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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Experimento

11/01/08

- Quais são as condições?
- Padrão. Nenhuma distorção regional significativa. Sem quasares, sem buracos negros. Apenas os buracos de minhoca, e nenhum conduzindo para fora da região.
- Galáxia de tamanho médio, formato e densidade de matéria usual. O isolamento relativo tem algum significado?
- Sem interferência externa. Sistema semi-fechado.
- Muito bem, qual o experimento?
- Vida emergindo com frequência elevada. Diversas manifestações, mas apenas um padrão de consciência emergindo.
- Isto geralmente implica em grande sobreposição.
- Exato. Potencializada por uma elevada congruência no uso do meio, em relação às formas mais elevadas.
- E a morfologia? Variável ou restrita?
- Fortemente restrita para as formas capazes de viajar pelo vácuo relativo. Um módulo principal, um cognitivo / sensorial, quatro auxiliares.
- Não são padrões demais?
- Faz parte do experimento.
- Quais os objetivos?
- Verificar os efeitos da sobreposição na evolução do sistema.
- Interessante. Previsão para os resultados?
- Iniciando a partir de cinquenta rotações da galáxia. Segundo a Lei Máxima, agora só podemos esperar para ver.

* * *

- A vida realmente está florescendo em abundância.
- Sim. A primeira viagem no vácuo relativo foi feita muito cedo.
- Isto pode desequilibrar o sistema rapidamente.
- Fiz os ajustes necessários para evitar um desequilíbrio precoce.
- Isolamento?
- Exato. Deste modo, o avanço da tecnologia também é significativamente retardado. O nivelamento permite maior riqueza de interações.
- O momento das interações parece bem próximo.
- Veremos o que vai ocorrer.

* * *

- Conflito.
- Exato. Resultado perfeitamente compreensível, dada a sobreposição.
- A semelhança de padrões de consciência não poderia levar à harmonia? Por facilitar a comunicação?
- Talvez. Pontualmente e temporariamente ela emerge, mas sempre de maneira condicional. Por exemplo, a forma precoce e dominante está aliada a outras duas formas consideravelmente derivadas.
- Mas, ao que parece, a harmonia não é o padrão.
- De modo algum. O conflito predomina. Curiosamente, parece potencializado pela sobreposição não-total da consciência.
- Sobreposição de recursos e pequenas diferenças de consciência levando ao conflito.
- Exato. A forma dominante parece ter compreendido. Seu esforço de guerra parece voltado para a padronização completa.
- E como seus aliados reagem?
- Pesam entre o poder da forma dominante e o temor da padronização. Duas formas derivadas unidas a uma forma dominante não parece um arranjo equilibrado. O sub-sistema é extremamente instável.

* * *

- Traição.
- Resultado esperado.
- Teria gerado aniquilação, se não fosse pela intervenção.
- Provavelmente. A forma dominante era significativamente mais poderosa. O resultado seria diferente se não tivessem feito a descoberta e não fossem mais os mesmos.
- E agora?
- As duas formas remanescentes continuam a apresentar um desequilíbrio. O resultado é óbvio.
- Será o conflito entre formas com diferentes graus de derivação um padrão?
- Sem dúvida.

* * *

- Muitos sub-experimentos estão em curso concomitantemente com o principal, não?
- Exato. Mas às vezes é preciso fazer pequenos ajustes. Para manter a riqueza de interações.
- Tais intervenções não atrapalham os resultados do experimento principal?
- Não, estes são robustos o bastante para resistir a intervenções. Os padrões centrais estão claros: sobreposição no uso do ambiente; derivação em ritmos desiguais; consciência sujeita a pequenas diferenças. Todas as condições geram o conflito. É natural, esperado e inerente ao sistema.
- E os sub-experimentos?
- Centrados em ver como diversas condições menores implicam no comportamento das formas ao longo do tempo. Um exemplo está neste sub-sistema. As formas do terceiro corpo interno.
- Parece apresentar uma combinação peculiar de derivação e primitividade.
- Exato. A lógica é observar como se comportam após o contato.
- No momento, a probabilidade parece ser de aniquilamento rápido.
- Sim, mas pequenos ajustes serão feitos. Do tipo que alguns indivíduos da forma chamariam de "acaso fortuito", outros de "milagre".
- Mas tudo será feito de modo que nenhuma das formas terá noção de seu verdadeiro papel no universo, correto?
- Correto. A antiga forma dominante foi exceção. E servirá bem para nossos fins.
- Que assim seja. Pois a ignorância é uma condição básica do experimento primordial.
- Exato.

À margem

Se eu estiver calado não me perguntes o porquê. Enquanto fitar o horizonte, estarei perdido em devaneios e pouco poderei responder. Contando que meus olhos estejam voltados para mim, não terei chance alguma de expor o que penso... sinto... vejo... então, apenas calo. A menos que me vejas abrir-me ao mundo, não forces uma aproximação atrapalhada. Pois, contando que estou perdido em mim mesmo, preciso apenas redescobrir-me... reescrever-me... redesenhar-me... E, por final, caso penses que estou louco, uma vez que tenhas lido tudo isso, faças o que quiseres. Perguntes... aproximes... desde que aceites nossa condição de estar sempre (apenas) beirando a harmonia.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A Condição do Principado

Ainda te demoraste alguns minutos naquela última frase, com o restante das folhas manuscritas na outra mão. Não a lias mais, apenas a olhavas. O conteúdo, já gravado na memória confusa: “Mas o protagonista desta história, leitor, não sou eu”. Finalmente levantaste a cabeça para a figura do velho, retratada como há pouco havias lido, escorado numa das paredes de tora da casa. Quando falaste, a voz saiu-te baixa, mas firme. Uma constatação que, estranhamente, não foi tão pesarosa quanto esperavas:

— O protagonista sou eu.

O velho, na mesma jardineira parda descrita na carta, esboçou um leve aceno afirmativo de cabeça, mas interrompeu o movimento breve para ir até o fogão de pedra no centro da sala.

— O protagonista desta história já morreu — completaste. O velho não precisou responder.

Ficaste olhando as costas entroncadas e pensaste ainda que não lhe parecia bem um príncipe. Ele lançou-te um olhar ancestral por sobre o ombro, que não pudeste suportar. Desviaste os teus, inda jovens, para a porta, esbarrando-os na enxada afiada ao lado dela.

“Às vezes o grão despenca antes do tempo e não pode ser colhido pela foice. Aí vem a mim.” A passagem lhe veio à mente como se ainda a estivesses lendo.

— Então foi isso que me aconteceu? —Perguntaste à enxada ao lado da porta. Mas foi o velho junto ao fogão que te respondeu, virando-se para ti com as mãos ocupadas por duas xícaras fumegantes de metal:

— A você e a todos que passaram por aqui antes de você. Inclusive a quem escreveu essa carta.

— Inclusive a você? — Inquiriste já com uma das xícaras quentes nas mãos. Não sorveste o líquido. Sabias que poderias esperar até que esfriasse. Já sabias que havia tempo de sobra.

O velho parou à tua frente. Olhos fixos nos teus. Mas perdidos em um tempo muito distante, vago, nublado, como a fumaça branca que lhe escalava as barbas ralas. Ele se afastou, sentou noutra cadeira a alguma distância, inclinando-se para trás, equilibrado em dois pés do móvel, apenas.

— A todos que já estiveram aqui, respondeu.

— E como foi que aconteceu? Com você, quero dizer.

Ele pensou um pouco antes de responder-te. Ao que disse:
— Já não lembro. O tempo que passamos aqui, entre a névoa, apaga o aconteceu antes. Esqueci. Você também vai esquecer. Já está acontecendo.
Ele tinha razão, percebeste. A névoa que se instalava do lado de fora da casa no meio da mata, também se instalava em tuas memórias, já diáfanas, nada mais que um vulto acinzentado.

— E antes de você, havia outro Príncipe que o recebeu?

— Não — respondeu-te o velho — eu fui o primeiro dentre nós. O primeiro dentre todos. O primeiro grão a se precipitar antes da colheita. O primeiro a se apaixonar por ela. A desejar o beijo prematuro. Eu não podia esperar. Não havia tempo. Não queria esperar. E me precipitei. Quando saí das árvores, avistei o mesmo trapiche que você encontrou. Fui até o mesmo homenzinho que lhe trouxe aqui. E, pela primeira vez, eu a vi. A pele queimada, os olhos vibrantes, os ombros nus. Eu quis ir até ela, mas o homenzinho não deixou. Disse que eu não poderia fazer a travessia. Que ainda não era hora. Eu não podia ficar ali, meu nome não estava na lista, ele dizia. Não ainda. Tudo o que me restou foi esperar. Eu procurei um lugar pra esperar, aqui entre as árvores. Esperei até não agüentar mais essa névoa. Então construí essa casa. E continuei a esperar, aqui. Sozinho. O único da nossa espécie. O primeiro. Enquanto esperava, a lembrança dela me fazia companhia. Das mãos da camponesa, dos ombros nus de pele tisnada. Da cor do vestido, do jeito de olhar. Até que percebi que já não esperava mais a travessia. Esperava apenas ver a camponesa de novo. A Dama da Colheita. Um dia o homenzinho me achou aqui. Disse que tinha chegado minha hora. Que eu já poderia fazer a travessia. Finalmente eu poderia revê-la! Quando cheguei à margem, ela me recebeu. E conversamos por um bom tempo até a chegada da balsa. Mas quando chegou o momento, percebi que apenas eu faria a travessia. Ela teria de ficar ali. Eu jamais a veria novamente. Foi quando eu tomei a decisão. De ficar, para sempre, à margem. De jamais completar a travessia. De, para sempre, caminhar entre a névoa. Só pela chance de, vez por outra, tornar a revê-la, mesmo que não possa tê-la. O homenzinho não gostou. Disse que meu nome estava na lista. Que eu tinha que cruzar. “Nenhum nome na lista pode ficar, ninguém fora dela pode cruzar”, ele repetia. Mas outros como eu viriam. Outros como nós. Suicidas. Condenados a esperar. Nomes fora da lista. Alguém deveria aguardar por eles. Eis que me tornei o Príncipe dos Suicidas. O Portador da Enxada. Aquele que recolhe os grãos que se precipitaram antes da colheita. Que coleta com a enxada aqueles que a foice não alcança. Todos aqueles que se apaixonaram por ela, mas que jamais poderão a ter. Esse é o nosso Desígnio.

— Nosso? — Ainda perguntaste preocupado, tirando o velho dos seus desvarios. Ele respondeu, com um suspiro, ainda olhando as brumas pela janela.

— Não, nosso não. Eles, e você, todos cruzarão, a seu tempo, o rio. Ninguém pode viver à margem, sem completar a travessia. Apenas eu. À margem, entre as névoas, esperando, para sempre. Essa é a Condição. A Eterna Condição. Não há nós. Não para mim. Jamais haverá.

Em silêncio, guardaste a carta que leste, de outro que já estivera onde agora estavas. E compreendeste, olhando o líquido fumegante que embaçava os olhos do Príncipe. Há tempo. Há tempo de sobra. Tempo é tudo o que tem, o Príncipe dos Suicidas.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A condição da existência

A condição da vida é a morte. Do azar, a sorte. Da saudade, a distância. A condição da paixão é a entrega. Do amor, a verdade. Do futuro, o presente. A condição da música é a melodia. Da poesia, a palavra. Do vento, a calmaria. A condição da tristeza é a alegria. Das lágrimas, o sorriso. Do fracasso, os ganhos. A condição do branco é o preto. Do perfume, o odor. Do silêncio, o barulho. A condição da emoção é o sentimento. Do frio, o calor. Da solidão, o desejo.

A condição da morte é a vida. Da sorte, o azar. Da distância, a saudade. A condição da entrega é a paixão. Da verdade, o amor. Do presente, o futuro. A condição da melodia é a música. Da palavra, a poesia. Da calmaria, o vento. A condição da alegria é a tristeza. Do sorriso, as lágrimas. Dos ganhos, o fracasso. A condição do preto é o branco. Do odor, o perfume. Do barulho, o silêncio. O sentimento é a condição da emoção. Do calor, o frio. Do desejo, a solidão. 

A condição da existência é a condição. E vice-versa.

Ciclo

Conheceu-a sob a condição de não beijá-la.
Beijou sob a condição de que mantivesse segredo.
Manteve sob a condição de que a levasse para a cama.
Levou-a sob a condição de satisfazê-la desde a primeira vez.
Satisfez sob a condição de chamá-la para sair mais vezes.
Chamou sob a condição de não se apaixonar.
Apaixonou-se sob a condição de namorar.
Namorou sob a condição de não trair.
Foi fiel sob a condição de ser feliz.
Foi feliz sob a condição de que fosse eterno.
Eternizou-a sob a condição de cantá-la.
Cantou sob a condição de se entregar.
Entregou-se sob a condição de não sofrer.
Sofreu sob a condição de não se ferir.
Feriu-se sob a condição de esquecê-la.
Esqueceu sob a condição de trocá-la por outra.
Trocou sob a condição de não se apaixonar.
Apaixonou-se sob a condição de não começar tudo de novo.
Começou sob a condição de não cometer os mesmos erros.
Cometeu.

sábado, 11 de outubro de 2008

Novo tema

Thiago Floriano pediu que eu postasse o tema por ele, e me enviou por sms.

O tema da rodada é: CONDIÇÃO!

Textos devem ser postados até o dia 16 de outubro.

Bom trabalho a todos.