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terça-feira, 7 de abril de 2009

Um breve relato histórico

Hoje nasce o primeiro filho de um de meus netos. Sou extremamente reticente em crer que serei bisavô, então fica difícil chamá-lo de bisneto. Parece que foi ontem que conheci a mãe dos meus filhos, mas na verdade já se passam exatos cinquenta anos. Naquela época ainda se fazia parto por cesariana. Aliás, geralmente optava por essa modalidade quem tinha dinheiro, o que dava uma boa vantagem a quem não tinha dinheiro pelo menos na hora de nascer. Eu estava falando de crianças. Elas são sempre muito engraçadas por sua curiosidade.

Certa vez, estava eu na casa de uma tia quando meu primo caçula pegou um disco de vinil e perguntou: “Mãe, o que é esse CD gigante?!”. Quem esperaria que hoje o CD não existe mais e ouvimos música em vinil novamente? Para muitos era impossível imaginar isso. Mais recentemente um de meus netos chegou em minha casa, olhou para a televisão e perguntou: “O que é essa corda atrás da TV, vô?” Ele se referia ao cabo de energia, que já deve ter virado peça de museu há cerca de vinte anos. Mas estas questões tecnológicas não são o mais importante. O mundo mudou mesmo é nas relações.

Há cinquenta anos as tendências de comportamento já davam demonstrações de que teríamos uma nova era pela frente. A banalização do divórcio foi só o começo. Em pouco tempo a estrutura familiar já nem lembrava aquela que conhecemos no final do século XX. Hoje temos as instituições completamente enfraquecidas a não ser pelo estado, que deu uma reviravolta surpreendente após o colapso econômico de 2008. Família? Religião? Como eles eram fortes naquela época. Agora, pouco se ouve falar.

Mas e as relações interpessoais? As relações de trabalho? E o sexo? Nada se manteve inalterado. Afinal, com todo o avanço da ciência, cinquenta anos são uma eternidade. As pessoas hoje, juro, estão mais amáveis do que naquela época. Algo que minha mente idosa ainda não conseguiu compreender, mas agradece. As relações de trabalho realmente se alteraram de tal forma após as seguidas crises econômicas que, em determinado momento, parecia que os papeis se inverteriam, dando grande força ao proletariado. Doce ilusão. Neste aspecto tudo é muito parecido com o início dos anos 2000, a não ser pela obrigatoriedade de parar de trabalhar após a aposentadoria, que agora é levada a sério.

O sexo? A banalização foi crescente e intensa no período entre as décadas de 20 e 30, com grande estímulo da mídia para situações puramente sexuais sem a mínima sensualidade. Aos poucos, pequenos grupos começaram a tentar resgatar a sensualidade sem ser puritanos. Ninguém estava ali para negar o sexo, apenas torná-lo ainda mais prazeroso e intenso. Foi assim que o mundo ocidental começou a dar valor aos antigos ensinamentos orientais, incorporando técnicas milenares que sofriam enorme preconceito até 2035.

João Pedro Cândido de Pangloss
06 de abril de 2059

Amoral

Félix e Louise entraram no hospital, irradiando sorrisos. Há pouco tempo haviam descoberto que seus planos tinham se concretizado e, em breve, um novo alguém ia intrometer-se entre dois. Aquilo era motivo de muita alegria, mas naquele dia havia uma pequena ponta de tensão. Era o dia em que veriam os resultados dos exames preliminares de viabilidade, o que nunca deixava de ser um certo motivo de preocupação para futuros pais, mesmo que as chances de que algo estivesse errado fossem sempre muito remotas.

Uma hora depois, os dois saíam das portas com uma sombra no rosto.

No veículo, a caminho de casa, ficaram algum tempo em silêncio. Foi Louise quem falou primeiro.

- Fale...

- O que, querida?

- O que você está sentindo.

Ele parou por um instante para pensar. Era maravilhoso que pudessem saber dessas coisas tão cedo, é claro, antes que as coisas ficassem mais difíceis. Mas nem por isso se tornava motivo de puro alívio.

- Bem... É decepcionante, não?

- Sim.

- O que você está sentindo? Deve ser pior para você...

- Um pouco. Sabe, acho que a mulher sente mais essas coisas... Afinal, ele está dentro de mim...

- E então?

Foi a vez dela fazer uma pausa. Mas respondeu:

- Devemos fazer, é claro.

- Eu acho que sim. É o melhor caminho.

- Eu também penso. Mas não é comigo que eu me preocupo mais...

- Sim, eu sei. Eu não deveria ter contado para ela antes.

- Vai ser difícil, Félix.

Sua expressão ficou dura. Era um momento de conflito que ele antecipava há tempo...

- ... mas é algo que eu devo enfrentar - completou o pensamento voz alta.

* * *

Era o Dia das Nações e ele estava sozinho no trem que se dirigia para a casa da família, no sudoeste da União Européia. Os tempos mudavam, e junto com ele os feriados, mas não a mania das pessoas de juntar os parentes nessas ocasiões. Ele ainda não tinha contado nada e teria que continuar omitindo os fatos. Dizer antes só teria quebrado a harmonia da reunião, então ele preferia deixar para o dia seguinte. Mas não teria como escapar das perguntas, todos já deveria estar sabendo.

Desceu na estação litorânea, observando o plácido tapete azul do Mediterrâneo ao final da tarde. Um alienígena que pousasse na terra jamais imaginaria que aquela beleza na verdade representasse um abismo que cada vez mais se afundava. Do outro lado, um mundo assustador para o europeu comum. Lá, as fronteiras inexistiam não por mútuo acordo, mas por incessantes guerras civis e ascensão de líderes fanáticos. Não haviam progredido um único centímetro no último século, os coitados. Félix se lembrou de sua infância, nos anos 20, e de como o mundo todo se regozijou com a cura para o, na época temível, HIV. Poucos teriam antecipado as conseqüências que um tratamento barato e eficiente contra a doença traria ao continente africano... Apenas os poucos iluminados que desde o século XX profetizavam os efeitos nefastos do crescimento populacional.

Ele alugou uma bicicleta na estação e se afastou do centro urbano, adentrando em uma das regiões mais bucólicas da moderna União. Começou a subir as colinas como o auxílio do pequeno gerador elétrico, que transformava toda a pressão de seus pés nos pedais em impulso. Ali, naqueles montes costeiros, sua família ainda mantinha a antiga propriedade herdada há gerações. Não havia mais muito espaço no país para grandes propriedades, mas, no quesito produção, seus pais não eram tradicionalistas. Isso permitia a eles manter um bom pedaço de chão com a produção maximizada pela moderna tecnologia agrícola. Ele se lembrava de como as terras haviam mudado nos últimos tempos, e seu velho pai garantia que era ainda muito menos eficiente em sua época de jovem.

"Se eles tivessem a cabeça aberta para outras coisas além de técnicas de plantio, eu não precisaria estar tão preocupado agora".

Quando chegou, uma boa quantidade de primos, tios e sobrinhos já infestava a casa. Família tradicionalista, família imensa, era a conseqüência. Ao estacionar a bicicleta e se aproximar, viu como todos o olharam de um modo diferente, com sorrisos abertos, e pensou: "ok, lá vamos nós...".

Abraços, beijos e apertos de mão. E as frases. Sim, as frases clássicas. "Ah, querido, parabéns! Que, lindo!" (tias e primas), "finalmente, o mais novo pai da família!" (tios sóbrios), "como anda Louise? Bem como sempre, não é? Aproveite agora que daqui a pouco a barriga começa a aparecer!" (tios bêbados e os primos), "vai virar papai, tio?" (até os sobrinhos!). E ele, todo sorrisos amarelos e respostas curtas. Como era bom não ter mais tanta intimidade, nessas horas... Era mais fácil disfarçar.

Até que apareceu sua mãe.

- Meu amor, seja bem vindo à sua casa! Que saudades de um abraço de filho!

Ela sempre colocava ênfase no "sua", como se não fosse há vinte anos que ele tivesse se mudado.

- Oi, mãe, muito bom te ver também...

Ela percebeu imediatamente. Parou o abraço e olhou-o nos olhos.

- O que foi, filho?

"Maldita mulher perceptiva", ele resmungou mentalmente.

- Não é nada, mãe. Só estou cansado da viagem.

- É alguma coisa com a Louise?

Não conseguiu responder imediatamente. Aos olhos de sua mãe, era quase como se ele tivesse gritado "sim!".

- O que foi, querido, você pode me dizer...

- Mãe, por favor, vamos conversar sobre isso depois? É um dia de festa e eu quero apenas aproveitar com o pessoal, tudo bem?

- Meu filho, é algo tão ruim assim? Vocês brigaram? Deve estar passando um monte de coisas na cabeça de vocês desde que souberam...

- Mãe, depois, ok?

Ela silenciou. Ele viu que ela estava queimando por dentro para saber, mas também não ia estragar a festa. Afastaram-se e ele foi cumprimentar seu pai, que o recebeu de forma efusivamente embriagada. Depois pegou uma cerveja e foi cumprimentar os primos que fumavam cigarro misto do lado de fora da casa. Pelo menos eles iriam falar algumas besteiras e depois mudar para outros assuntos, em vez de ficar batendo na tecla da gravidez.

Durante o resto da festa ele tentou ficar descontraído, conseguindo até (como a ajuda de alguns tragos do cigarro misto). Mas toda vez que cruzava os olhos com a mãe, via sua expressão preocupada, e isso lhe irritava. Em vez de tentar relaxar também, ela estava enchendo sua cabeça de possibilidades e especulações. E ele sabia que era a mãe que lhe preocupava, não o que havia acontecido. Ela havia esperado tanto tempo por algo que tanto queria... Aceitaria agora o que estava por vir?

A reunião familiar adentrou a noite. Conforme as horas avançavam, os parentes que moravam perto foram se retirando, os que moravam longe subindo para os quartos de hóspedes. E ele ficou com os primos até tarde, mesmo cansado, esperando propositalmente a mãe dormir antes de se retirar.

Mas, no outro dia, não teve como escapar.

Ela veio no seu quarto enquanto ele ainda dormia, lhe chamando delicadamente com beijos e abraços. Ele sorriu de volta, preguiçoso, e foi lentamente acordando. Ela perguntou como andavam as coisas no trabalho, na cidade. Ele respondeu que tudo bem, contou algumas novidades. Ficaram um tempo numa espécie de impasse: ambos falando banalidades, a mãe querendo tocar no assunto, ele relutante em abordá-lo. Até que ela falou sem maiores delongas.

- Então, filho, como está a Louise nesse começo de gravidez?

- Ah, mãe, é algo meio esquisito, sabe? Vou te dizer que nós dois estávamos realmente querendo isso agora, mas não deixa de ser um pouco estranho...

- Sempre é assim, querido. Um filho é algo que muda toda a nossa visão do mundo.

- Nem fale...

Ele se calou. Ela esperou ele falar algo.

- E tudo bem por aqui na terrinha?

"Droga, estou fugindo de novo. Por que as mães ainda conseguem intimidar os filhos, mesmo depois de quase quarenta anos?".

- Tudo bem... A vidinha de sempre, mas uma vidinha boa.

- Que bom!

Nova pausa.

- E vocês, filho, como estão um com o outro?

"Dane-se".

- Mãe, não tem nada a ver com a Louise, se é isso que você está pensando.

- Então me diga, filho! Eu consigo saber direitinho que há alguma coisa te incomodando muito. E não imagino nada além de alguma coisa com Louise para te deixar assim...

- É com a gravidez.

Momento de tensão.

- Qual o problema?

- Os exames preliminares... Os de viabilidade. Nós fizemos.

Inconscientemente, a mãe levou a mão ao pequeno amuleto no pescoço. Ele olhou de relance para o crucifixo, antes de declarar.

- Os resultados mostraram que ele é defeituoso.

A face da mãe se transformou. Sua tensão virou uma expressão de pura e profunda tristeza, carregada de pena e com uma ponta de decepção. Sim, ele conseguia ler sua mãe tão bem quanto ela o lia. E logo após o primeiro impacto, a consciência do que estava por vir começou a ficar evidente.

- Não tem possibilidade dos exames estarem errados?

- Por favor, né, mãe? Nós não os fizemos em alguma clínica da América do Sul.

- Que tipo de problema é?

- É defeito em alguns genes. Os exames detectaram produção inadequada de algumas proteínas. O prognóstico é de significativos defeitos mentais.

- Defeitos mentais... Mas ele é... viável, não?

Agora estavam chegando ao ponto delicado.

- Viável em que sentido, mãe?

- Ele pode nascer... crescer... viver, como toda pessoa, não é?

- Mãe, eu sei o que você está pensando. Mas nós não vamos fazer isso.

- Como?

- Eu e Louise temos isso muito claro. Essa gravidez não pode continuar.

- Como não? O que você está pensando, Félix?

Ela havia aumentado o tom de voz e usado seu nome. A sua desconfiança havia se tornado certeza. Incrível como ele podia prever essas reações, mas ainda assim não conseguia entender. Era algo tão pequeno diante de um mundo tão grande... Claro, ninguém torcia para acontecer. Mas vários amigos já tinham passado pela situação, que era cada vez mais rara com o passar do tempo. Era algo que podia ser resolvido, por que não se preocupar com coisas mais complicadas?

Mas ele sabia. Sua mãe ainda se prendia a códigos de ética ultrapassados. Uma minoria na União, mas que ainda fervilhava em algumas regiões do mundo. Aos seus ouvidos, era como se ele tivesse dito que estava planejando matar alguém.

- Mãe, nós já discutimos sobre isso... Eu nunca pensei que fosse acontecer comigo, mas é a vida. E você sabe muito bem a minha opinião. Louise pensa do mesmo modo.

- Vocês já pensaram que é uma vida que está crescendo na barriga daquela mulher?! E que nenhuma vida deve ser eliminada sem razão?!

- Mãe, se acalme... Não é uma coisa de outro mundo, as pessoas fazem isso sempre. É só por isso que esses casos são cada vez mais raros...

- Não me interessa o que os outros fazem! Se todos fazem errado, isso não justifica que você faça também!

Ela estava falando cada ver mais alto. E aquilo começava a enervá-lo.

- Não estamos fazendo nada proibido, nem prejudicando a ninguém...

- Como não? Vocês estão matando uma pessoa!

- Aquilo não é uma pessoa!

Pronto, ele havia ficado nervoso. Não agüentara a mãe gritando e falando para ele as mesmas coisas que já haviam discutido inúmeras vezes.

Ele suspirou e tentou retomar o tom sereno.

- Mãe, eu sei que você pensa diferente, mas eu sei, e todo mundo sabe, que não existe espaço para um defeituoso no mundo em que vivemos. Nunca teve, só que na sua época as coisas ainda não pareciam ser tão difíceis quanto são hoje. Eu sei que você estava louca por um neto, mas não é esse o filho que eu quero ter.

- Não é você quem escolhe o filho que vai ter... - ela estava lamentando, quase chorando.

- Eu sei que você pensa diferente, mas eu não vou prejudicar a minha vida pelo que você pensa. Eu sei que você sempre quis um neto, e você o terá em breve, sem dúvida... Mas não será esse tipo de neto.

Ela tentou falar em um tom mais baixo, suplicante.

- Meu filho, eu peço que você me ouça, pelo menos uma vez... Não se feche para o que eu vou falar... Eu sei que você não acredita, mas tem coisas aí que não podem ser compreendidas... Você deve senti-las... E eu te peço, meu filho... E para Louise também... Dêem uma chance para essa criança... Uma hora vocês vão sentir ela se movendo, chutando barrigas, e verão que sim, ela está viva... E que, não importa que tenha aquilo que os outros chamem de defeitos, ela será única... O produto do amor de duas pessoas... Ela é um pedaço de vocês dois, com o tempo vocês verão...

- Isso não vai acontecer, mãe.

- Por que, meu filho?

- Porque nós já interrompemos.

Houve uma longa pausa, enquanto ela absorvia aquela informação.

- ... já...?

- Sim, no dia seguinte aos exames. O médico nos deu o remédio e já foi tudo resolvido.

- Vocês... nem pensaram... a respeito?

- Para que, mãe? Não tem muito o que pensar. Para que dar continuidade a um problema, se hoje já temos como resolvê-lo tão facilmente?

- ...

As lágrimas surgiram nos olhos da mãe. Ela se ergueu, tentando ainda não perder o controle. Falou em um tom falsamente resignado.

- Tudo bem... Se vocês acham que era o melhor para vocês... O que eu posso dizer?..

E saiu do quarto.

Mas ele lia a última frase de um modo claro.

"Meu filho é um assassino".

Droga, era isso que ele queria evitar. Não tinha o menor problema com aquilo, mas sabia que sua relação com a mãe havia se alterado para sempre. Ela nunca mais o veria do mesmo modo, sabendo que ele era capaz daquilo que ela considerava uma atrocidade. Porém, não fazia sentido para ele sacrificar uma parte tão grande da sua vida por conta de outra pessoa. Ademais, quem era mais assassino? Não era pior quem tirava do mundo a vaga de alguém que poderia ter uma existência plena? Os habitantes daquela parte do mundo já haviam aprendido a lição: sacrifícios tinham que ser feitos. Em um mundo saturado, não havia espaço de sobra para sustentar a todos.

Arrumou suas coisas rapidamente e saiu sem se despedir de ninguém. Desceu as colinas, chegando na estação, onde o trem elétrico ainda estava sendo carregado para a próxima viagem. Devolveu a bicicleta, pegando sua caução de volta. Pegou um lugar na janela, observando o mar e as terras além. Não pode sentir mais do que raiva daquelas antigas morais que haviam contribuído para deixar o mundo tão caótico, e ainda proliferavam nas periferias do mundo. Um dia, talvez, eles achariam seu próprio caminho. Até lá, era melhor que ficassem lá, e ele aqui. Ilhas de riqueza e de pobreza, sem mais laços de falso altruísmo a ligá-las, assim como não existiam mais laços a ligar pais descontentes a algumas células problemáticas. Era esse o mundo que estava se formando e era o que lhe dava esperanças de um futuro melhor. Um mundo que admitia sua realidade, seu egoísmo e, assim, quem sabe, se tornava muito mais humano.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Trinta dedos enrugados

06 de abril de 2059

Estou enfraquecendo. Ontem conversei com o médico. Acabamos fazendo uma consulta por webcam. Sabe, essas tecnologias tem um sério problema: quando a câmera está na sua cara, não há como disfarçar. Ele sabe e eu sei: não vou longe. Deixei de lado o computador e peguei meu maço de cigarros. Nem o Malboro nem o café me abandonaram nesses últimos anos de solidão. 

Mais irreversível que a doença é a saudade. Todos os dias lembro meu avô. Homem bom. Fumava palheiro. Me deixava enrolar a palha quando meu pai não estava por perto. Consigo sentir o cheiro que ele deixava nas minhas mãos. Aliás, ele sempre dizia que eram parecidas com as mãos dele. Um dia eu perguntei por que as pontas dos dedos dele estavam enrugadas e ele sorriu. Me levou até uma torneira, deixamos minhas mãos de molho. Lembro de como os olhos dele brilharam quando ele disse que quando meus dedos também enrugassem, eu não me assustasse: era só água. 

Um dia ele desapareceu. Ninguém me explicou por que. Sempre que eu sentia saudades dele, ia até o banheiro, enchia a pia de água e deixava meus dedos enrugarem. 

A fumaça do cigarro é a desculpa perfeita pra um choro disfarçado. Finjo que me afogo, minha esposa – tão cuidadosa, minha Teresa – vem me acudir e eu peço um abraço. Choro como quando eu tinha seis anos e meu avô cuidava de mim. Peço um café e ela vai. 

O café é herança do meu pai, meu avô não era muito chegado, não. Mesmo com gastrite, meu pai nunca esquecia de deixar que o cheiro do café invadisse nossos quartos e nos desse bom dia. Era a certeza de que mais um dia chegaria e ele estaria ali. Um dia meu filho, neto dele, tomava café conosco e perguntou ao pé do meu ouvido porque as mãos do meu pai eram enrugadas. A cena me pareceu tão familiar e tão bonita, que eu não consegui explicar e disse que ele voltasse para o vídeo-game (na época a novidade era aqueles controles com sensor de movimento). 

Quando meu pai faleceu, há uns vinte anos, eu e meu filho paramos ao lado do caixão. Eu segurei a mão dele e o levei para o banheiro. Com as mãos enrugadas, nos despedimos do melhor homem que esse mundo já viu: meu pai. Entre lágrimas rolando no meu rosto, eu sorri. Estávamos iguais. Sempre seríamos iguais. 

Ontem meu neto veio aqui. Chegou com as mãos molhadas e enrugadas. Sentou ao meu lado e tomou café comigo, enquanto fingia fumar com uma caneta. Mudaram as coisas. Não sinto mais o cheiro dos livros, não sujo mais minhas mãos com jornal. Mas é na ponta dos meus dedos que está a prova que o tempo sempre passa e que tem coisas que não mudam. Nunca. 

Coletiva

“Ah, como começou. Acho engraçado vocês, jornalistas de hoje. Sempre com as mesmas perguntas. Não que no meu tempo tenha sido diferente, mas quando eu comecei a trabalhar nessa área sempre buscava perguntas mais difíceis, mais inteligentes. A idéia era cutucar sempre os entrevistados, sabe como é? Mas naquele tempo tudo era diferente. Existiam mais jornais na cidade. Até uns dois ou três. Além de rádios e televisões. A concorrência ainda era permitida naquela época. Mas tudo bem, vamos voltar à sua pergunta, mocinha.

Naquela época, o pessoal ainda lançava os livros só impressos. Os e-books eram vistos com maus olhos, era coisa de piratas, doía a vista pra ler. Daí a gente veio com essa coisa de projeto literário na internet. Era novidade na época. A gente morava numa cidade no interior de Santa Catarina, Blumenau. Vocês conhecem, né? Então... ninguém fazia disso lá. E a gente começou a escrever de brincadeira, só pra se exercitar. Isso ainda foi muito tempo antes dos patrocínios, dos prêmios, da cadeira na Academia. Pra você ter idéia, naquela época a gente não tinha nem layout no blog. Vê só, era tudo branco, aqueles padrões de quando se monta um site pela primeira vez, sabe? O Rodrigo sempre prometia que ia melhorar a cara do site, mas nunca fez. Só quando a gente conseguiu as verbas de patrocínio mesmo, que já montaram todo o site pra gente, sem a gente precisar fazer esforço.

Mas era assim, começou numa brincadeira entre amigos. A gente vivia querendo escrever, mas nunca tinha saco, nunca tinha tempo. Naquela época todo mundo trabalhava muito ainda. Era todo mundo ainda se estabelecendo nas carreiras. Quando a gente começou, o Félix nem tinha concluído o mestrado ainda, ainda morava no Brasil. O Rodrigo não tinha publicado nada até então. Mas ele já era meio gagá desde aquela época, sabe? Mas escrevia bem, o desgraçado. Agora não passa de um ranzinza, vivendo de direitos autorais.

É faz tempo que a gente não se fala. Todo mundo, na verdade. Sabe como é, né... a vida leva a gente pra lugares diferentes. Agora só conversamos vez ou outra pela internet mesmo. E tá todo mundo super bem, né. Ao menos eu acho. Faz tempo que não falo com o pessoal. Todo mundo publicado, premiado. O Floriano ganhou mais um prêmio esses dias, né? Vi no jornal. O dinheiro vem, né. Mas naqueles tempos, foram tempos difíceis. É uma história longa, que não dá de contar por aqui.

Mas tá vendo aquela livraria ali do outro lado da rua? Vai até e pede uma cópia do “Duelistas”. Sim, “Duelistas”, eu que escrevi. Há, faz uns 30 anos já, conta justamente essa história, de como tudo começou. Escrevi na onda da academia, né. É, quando vieram aqueles prêmios todos, eu aproveitei. Precisava da grana, sabe como é.

O pessoal não gostou, não. Até deu umas brigas por causa disso. A Marina nem olhava mais na minha cara depois de ler o livro. Mas tudo bem, ela sempre arrumava um motivo pra não olhar na minha cara de qualquer forma. Com o tempo a gente fez as pazes. Até lançamos um livro juntos. Sim, sim. Pô, podias ter feito uma pesquisa básica antes, né. É, pelo menos os nomes das obras. Ô pessoal, ajuda a mocinha ali.

Mas então, a gente veio aqui pra falar sobre o lançamento do filme, não veio? Vamos lá, então. Podem perguntar”.

domingo, 5 de abril de 2009

O texto inacabado

Manifestantes em Caracas entraram em confronto nesta semana com a polícia local, durante o Encontro Sulamericano de Nações. O motivo seria um movimento pelo fim do embargo de Washington, que já dura desde o regime chavista. A proposta apresentada nesta semana por uma sociedade civil venezuelana, propunha o fim gradual do bloqueio comercial, como feito com o bloqueio que vigorou sobre Cuba durante o primeiro regime castrista. A proposta repercutiu em todo o mundo ganhando apoio por parte da União Européia e do Mercosul. O ministro de Relações Exteriores ressaltou que o apoio à proposta é um dever de qualquer nação sul americana “Especialmente no mês em que comemoramos os cinco anos do Peso Real”, reforçou o ministro em referência à moeda única do Mercosul. Autoridades venezuelanas também buscam apoio na comunidade internacional e exigem o fim do

O som dos manifestantes e os gritos o impediram de terminar o texto. Dentro do café os clientes curiosos se amontoavam nas vitrines e na porta, assistindo de longe a ação policial. Fechou o computador, guardou-o no bolso e pediu a conta à garçonete. Uma venezuelana bonita, de rosto arredondado, olhos um pouco puxados, cabelo escuro amarrado num coque. Ela trouxe o leitor, ele passou o celular em frente ao visor e conferiu o valor debitado. Saiu sem olhar para trás, pensando em um lugar mais tranqüilo para escrever.

Ao sair pela porta viu as pequenas colunas de gás lacrimogêneo, a turba dispersa pela tropa de choque. Seguiu caminho a uma distância segura da confusão até encontrar um táxi. Um modelo meio antigo, ainda movido a gasolina, combustível ainda comum na Venezuela. Incomodou-se quando o motorista deu a partida, desacostumara-se dos motores barulhentos e do cheiro do combustível queimado. O moreno atarracado no volante, já com o carro posto em movimento, olhou pelo retrovisor e perguntou a direção. Ao ouvir a resposta olhou para trás e perguntou: “brasileiro?”.

A jovem correndo rolou por cima do capô, o ombro trincando o vidro enquanto uma placa “abaixo do bloqueio” entrou pelo para-brisas e parou no banco do carona. O motorista freou rápido com o choque e moça foi arremessada no asfalto. Quando o homem virou novamente para o banco traseiro, com olhar assustado, viu apenas a porta aberta e seu passageiro entrando por uma ruela a passos rápidos. Ao virar-se para a frente pôde ver um círculo de manifestantes ao redor da moça estirada no chão, um grupo correndo em direção ao táxi com placas e pedaços de pau e uma garrafa chamejante voando em direção ao vidro já estilhaçado do táxi amassado.