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quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Votação: Conto do passado

Está aberta a votação da 31ª rodada do Duelo de Escritores!

Pra quem ainda não sabe, o voto do público é quem decide o vencedor do Duelo. Basta comentar neste tópico indicando seu texto preferido. 

A votação vai até o dia 20 de agosto. Então, vote! 

Dívida amarga

A França vivia quase meio século de prosperidade. O clima favorecia a agricultura, alimentando uma população crescente, os trabalhos artesanais progrediam fortalecendo o comércio entre os cidadãos e a moeda se mantinha estável. Com a melhoria das estradas, o comércio entre as vilas começava a progredir lentamente.

Nem tudo corria bem, entretanto. Enquanto monarcas se banqueteavam com faisões e porcos defumados, o povo não participava igualmente dessa prosperidade. Os pesados impostos cobrados pelo Estado recaíam sobre as classes populares, como a família de Frimas, jovem artesão que vivia com esposa e os dois filhos gêmeos, Alexandre e Rouben.

Foi exatamente no dia do aniversário de nove anos dos filhos, que dois homens vestindo roupas da guarda real bateram à porta do casebre que abrigava a família de Frimas. Feliz pelas comemorações do aniversário dos garotos, o jovem não raciocinou antes de abrir a porta e dar de frente com os homens que já o procuravam a semanas. Um golpe firme, porém contido, atingiu Frimas na altura do joelho, fazendo com que seu corpo caísse de lado em frente à casa.

Antes mesmo que pudesse pensar em se levantar, um pé o impelia em direção ao solo, colocado sobre sua cabeça. A ponta de lança apontada em direção a seus olhos servia como um último convencimento. O outro homem invadiu a casa, caminhou com passos firmes em direção à mesa onde os garotos protegiam-se agarrados à mãe.

- Por favor, nós vamos pagar! Nós vamos conseguir o dinheiro! – chorava a matriarca, provocando soluços nos dois pequenos.

As costas da mão direita do guarda atingiram com força o rosto da magra mulher. Rouben, um dos garotos, correu em direção à estante, onde agarrou um saco de moedas e correu porta afora. Afoito, olhava para trás quando atingiu com força o corpulento soldado que aguardava do lado de fora da porta de entrada do casebre. Com a pancada, caiu ao chão e deixou cair de suas mãos o pequeno saco de couro, que espalhou algumas poucas moedas pelo terreno arenoso da propriedade.

Com uma risada, o guarda apanhou o pequeno recipiente das moedas. O menino levantou-se e correu em sua direção, mas um empurrão o lançou longe. O momento de distração foi o suficiente para que Frimas girasse o corpo e lançasse o guarda ao chão. Chutou-lhe a cabeça sem piedade, fazendo voar longe o chapéu preto. Antes do segundo chute ser desferido, o segundo guarda chega na porta pronto para impedi-lo. Frimas ergue os braços, rendendo-se, mas o guarda corpulento que se levantava cravou a lâmina fria de sua adaga entre as costelas do artesão.

O pequeno Alexandre deu um grito e correu na direção dos guardas, com uma velha faca de cozinha em mãos. Os homens entraram no casebre, abandonando o corpo já inerte de Frimas no chão. Um dos guardas segurou o menino e o desarmou, enquanto o outro fechava a porta e partia decidido em direção da esposa de Frimas.

O pequeno Rouben agarrou o saco de moedas, que havia caído no momento da briga, e abraçou seu pai pela última vez. Arrancou o cordão que Frimas levava junto ao pescoço e colocou em seu bolso. Olhou uma última vez sobre seu ombro direito, com o rosto já coberto de lágrimas e jurou vingança enquanto corria para a segurança das matas, sob os gritos que tomavam o afastado vilarejo.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Encanto

Os passos eram simultaneamente decididos e amedrontados. A curiosidade e a excitação em descobrir o que aquela mulher escondia por trás da portinhola da velha casa tornava a respiração ofegante, e as tochas oscilavam. Ela era uma espécie de sereia, que aproximava qualquer homem que quisesse. Elas tinham inveja e resolveram que ela sumiria por uns tempos, até que elas descobrissem o que havia por trás de tamanho poder.

Enquanto três entravam no recinto, duas, a espreita, observavam o movimento. Na vila viviam não mais do que trezentos ou quatrocentos habitantes. Os cavalos dormiam e seus pais jamais imaginavam mulheres fora de casa àquele horário. Elas precisavam descobrir o encanto por trás de uma moça tão simples, que conseguia atrair os olhares de todos os seus pretendentes.

Já no primeiro armário, encontraram velas usadas. Vermelhas, amarelas, brancas e negras. As três se olharam, incrédulas. “Ela deve usar as luzes das velas para ficar nua na frente deles”. Um suspiro de surpresa quase fez com que gritassem. Respiraram fundo. Continuaram.

Um pouco a frente, num tacho de madeira, algumas peças de roupas. Com a ponta dos dedos, uma delas levantou uma das ceroulas que estavam jogadas no local. Os olhares falaram muito mais do que palavras. Já tinham pensado que ela pudesse ficar nua na frente dos homens, mas jamais tiveram a ousadia de imaginar que eles também poderiam estar sem roupas.

Uma delas apontou para um canto da casa. Cristas de galo, pêlos de cachorro, garrafas de colônia, essência de cravo. Tudo ali, em vidros pequenos recipientes, separados e com identificação. Soltaram um grito. No susto, a tocha se aproximou de uma parede coberta de bonecos cheios de pedaços de madeira fincados em diversas partes do corpo. Se entreolharam. Sem dizer uma só palavra, esforçaram-se para não amassar os vestidos ao sair.

Fecharam a porta. Os passos ainda mais amedrontados, e ainda mais decididos. Elas tinham descoberto que o segredo da conquista ia muito além das curvas do corpo feminino e do poder de um belo sorriso. Elas tinham descoberto a ação. E a ação é a arte milenar da conquista.

Retratado

Sebastian deslizava entre as sombras dos oito graus de temperatura da noite parisiense. O vento gelado trazia o burburinho de uma Paris borbulhante como espumantes em taças de cristal, que logo mais brindariam o novo ano. O capote marrom grosseiro, protegia o corpo do frio enquanto as luvas sem ponta, de lã surrada, tentavam cobrir os dedos. Uma boina velha e acinzentada como a cidade cobria a cabeça e um cachecol xadrez escondia a barba de subúrbio francês. No escuro, por trás de arbustos ásperos como o olhar dos transeuntes com quem cruzava diariamente, agarrou-se à grade de ferro ornamentada com folhas e ramos de metal retorcido. Escalou sem dificuldade e lançou-se ao jardim bem cuidado. Encoberto pelas plantas, alcançou a janela aberta. Num salto, deixou para trás o frio e moribundo dezembro.

Lá dentro, um chama esquálida equilibrava-se no alto de um candelabro de prata ao lado da janela, iluminando o quarto feminino que abrigava a vanguarda da decoração do século XIX. O casaco de peles sobre uma cadeira, a tapeçaria rebuscada, os babados das cortinas, a grande penteadeira com o espelho emoldurado. Sebastian, destoando daquele quadro, não se preocupava em ser discreto. Àquelas horas, o quarto permaneceria vazio enquanto os salões de baile estariam lotados de damas e cavalheiros, música e risada, todos aguardando o último suspiro do ano moribundo, o último descendente do século XIX. Sobre a cama de cabeceira entalhada, a colcha delicada acolhia algumas almofadas. Sob uma delas, uma ponta de couro marrom espiava o intruso. Sebastian removeu a almofada revelando um pequeno volume de couro com as iniciais V.W. grafadas na capa. Uma rosa seca marcava uma das páginas. Com uma delicadeza que contrastava com os dedos rudes, o invasor removeu a rosa pousando-a com cuidado sobre uma das almofadas e abriu o pequeno caderno. No alto da página, a data revelava o dia anterior com um “30 de dezembro de 1900” na grafia delicada de mulher. Abaixo, a primeira frase destoava da delicadeza da grafia: “Não foi a doença que matou meu pai. Foi Paris”. A frase capturou o suburbano mais do que a prataria do quarto. Aproximou-se com o diário da vela e quedou-se curioso à leitura.

“Não foi a doença que matou meu pai. Foi Paris. Não foi de mazela no corpo que padeceu meu pai. Foi de uma ferida na alma, mal cicatrizada e cutucada. Ele que deu tanto a vocês. Que trouxe para cá aqueles olhos envolventes, a língua astuta. Ele que lhes mostrou a beleza, que lhes desvendou um novo mundo. E é assim que Paris retribui. Mas quem sou eu, não é? Agora não passo de uma mulher sem importância para vocês. Ah! Mas vocês já aplaudiram Uma mulher sem importância, não é? Cyril estava certo. Paris não o merecia. Nenhum de vocês. Chegará o dia em que vocês irão atrás dele. Mas quando o encontrarem, em alguma praça, vão receber de volta o mesmo olhar pétreo que dedicaram a ele nestes últimos anos. Mas dessa vez é ele quem os olhará de cima. Ah, Paris! Aproveite amanhã que amanhã é o último dia. O último suspiro de um século que já terminou há um mês. Pois foi há trinta dias que morreu o século XIX. E vocês, que amanhã estarão uivando em vestidos de baile pelo século que se vai, vão todos com ele. Todos vocês se vão. E você também se vai, Paris. E não há retrato que lhe impeça o envelhecer. E quando o século se for, meu pai vai lembrar de vocês e vai cantar feito rouxinol. Ele cantará enquanto todos vocês se forem. Vocês e o maldito Queensbery. Todos vocês que lhe roubaram a dignidade, a saúde, o próprio nome! Vocês que o enfurnaram num casebre. Numa cela! Ah, Paris. As suas vaidades de vapor e fumaça escondem as suas manipulações. O retrato não é de um homem. O retrato é seu, Paris. E estás presa a ele como a um cárcere. Um cárcere muito mais duradouro que Reading, um cárcere sem balada, sem canção. Ah, Paris. Meu pai disse que não existe livro moral ou amoral. Agora que ele se foi, eu percebo. É pena que o mesmo não valha para uma cidade. Já morreu o século XIX. E o seu retrato, Paris, foi rasgado.”

Sebastian recolocou a rosa com cuidado na página marcada. Escondeu novamente o caderno sob a almofada e dirigiu-se novamente à janela. Sentiu no rosto o vento frio soprar as últimas horas do século XIX, fazendo a chama quase despencar do candelabro de prata. Olhou a cidade além das grades. Os casacos de pele, os coches, a fumaça das piteiras. Ao longe o vapor de uma nova invenção que ele mal entendia soava barulhento. Olhou de longe a almofada que escondia o caderno, tornou a olhar para a cidade. Baixou os olhos e suspirou o ar frio com esforço. Soprou a chama que se agarrava ao pavio, tomou o candelabro partiu de volta à cidade.

Momento de fúria

Caminhava sozinho pelo deserto que, alguns milênios depois, receberia a mais brilhante das maravilhas construídas pela humanidade. Já andava há alguns dias e não sabia mais para onde estava indo. Nem imaginava que aquela terra abandonada nos arredores do Rio Nilo se tornaria uma das maiores metrópoles do mundo em pouco mais de oito milênios. Seus mantimentos se tornavam escassos, pois não planejara viajar por tanto tempo.

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Depois de mais algumas rotações da Terra, não lhe sobrava nada além de farinha. Por sorte, não desperdiçara nem uma gota d’água sequer. Até que num desatino, num momento de profunda loucura e desespero, resolveu misturar o que lhe restava. Esmagava aquela massa e batia como se quisesse matar alguém. A raiva possuía seu cérebro, que já não conseguia mais raciocinar nem por um segundo.

E foi assim que nos tornamos reféns dele. Não sobreviveu para ver as Pirâmides de Gizé se erguerem ou a cidade de Cairo chegar a cerca de sete milhões de habitantes, mas a obra de sua fúria ficou pra contar história. Sobreviveu a todo tipo de adversidade. Colocaram sobre ela algumas ervas. Depois veio o queijo, o tomate, a calabresa e até chocolate. Hoje, ele se vangloria por tê-la inventado. Mesmo não recebendo os devidos créditos, sabe que foi o seu momento de loucura - minutos antes da falência total de seus músculos - que proporcionou ao mundo toda a genialidade dos rodízios de pizza e da tele-entrega.

Procrastinado

16/09/08

Elas se unem, giram, se agarram e se retorcem. Abraçadas, deixam de ser várias para ser só uma. Começam uma dança magnífica, chamando para bailar as distintas companheiras que as cercam. Movimentos precisos, impecavelmente dentro do tempo. Mas logo se sentem sozinhas em meio às outras, que não seguem os seus passos com a mesma dedicação. Então chamam-nas para uma valsa diferente, corpos colados com nunca, uma intimidade indiscreta. E então uma são duas. A dança é bela, todas agora querem aprender. As pacientes professoras as ensinam. Em breve, tudo é um minueto harmônico em meio ao caos. Nuas e livres, sentem frio e medo, até que uma tem a idéia genial. E os salões de baile então se lotam de belas dançarinas, professores e aprendizes, mães e filhas. Uma mãe, no entanto, tem uma filha estranha. Sua dança é muito rápida, ninguém mais a acompanha. A mãe, assustada, rejeita a própria sucessora. Mas logo não há mais mães, apenas filhas. E netas. Netas que um dia serão as filhas, e filhas que seguirão o caminho das mães. De não-vivo a vivo em um rodopiar de valsa. Mas não há dança, não há alma, não há deus. Apenas o começo prosaico de uma longa caminhada.