sábado, 17 de maio de 2008
O mundo da Lua
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Diáspora
Escrever um conto que não se passe na Terra... Só podia ser coisa dele mesmo. Deve ter feito de propósito. Tá certo, tudo bem, todos os meus contos têm mesmo se passado na Terra. Podia mesmo dar uma variada.
Mas em que outro lugar eu teria um céu tão azul, que perto do fim da tarde cora de vergonha das estrelas. Esse nosso céu não tem essa humildade. É sempre escuro e taciturno, constante e imutável mesmo frente à luz das estrelas. E em que outro lugar, senão na Terra, o vento sopra daquele jeito. Aqui não há vento. Só o ar estático, reciclado, regurgitado por uma abertura de metal.
Se escrevo sempre contos que se passam na Terra, é porque lá todos os contos ficam mais interessantes, mais vivos, mais coloridos. E desde que estamos aqui, tudo é tão cinza... Então, se de dentro de um cubículo de metal, encerrado no meio do nada, cercado sempre pelas mesmas e poucas pessoas eu puder voltar e rever, mesmo que nas letras, aquela paisagem e aquelas pessoas, que seja assim.
Mas ele tem razão. Deve mesmo ser bom dar uma variada. Afinal são as regras do jogo. Além do mais tenho que começar logo esse texto pra apresentar na próxima rodada. Já to atrasado. Mas ainda assim prefiro os contos na Terra. É uma pena o que fizemos com ela.
Enfim, há um conto a se fazer. Mãos à obra.
Trote
Viro a primeira esquina. Fora a luminosidade, parece um quarteirão qualquer do bairo em que morávamos. Encontrei dois meninos correndo em minha direção. Eles corriam de um jeito todo estranho e eu ainda não tinha me acostumado com aquelas roupas que usávamos. Me dava vontade de rir. Quando chegaram perto de mim, pararam e perguntaram em uníssono.
- De onde você é?
- De São Paulo - respondi prontamente.
- Vem com a gente.
O sotaque me fez imaginar que eram cariocas, mas não tinha certeza. Corremos daquele jeito esquisito até uma quadra poliesportiva.
- Vamos jogar basquete. Concurso de enterradas. O que você acha? - perguntava o mais extrovertido.
- Eu não alcanço a tabela.
Desanimei. [...] Um deles pegou a bola, encostou contra o peito, passou por entre as pernas e saltou. Nunca tinha visto um salto daqueles. E que enterrada! Principalmente para uma criança com não mais do que 10 anos.
- Sua vez! - Apontaram pra mim, já passano a bola.
- Não consigo pular assim.
- Tenta. Vamos ver até onde você vai. Pula com toda a força.
Me sentindo intimidado, aceitei o desafio. Peguei a bola, apertei-a com firmeza e me lancei ao ar. A cesta estava na altura oficial, assim como todas as dimensões da quadra, exceto pelo teto meio baixo. Foi exatamente nesse teto baixo que tiveram que me buscar minutos depois. Minha cabeça ficou presa entre as telhas que eu acabara de quebrar, mas aprendi na prática a diferença da gravidade entre a Terra e minha nova morada.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Segunda Vida
Fabíola Willow atraía todos os olhares por onde passava. Linda, não andava, desfilava. Chamá-la de linda, porém, não seria compatível com sua verdadeira beleza. Fabíola Willow era maravilhosa, estupenda, uma divindade.
Suas curvas perfeitas foram desenhadas cuidadosamente por um artista, seus longos cabelos louros balançavam ao vento, tão lisos quanto nenhuma chapinha poderia criar. Os pés, num salto alto absurdo, eram pequenos e delicados, que não pareciam conseguir sustentar todo o seu 1,78m de altura. Mesmo assim, ela desfilava, deslumbrante, pelas avenidas, atraindo olhares, piscadelas, sorrisos e cantadas. Não havia sequer uma pessoa que não torcesse o pescoço quando Fabíola Willow passava. Os homens, para admirar seus mais diversos ângulos, as mulheres, para destilarem seu veneno sobre a artificialidade de sua forma física.
Seu perfil denunciava: Fabíola fugira de casa aos 16 anos, e a única forma que encontrou para se sustentar foi como dançarina de cabaré. Ela gostava de dizer “dançarina de cabaré”, mesmo todos sabendo o verdadeiro significado de sua prostituição. Mas a realidade é que a beleza de Fabíola não surgiu com o passar dos anos, acentuando suas formas femininas ao final da infância. A beleza de Fabíola era toda artificial, implantada.
O quadril foi desenhado meticulosamente, sem nenhum defeito, assim como os seios avantajados, apontados para os céus. A pintinha que trazia ao lado da boca também era artificial. Foi colocada ali justamente para dar um charme a mais, modificar o rosto perfeito e torná-la mais humana. Tudo para ajudar Fabíola na diversão de conquistar e dominar os homens.
Ela entrava em suas mentes, dominava por completo seus instintos e os fazia urrar de prazer, enquanto tremiam em suas salas de luzes apagadas. Ao final do encontro amoroso, ela deixava um beijo no espelho do banheiro e sumia com suas carteiras e senhas de banco.
Não que Fabíola precisasse disso para viver ou se sustentar. Fabíola era Miss South America, ganhava rios de dinheiro para vestir marcas famosas ou comparecer em inaugurações de lojas e coquetéis. Ela disputava o Miss World com outras cinco concorrentes e era sem dúvidas a mais bela de todas.
Mas enquanto passeava calmamente pelas calçadas de sua ilha favorita, nos dias de sol seguidos, sempre perfeitos e sem nuvens no céu, Fabíola tinha que sustentar a razão de sua existência. Seu cafetão, seu dono, seu mestre. Por onde Fabíola ia, rebolando ao som de uma música que só ela ouvia, Rafael ia atrás. Todo homem que Fabíola conhecia em seus passeios noturnos, Rafael anotava seus nomes, telefones e IPs.
Todo momento de intimidade que ela dividia com suas vítimas era monitorado de perto pelo rapaz de pele clara, cabelos ruivos, barriga sobressalente e óculo de aro. Rafael a acompanhava por onde quer que fosse. Escrevia seus discursos e decidia por ela qual a melhor resposta para a ocasião. Era ele que escolhia suas roupas, o seu penteado, o tom de seu bronzeado e até mesmo o tamanho de seus seios.
Era ele que invadia as contas bancárias reais dos relacionamentos virtuais que sua Fabíola Willow mantinha. Era ele que transformava noites de prazer em dinheiro para novas placas aceleradoras e monitores de LCD. Era ele que ria às custas dos solitários virtuais, e que passeava pelas praias mais cobiçadas do mundo, com um biquíni minúsculo, atraindo olhares e desejos, da cadeira envelhecida do seu quarto, enquanto sua mãe dormia a poucos metros dali.
terça-feira, 13 de maio de 2008
Relatividade
De um momento para outro, um ponto brilhante se tornou visível no solo do planeta desolado. Com o passar das rotações, foi se tornando mais forte, e em um dado momento passou a acompanhá-las, progressivamente se aproximando do planeta. Finalmente, sua órbita o deixou próximo o bastante para uma mudança inesperada de rumo. Uma parte se destacou e perdeu-se no espaço, enquanto a outra se dirigiu velozmente à superfície. Sem clarões ou estardalhaço, pois a atmosfera era rarefeita demais para opor alguma resistência ao objeto. Sua velocidade foi diminuindo e a trajetória sendo ajustada por curtos jatos de matéria, expelidos por pontos estratégicos em sua estrutura. Por fim, com um impacto considerável, tocou as rochas inertes e parou.
O objeto se assemelhava a um grande cilindro metálico, com diversas suturas e orifícios por toda sua superfície. Permaneceu inativo por alguns instantes, antes de ser tomado por frenética agitação. Um painel se estendeu do interior, captando a pouca luz que recebia da estrela próxima. As suturas se abriram, revelando uma profusão de instrumentos, incluindo uma longa haste voltada para o céu. Embora o conjunto parecesse extremamente frágil em meio à vastidão, mal se mexia. Ali não havia ventos para pressionar e torcer estruturas delicadas.
Imediatamente, uma enxurrada de informações começou a se deslocar dos sensores para a célula de armazenamento. O planeta carecia de atmosfera densa, envolvido apenas por uma leve aragem de hélio e outros gases leves. Uma perfuratriz penetrou no solo, descobrindo grande riqueza de sílica, ferro e chumbo, com baixos teores de carbono, nitrogênio e oxigênio. Uma grande lente transparente registrou a paisagem, monótona e desprovida de acidentes. Nenhum despenhadeiro, cordilheira ou vale, apenas grandiosas e ocasionais crateras, cicatrizes de antigos golpes astronômicos. Combinada com a ausência de intempéries, a crosta plana indicava baixíssima atividade geológica no interior. Os dados se acumularam na célula e, num momento posterior, quando a rotação deixou a antena alinhada para um determinado setor no céu, jorraram rumo ao vácuo, para uma longa e fria jornada.
O tempo passou. Nenhuma mudança foi percebida, fora as variações esperadas pelo girar do planeta em torno de si mesmo e da sua estrela-mãe. Num ponto extremamente distante dali, há anos no futuro, o planeta foi considerado morto, e as informações provenientes da sonda se tornaram apenas mais uma entrada num banco de dados, processadas por um sistema automático. Ela seguiu seu trabalho, impassível, por mais algumas dezenas de translações, antes de um pequeno dispositivo cessar seu funcionamento e o painel deixar de captar energia. Afora uma pequena luz vermelha que se apagou em um instrumento, o objeto permaneceu o mesmo, enquanto o planeta seguia seu moroso caminho em torno da estrela. Dezenas de vezes. Milhares. Milhões.
* * *
Uma suava mudança ocorreu no arranjo de cristais de um veio mineral.
- Ei, Drark, percebeu alguma coisa?
- Não, Zetsz, o que foi?
- Nada, só uma coceira na cabeça.
- Que estranho. Ainda está aí?
- Não, durou só alguns instantes.
- Então relaxa. Não há de ser nada.
- Será que alguma coisa caiu em cima de cim?
- Cair? De cima? Você está delirando, Zet.
- Não, eu poderia jurar que sim. Vou ali dar uma verificada.
- Que perda de tempo... Mas tudo bem, eu te espero.
Zetsz deparou-se com o bizarro objeto metálico, diferente de tudo o que já havia percebido. Intrigado, resolveu investigar mais a fundo. Porém, durante sua pesquisa, percebeu que a energia vinda da estrela começou a crescer, a uma velocidade realmente alta. Alarmado, resolveu abandonar a curiosidade e ir avisar Drark. Antes de conseguir chegar, a estrela explodiu e se tornou supernova, engolindo o planeta. E a sonda. E Zetsz.