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quinta-feira, 17 de abril de 2008

A carta

Thiago Floriano
Meados de 2005

Onze horas da noite, dezoito de agosto de dois mil e oito. Papéis queimando dentro de uma lixeira exalavam o odor característico que já podia ser sentido pelos moradores do edifício Anna Beatriz, no sul da Ilha de Santa Catarina. A fumaça já impregnava os luxuosos móveis do apartamento 1105. O senhor que ali morava, conhecido como Toni, preparara o apartamento como se soubesse que receberia visitas. Ao entrar no local, uma cartolina com os seguintes dizeres: “sejam bem-vindos homens da lei e curiosos de plantão!”. Toni apagou o fogo do cesto de lixo, pois não queria causar transtornos aos seus vizinhos, rumou na direção da janela, e sem olhar para baixo voou em direção ao solo da ilha que o recebera como filho.

“No momento em que vocês encontrarem esta carta já será tarde para fazer algo por minha existência, mas não será tarde para pensar na de vocês!

As pessoas vão perguntar, os jornais vão querer saber... por que Antônio Carlos Gueira de Souza saltou de uma janela?

Eis que estou aqui sentado defronte a um abajur, com uma caneta na mão, um papel estendido na mesa, o computador ligado e a janela aberta. Tudo preparado para o que farei nesta noite fria (para mim mais do que para qualquer um, pois a iminência da morte, mesmo sendo voluntária, dá calafrios).

Todos já ouviram falar em queima de arquivos, não? Pois então, estou eu, aqui, queimando-me como arquivo. Sim, sei demais, coisas que não deveria saber, e que não suportei guardar para mim. Também não tive coragem de contar, até porque não acreditariam no que eu dissesse.

Andei pelos bastidores da política, como bem sabem meus conterrâneos. Morei em Brasília nos últimos doze anos, e como bom contador fiz o que pude para manter as contas de meus clientes em dia. O problema todo foi o fato de eu ter sido incluído no círculo social dos ‘representantes do povo’, que, afirmo veementemente não representarem absolutamente NADA do que é o povo.

Será que fiquei com peso na consciência de ter lutado pelo interesse financeiro desses homens públicos durante todo esse tempo? É uma possibilidade, afinal, o dinheiro que eles me procuravam para declarar era somente, e tão somente uma migalha de tudo o que adquiriam através do peculato. Aliás, o peculato já não é mais um verbete em Brasília, é praticamente uma instituição. É como se os sanguessugas tomassem conta das contas públicas e elas fossem dotadas de artérias no lugar de cofres.

Executivo, legislativo, judiciário, todos os poderes imaginados pelo filósofo iluminista Montesquieu para tornar os governos mais eficientes envolvem-se em falcatruas inimagináveis. Se você acha sujo que aquele seu vizinho ande furtando roupas dos varais, você realmente não tem a mínima noção do que eu falo. Não é o meu dinheiro ou as minhas roupas que eles estão roubando, é a educação do seu filho, a saúde de seus avós, o seu transporte coletivo para o trabalho, a comida da sua família, os momentos de lazer com seus amigos, e tudo aquilo se faz necessário para que um ser humano tenha absoluta dignidade. Aliás, aqueles que se omitem de lutar por seus direitos são condizentes com a essência fraudulenta de nossa política. E é por não conseguir mais suportar esse peso em minhas costas que fiz o que fiz. Não suporto a pressão que a Síndrome de Atlas me causa (na mitologia grega, Atlas foi condenado por Zeus a carregar o mundo nas costas).

Se eu tivesse como provar tudo o que falo, simplesmente iria à mídia e, tenho certeza que alguns poucos veículos (os poucos que não foram corrompidos pelo sistema que impera) veiculariam meus relatos. Mas eles não deixam provas. São cúmplices em crimes perfeitos, até aparecer alguém suficientemente forte, que possa encará-los e mostrar ao povo a corrupção que há no planalto central. E estou certo de que ocorre em outros âmbitos também.

Ah! Já ia me esquecendo, antes que vocês pensem que simplesmente me atirei pela janela, quero que saibam que planejei tudo, nos mínimos detalhes. Roubei, sim! Mas foi só um mailing list atualizado, de um assessor de imprensa cujo nome não citarei. Afinal, com tudo isso que estou dizendo, tenho certeza que a polícia (que também não fica atrás nesse mundo de hipocrisia) não me ajudaria a difundir esta carta. Tomei a liberdade de, além de escrevê-la em papel para que possam ter algo concreto em mãos, envia-la por e-mail para os mais diversos veículos de comunicação, das mais variadas correntes políticas (sim, embora digam que o jornalismo é neutro, eles têm envolvimento político).

Não agüento mais este mundo de hipocrisia, onde milhões passam fome para que alguns saiam em colunas sociais desfilando as novas tendências de Paris. E o pior é que os famintos os admiram, talvez por não saber o motivo, a fonte de tanta exuberância. A sociedade alimenta os sonhos destas pessoas, que raramente conseguem pagar as contas de água e luz. Deixando estas pessoas bem alienadas através da falta de informações, mantém-se a corrente de segredos do planalto com os elos extremamente cerrados, de modo que não se permita a saída de nenhum deles.

De qualquer forma, digo-lhes que bem tentei descobrir uma melhor maneira de tornar pública toda essa sujeira, mas não consegui. Também não pude imaginar uma solução viável para acabar com a trágica situação de Brasília. Perdoem-me, nunca quis o mal para ninguém, fui enganado por minha cobiça como muitos de vocês. Fiquei cego durante muito tempo, e com esta carta tento me redimir da melhor maneira possível.”

De fato, Toni criara uma estratégia interessante para tornar públicos seus dizeres. Como todos os jornais e revistas receberam a carta via internet, não foi possível escondê-la. O escândalo se fez ecoar por todos os cantos do país. Alguns acham que não se tratava de um suicídio, mas alguém que utilizou o contador como forma de se manifestar.

Dentro da lixeira, utilizada por Toni para queimar os papéis, foram encontrados resíduos de fotos. Provavelmente traziam más lembranças ao contador, que não quisera deixar para a posteridade nenhum traço de sua passagem pelo corredor da safadeza política. Quantos homens como Antônio Carlos Gueira de Souza precisarão morrer para que o povo decida fazer algo por si mesmo? Será que um dia encontrarão uma solução para isso tudo? As perguntas não param, mas as soluções também não aparecem. Continuam uns poucos inquietos e insatisfeitos - com a postura irresponsável dos homens públicos - tentando mobilizar as massas, sem sucesso.

O trecho seguinte foi extraído de um jornal local, sendo assinado por um dos cientistas sociais mais respeitados da capital catarinense.

“Toni suicidou-se, segundo ele, para queimar arquivo. Mas na verdade queria apenas manifestar-se e, por não saber como, utilizou sua vida como forma de expressão. É o que muitos fazem hoje em dia, parece que só assim alguém ouve essas pessoas, infelizmente.”

Em questão de alguns anos ninguém mais lembrava de Toni, a não ser sua família e amigos. Não sobrara nenhum vestígio de que o mundo tenha aprendido alguma lição com o contador. Até que outro apareça, a suposta paz continua predominando no país do futebol.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Anamnese

Direto da série "semana cheia, improviso à ceia"...
16/04/08


Pensamentos, pesam centos. São sozinhos, sem vizinhos. Emparedados e para os lados. Angústia, augúrio é hóstia! Sensação sem solução... Encouraçado, mas coração apertado. Que estorvo, este torno! Cauteloso, calmo e nervoso. Confortador, conforto e dor? Reação, reza a ação! Mas permanecem, apenas descem. Camuflados, quase inflados. Mil tormentas, tortas mentes. Ah, cansaço, acabou o aço. Escapável, escape fácil. Sim, libertação, limbo à danação! Bastidores? Ha, basta de dores! Solitude, só uma atitude. Então, enfim... Ah, o fim...

Boa noite

Fábio Ricardo
16/04/08


- Você não apareceu para almoçar hoje de novo, William.
- Tive uma reunião, Fátima.
- Garanto que foi com a Glória, como aquela “reunião” de ontem à noite, que foi até às 2h da madrugada.
- Foi uma reunião, Fátima, você sabe bem.
- Não sei não. Você chegou fedendo a vinho chileno.
“No ar em dez!”
- Não exagera, Fátima. Você sabe muito bem que sou um homem ocupado.
- Sei bem, William. Tanto que não consegue nem ao menos ler as manchetes antes de entrar no ar.
“No ar em cinco!”
- Menos, Fátima, menos. Ninguém aqui tem motivo pra duvidar das minhas capacidades.
- Seu...
“No ar em dois!”
- Boa noite.
- Boa noite.
(...)
- E no próximo bloco...
- Motorista alcoolizado atropela policial, dá a ré, e atropela novamente.
"E... corta!"
- Hahahahahaha, não acredito! Ele deu a ré e atropelou de novo?
- O que é tão engraçado?
- Meu, ele deu a ré e atropelou de novo! Essa eu preciso ver.
- Olha aqui, ó, "senhor importante", essa é uma matéria séria, viu?
- Hahahaha, séria mesmo! Hahahahaahah!
"No ar em cinco!"
- Vocês homens são mesmo todos iguais...
- Atropelou de novo, hahahahahah...
- ...não sabem levar nada a sério...
"No ar em dois!"
- Voltamos com um flagrante de imprudência no trânsito.
- Desafiando a autoridade, um motorista alcoolizado comete um atropelamento absurdo e doentil.
(...)
"E... corta!"
- Hahahaaaha. Absurdo e doentil? Tô me segurando desde aquela hora pra não rir!
- Qual é a graça?
- Absurdo e doentil? Meu, Deus, ele é o ídolo da nossa nação!
- Chega, William, vamos para casa.
- Vai na frente... eu tenho uma reunião agora à noite, chego mais tarde.
- Reunião, William?
- Absurdo e doentil... hahaha... ele deu a ré e atropelou de novo...
- ...
- ...deu a ré e atropelou de novo, hahahaha...

Além da cortina

Longe da ribalta um fantasma esconde a face partida em gesso e carne. No palco, Don Juan Triunfante recebe aplausos afetados. À frente do veludo, luz, em vermelho, a voz soprano cristal.
Enquanto atrás da cortina espia, quase mudo, o Quasímodo.

Corcunda de corpo, de rosto ou de alma.
Torto de coração.
Velado, além do veludo.
Em silêncio.

Enquanto o público ovaciona o rosto, a voz se recolhe atrás da máscara. E um meio sorriso doído se desenha sob a palidez inerte, que sabe que a cortina jamais se erguerá.

O espetáculo

16/04/2008

O ritual era o mesmo. Podia sentir que tudo conspirava a favor de um excelente espetáculo. A platéia crescia, a expectativa aumentava e, com ela, o nervosismo dos minutos que antecediam a apresentação. As noites que vinham depois de um show e antecediam mais um dia de apresentações eram sempre nervosas, mas ela sabia quais armas usar para conseguir descansar.

Levantava-se, ia ao banheiro e tentava deixar que a água do chuveiro levasse para o ralo um pouco da adrenalina que ela sentia com a própria apresentação. Sabia que suas últimas atuações tinham sido as mais pífias já vistas e que a melhora na qualidade de suas falas, seus gestos e principalmente suas ações só dependia dela.

Lembrava-se todos os dias que a temporada estava pra terminar há algum tempo. As renovações de um contrato que poderia ser estendido por toda sua vida causavam calafrios, mas se mostravam mais necessárias a cada dia. Criara laços emocionais com a personagem que faziam dela mais do que uma fase, mais do que um trabalho.

No caminho para o café, via nas paredes cartazes de diversos tamanhos que marcavam uma carreira brilhante, com sorrisos e momentos brilhantes. Tinha na agenda alguns dos expectadores mais importantes que já tivera. Alguns se tornaram fiéis, mantiveram contatos, sentimentos e atenções. Outros ela só conseguia identificar pela legenda, uma prática que adotara há tempos em suas inscrições pessoais.

Sentava-se a mesa depois de receber aquele que considerava o melhor bom dia do mundo. Uma mulher um pouco mais velha, bastante mais experiente que ela sabia que seria sua fã sempre, mesmo que a temporada terminasse. Tomava seu café com adoçante, um dos itens da lista de exigências, que tinha ainda água, música, pijamas, meias e pantufas.

A hora chegara. Nos bastidores, olhava-se. Encarava o par de olhos no espelho, despedia-se. A máscara que usava durante a apresentação não era palpável, não era visível, mas ela podia sentir seu peso. Abriu a porta. A rua estava ali, e seria seu palco para o resto da vida.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Tema

Novo tema quentinho saindo do forno: Bastidores

Boas escritas a todos ;)

Postagens até o dia 16 de abril, quarta-feira.