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sexta-feira, 26 de junho de 2009

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Amanhã é sábado

Despertou com o roçar familiar da barba no rosto. Sorriu sonolenta para o marido que acabava de chegar, ainda com o uniforme da tinturaria. Espreguiçou-se para espantar os restos de sono que lhe pendiam pelo corpo e foi preparar o cafeceia enquanto Francisco tomava o seu banho. Comeram devagar. Ela o café com leite e pão com manteiga. Ele, o macarrão requentado com suco de caixinha. Terminaram a refeição e conversaram mais alguns minutos até chegar a hora de Valquíria sair. Despediram-se com um beijo e ele foi lavar a louça e recolocar o telefone na tomada antes de dormir. Ela foi ao ponto esperar pelo ônibus e pelo dia que começava.

Pendurou o casaco leve no encosto da cadeira do seu pequeno cubículo acinzentado e, enquanto aguardava o computador ligar, ajeitou os portarretratos com as fotos do marido e dos dois sobrinhos. Na sua pauta para o dia, nenhuma novidade. Os mesmos produtos da mesma empresa, o mesmo script a ser seguido. Aguardou pouco até o telefone tocar com algum cliente insatisfeito e pouco educado do outro lado. Histórias parecidas, todas elas, como as suas respostas pré-programadas. Os ponteiros, sobre os cubículos, fizeram o que fazem os ponteiros em todos os lugares. Giram sem sair do lugar. Correndo atrás do próprio rabo, do tempo perdido, até que se esvaiam as baterias ou se cansem os pêndulos, daqueles que inda hoje se valem destes tão antiquados recursos. Ao fim do dia, lá estavam ainda os ponteiros, correndo atrás ou fugindo sabe-se lá do que. Valquíria pôde ao menos cobrir os ombros doloridos com o calor do casaco e pôr as orelhas quentes ao vento frio do fim de tarde. Deixou os ponteiros e cubículos para trás, que estes nunca iam a lugar algum, e pôs-se de volta para casa, ainda ouvindo os telefones chamando dentro da cabeça, como um tic-tac baixinho que se ouve sem perceber. Antes de ir para casa, parou na padaria. Aguardando no balcão, quase atendeu, por impulso, o telefone que tocou. Pagou e saiu balançando a sacola pela calçada.

Chegou em casa sem fazer barulho. Retirou o telefone da tomada, fez a limpeza ainda em silêncio, e só depois acordou o marido com um beijo no rosto barbado. Preparou o cafeceia com a broa de fim de dia que ele tanto gostava, acompanhada por uma xícara de café preto. Para ela, preparou uma salada e um sanduíche. Retornou ao quarto para chamar o marido e viu-o terminando de se arrumar. Escondeu-se no batente da porta e estendeu a perna quarto adentro, tentando imitar a cena de algum filme que tinha visto na algum dia na TV. Ouviu a risada de Francisco e espiou risonha pela porta. Tentou colocar um olhar lascivo fingido no rosto quando disse “Não demora no trabalho, viu? Que amanhã é sábado”. Ele riu mais uma vez, foi até ela já uniformizado, e deu-lhe um beijo de barba mal feita com cheiro de hortelã. Foram até a cozinha, conversaram um pouco durante a refeição e ela lavou a louça antes de dormir. Ele foi para a fábrica mais feliz. Quando voltasse e acordasse Valquíria, já seria sábado.

As Regras

- Boa noite, senhor Rasmussen. Somos da Corporação Harper. Disponibilizamos serviços de transmissão televisiva, decoração digital, jogos virtuais e serviços eletrônicos e de comunicação em geral. Gostaria de solicitar informações sobre algum produto específico?

- Não.

- Muito obrigado.

Valquíria desligou o fone e o programa emitiu o comando para uma nova ligação. Em segundos um novo contato foi feito. Nova negação. Nova tentativa. A sua média de Aceites Prévios era de um em trinta e sete, o que significava que a cada trinta e um minutos ela embarcava em um diálogo mais prolongado com um cliente interessado. Enquanto isso, ela fazia as Propostas Introdutórias Padrão de modo quase automático. Sempre a mesma fala curta e neutra. As Regras não permitiam métodos mais coercivos.

Deixando as tarefas sendo executadas por uma parte do seu cérebro, de modo semelhante ao do computador em sua frente, sobrava espaço para a mente divagar dentro do seu pequeno cubículo no Salão de Comunicações com o Cliente.

Estava chegando perto. Faltava exatamente dois anos para a sua Checagem Periódica de Longevidade. Era um momento delicado na vida de qualquer um. Em particular, a checagem dos quarenta. Era quando começava a surgir uma maior taxa de Certidões de Longevidade Definitivas. Ao vinte e aos trinta, ainda era raro ocorrer, pois a maioria das inviabilidades eram detectadas muito antes disso, e as estimativas de longo prazo eram imprecisas demais para serem levadas a sério.

Mas, com a chegada do momento, até as imprecisões começavam a assustar. Ela, em particular, tinha recebido uma predição de 14% de chances de inviabilidade antes dos cinquenta anos. Um em sete não era uma chance tão preocupante, mas ela tinha apenas dois anos antes da nova checagem. Quem sabe não seria daí que receberia sua declaração de que, em um certo período de anos, ela possuía uma chance maior que 95% de se tornar mais dispendiosa do que funcional para a Sociedade.

Normalmente, isso não preocuparia a ninguém. Colegas e parentes falariam que dois anos não era um tempo curto, ainda mais que dificilmente a Certidão de Longevidade Definitiva lhe daria menos que cinco anos. E sempre era possível recorrer, embora fosse necessário um argumento incomum para tanto. Nada que sua leve Tendência à Depressão e Risco de Doença Intrínseca justificasse.

Mas, para Valquíria, um profundo incômodo a fazia se sentir de outra forma. Algo para o qual dois, ou mesmo dez anos, era muito pouco.

- Sim, eu estou interessada em Quadros Eletrônicos de Partículas.

Sua mente viajante rapidamente voltou ao cubículo e se concentrou no Aceite Prévio.

- Sim, senhora. Os nossos quadros de elétrons possuem quinhentas opções de padrão regular e caótico, além de sessenta mil opções de cores. Há dez opções de dimensões. Gostaria de checá-las?

- Sim.

A atendente enviou os arquivos para a possível cliente, dando-lhe seu Tempo Limite de oito minutos para escolher. Como a cliente não se decidiu, ela desligou e voltou às tentativas. E às divagações.

As mesmas tendências que tinham colocado sua longevidade em xeque tinham desqualificado-a para a reprodução. Segundo as Regras, mesmo o seu direito individual de um filho (que ela pretendia alocar com seu Companheiro Estável atual) era negado. Sim, ela sabia que era melhor para a Sociedade que a sua vaga fosse alocada para uma mulher com uma Constituição Ontogenética mais favorável. Mas alguma coisa sobre isso a deixava incomodada. Sensação que crescia quando Francisco interagia com seu filho já nascido, alocado com uma Companheira Ocasional.

Os minutos se passavam e os pensamentos continuavam a revolver em sua mente, indo e voltando de temas mais banais àqueles que mais a incomodavam. Não era possível escapar deles. Se ela tivesse efetivamente apenas mais sete anos, não adiantaria, de qualquer modo, ter um filho. Porém, as mesmas regras que negavam a sua reprodução eram as que ditavam sua longevidade. Afinal, eram as Regras. E, todos sabiam, sem Regras, não havia Sociedade. Só o Mundo Paralelo e seus caóticos perigos, e quem desejaria...

Foi subitamente interrompida pelo Alerta de Produtividade. Ela estava há quarenta e seis minutos e meio sem um Aceite Prévio. Olhou rapidamente os indicativos do computador, buscando a causa. Ela estava modulando de modo errado a voz e falando excessivamente rápido. Pensar sobre aquele assunto estava claramente desestabilizando-a. Tentou se focar novamente, mas após dez tentativas o Alerta soou de novo. Não tinha dúvidas: ela estava ficando irritada de um modo não-usual, e cada vez mais, conforme o Alerta lhe avisava. Na tentativa seguinte, foi a gota d'água: o Alerta soou imediatamente e em um nível mais alto, quando ela soltou um pequeno suspiro durante sua Proposta Introdutória. Aquilo foi o bastante. Ela arrancou os fones e saiu apressada do cubículo, sem ligar para o Alerta que se colocava em nível máximo.

Passou pelos corredores escuros de portas fechadas, dirigindo-se para o Terminal de Transporte. Estava vazio e sem guichês ocupados, como o esperado, pois não era o fim do Horário de Expediente. Então não havia nenhum Veículo Transportador disponível. Mas ela sabia, como poucos, que era possível abrir as portas mesmo nos outros horários. Bastava fazer algo próximo do inimaginável: esgueirar-se por um guichê e apertar o código que ela, de modo indulgente e quase despercebido, observava os funcionários inserirem no computador, durante as transações. Valquíria estava trêmula ao ativar o computador e inserir os caracteres. Desconectada de seu padrão mental usual, não racionalizava os seus atos. Apenas sabia que não queria ficar ali, e que em poucos minutos alguém estaria abordando-a para colocá-la sob controle.

A porta de um setor do Terminal se abriu e Valquíria escapou do guichê, correndo em sua direção. Porém, quando se encontrou diante da abertura, seu ímpeto vacilou.

Diante dela, não se encontrava o interior conhecido e confortável do Veículo Transportador. A porta se abria para uma intensa escuridão, na qual mal pode distinguir os contornos dos gigantescos edifícios que ladeavam a Corporação Harper. O próprio ar, frio e fedorento, atingia seu rosto como um soco. Olhando para cima, por paredes desprovidas de janelas, ela enxergava a luz do dia, a algumas centenas de metros, penetrando pelo estreito espaço que se abria entre os prédios. O fato dela não conseguir dizer a distância com exatidão a incomodou profundamente. Aquele era o Mundo Paralelo, desvinculado da Sociedade e das Regras, onde reinava a imprecisão, o caos e o desconhecido.

E ali ela estava, congelada na beira do abismo entre dois mundos. Como em nenhum outro momento, percebeu como era fina a separação que lhe protegia do perigo: nada mais que uma película metálica em forma de porta. Ao coquetel de neurotransmissores e hormônios que a embriagava, juntou-se uma nova carga de adrenalina, gerada por mais emoções raras. Surpresa. Medo. E excitação.

Quando o Guarda entrou no Terminal, atendendo a uma solicitação de Desvio de Conduta, a porta estava fechada, e o Mundo Paralelo novamente lacrado por detrás de seu metal opaco. Os guichês continuavam vazios. Assim como o grande Salão de Embarque. Deserto, como o esperado, para o Horário de Expediente.

A GOTA D'IOGURTE

Vinte e três horas. Valquíria se preparava para ir trabalhar. No alto de seus trinta e oito anos, o reflexo no espelho já demonstrava sinais de envelhecimento por causa do estresse que sofria no trabalho e em casa. Mas ela era uma guerreira. Maquiava-se e seguia, dia após dia para sua rotina massacrante.

Francisco, seu marido, acordou no meio da madrugada. Levantou-se e caminhou vagarosamente até a cozinha. Abriu a geladeira e pegou um iogurte. Rompeu o lacre e, ainda semiacordado, deu um grande gole naquele líquido rosado. O sabor estava péssimo e isso o fez acordar subitamente.

- Merda de iogurte! - pestanejou.

Olhou a data de validade. Ainda estava longe do vencimento. Caminhou até a sala indignado e não pensou duas vezes antes de discar o número do Serviço de Atendimento ao Cliente, impresso na embalagem do produto.

- Laticínios Brognatti Company, Valquíria, em que posso ajudar?
- Meu iogurte estragou dentro do prazo de validade.
- OK. Como é o seu nome, senhor?
- Francisco.
- Qual o ponto de venda onde o senhor adquiriu o produto, senhor?
- Na padaria do Souza, aqui na esquina. De que adianta saber isso?
- São rotinas da empresa, senhor. O senhor já possui cadastro conosco, senhor Francisco?
- Que droga! Não interessa. Quero saber do meu iogurte. Mandem alguém trazer outro que eu to morrendo de fome.
- Infelizmente não podemos, senhor. O senhor gostaria de se cadastrar para a promoção Viagem da Família Feliz com Laticínios Brognatti, senhor?
- Não! Só quero um iogurte que não esteja estragado. Já falei. Quero o protocolo da minha reclamação.
- Senhor, se eu passar o código do protocolo vou precisar encerrar o atendimento. O senhor tem filhos? Temos uma promoção para crianças men...
- Não, sua chata, minha mulher é estéril. Vou ligar pro SAC dos pais dela também pra ver se funciona melhor que esse!
- Posso ajudá-lo em algo mais, senhor?
- Quero meu protocolo de reclamação. Qual é o seu nome mesmo?
- Valquíria, senhor. Estaremos passando o protocolo em instantes.
- …
- …
- …
- Queira fazer o favor de anotar seu protocolo, senhor Francisco. O protocolo é D, de dado, I, de inverno, V, de verão, O, de ônibus, R, de rato, C, de cachorro, I, de inverno, O, de ônibus. Por favor, não esqueça do acento agudo no primeiro O. A Laticínios Brognatti Company agradece sua ligação e tenha uma boa noite.

Entra uma gravação.

- Por favor, responda nossa pesquisa de satisfação do cliente para nos ajudar a melhorar nosso atendimento. Sua necessidade foi solucionada nesta ligação? Tecle um número entre 1 e 5, onde 1 representa “nada solucionado” e 5 “totalmente solucionado”.

Tu tu tu tu tu tu tu...

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Dona Valquíria

Dona Valquíria é moça direita. A lâmpada da cozinha da casa dela é a primeira a acender na rua ainda escura. E tem um cheiro de café passado lá perto bem cedinho, que acho que Dona Valquíria acorda mesmo para agradar o seu Chico - tão velhinho o pobre. Logo que ele sai, com o dia já claro, ela começa a limpeza da casa. Ouve umas músicas altas, estende as roupas no varal e fica ainda mais bonita com os pés entre a grama verde de primavera e a terra cor de chocolate.

O cheiro de flor da Dona Valquíria é de se sentir de longe. E quando ela sai vestindo o terninho vermelho, o cabra sempre se pergunta aonde vai a moça bonita, já que no telefone não se sente cheiro nem se vê formosura. Um pecado, dizem, Dona Valquíria casada com o velhote. E ele nem aí, anda de braço dado com ela, que mais parece filha do que esposa.

E ela chega a noitinha, trazendo pão pro Chico. Mas tem um dia, lá pela metade do mês, que ela chega feliz, com um sorriso nos lábios. E vem com pressa, atropelada. E todo mundo fica na espreita. Naquele dia, todas as cortinas da rua ficam com frestas, só esperando ela passar.

Dona Valquíria parece moça de televisão naquela noite. Até as estrelas somem do céu porque sabem que ninguém brilha mais que ela. As flores do perfume parecem impregnadas na saia rodada e o vermelho do uniforme sem graça engraça os lábios de Dona Valquíria. As pernas dela, torneadas, morenas feito chocolate e os seios – que balançam levemente, no ritmo do passo – envoltos por uma blusa colada da cor das folhas na primavera.

Um dia o moço lá da esquina resolveu seguir a Dona Valquíria. Até hoje ninguém conseguiu arrancar dele o que viu e sempre que fala no assunto o desgramado engasga. Chegou até a desmaiar. Outro dia ouvi falar que ela fazia apresentações – subia até no palco, a Dona Valquíria. Disseram que do lado de fora do lugar onde ela entrava, só se ouvia um tun-tun-tun que parecia batida de coração. Tudo conversa a boca pequena.

A única coisa que se sabe é que ela volta ao amanhecer e, no dia seguinte, não se sente o cheiro do café na casa do Seu Chico.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Gerúndio

- Boa tarde, senhor Valdir. Eu poderia estar conversando com o senhor um momentinho?

Assim começava o dia de Valquíria. Com a voz irritantemente estridente atingindo com força os tímpanos do cidadão ao lado do telefone. Ao mesmo tempo em que ele, invariavelmente, contorcia os músculos do rosto em clara indigestão sonora, ela erguia o canto dos lábios num sorriso sacana.

- Eu gostaria de estar oferecendo ao senhor um novo produto de uma nova promoção que gostaríamos que o senhor estivesse vindo a fazer parte.

Valquíria é uma mulher inteligente, sabe há anos que o gerúndio não se faz necessário. Mas sabe, também, que ele é terrivelmente odiado. E é por isso mesmo que insiste em usar cada sílaba de forma tônica, em um destaque mortal. A resposta, normalmente, é a mesma:

- Não, obrigado. Não tenho interesse.

- Mas senhor, o senhor ainda nem descobriu do que se trata este produto que nós gostaríamos que o senhor estivesse adquirindo. E se for – e olha que é! – uma super promoção irresistível, que o senhor com certeza estaria tendo interesse em adquirir? Imagina só a oportunidade que o senhor estaria deixando de aproveitar, não é mesmo?

- Mesmo assim, não tenho interesse. Tenha um bom dia.

- Mas que falta de educação, meu senhor. Já me despachando assim, dessa forma rude? O senhor nem deixou que eu estivesse lhe dizendo o meu nome e já vai me enxotando que nem cachorro magro?

- Tá bom, me desculpe. Como é seu nome?

- Walquíria Elizabeth das Graças de Jesus. Walquíria com dábliu, Elizabeth com zê e tê agá, e Graças de Jesus normal mesmo, né? Porque nas Graças de Jesus a gente não pode mexer não.

Repetia a cada ligação a mesma frase, puxando uma risada anasalada ao final da explicação. Valquíria de Albuquerque Ferreira e Braga não tinha o nome com “dábliu” e muito menos as Graças de Jesus junto a si, cética que é. Mas isso também era uma ótima ferramenta para manipular o pobre senhor Valdir, ou quem quer que fosse, ao outro lado da linha. Valquíria era sádica, explorava o sofrimento do homem que, angustiado, já deveria estar olhando para o relógio, na outra ponta da ligação.

- Desculpe, Dona Walquíria, mas...

- Walquíria Elizabeth, por favor. Com dábliu e zê, tê e agá, lembra?

- Isso, isso. Dona Walquíria Elizabeth, me desculpe mas não tenho interesse em comprar nada não.

- Mas meu senhor! E quem falou em comprar? Não lhe disse agorinha mesmo que nós gostaríamos é que o senhor estivesse vindo a fazer parte de um seletíssimo grupo de clientes que já estão fazendo bom uso de nosso produto?

- Sim, mas...

- Então, meu senhor, tudo o que o senhor precisa fazer, é confirmar alguns dados para nós estarmos fazendo o seu cadastro junto ao nosso sistema, e o senhor já poderá estar desfrutando de nossos benefícios. O nome do senhor é Valdir Souza da Silva?

- Não, não. É Valdir de Souza Silva.

- Ah, sim. O senhor aguarde um minutinho que eu vou estar atualizando o nosso sistema.

No momento em que a música – uma bossa nova irritantemente calma – começava a tocar, Valquíria afastava o fone do rosto, se reclinava na cadeira e acendia um cigarro. A cada ligação, o mesmo processo. Pegava a caneta tinteiro e marcava suas anotações no formulário de pesquisa que tinha sobre a mesa. Nome, idade, escolaridade, número de filhos, profissão, tempo de permanência na ligação telefônica, grau de irritabilidade. Todos os dados de Valdir descritos detalhadamente no formulário que havia projetado para sua tese de doutorado.

- Senhor Valdir, nosso sistema se encontra temporariamente fora do ar. O senhor poderia estar aguardando mais uns minutinhos na linha enquanto estaremos restabelecendo a nossa conexão com o servidor?

- Olha, não tenho interesse não. Já estou atrasado, pois quando você ligou, eu estava de saída.

- Mas senhor, se o senhor vir a estar desligando o telefone, não vai poder estar vindo a fazer parte do nosso seletíssimo grupo de clientes.

- Não tenho interesse, passar bem.

Valquíria colocava, após cada ligação, o telefone de volta no gancho. Desligava o gravador e anotava os dados. Em cima da mesa, pilhas diversas de papéis demonstravam os resultados de sua pesquisa sobre o grau de irritabilidade dos moradores de uma grande cidade ao telefone. Anotava mais um X no formulário enquanto sorria, ao perceber que mesmo após quatro meses de dezenas de ligações diárias, nenhum entrevistado sequer perguntara qual era o produto em questão.

domingo, 21 de junho de 2009

Tema - Valquíria

Opa, tricampeonato merece um tema especial.

Nessa rodada, vamos a uma proposta um pouco diferente. Agradecimentos ao Félix pela discussão do tema por MSN agora a pouco.

A idéia é postar um texto que tenha como personagem principal a Valquíria. Ela é uma mulher de 38 anos, que trabalha como operadora de telemarketing, é casada com o Francisco e não pode ter filhos.

Vamos lá. Textos postados até 26 de junho.

(O marcador da rodada é Valquíria.)