o Papai Noel leu todas as eu que escrevi nos últimos anos. Só escrevo porque minha mãe sempre diz que a gente pode fazer pedidos pra ele e pro Senhor. Sempre funcionou com ele, deve dar certo com o Senhor também.
Vou ser bem sincero: tenho dois pedidos. Não é que eu esteja querendo demais, não, Deus – posso chamar o Senhor assim?. Minha mãe disse que somos amigos. É que um dos pedidos não é pra mim.
Esta noite, como em quase todas desde que eu me recorde, ouço minha mãe e meu pai gritando no quarto ao lado. Na verdade só ele grita. Bem, vou explicar. Ele se tranca no quarto com ela e com minha irmã. Ele grita, minha mãe chora e pede pra que ele não faça isso. Aí ele se cala, eu só ouço minha mãe gritando. Minha irmã também fala alto de vez em quando. Se não me engano, já até ouvi ela falando alguma coisa sobre dor. Meu pai fala bem alto, todos os dias, sobre “aprender como é que se faz”. Aí ele sai em disparada pelo corredor, me lança um olhar fulminante que eu nunca entendi se era de orgulho ou repúdio e sai.
Sabe Deus, a pior parte vem agora. Minha mãe sai do quarto com os olhos inchados e geralmente com algumas marcas vermelhas, às vezes até rochas. Aí ela me abraça e diz que me ama e que é pra eu esquecer. Eu não consigo, sabe. Tenho vergonha de dizer isso pra ela. Sei que ela não me perdoaria por não esquecer. Muito menos se ela soubesse que todas as noites eu vou até o quarto onde minha irmã dorme e tento fazer ela me falar o que acontece. E eu nunca tive resposta.
O que eu queria, Deus, era saber o que acontece lá dentro. Se não conseguir saber, que eu esteja lá um dia. Só pra saber, pra ver. Saber e poder mudar o choro da minha mãe e o silêncio da minha irmã. Ou, se o Senhor for tão bom quanto sempre dizem – veja, não estou duvidando nem desafiando sua santíssima bondade, é só porque não o conheço – que faça isso parar. Eu fico numa boa sem saber o que acontece, desde que isso pare.
O segundo pedido é uma vaga na escola do meu bairro. É bem ruim ter que andar uma hora pra chegar lá. Mas isso, não tem problema, eu posso continuar fazendo.
Espero que o Senhor me atenda, ou pelo menos me responda a essa carta. Vou rezar um terço a mais hoje, pra ver se essa carta chega rápido.
Jackson
Resposta a Tomas
José procurou os olhos da esposa. Do sofá da sala, pôde ver a cabeça de Graça aparecer por trás do armário da cozinha, olhos atentos, procurando os do marido. O filho, ainda calado, aguardava uma resposta.
— Então, pai, é verdade? Ele existe ou não?
Tomas percebeu a gravidade da pergunta quando a mãe se aproximou e sentou-se ao lado do pai. A última vez que tinha visto foi quando Aslan tinha ido pro céu dos hamsters. A essa altura, já se preocupava com o beta no aquário. Será que deus também lembrou de um céu para os peixes?
— Olha, filho — o pai começou enquanto a mãe o sentou entre os dois, no sofá — o que você acha?
— Eu não sei — por que os pais sempre respondem uma pergunta com outra? — eu acho que sim, mas o Pedro disse que não. Que os pais só contam isso pra gente se comportar ou ficar feliz.
— Bem, filho — a mãe começou, trocando um olhar com o pai — de um jeito, o Pedro até tem razão...
— Mas como tem razão? Papai Noel não existe mesmo?
— Na verdade não, Tomas. — o pai reforçou.
— Mas quando eu me comportei e pedi uma bicicleta ele me deu...
— Pois é, filhinho — a mãe retomou — a bicicleta foi a mamãe e o papai que compraram e deixaram embaixo da árvore. Um presente porque a gente ama muito você.
— Então tudo que eu pedi pro Papai Noel...
— Olha, Tomas — o pai interveio novamente — você já tá ficando grandinho e acho que já pode entender. Papai Noel é tipo um faz-de-conta, uma história bonita pra quando a gente é criança. Na verdade ele não existe mas é uma fantasia bonita pra gente acreditar, entendeu?
— Mas... se não tem Papai Noel, como é que tem Natal?
— Não, não é isso, Tomas. E Natal, na verdade, não tem nada a ver com Papai Noel. Natal é o nascimento do filho de Deus.
— Falando nisso, querida, é bom a gente ir andando se não quiser se atrasar pra missa.
— Ah, não! Eu não quero ir pra missa de novo!
— Vamos, Tomas. Se comporta que papai do céu tá vendo.
— Então, pai, é verdade? Ele existe ou não?
Tomas percebeu a gravidade da pergunta quando a mãe se aproximou e sentou-se ao lado do pai. A última vez que tinha visto foi quando Aslan tinha ido pro céu dos hamsters. A essa altura, já se preocupava com o beta no aquário. Será que deus também lembrou de um céu para os peixes?
— Olha, filho — o pai começou enquanto a mãe o sentou entre os dois, no sofá — o que você acha?
— Eu não sei — por que os pais sempre respondem uma pergunta com outra? — eu acho que sim, mas o Pedro disse que não. Que os pais só contam isso pra gente se comportar ou ficar feliz.
— Bem, filho — a mãe começou, trocando um olhar com o pai — de um jeito, o Pedro até tem razão...
— Mas como tem razão? Papai Noel não existe mesmo?
— Na verdade não, Tomas. — o pai reforçou.
— Mas quando eu me comportei e pedi uma bicicleta ele me deu...
— Pois é, filhinho — a mãe retomou — a bicicleta foi a mamãe e o papai que compraram e deixaram embaixo da árvore. Um presente porque a gente ama muito você.
— Então tudo que eu pedi pro Papai Noel...
— Olha, Tomas — o pai interveio novamente — você já tá ficando grandinho e acho que já pode entender. Papai Noel é tipo um faz-de-conta, uma história bonita pra quando a gente é criança. Na verdade ele não existe mas é uma fantasia bonita pra gente acreditar, entendeu?
— Mas... se não tem Papai Noel, como é que tem Natal?
— Não, não é isso, Tomas. E Natal, na verdade, não tem nada a ver com Papai Noel. Natal é o nascimento do filho de Deus.
— Falando nisso, querida, é bom a gente ir andando se não quiser se atrasar pra missa.
— Ah, não! Eu não quero ir pra missa de novo!
— Vamos, Tomas. Se comporta que papai do céu tá vendo.
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