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sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Prelúdio da aceitação
Estás presente em mim,
mas de um jeito diferente.
Já não pesa ante meus olhos
cada história comovente.
Se és linda lá fora,
também o és em minha mente.
Cada palavra que te escrevo
faz sentido de repente.
Mesmo tempo que te afasta
é aquele que se sente.
Sorte não reclamo
mesmo te vendo ausente.
E o destino que, hora choca,
noutra se mostra clemente.
Logo céu se abre,
indubitavelmente.
O que é lembrança triste,
apague piedosamente.
Se outra chance não demora
a pairar em minha frente,
vejo e sinto que és passado e,
assim sendo, agora deixo-te ir
(sutilmente).
"Faixa bônus" (ou: o texto que seria postado caso o de cima não fosse...)
Epitáfio
Aqui jaz alguém que observou e registrou,
mas nunca esqueceu de interagir
mas de um jeito diferente.
Já não pesa ante meus olhos
cada história comovente.
Se és linda lá fora,
também o és em minha mente.
Cada palavra que te escrevo
faz sentido de repente.
Mesmo tempo que te afasta
é aquele que se sente.
Sorte não reclamo
mesmo te vendo ausente.
E o destino que, hora choca,
noutra se mostra clemente.
Logo céu se abre,
indubitavelmente.
O que é lembrança triste,
apague piedosamente.
Se outra chance não demora
a pairar em minha frente,
vejo e sinto que és passado e,
assim sendo, agora deixo-te ir
(sutilmente).
"Faixa bônus" (ou: o texto que seria postado caso o de cima não fosse...)
Epitáfio
Aqui jaz alguém que observou e registrou,
mas nunca esqueceu de interagir
(sem título)
Despeço-me e (des)peço-te: pare (não dispare, não repare). O primeiro passo depois do adeus não é o fim: é o começo de uma nova despedida.
De deuses e adeuses.
Um adeus nunca é a deus. Seja pela improbabilidade da partida ou da prévia chegada. Seja pelo nunca ir ou pelo nunca ter estado, a deus não há adeus. Os adeuses são todos ateus, independente da crença de quem os dá. Como se no adeus não se precisasse acreditar em mais nada, além do próprio adeus. Nele, acredita-se piamente. O temos ali, à frente, provado, escarrado e escrito. Ou acenado, lacrimejado. Mas o adeus o temos ali.
Mas logo, o próprio adeus dá adeus. Vai-se. Não temos nada mais, então, no que acreditar. Exceto, talvez, que inventemos algo. Porque os adeuses são breves e efêmeros como nós. Talvez por isso acreditemos tanto neles; para que possamos acreditar em nós mesmos. Os adeuses nos são muito mais próximos que os deuses. Os adeuses são nossos; e como nós. Imagem e semelhança, diríamos, se não o tivéssemos dito antes a outro que não ao adeus.
Nem por isso nos despeçamos dos deuses. Mesmo porque, visto que a eles não existem adeuses, seriam estes desnecessários e insignificantes. Os adeuses, digo. Há algo no adeus que escapa mesmo a deus. É ao adeus que estendemos a mão e acenamos, cabeça erguida em felicidade ou tristeza. Só quando o adeus se vai é que baixamos a cabeça e nos recolhemos a nós mesmos, rememorando, lambendo as feriadas ou saboreando um passado recém saído da pupa do presente.
A deus dá-se o contrário. Quando está presente — se alguma vez esteve, e deve ter estado, se não mentem os dois pelados em torno da árvore das iscas proibidas — é que baixamos a cabeça. Não há acenos, estender de braços ou olhares elevados. Há silêncio e olhos ao chão. Como procurando por algo que emane lá de baixo, que lá se esconda, e que nos atrai ainda mais quando contrastado pela presença divina. Só tornamos a erguer a cabeça quando deus se vai. E tornamos a erguer o braço, seja para baixá-lo com violência, seja para apontá-lo a alguém, seja para buscar algo que pareceu-nos extraviado de repente. Jamais em adeus. Porque o adeus é nosso para darmos a quem quer que seja. Exceto a deus, que ele, a nós, o deu muito antes.
Mas logo, o próprio adeus dá adeus. Vai-se. Não temos nada mais, então, no que acreditar. Exceto, talvez, que inventemos algo. Porque os adeuses são breves e efêmeros como nós. Talvez por isso acreditemos tanto neles; para que possamos acreditar em nós mesmos. Os adeuses nos são muito mais próximos que os deuses. Os adeuses são nossos; e como nós. Imagem e semelhança, diríamos, se não o tivéssemos dito antes a outro que não ao adeus.
Nem por isso nos despeçamos dos deuses. Mesmo porque, visto que a eles não existem adeuses, seriam estes desnecessários e insignificantes. Os adeuses, digo. Há algo no adeus que escapa mesmo a deus. É ao adeus que estendemos a mão e acenamos, cabeça erguida em felicidade ou tristeza. Só quando o adeus se vai é que baixamos a cabeça e nos recolhemos a nós mesmos, rememorando, lambendo as feriadas ou saboreando um passado recém saído da pupa do presente.
A deus dá-se o contrário. Quando está presente — se alguma vez esteve, e deve ter estado, se não mentem os dois pelados em torno da árvore das iscas proibidas — é que baixamos a cabeça. Não há acenos, estender de braços ou olhares elevados. Há silêncio e olhos ao chão. Como procurando por algo que emane lá de baixo, que lá se esconda, e que nos atrai ainda mais quando contrastado pela presença divina. Só tornamos a erguer a cabeça quando deus se vai. E tornamos a erguer o braço, seja para baixá-lo com violência, seja para apontá-lo a alguém, seja para buscar algo que pareceu-nos extraviado de repente. Jamais em adeus. Porque o adeus é nosso para darmos a quem quer que seja. Exceto a deus, que ele, a nós, o deu muito antes.
Suprema hipocrisia
Este é o texto que eu jamais escreveria. Porque, ao chegar o momento final, não me importaria coisa alguma deixar algo para o que viesse depois. Não passaria de um agrado momentâneo enquanto a mente ainda funcionasse. À posterioridade, que se dane.
O pensamento sobrepuja os desejos. Muito se fala de como a racionalidade pode ser devastada pela emoção. Mas pouco sobre o caminho inverso. O raciocínio pode mudar as emoções. A objetividade pode sobrepujar a subjetividade. A razão pode matar a emoção. Como se houvesse alguma realidade nesse dualismo artificial. Pensamentos podem sobrepujar outros pensamentos, e pronto. Sejam pensamentos sobre a vida, o universo e tudo mais, ou pensamentos de te amo e te odeio.
Faz muito tempo que uma trilha alternativa foi tomada. Não foi na filosofia tradicional, não na leitura de tomos complicados, ou no diálogo com pares em um nível superior. O estranhamento nasceu em algum ponto além-lembrança. Desde a mais remota evidência da arqueologia pessoal, havia alguém que voluntariamente se afastava. Que se saturava de companhia, fosse inconveniente ou dos mais queridos amigos e parentes. Aquele pequeno ser que, na hora do sentar à mesa nas festas, pegava seu prato e ia sentar em algum canto afastado. Não por exclusão. Não por antipatia. Apenas por vontade.
A dúvida sempre esteve ali. Afinal, aquele que a tudo questiona, não deixará de questionar a si próprio? Evasão? Fuga? Medo? Ou diferença? Em um sistema complexo como uma mente humana, nunca há desvinculamento de conceitos. Há uma fonte, mas ela se perde em meio às suas consequências. O produto final é a diferença. O estranhamento. A misantropia egoísta e elitista que gera o senso de desajuste. Esnobe, em aparência. "O intuitivo sensitivo pensador julgador irradia uma aura de segurança que pode ser tomada como simples arrogância pelos menos decisivos, mas tem origem em sistemas de conhecimento especializado que começar a ser construídos cedo". Psicologia jungiana. Citar um nome conhecido sempre reveste com uma aura de autoridade a declaração de conhecimentos pré-adquiridos.
Para o observador, não há sentido em um monólogo intrínseco se não são feitas relações com o mundo exterior. Uma pessoa só interessa a outra pessoa quando serve de reflexo a si mesma. Hei de me prender a esta limitação em meu epitáfio imaginário, pois minha mente já há tempos não consegue se contentar com a idiotice travestida de beleza. Ela procura lógica onde lógica não há, na fantasia, na literatura, nos devaneios. Por que o personagem fez a escolha? Por que nasceu o mal de um Criador sem maldade? Por que aquele verso está ali? Falta de sentido é estupidez. Não importa o quão floreada esteja.
Como uma vida consegue lidar com todas suas hipocrisias intrínsecas? Como pode conviver consigo mesma, sendo incoerente em cada instante? Só sendo cego de pensamento, uma cegueira que nunca é de nascença, antes mais um fechar de olhos ou uma cabeça enfiada no buraco. Abençoados ou amaldiçoados? A ignorância pe uma benção? Nunca para aquele que já a deixou para trás. Que ainda se satisfará com piscares, mas sempre se forçará a abrir os olhos e fitar a luz. Mesmo que o Sol queime suas retinas.
O diferente aprendeu a mascarar seu deslocamento. Consegue muito bem sorrir e concordar. Apenas o mais perceptivo verá o ocasional olhar nublado, ou o suave e desprezante arqueamento de lábios. Todo deslocado se sente superior? No fundo, ele sentirá algo parecido. Mas sabe que superioridade não existe, pois melhor e pior fazem parte da cegueira. Secam, morrem e definham sob a luz. Diferença não é superioridade. Há compensações. Negativas e positivas. É possível ser profundamente pensador e profundamente sociável? A máscara pensa que sim. O demônio interior sabe que não.
A diferença leva ao isolamento. Ou o isolamento leva à diferença? Pergunta capciosa. Há alguma origem. É possível isolar uma variável? Felizes aqueles que possuem registros independentes das lembranças, sempre distorcidas pelo tempo. Havia a diferença. Nasce o isolamento. E inicia-se a retroalimentação.
De nada a lugar nenhum a vida leva, e um momento de despedida só pode evocar o fantasma do "e se?". Admirável como a mais tola de todas as perguntas, e continuará sendo enquanto não for possível retorcer o tempo, é também a mais evocada. Há um tênue limite entre a utilidade como aprendizado e o masoquismo pessoal. Definitivamente, não é às portas do inferno que se ficará no primeiro lado da linha.
Havia algum ponto-chave na estrada? Sempre será uma teia de fatos e relações. Mas há peças que derrubam muitas outras, e peças que caem praticamente sozinhas. Ter ido para um lugar em vez de outro? Ter escolhido a felicidade imediata e mediana, ou a probabilidade de uma alegria maior? Qual das faces pelo caminho era a chave? Aquela que se tornou a cicatriz, incurável, obsessiva, travestida ao máximo no sorriso de amizade? Ou aquela que aceitaria e desejaria, que correria atrás daquele que sonha com outros Édens?
Fez-se em poucos parágrafos um tortuoso influxo de pensamentos. Será que aqueles que acreditam em alguma continuidade relêem e elaboram seus epitáfios? Aos opostos, não basta a despedida ser a suprema hipocrisia. Quando mais olhar para os trastes que foram deixados para trás. Como na morte, que assim seja o último adeus, puro e intragável, pois para quem vai já não importa o pensamento de quem fica. Que a redenção não venha na forma de recompensa, nem de descanso. Só como um vazio desprovido de cor, forma e significado. Adeus.
O pensamento sobrepuja os desejos. Muito se fala de como a racionalidade pode ser devastada pela emoção. Mas pouco sobre o caminho inverso. O raciocínio pode mudar as emoções. A objetividade pode sobrepujar a subjetividade. A razão pode matar a emoção. Como se houvesse alguma realidade nesse dualismo artificial. Pensamentos podem sobrepujar outros pensamentos, e pronto. Sejam pensamentos sobre a vida, o universo e tudo mais, ou pensamentos de te amo e te odeio.
Faz muito tempo que uma trilha alternativa foi tomada. Não foi na filosofia tradicional, não na leitura de tomos complicados, ou no diálogo com pares em um nível superior. O estranhamento nasceu em algum ponto além-lembrança. Desde a mais remota evidência da arqueologia pessoal, havia alguém que voluntariamente se afastava. Que se saturava de companhia, fosse inconveniente ou dos mais queridos amigos e parentes. Aquele pequeno ser que, na hora do sentar à mesa nas festas, pegava seu prato e ia sentar em algum canto afastado. Não por exclusão. Não por antipatia. Apenas por vontade.
A dúvida sempre esteve ali. Afinal, aquele que a tudo questiona, não deixará de questionar a si próprio? Evasão? Fuga? Medo? Ou diferença? Em um sistema complexo como uma mente humana, nunca há desvinculamento de conceitos. Há uma fonte, mas ela se perde em meio às suas consequências. O produto final é a diferença. O estranhamento. A misantropia egoísta e elitista que gera o senso de desajuste. Esnobe, em aparência. "O intuitivo sensitivo pensador julgador irradia uma aura de segurança que pode ser tomada como simples arrogância pelos menos decisivos, mas tem origem em sistemas de conhecimento especializado que começar a ser construídos cedo". Psicologia jungiana. Citar um nome conhecido sempre reveste com uma aura de autoridade a declaração de conhecimentos pré-adquiridos.
Para o observador, não há sentido em um monólogo intrínseco se não são feitas relações com o mundo exterior. Uma pessoa só interessa a outra pessoa quando serve de reflexo a si mesma. Hei de me prender a esta limitação em meu epitáfio imaginário, pois minha mente já há tempos não consegue se contentar com a idiotice travestida de beleza. Ela procura lógica onde lógica não há, na fantasia, na literatura, nos devaneios. Por que o personagem fez a escolha? Por que nasceu o mal de um Criador sem maldade? Por que aquele verso está ali? Falta de sentido é estupidez. Não importa o quão floreada esteja.
Como uma vida consegue lidar com todas suas hipocrisias intrínsecas? Como pode conviver consigo mesma, sendo incoerente em cada instante? Só sendo cego de pensamento, uma cegueira que nunca é de nascença, antes mais um fechar de olhos ou uma cabeça enfiada no buraco. Abençoados ou amaldiçoados? A ignorância pe uma benção? Nunca para aquele que já a deixou para trás. Que ainda se satisfará com piscares, mas sempre se forçará a abrir os olhos e fitar a luz. Mesmo que o Sol queime suas retinas.
O diferente aprendeu a mascarar seu deslocamento. Consegue muito bem sorrir e concordar. Apenas o mais perceptivo verá o ocasional olhar nublado, ou o suave e desprezante arqueamento de lábios. Todo deslocado se sente superior? No fundo, ele sentirá algo parecido. Mas sabe que superioridade não existe, pois melhor e pior fazem parte da cegueira. Secam, morrem e definham sob a luz. Diferença não é superioridade. Há compensações. Negativas e positivas. É possível ser profundamente pensador e profundamente sociável? A máscara pensa que sim. O demônio interior sabe que não.
A diferença leva ao isolamento. Ou o isolamento leva à diferença? Pergunta capciosa. Há alguma origem. É possível isolar uma variável? Felizes aqueles que possuem registros independentes das lembranças, sempre distorcidas pelo tempo. Havia a diferença. Nasce o isolamento. E inicia-se a retroalimentação.
De nada a lugar nenhum a vida leva, e um momento de despedida só pode evocar o fantasma do "e se?". Admirável como a mais tola de todas as perguntas, e continuará sendo enquanto não for possível retorcer o tempo, é também a mais evocada. Há um tênue limite entre a utilidade como aprendizado e o masoquismo pessoal. Definitivamente, não é às portas do inferno que se ficará no primeiro lado da linha.
Havia algum ponto-chave na estrada? Sempre será uma teia de fatos e relações. Mas há peças que derrubam muitas outras, e peças que caem praticamente sozinhas. Ter ido para um lugar em vez de outro? Ter escolhido a felicidade imediata e mediana, ou a probabilidade de uma alegria maior? Qual das faces pelo caminho era a chave? Aquela que se tornou a cicatriz, incurável, obsessiva, travestida ao máximo no sorriso de amizade? Ou aquela que aceitaria e desejaria, que correria atrás daquele que sonha com outros Édens?
Fez-se em poucos parágrafos um tortuoso influxo de pensamentos. Será que aqueles que acreditam em alguma continuidade relêem e elaboram seus epitáfios? Aos opostos, não basta a despedida ser a suprema hipocrisia. Quando mais olhar para os trastes que foram deixados para trás. Como na morte, que assim seja o último adeus, puro e intragável, pois para quem vai já não importa o pensamento de quem fica. Que a redenção não venha na forma de recompensa, nem de descanso. Só como um vazio desprovido de cor, forma e significado. Adeus.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Carne Viva
Viveu a vida inteira em 100%. Se existem pessoas que são ou 8 ou 80, ele era apenas 80, o tempo todo. Viveu, amou, sofreu. Aproveitou cada dia, cada semana, como se fossem os últimos. Não se planejava com o futuro, pois estava mais interessado no presente. Até mesmo em seus melhores sonhos, como o de ser pai, nunca conseguiu visualizar seu filho adolescente. Apenas como uma criança. De certa fora, nunca imaginou que viveria muito tempo.
Tinha pouco menos de 30 anos. Há cinco, já havia percebido seu problema, mesmo que os outros não o percebessem, ou fingissem que não. Sua contagem regressiva corria em ritmo alucinado. Ele, o cara cujos amores duravam três semanas, cujos empregos nunca chegavam a um ano, cuja vida fervia com a vontade de logo acabar.
Vivia em carne viva, e sofria muito por isso. Mas tinha a certeza total e absoluta de que cada lágrima valia a pena. Para ele, dois meses de sofrimento eram pouco, comparados à doçura de duas semanas de felicidade.
Um dia, comprou uma moto. Uma V-Blade, estilo custom, que sempre viu nos filmes e sempre sonhou em pilotar. Nem foi tão caro assim. O dinheiro que guardou para sua pós-graduação foi um bom investimento. Passou no banco e zerou a conta. Encheu os bolsos e mandou e-mails durante todo o dia.
Despedia-se. Da ex-namorada, da melhor amiga, do grande amor de sua vida e da dona de seus pensamentos. Dos amigos mais próximos e mais verdadeiros. No Orkut, disse um adeus geral, a todos os que faziam seus Natais melhores.
Subiu na moto e partiu. Abasteceu quando necessário. Rodou e rodou, sem lugar para ir, sem ponto de chegada ou qualquer expectativa. Rodou por muito tempo, 100% por segundo. Rodou até não mais ter dinheiro para abastecer e seguir com a jornada. Antes do último quilômetro rodado, estacionou sob um caminhão.
Demoraram meses até descobrirem o que aconteceu. Demoraram meses para entender.
Não demorou muito para ser mais um saudoso esquecimento.
Tinha pouco menos de 30 anos. Há cinco, já havia percebido seu problema, mesmo que os outros não o percebessem, ou fingissem que não. Sua contagem regressiva corria em ritmo alucinado. Ele, o cara cujos amores duravam três semanas, cujos empregos nunca chegavam a um ano, cuja vida fervia com a vontade de logo acabar.
Vivia em carne viva, e sofria muito por isso. Mas tinha a certeza total e absoluta de que cada lágrima valia a pena. Para ele, dois meses de sofrimento eram pouco, comparados à doçura de duas semanas de felicidade.
Um dia, comprou uma moto. Uma V-Blade, estilo custom, que sempre viu nos filmes e sempre sonhou em pilotar. Nem foi tão caro assim. O dinheiro que guardou para sua pós-graduação foi um bom investimento. Passou no banco e zerou a conta. Encheu os bolsos e mandou e-mails durante todo o dia.
Despedia-se. Da ex-namorada, da melhor amiga, do grande amor de sua vida e da dona de seus pensamentos. Dos amigos mais próximos e mais verdadeiros. No Orkut, disse um adeus geral, a todos os que faziam seus Natais melhores.
Subiu na moto e partiu. Abasteceu quando necessário. Rodou e rodou, sem lugar para ir, sem ponto de chegada ou qualquer expectativa. Rodou por muito tempo, 100% por segundo. Rodou até não mais ter dinheiro para abastecer e seguir com a jornada. Antes do último quilômetro rodado, estacionou sob um caminhão.
Demoraram meses até descobrirem o que aconteceu. Demoraram meses para entender.
Não demorou muito para ser mais um saudoso esquecimento.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Tema da rodada
Após um atraso genuinamente oktoberféstico, eis que o tema é:
Despedida.
Textos postados até dia 16.
Despedida.
Textos postados até dia 16.
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