Um vazio desprovido de forma, cor e verbo
Deserto estéril onde idéias tentam se nutrir
Cada ascensão, uma nova queda no vazio
Tentativas tornam-se decepções a emergir
Nada cresce na vastidão de espessa aridez
Novos brotos secam e definham retorcidos
Sem chance de crescer e estenderem-se ao sol
Símbolos da morte tal como sonhos destruídos
Deste deserto tento arrancar alguma erva viva
Corro atrás da palavra necessária, tão furtiva
Mas o verso segue inacabado em meio à desolação
Na esterilidade escaldante da falta de inspiração
Eu tinha uma missão, de mim não esperavam falhas
Mas, indo de nada a nada, só resta curvar-me às vaias...
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008
domingo, 26 de outubro de 2008
Todos têm uma missão
Tristes são estes humanos. Não os pobres desalmados que carrego, mas os que ficam, aos prantos, jurando que sou a pior das criaturas. Mal sabem os coitados que não passo de uma transportadora e se faço o que faço é porque o patrão quis assim.
Desde pequena fui ensinada a chegar aos humanos com máxima discrição, mas eles vivem tentando impedir minha aproximação. Às vezes choro. É um trabalho extenuante. Sabe como é. Uma hora cansa. Fico pensando e repensando qual o propósito de tantos carregamentos. O que ele quer com tantas almas? Deve ser um projeto muito grande, pois trabalho dia e noite desde que minha mãe me deu esta fantasia ridícula. Diz ela que foi uma adaptação necessária para satisfazer ao imaginário dos humanos de hoje em dia.
Antigamente ninguém se importava com a aparência da morte. Ela tinha sorte. Hoje passo horas preciosas me arrumando para o trabalho, todo dia. Ah! Tem mais. Lembro que quando eu era pequena os humanos eram pontuais com minha mãe. Agora eles insistem em fazer hora-extra a todo custo. Alguns deles por pura teimosia. Sabem que já completaram suas missões, mas insistem em continuar por aí, vagando.
Certo dia, um homem virou para mim e teve a audácia de falar comigo. Dizia que, agora, ele era feito nuvem. Não entendi. Só depois parei e percebi que ele queria dizer que nem raio o atingia. Ele já tinha acabado de completar sua missão e disse esse absurdo só pra me provocar. Eu mesma vi o momento da conclusão. Queria levá-lo para o patrão no segundo seguinte, mas não teve jeito. Ele parecia um sujeito feliz e isso me dava náuseas. Também quero ser feliz um dia. Mas o patrão diz que minha função é nobre, que um dia serei recompensada e que só vou poder gozar de tudo que a existência (não confundir com vida) pode me oferecer depois que ele terminar sua obra.
Sinceramente, não acredito mais nisso. Parece que ele só quer alimentar meus sonhos para que eu não desista do trabalho. Mas quer saber? Já estou farta disso. Estou no meu limite. Sei que ainda tenho muito o que fazer, mas estou prestes a mostrar os dentes e parar de carregar almas daqui pra lá e de lá pra cá. Estou divagando sobre tudo isso porque preciso descobrir o que realmente é ter uma missão. Não é fazer um trabalho que nos foi imposto, mas algo que se deseje muito. Algo que mude completamente tudo aquilo que pensamos. Algo que quando conseguirmos concluir podemos nos dar por completos. Será que eu posso ter uma missão?
Desde pequena fui ensinada a chegar aos humanos com máxima discrição, mas eles vivem tentando impedir minha aproximação. Às vezes choro. É um trabalho extenuante. Sabe como é. Uma hora cansa. Fico pensando e repensando qual o propósito de tantos carregamentos. O que ele quer com tantas almas? Deve ser um projeto muito grande, pois trabalho dia e noite desde que minha mãe me deu esta fantasia ridícula. Diz ela que foi uma adaptação necessária para satisfazer ao imaginário dos humanos de hoje em dia.
Antigamente ninguém se importava com a aparência da morte. Ela tinha sorte. Hoje passo horas preciosas me arrumando para o trabalho, todo dia. Ah! Tem mais. Lembro que quando eu era pequena os humanos eram pontuais com minha mãe. Agora eles insistem em fazer hora-extra a todo custo. Alguns deles por pura teimosia. Sabem que já completaram suas missões, mas insistem em continuar por aí, vagando.
Certo dia, um homem virou para mim e teve a audácia de falar comigo. Dizia que, agora, ele era feito nuvem. Não entendi. Só depois parei e percebi que ele queria dizer que nem raio o atingia. Ele já tinha acabado de completar sua missão e disse esse absurdo só pra me provocar. Eu mesma vi o momento da conclusão. Queria levá-lo para o patrão no segundo seguinte, mas não teve jeito. Ele parecia um sujeito feliz e isso me dava náuseas. Também quero ser feliz um dia. Mas o patrão diz que minha função é nobre, que um dia serei recompensada e que só vou poder gozar de tudo que a existência (não confundir com vida) pode me oferecer depois que ele terminar sua obra.
Sinceramente, não acredito mais nisso. Parece que ele só quer alimentar meus sonhos para que eu não desista do trabalho. Mas quer saber? Já estou farta disso. Estou no meu limite. Sei que ainda tenho muito o que fazer, mas estou prestes a mostrar os dentes e parar de carregar almas daqui pra lá e de lá pra cá. Estou divagando sobre tudo isso porque preciso descobrir o que realmente é ter uma missão. Não é fazer um trabalho que nos foi imposto, mas algo que se deseje muito. Algo que mude completamente tudo aquilo que pensamos. Algo que quando conseguirmos concluir podemos nos dar por completos. Será que eu posso ter uma missão?
Missão do dia
Depois de uma noite agonizante e mal dormida, ele levantou. Trocou o suco natural por uma xícara generosa de café. Era o que ele gostava, afinal. Ao invés do terno, colocou a primeira calça que viu no armário, a sandália de couro que mais gostava e a camisa de promoção. Ao invés de andar de carro, resolveu ir andando para o trabalho. Odiava trânsito. Em cima da mesa, bilhetes do chefe o lembravam de assuntos pendentes.
No primeiro telefonema para um cliente, antes mesmo que alguém chegasse ao escritório, não controlou os desacatos. O cara era um filho da puta e ele sempre teve vontade de dizer isso. Desligou o telefone com o sentimento de missão cumprida. A boa sensação foi interrompida pelo estridente grito, alguns minutos depois. “Ficou louco? Além dessa roupa completamente inapropriada, ainda enches o cliente de xingamentos?”.
Na volta pra casa, apesar de sem emprego, ele se sentia feliz. Tinha conseguido ser ele mesmo, de verdade. Sem imposições, sem fingimentos. Gargalhava ao lembrar a voz do outro lado da linha sem reação àquele monte de verdades.
Deitou-se no sofá e viu filmes idiotas que sempre foram seus preferidos, mesmo que ele não admitisse. Cachorro jogando basquete ao invés de passar o filme inteiro tentando descobrir quem tinha matado o moçinho. Desligou a tevê e resolveu surfar. No meio do caminho, encontrou um colega chato de faculdade. Não só não o cumprimentou como o deixou com a mão voando no ar, sem resposta. Virou pra trás, soltou uma gargalhada e ainda mostrou-lhe o dedo do meio. Sempre quisera fazer aquilo.
Ficou no sol até as duas da tarde, e quando chegou o horário que todos diziam que era bom para se expor ao sol foi pra casa. Onde já se viu achar que mandam nele? Chegou e um amigo o esperava, preocupado. “Tua namorada tentou te chifrar comigo e com toda a torcida do Flamengo, meu irmão. Tens mais com o que se preocupar”.
Adormeceu no sofá, rodeado de pacotes vazios das mais variadas besteiras. Levantou passando mal. O dia acabou e ele tinha cumprido sua missão: não vestiu personagens nas últimas 24 horas. Sem amigos, sem emprego e completamente infeliz. Decidiu que a partir do dia seguinte, seria novamente uma farsa. A máscara pelo menos conseguia suportar um sorriso.
No primeiro telefonema para um cliente, antes mesmo que alguém chegasse ao escritório, não controlou os desacatos. O cara era um filho da puta e ele sempre teve vontade de dizer isso. Desligou o telefone com o sentimento de missão cumprida. A boa sensação foi interrompida pelo estridente grito, alguns minutos depois. “Ficou louco? Além dessa roupa completamente inapropriada, ainda enches o cliente de xingamentos?”.
Na volta pra casa, apesar de sem emprego, ele se sentia feliz. Tinha conseguido ser ele mesmo, de verdade. Sem imposições, sem fingimentos. Gargalhava ao lembrar a voz do outro lado da linha sem reação àquele monte de verdades.
Deitou-se no sofá e viu filmes idiotas que sempre foram seus preferidos, mesmo que ele não admitisse. Cachorro jogando basquete ao invés de passar o filme inteiro tentando descobrir quem tinha matado o moçinho. Desligou a tevê e resolveu surfar. No meio do caminho, encontrou um colega chato de faculdade. Não só não o cumprimentou como o deixou com a mão voando no ar, sem resposta. Virou pra trás, soltou uma gargalhada e ainda mostrou-lhe o dedo do meio. Sempre quisera fazer aquilo.
Ficou no sol até as duas da tarde, e quando chegou o horário que todos diziam que era bom para se expor ao sol foi pra casa. Onde já se viu achar que mandam nele? Chegou e um amigo o esperava, preocupado. “Tua namorada tentou te chifrar comigo e com toda a torcida do Flamengo, meu irmão. Tens mais com o que se preocupar”.
Adormeceu no sofá, rodeado de pacotes vazios das mais variadas besteiras. Levantou passando mal. O dia acabou e ele tinha cumprido sua missão: não vestiu personagens nas últimas 24 horas. Sem amigos, sem emprego e completamente infeliz. Decidiu que a partir do dia seguinte, seria novamente uma farsa. A máscara pelo menos conseguia suportar um sorriso.
A Missão
Chegou em casa cansada, mas satisfeita. A aula havia sido boa, os alunos participado. Deixou as coisas sobre a escrivaninha, despiu-se, desfez o rabo de cavalo e amarrou o cabelo em um coque acima da cabeça. Foi ao banheiro, entrou no box, ligou o chuveiro. Deixou que a água quente escalasse as paredes do box em forma de vapor. Depois deixou que ela lhe massageasse as costas, lavando o resto da semana que ali ainda se agarrava.
A última aula de sexta era sempre a mais complicada; os alunos querendo sair para o fim de semana. "Enquanto o esforço é curto a missão não é cumprida", dizia. E mais uma vez ela tinha conseguido consquitar a classe. Descobriu o site, indicação de uma amiga. Internet sempre conquistava os alunos. Não custava tentar. Gostou da idéia dos micro-contos. Trabalharia em aula com algo que despertasse a criatividade dos alunos, algo leve que lhes mantivesse a atenção, e algo rápido que ela poderia corrigir sem perder mais um final de semana sobre os trabalhos colegiais. Aproveitou o tema proposto para usar com os alunos. Gostou da idéia; ela também cumpria uma missão. Desligou o chuveiro, puxou a toalha de cima do box. Secou-se ainda envolvida pelo vapor e, enrolada na tolha, enfrentou o frio. Cruzou o corredor até o único quarto do pequeno imóvel. Vestiu um moleton bastante usado e confortável. Refez o rabo de cavalo.
Foi à sala-cozinha preparar um café, já com os trabalhos à mão. Sentou no sofá com a pasta da escola sobre a mesa de centro e a caneta vermelha entre os dedos. Com as pernas encolhidas sobre o móvel e os pés escondidos sob uma almofada, puxou a primeira folha:
"A missão da missão omite a omissão da missão."
Tomou a próxima folha e seguiu a leitura:
"Na pia batismal o missionário se banhava. Nu, renasceu puro e molhado frente às beatas descrentes."
Riu e continou a ler folhas e folhas. Cada uma com pouco mais de uma linha escrita. Cada uma, esperava, estopim de algo mais, que se acendesse em seus alunos.
A última aula de sexta era sempre a mais complicada; os alunos querendo sair para o fim de semana. "Enquanto o esforço é curto a missão não é cumprida", dizia. E mais uma vez ela tinha conseguido consquitar a classe. Descobriu o site, indicação de uma amiga. Internet sempre conquistava os alunos. Não custava tentar. Gostou da idéia dos micro-contos. Trabalharia em aula com algo que despertasse a criatividade dos alunos, algo leve que lhes mantivesse a atenção, e algo rápido que ela poderia corrigir sem perder mais um final de semana sobre os trabalhos colegiais. Aproveitou o tema proposto para usar com os alunos. Gostou da idéia; ela também cumpria uma missão. Desligou o chuveiro, puxou a toalha de cima do box. Secou-se ainda envolvida pelo vapor e, enrolada na tolha, enfrentou o frio. Cruzou o corredor até o único quarto do pequeno imóvel. Vestiu um moleton bastante usado e confortável. Refez o rabo de cavalo.
Foi à sala-cozinha preparar um café, já com os trabalhos à mão. Sentou no sofá com a pasta da escola sobre a mesa de centro e a caneta vermelha entre os dedos. Com as pernas encolhidas sobre o móvel e os pés escondidos sob uma almofada, puxou a primeira folha:
"A missão da missão omite a omissão da missão."
Tomou a próxima folha e seguiu a leitura:
"Na pia batismal o missionário se banhava. Nu, renasceu puro e molhado frente às beatas descrentes."
Riu e continou a ler folhas e folhas. Cada uma com pouco mais de uma linha escrita. Cada uma, esperava, estopim de algo mais, que se acendesse em seus alunos.
sábado, 25 de outubro de 2008
Fã-Clube
Fazia 20 anos que Fred não escrevia um livro. Isso não é mentira, mas também não é bem verdade. Na realidade, fazia 20 anos que Fred não escrevia exatamente nada.
Há 20 anos, Fred lançou seu último livro, exatamente no dia que sua mulher morreu brutalmente assassinada. A forma da morte? Detalhadamente a mesma descrita em seu romance policial, lançado na mesma noite.
No início, a polícia imaginou que Fred era o assassino, e teria descrito em obra o jeito horripilante que mataria a mulher. Ele chegou a ser preso, mas o álibi de uma noite de autógrafos na capital logo o libertou, deixando-o entregue aos seus pensamentos e à vontade constante de vingança.
Os jornais noticiaram na capa a manchete que falava sobre mulher de escritor ser assassinada com os mesmos requintes de crueldade descritos no mais perturbador de seus livros. Livro este que foi rechaçado pela crítica que o chamou de “bestial e selvagem”. E assim foi a morte de Gabriela, sua esposa. Bestial e selvagem.
Três meses depois, Vinícius morre violentamente quando volta da escola. Ele tinha apenas 17 anos, e nenhuma ligação com Gabriela ou Fred. Gustavo teve o mesmo fim, arremessado do topo de um edifício no Centro da cidade. Gustavo não era amigo de Vinícius, Fred ou Gabriela. Cristiano conhecia Gustavo, e morreu assassinado quando caminhava em direção à biblioteca. Estes rapazes, e outros tantos que vieram a seguir, não tinham nenhuma grande ligação entre si ou com Fred e Gabriela. Apenas eram fãs do autor. Grandes fãs, os maiores.
Sempre eram os primeiros da fila para comprar os livros em seu lançamento. Eram os únicos que tinham suas obras autografadas. O mesmo grupo de cerca de dez garotos que tinham o privilégio de receber um autógrafo do excêntrico autor. E eram os únicos que tinham tanta voracidade pela leitura doentia proporcionada pelas obras de Fred a ponto de conseguirem terminar de ler o seu maior e mais cruel livro tão rapidamente.
Sujo de sangue, o escritor pegou a caneta, riscou o nome de Gian da lista impressa no site de seu próprio fã-clube e depois rolou com o pé o corpo do jovem pela encosta do rio. Dobrou a folha em quatro pedaços, colocou-a no bolso da jaqueta e falou consigo mesmo: calma, Gabriela, só faltam dois.
Escrito em 25/07/2007
Há 20 anos, Fred lançou seu último livro, exatamente no dia que sua mulher morreu brutalmente assassinada. A forma da morte? Detalhadamente a mesma descrita em seu romance policial, lançado na mesma noite.
No início, a polícia imaginou que Fred era o assassino, e teria descrito em obra o jeito horripilante que mataria a mulher. Ele chegou a ser preso, mas o álibi de uma noite de autógrafos na capital logo o libertou, deixando-o entregue aos seus pensamentos e à vontade constante de vingança.
Os jornais noticiaram na capa a manchete que falava sobre mulher de escritor ser assassinada com os mesmos requintes de crueldade descritos no mais perturbador de seus livros. Livro este que foi rechaçado pela crítica que o chamou de “bestial e selvagem”. E assim foi a morte de Gabriela, sua esposa. Bestial e selvagem.
Três meses depois, Vinícius morre violentamente quando volta da escola. Ele tinha apenas 17 anos, e nenhuma ligação com Gabriela ou Fred. Gustavo teve o mesmo fim, arremessado do topo de um edifício no Centro da cidade. Gustavo não era amigo de Vinícius, Fred ou Gabriela. Cristiano conhecia Gustavo, e morreu assassinado quando caminhava em direção à biblioteca. Estes rapazes, e outros tantos que vieram a seguir, não tinham nenhuma grande ligação entre si ou com Fred e Gabriela. Apenas eram fãs do autor. Grandes fãs, os maiores.
Sempre eram os primeiros da fila para comprar os livros em seu lançamento. Eram os únicos que tinham suas obras autografadas. O mesmo grupo de cerca de dez garotos que tinham o privilégio de receber um autógrafo do excêntrico autor. E eram os únicos que tinham tanta voracidade pela leitura doentia proporcionada pelas obras de Fred a ponto de conseguirem terminar de ler o seu maior e mais cruel livro tão rapidamente.
Sujo de sangue, o escritor pegou a caneta, riscou o nome de Gian da lista impressa no site de seu próprio fã-clube e depois rolou com o pé o corpo do jovem pela encosta do rio. Dobrou a folha em quatro pedaços, colocou-a no bolso da jaqueta e falou consigo mesmo: calma, Gabriela, só faltam dois.
Escrito em 25/07/2007
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