segunda-feira, 26 de novembro de 2007
Primeira vez
Deitada ao seu lado na cama, ela o observava demoradamente. Seu corpo forte e definido lembrava-lhe aquele dia na praia. Ela havia se mudado do interior, fascinada com a areia, as rochas e o mar. Não pôde resistir a colocar os pés na água. A batida das ondas e a espuma salgada a encantaram de tal modo que ela só percebeu onde estava quando os pés já não encontravam apoio e os braços se agitavam em pânico. Então, apenas lembrava de estar deitada na areia, com lábios quentes tocando os seus. Quando abriu os olhos, o rosto preocupado que a olhava quase a fez perder a respiração novamente. Ergueu-se, sem jeito, e pediu tímidas desculpas pelo seu descuido. Afinal, era a primeira vez que ela tinha nadado.
Dali em diante, os capítulos da história se desenrolaram em rápida sucessão. Daquela primeira conversa sob o guarda-sol, adveio a troca de telefones. Do primeiro telefonema, o primeiro encontro, junto a alguns amigos. No segundo encontro, a dois, um beijo suave no fim da noite. Em pouco tempo, a entrega total, o compromisso firmado, a mudança e a compra da cama de casal onde agora repousavam. Ela vivia cada dia como se fosse único, respirava aquele relacionamento a todo instante, e nada podia tirar-lhe o sorriso quando estava com ele. Afinal, era a primeira vez que ela tinha amado.
Uma lágrima desceu do seu rosto quando ela lembrou daquele outro dia, quando visitou-o de surpresa no trabalho. Jamais saiu de sua memória aquela cena, quando, paralisada, olhava os dois agarrados sobre a mesa, ele tentando balbuciar alguma desculpa ininteligível para sua mente entorpecida. Ela saiu às pressas, caminhando para lugar nenhum, chorando as lágrimas que não havia derramando em todos aqueles tempos de felicidade. Mais tarde se encontraram, e ele implorou para que ela voltasse. Disse ser um idiota. Falou que a amava. Abraçou-a com força e desabou em fragilidade, ao pedir seu perdão e jurar que jamais faria ela chorar novamente. Falou que sua vida a dois valia mais que um erro isolado, por mais idiota que fosse. Afinal, era a primeira vez que ele tinha errado.
A pesada lágrima logo secou, pois foi a única. Ela balançou a cabeça e repetiu para si mesma que não valia mais a pena resgatar tais lembranças. Acariciou seu robusto ombro, com um leve sorriso. Levantou-se da cama, indo para o banheiro. Lavou as mãos demoradamente e pôs-se a pensar no que fazer em seguida. Havia diversas formas de se livrar dele, mas muitos problemas poderiam surgir, portanto ela tinha que calcular cautelosamente os seus passos para não cometer um erro. Afinal, era a primeira vez que ela tinha matado...
25 de Setembro de 2006
25 de Setembro de 2006
Cinco segundos. Esse foi o tempo da minha primeira experiência como pessoa, como ser humano, e talvez, a minha primeira experiência como jornalista que observa os fatos sem poder fazer nada para interferir na sua ocorrência. Saí do jornal para o Hospital onde eu deveria chegar à UTI e conversar com o coordenador daquele setor sobre as melhorias que haviam acontecido. Hospitais já são um tanto quanto complicados pra mim, mas resolvi encarar o desafio, afinal, nem todo medo pode ser levado por uma vida.
Chego lá, reconheço o médico (já o havia entrevistado anteriormente), vou até ele. Cumprimentos feitos, seguimos para a sala de espera para podermos conversar. Ele me explica a respeito das UTIs e do que tem sido feito para a melhoria do atendimento a pacientes em estado grave. Como na primeira entrevista que fiz com o médico, de tempos em tempos éramos interrompidos por um pedido de ajuda, de exames ou de informações sobre pacientes. Normal, a profissão que ele exerce exige esse tipo de atenção. Da sala onde estávamos tínhamos a vista completa dos seis leitos da nova UTI. Enquanto ele me explicava a respeito dos aparelhos utilizados nos procedimentos, observamos a queda do ritmo cardíaco de um paciente.
Num ato de completo instinto, o médico levantou-se, sacou o aparelho que deveria fazer com que o coração do tal sujeito voltasse a bater. Todos ali estavam tensos, eu lutava contra a minha curiosidade queria sentar-me e não ver aquela cena, mas não pude. O risco verde com o fundo preto da tela parou de apresentar qualquer oscilação. O tal sujeito acabara de falecer. Não pude conter as lágrimas que caiam dos meus olhos sem que eu tivesse qualquer tipo de controle. Senti as pernas bambas. Vi filmes, cenas, vidas passando a minha frente em alguns segundos. Parece brincadeira, e talvez a minha reação tenha sido exagerada mesmo. Mas eu não contive, não conseguiria. Foi a primeira vez que eu vi um falecimento tão de perto.
Como se num ritual lento e mórbido, todos os funcionários da UTI se uniram em torno do corpo do homem, deram as mãos. Chamada pelo médico, participei da oração que seguiu. "Trabalhamos com vidas, sabemos que tentamos de qualquer forma o salvar. Não conseguimos. Ele está com Deus. Descansa. Temos certeza que esse dia ficará marcado na história de muita gente como um dia triste. Vamos lembrar dia como um dia de mudança, daquelas que todos temos que passar".
Senti meu corpo amolecer. Sentei-me. O médico que eu até então julgava como alguém completamente racional sentou-se ao meu lado, pediu licença e me abraçou. "Você não é a primeira que tem esse tipo de reação. A vida é assim. Lidar com a vida é assim". Me acalmei e ele fez questão de me trazer à redação. No caminho, ele me explicava que independente de credo ou religião, a vida acaba do mesmo jeito pra todos. "E, por mais que a gente tente, lidar com a vida não é algo fácil". Os olhos lacrimejantes do médico não me deram dúvidas disso.
domingo, 25 de novembro de 2007
Prazeres
25/11/2007
Raffael estacionou o carro na rua escura, desligou o motor e puxou o freio de mão. Ao seu lado, Mari transparecia nervosismo, enquanto dava um sorriso sapeca. Raffael virou-se e a beijou um beijo molhado, quente e acelerado. Mari agarrou o cabelo em sua nuca e brincou com sua língua, ao mesmo tempo em que Felipe apagava as luzes do quarto. Larissa já o aguardava, deitada na cama apenas de camisola rosa, braços abertos e a ansiedade que trazia desde que vestiu a peça íntima. Felipe checou cada uma das velas acesas, apertou o “play” na trilha de Ben Harper e tirou a camisa enquanto caminhava na direção da cama. Reginaldo não chegou a tirar a camiseta, apenas abriu o cinto e baixou as calças até a metade das coxas. Zilá sentia vontade de gritar, não de prazer nem de tesão, e sim de dor, ao sentir o membro invasor penetrando seu corpo sem pedir licença. As mãos ligeiras soltaram o sutiã de Mari, que já estava em cima de Raffael, no banco deitado do carro de seu pai. Beijaram-se e abraçaram seus corpos seminus, enquanto Larissa suspirava e gemia no ouvido do namorado, na primeira noite de amor que o casal tinha. Felipe havia pensado em tudo, da champanhe até a trilha sonora e as velas espalhadas pelo quarto. Aquele era um momento especial, era a primeira vez de sua namorada, uma noite inesquecível, quase tão inesquecível quanto a noite de Zilá, que passaria os próximos anos de sua vida culpando a si mesma por ter deixado aquele homem rude arrancar sua virgindade sem fazer nada. É verdade que ela abrira a porta de casa apenas por se tratar de um amigo de seu pai, que estava viajando, e não suspeitara de nada, com seus apenas 14 anos. Zilá derramou uma lágrima e virou para o lado segurando o choro, quando Reginaldo foi embora. Raffael também virou para o lado após gozar, para sentar-se novamente no banco do motorista e deixar Mari se vestir no banco do carona. Felipe e Larissa viraram cada um para o seu lado, depois daquele momento tão íntimo quanto seria possível. Nenhum deles jamais esqueceu aquele 25 de novembro.
sábado, 24 de novembro de 2007
O Gosto da Fruta
Se já teve alguma história engraçada? Teve, teve sim. Sempre tem alguma coisa diferente. Tem cada tipo que aparece! As melhores sempre são as de algum endinheirado que fecha a casa só pra ele e pros amigos, ou aqueles de trazem alguém pra inaugurar. É, inaugurar. A primeira vez, sabe? Porque virgem nunca vem sozinho, né? Sempre é alguém que traz. Se teve alguma vez em especial? Não sei. Tem uma juntou um pouco dos dois, eu acho. Veio um coronel certa vez, de uma cercania aqui perto, pra inaugurar o filho. Isso faz uns cinco, seis anos, se não me engano. Não! Que é isso! Não posso dizer o nome, não. Sabe como é, normas da casa. E também por respeito aos clientes, né? Mas veio aquela vez, então, aquele coronel que eu não vou dizer nome, trazendo o guri mais velho dele. Ele não fechou a casa, mas pegou um elevado só pra ele. Veio com os amigos, gente de dinheiro, de fazenda, sabe? E o guri. E coronel era cliente bom, tinha que atender bem. Pagava bem e tratava bem. Era um homem bom. Por isso a gente também tratava ele bem. E o rapazote veio então pela primeira vez. Devia ter uns quinze, no máximo dezessete. Era meio franzininho mas era de se jogar fora, não. Tímido, o coitado. Nem sabia direito o que fazer. A Dona Keka viu que coronel tinha chegado e mandou eu e as meninas ir lá fazer sala pra eles. Eu sempre atendia o coronel, então foi bem tranqüilo. Já era da casa, nunca deu problema. Eu fui lá com as meninas e o coronel apresentou o filho. Claro, que também não posso falar o nome dele, mas ele, mesmo meio nervoso, foi bem educado com as meninas. A gente serviu os clientes com a garrafa reservada pro coronel, e até o filho deu uns golinhos. Acho que também foi a primeira vez que provou, pela cara que fez. Mas aí que o coronel queria inaugurar o garoto, e queria que fosse bem feito. Falou que já tava na hora de virar homem, que filho alegre não se cria. E pra prevenir, achou melhor trazer o rapaz aqui. E fez questão que eu também atendesse o garoto. Por mim tava tudo bem, até fiquei feliz com o reconhecimento do coronel. Depois de deixar o garoto mais à vontade e um pouco menos nervoso, levei ele lá pra cima. E os amigos do coronel faziam a festa, tinha até padrinho chorando de emoção.
No começo, tudo normal. Ele tava um pouco nervoso, mas todo mundo fica assim na primeira vez. Já cansei de pegar homem feito tremendo feito bambu no vento. Então comecei a conversar com ele, aquelas preliminares de sempre, pra não assustar. Perguntei se era mesmo a primeira vez dele (como se eu não soubesse!) só pra dar mais confiança. Ele disse que era. Ao menos com uma mulher. Na hora me deu um branco. Será o filho do coronel era fruta? Mas daí, logo lembrei que não podia ser. Logo o filho do coronel! Perguntei se era porque ele já tinha treinado sozinho. Ele riu nervoso e disse que sim. Quando tava pra começar o garoto, pra tranqüilizar, eu falei que era parecido com o que ele já tinha feito, e essas coisas que a gente sempre diz pra soltar mais o cliente. Mas só então eu vi ele não tava conseguindo. Devia estar nervoso, o coitadinho. Ele explicou que não era parecido com o que ele já tinha feito, que lá na fazenda os meninos aprendiam diferente. Eu já tinha iniciado muito filho que agricultor e sabia bem como era na fazenda. Molecada vivia no curral! E não era ordenha que eles faziam nas vacas, não! É verdade, aqui na cidade tem gente que não acredita, mas esse pessoal da fazenda aprendia assim até uns anos atrás. Você ri porque sempre morou por aqui. Mas enfim, eu tava perdendo o meu tempo e queria logo resolver aquilo. Então eu virei as costas pro garoto, bem na beirada da cama, e pedi pra ele vir. Falei que ia ser quase como ele já tinha feito antes. Enfim o coronelzinho conseguiu marcar presença e achei que ia se resolver logo. Mas aquilo tava demorando um pouco demais. Perguntei se estava tudo bem, e ele disse que aquilo não era bem como ele já tinha feito antes. Pôxa, aquilo era o mais próximo que eu podia chegar! Só faltava ele pedir pra eu mugir! Só então ele me explicou, bem sem jeito. Ele não freqüentava muito o curral, não. Ele costuma era ir lá pra plantação de melancia do coronel. Se tinha alguma menina que ele encontrava lá? Não, não. Se ele já tivesse conhecido menina eu não tinha passado tanto trabalho e tanta humilhação! Ele tava era atrás das melancias mesmo. Literalmente. Fazia um furinho com a faca e depois emprenhava a fruta. Que fim dava na melancia depois, eu não sei. Só sei que nunca mais comprei melancia que veio da fazenda do coronel. E não é que o moleque me pediu pra ficar que nem melancia? Que abuso! E lá fiquei eu, que já tinha mandado minha dignidade pro ralo, toda encolhida, abraçando os joelhos contra o peito esperando o garoto terminar. Pior é que de raiva e de vergonha devo mesmo ter ficado vermelha que nem melancia. Só sei que o moleque acabou não acabando. É, não deu certo, eu já tava irritada, e o coronel que me desculpe, mas aquele piá tem algum problema. Levei o coronelzinho de volta pro pai. Ele foi meio cabisbaixo mas eu pus o sorriso mais falso que tinha na cara e disse pro coronel: Coronel, seu menino não volta mais. Agora eu trouxe pro senhor um homem! E o padrinho chorão voltar a chorar, o velho acendeu um charuto e enfiou na boca do moleque e eu encerrei o expediente por ali mesmo. O que aconteceu com ele? Não sei bem. O coronel nunca mais apareceu. Nem o filho. Dizem que o moleque virou padre. E a Ritinha disse que viu ele com um outro garoto fazendo o que não fez aqui. Ela disse que o coronelzinho não gosta da fruta não. Mas, da fruta, ah, disso eu sei que ele gosta.
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
Dama de preto
22 de novembro de 2007
Ela veio para cima de mim sem o mínimo pudor. Admito que estava assustado, afinal, era minha primeira vez. As vestes pretas davam a ela um ar imponente e isso me intimidava muito, não era toda hora que uma situação dessas acontecia com um garoto tímido de 17 anos.
Terminado o pesadelo da aproximação inicial, começou a me envolver com sua nítida experiência. Fui ficando tranqüilo, aos poucos. Era uma sensação incrível. Sentia como se meu corpo não pertencesse a mim. Como se meus sentidos se confundissem. Como se mergulhasse num sonho.
Desde pequeno tentara imaginar como seria essa hora marcante, esse momento que, de tão esperado, parecia infinitamente distante. Ouvi alguns breves gemidos, que julgava ter eu mesmo emitido. Foi aí que o líquido mais precioso começou a jorrar de meu corpo. Ela parecia satisfeita. Era como se tivesse vencido uma guerra particular.
Dali em diante, lembro de pouca coisa. Devo ter perdido, de fato, os sentidos. Até que vi ao meu redor algumas flores, uma foto e, se não me falha a memória, alguns pares de olhos enrubescidos e lacrimejantes.