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domingo, 27 de julho de 2008

Votação: Paranormalidade

Está aberta então, a votação desta rodada do Duelo de Escritores.

Todos os leitores têm até o dia 30 de julho (quarta-feira) para votar em um dos 4 participantes.

Boa sorte!

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Para completar a maldição da 27ª rodada (tá certo, isso?), Thiago Floriano manda sms dizendo que por problemas pessoais que serão explicados depois, não poderá participar dessa rodada.

Uma sombra na neblina

(Félix B. Rosumek está em Florianópolis e completamente comunicável, mas sua capacidade de lembrar das coisas é equiparável à de um repolho. Portanto ele posta, com algumas horas de atraso, um dos primeiros contos que escreveu, vagamente relacionado à temática. Perdão, pessoal!)

20/11/02

Lembro-me bem de cada detalhe daquele dia, desde o momento em que acordei. Era uma bela manhã de primavera, o céu estava limpo, pássaros cantavam e uma leve brisa movia as árvores. Nada, nenhum presságio ou circunstância, poderia dizer que seria aquele o dia em que minha vida terrena perderia total e completamente o sentido e a alegria. Mas eu deveria ter me preparado: desde quando eu e Samantha nos isolamos naquelas distantes terras selvagens, sabíamos que nosso onírico mundo perfeito iria desabar com o tempo. Era impossível escapar daqueles opressores implacáveis que aniquilavam todos seus opositores, no frenesi louco do fanatismo religioso, classificando todas as outras fés de heréticas ou pagãs. A religião jamais deveria ser separada da tolerância, jamais se confundir fé com fanatismo...

Samantha... Meu coração ainda se aperta quando lembro de sua imagem ou murmuro seu nome. Ela era minha luz, minha obsessão, minha vida, uma radiante súcubo apenas para meus olhos. Uma encarnação física impecável, alma encantadora, a mais sublime das criaturas que já passaram por esse mundo. Eva, Afrodite, Lilith, Ishtar, Astoreth, Astarte, nenhuma poderia se igualar a ela, mais bela e sedutora que qualquer deusa do amor. Unidos pela fé e pela paixão, fugimos de tudo e todos, buscando um lugar onde pudéssemos viver livres, só nós dois, seguindo nossas crenças e nossos desejos.

Maldito aquele dia quando eu estava fora, caçando nosso sustento e nossas oferendas ao Pai! Como poderia saber, quando saí em meio à alvorada, que aquela seria a última vez em que a veria viva? Aqueles malditos fanáticos vieram, através de boatos dos povoados mais próximos, talvez também das confissões de irmãos de fé sob implacável tortura. Era entardecer, e eu voltava para a cabana com uma gorda caça, mas de longe vi uma espessa nuvem de fumaça negra se levantando de onde deveria estar a cabana. Imediatamente meu coração ficou sabendo da verdade, embora a mente ainda exigisse uma confirmação visual para acreditar. Larguei a presa e corri, corri com a velocidade de Asmodeu, empunhando a lança, o ódio borrando minha visão, misturado ao desespero e a um ilusório pingo de esperança. Quando cheguei à clareira, vi cinco anos de felicidade absoluta e paz reduzidos a um monte de escombros negros, ainda fumegantes.

Alguém mais fraco teria caído de joelhos e perdido um precioso tempo entre torpor e lamentação. Mas não dei qualquer tempo que fosse para a hesitação me dominar. O infernal fogo da fúria subia pela minha garganta, mas eu tinha que correr. Sabia que os desgraçados que haviam queimado minha casa e levado minha deusa já deveriam estar longe. As chances de encontrar Samantha viva diminuíam a cada segundo que se passava, pois eu conhecia os métodos que a Inquisição usava. Nada de julgamentos honestos ou pedidos de redenção benevolentes como eles faziam o povo acreditar. Eles iriam torturá-la imediatamente assim que a colocassem diante do inquisidor chefe designado para aquela missão. Mas por mais medíocre que fosse a chance de eu ver seus olhos cristalinos ao menos mais uma vez, eu iria agarrá-la com toda vontade que ainda me sobrava. E foi o que fiz. Com minha habilidade de caça não demorei a encontrar o rastro da carroça dos cristãos. Meu cavalo fora roubado, então o que fiz foi insano, mas já naquela hora meu equilíbrio estava abalado: apenas dirigi uma prece a Lúcifer, pedindo forças às minhas pernas, e corri com a lança e o arco nas costas.

Não me puno por ter tentado aquilo, mesmo vendo agora que não teria qualquer possibilidade de chegar à cidade em menos de dois dias. Meu cérebro era uma casca vazia que apenas comandava os pés para que avançassem, avançassem... Quando o fôlego para a corrida acabou, prossegui caminhando em ritmo acelerado. Não havia sequer pensamentos de fadiga tentando me dominar, a mente ignorava a agonia do corpo. Eu apenas dava um passo após o outro, depois mais um, e mais um... O sol morreu naquela tarde e, por duas vezes, ainda se levantou assistindo minha caminhada incansável. Foi a luz da lua que me banhou, sujo e cambaleante, quando entrei no perímetro urbano, onde os campos abertos e pastagens dos feudos davam lugar a um aglomerado imundo de choupanas e casas. O débil instinto de preservação própria que ainda me sobrava levando-me pelas sombras e vielas mais desertas para não ser confundido com marginal. E, mesmo ali, alguém poderia me reconhecer como herege.

Pois foi quando atravessei uma grande rua que passei na frente de uma taberna. Já era quase madrugada e os últimos bêbados eram expulsos dos bares. Do casarão saíram quatro homens aos risos e tropeços, vestindo as roupas dos inquisidores e falando alto.

- Ótimo final para um trabalho rentável, não? - disse um.

Risos altos. Uivos selvagens.

Aquele que no primeiro se apoiava respondeu, com a voz embargada:

- A bruxa de cabelos vermelhos já deve estar tendo uma boa conversa com seus amiguinhos lá de baixo! - e estourou numa gargalhada grotesca.

Não.

Não havia qualquer dúvida sobre quem eles falavam.

Chega.

Naquele momento meu espírito gelou e minha racionalidade desabou. Era o fim de qualquer controle que ainda tentara manter. E eu não possuía a menor dúvida sobre o que deveria ser feito. Sob um céu limpo, de onde eu esperava que Deus conseguisse enxergar tudo, fui na direção dos vermes. Azazel insuflou-me com seu poder enquanto eu saía das sombras, trêmulo de ódio.

Os quatro assassinos pararam ao ver minha silhueta em meio ao caminho, a ponta da lança brilhando à luz da lua, sedenta, implorando por sangue cristão. Um deles ainda teve tempo de balbuciar um "saia do caminho, vagabundo", com a típica coragem dos embriagados, antes que eu caísse sobre eles como uma avalanche de fúria e sanguinolência. Não foi uma, nem duas, nem menos de dez vezes que afundei a lâmina de metal na carne macia de cada um deles. Os inquisidores gritavam, gemiam e cambaleavam, sem condições de fugir de minha ira.
Só depois de encharcado do licor vital dos malditos é que comecei a pensar de novo e ver onde estava, no meio de uma das principais ruas de uma cidade. Naquela hora a captura e a morte não me importavam, mas havia coisas que eu desejava saber antes. Arrastei para a ruela um dos corpos dilacerados que ainda agonizava e, na proteção do escuro, falei com os dentes cerrados àquele trapo de carne sangrento:

- O que vocês fizeram com ela, maldito?!?

Por entre olhos quase sem vida o inquisidor me fitou, a compreensão chegando à sua mente embotada pela hemorragia e pelo álcool. Com um esforço imenso, um esgar de crueldade surgiu naquela boca por onde o sangue se esvaía, sussurrando entre dentes tingidos de vermelho:

- Foi lindo... um trabalho digno de um bom homem de Deus... não foi difícil fazê-la confessar... já que ela confessou... abertamente... então foi só mostrar à população... como deve ser tratado uma... um adorador do Demônio...

O inquisidor tossiu e uma grande golfada vermelha escapou de sua boca. Mas continuou:

- Esmagamos seus dedos... furamos seus olhos... Ah, como é bela a redenção pela dor!... ela gritava e gritava... invocando suas entidades satânicas... até a hora em que o fogo... o fogo consumiu suas cordas vocais... ela... ou que sobrou... ainda deve estar fumegando na praça pública... - o sorriso se tornou mais sarcástico que nunca - se você quiser ver...

Foram as últimas palavras dele antes que eu batesse com sua cabeça nas pedras do chão, até transformá-la numa massa informe de carne, ossos e miolos. Corri dali, pois sabia que logo alguém veria os cadáveres e chamaria a milícia. Fugi sem saber para onde e para que, vagando num lugar infestado por aqueles que haviam arrebatado minha amada. Caminhei sem rumo, a mente em torpor e deserta de pensamentos. Eu não determinava para onde meu corpo me levava, sentia-me como uma casca vazia, mas meu inconsciente sabia a mórbida direção que estava tomando.

Oh, Hécate! Foi você a única testemunha a ver aquele farrapo humano, apenas um invólucro oco de carne, se arrastando em direção à estaca queimada no meio da praça principal da cidade! Viste aquela forma decadente cair de joelhos em frente a uma pilha de ossos carbonizados, derramando à luz da lua suas últimas lágrimas mortais! Ouviste aquela sombra do que já foi um homem ter sua fé abalada, duvidar do poder de Lúcifer, que deixava uma de suas filhas se ir tão facilmente! "E todos os sacrifícios, e os rituais, para que serviram?!?", gritava ele. Ouviste-o também erguer seu punho aos céus do impiedoso deus cristão e jurar vingança, pelo tanto que ainda durasse sua inútil existência...

Pois foi aquele o único sentido que ainda achei na minha vida: vingança. A intolerância, algo que sempre combati com todas as minhas forças, me dominou integralmente: criança ou adulto, inocente ou culpado, pobre ou rico... Não importava. Apenas sabia que todos os seguidores do deus único e cruel dos cristãos deveriam ser mortos, massacrados, sofrendo cem vezes o que sofrera Samantha. Tornei-me o assassino mais procurado de todos os reinos, ninguém conseguindo desvendar meus motivos, julgando-me completamente imprevisível. A minha lenda espalhou medo até nos árabes e nos nórdicos, e deixei que continuassem a tremer, pois também não eram de todo inocentes. As pessoas se perguntavam como alguém podia matar com tantos requintes de crueldade, com tanta frieza, enquanto continuavam a assistir pessoas gritando no fogo de suas fogueiras divinas. Ah, tolos hipócritas! Realmente mereciam morrer todos! Eu só não conseguia, de modo algum, matar uma mulher, pois em cada rosto feminino via um resquício da beleza de minha amada.

Aqueles foram anos de sangue, fuga e completo vácuo interior. Minha própria crença no Pai Lúcifer não era um consolo, pois havia virado um ateu, sem nenhuma religião que me desse conforto. Não acreditava mais que a corte infernal pudesse proteger os seus, considerando-os tão fracos quanto os enviados celestiais. E eu teria seguido assim até o fim da minha vida, não fosse por outro dia para sempre gravado em minha memória.

Era uma nebulosa e funesta manhã de inverno, nove anos após aquele fatídico entardecer. Eu pensava sobre minha vida sem rumo e no suicídio, pensamentos vinham constantemente me atormentando. E havia um sentimento de algo se aproximando, como uma leve pincelada de premonição, como se alguma revelação estivesse penetrando lenta e insidiosamente nos abismos da minha mente. Foi quando eu vi uma sombra se aproximando na neblina.

Era só um vulto, andando lentamente em minha direção, mas... Como dizer... Havia uma intensa sensação de familiaridade naquele modo de caminhar. Suas formas foram ficando mais definidas, cada vez mais claras... E então pensei que minha parca sanidade havia ruído de vez, dando lugar à loucura desatinada, transformando lembranças do passado em visões tangíveis. Eu me lembrava em todos os detalhes daqueles cabelos rubros esvoaçantes, os olhos vermelhos como as labaredas avernais, a pele alva como marfim... Oh, Pai Lúcifer! Poderia realmente ser ela quem eu via? Poderiam ser suas mãos que me tocavam? Poderia ser sua voz que me falava?...

"Não apresse as coisas. Afaste essas idéias de sua mente, e acabe com esta louca cruzada de vingança. Não é nada do que sempre acreditamos e defendemos. Não são muitos que devem pagar o preço pelo desatino de poucos."

Ainda atônito, tentei formar alguma frase, dizer alguma coisa, mas da garganta só saíram murmúrios desconexos. Ela colocou um dedo sobre meus lábios, calando-me com aquele sorriso radiante com o qual Lúcifer havia dotado minha deusa...

"Calma... Chegará um dia em que voltarei para buscá-lo, e então viveremos juntos... para sempre!"

Pela última vez nesta vida eu beijei seus lábios, tão doces e suaves como eram há doze invernos. Com aquele sorriso e olhar, aquela atordoante mistura de pureza e lascívia que tanto me fascinava, ela se voltou e sumiu em meio à neblina, sem em nenhum momento olhar para trás, me deixando parado, com um turbilhão de sentimentos em meu interior. Senti minha alma ressuscitar um pouco, novamente o ardor do espírito me invadindo... Um pequeno gole de ar para um corpo quase sufocado.

Ilusão? Sonho? Delírio? Realidade? Nunca soube... O certo é que desde aquele dia nunca mais matei ninguém, isolando-me em terras ainda mais ermas que antes para envelhecer, agora com um pouco de paz. O Caçador de Cristãos virou lenda, muitos foram os que atribuíram a si mesmos a glória de o terem capturado. Por consequênica, muitos foram os irmãos mortos nessas caçadas. Mas eu não me importava mais com as coisas dos homens. Minha alma já não pertencia a este mundo, embora permanecesse presa ao corpo. Só queria seguir minha rotina caçando, rezando e aguardando...

E até hoje estou esperando pelo chamado dela, vindo do paraíso prometido... O Inferno.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Plenos Poderes

(Marina Melz está em Pinhalzinho e incomunicável. Como não tem acesso à internet lá, me mandou o texto dela por sms e pediu para eu postar no lugar dela. Aí vai)

Há duas horas, Deus veio até mim e me deu plenos poderes. Eu exterminei as guerras, acabei com a miséria e com a fome, transformei escolas em verdadeiras fontes de conhecimento... enfim, toda aquela babaquice que toda Miss diz que sonha. Aí meus poderes acabaram. Faz duas horas que eu não tenho do que reclamar. Tô de saco cheio. Puta mundo chato.

Eu sei

Blumenau, 25 de julho de 2008.

Estou começando agora o maior desafio de minha vida até hoje: escrever meu primeiro Best Seller. Um livro que vai ser lido por milhões de pessoas no planeta inteiro. Como eu sei disso?

Eu só sei.

Sei, como sei que no jogo de domingo o Palmeiras vai vencer o Grêmio por 3 a 1. Como sei que até o final da tarde de hoje a Petrobrás aumenta 2,36% e as ações do Itaú caem 0,74%. Sei como sei que às 19h37min de hoje um Vectra bordô com placas de Gaspar vai se chocar uma Fiorino branca, placas de Blumenau. Dentro da Fiorino, um cachorro Poodle que voltava de uma tosa vai ser o único ferido no acidente.

Eu simplesmente sei.

Sei que esta noite Ademar Borba será preso pelo assassinato de sua esposa, que vai ser encontrada por ele na cama com o síndico do prédio, o senhor Coelho. Eu simplesmente sei.

No começo, tentei tirar vantagem deste dom recém descoberto. Comecei com apostas em um bolão de futebol entre os amigos, passei a comprar algumas rifas que eu sabia que seriam premiadas e um dia cometi o erro de jogar na Mega Sena.

Depois daquilo, minha vida começou a desmoronar. Quanto mais eu esforçava minha mente para prever os acontecimentos, melhor eu ficava. Sabia tudo, com cada vez mais detalhes e maior previsão. Com R$ 25 milhões na conta bancária, larguei o emprego e mudei de cidade. Não pude conviver comigo mesmo depois do dia em que cumprimentei um amigo na rua e vi que sua mãe iria morrer em menos de duas horas.

Não havia nada que eu pudesse fazer. Meu amigo não sabia. Eu não pude contar.

Naquela noite, eu não dormi. Comecei a raciocinar e logo percebi que se fosse meu amigo, e não sua mãe, a vítima, eu não saberia o que dizer. Eu não tinha como mudar o futuro. Apenas tinha como me aproveitar dele. No começo, eu não conseguia saber bem como se dariam as mortes, apenas sabia que elas iriam acontecer. Hoje, com muito treino, já consigo detalhes bastante claros sobre crimes, acidentes, fatos corriqueiros. Nada passa despercebido.

Há 20 anos eu vivo num tempo que não é meu. Nunca mais trabalhei na vida. Tenho todos os luxos que um homem já sonhou em ter. Consigo a mulher que eu quiser, pois sei exatamente o que elas querem ouvir.

Mas não consigo me relacionar. Talvez por saber, no exato momento em que olho nos olhos de uma pessoa, o dia e a forma de sua morte. Sei se ela irá me trair, se ela vai me amar, se ela vai ficar doente e se ela vai me fazer sofrer.

E em todos os futuros, eu sempre sofro. Agora, como que fugindo do sofrimento iminente, o medo me impede de sair de casa. Fico aqui, zapeando os canais de TV, respondendo as perguntas que os repórteres fazem no jornal, antes mesmo dos entrevistados pensarem no que vão dizer.

E essa manhã eu descobri que serei o autor de um Best Seller, sem nunca ter escrito um texto com mais de duas páginas. Comecei a escrever, pois o futuro nunca mente. Na terceira tecla que apertei, minha visão já ficou mais clara. Esta obra só se tornará um sucesso dessa magnitude pela forma brutal com que seu autor irá morrer, assim que escrever o ponto final da última frase de sua obra.

Eu não sei o que escrever num livro como este. Pela primeira vez em toda minha vida, me deu um branco. Não sei o que escrever. Só sei que preciso escrever. Sem parar. Escrever, escrever, escrever. Pois assim que eu parar, esta terá sido a última coisa que escrevi.

Eu só sei. Eu simplesmente sei.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Laura

- Mamãe! O colchão tá pegando fogo!
- Calma, alguém já vem ajudar.
No orfanato, Laura chorava entre os gritos das outras crianças.