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domingo, 7 de junho de 2009

Votação - Fumaça

Está aberta a votação para o tema fumaça.

Textos postados até o dia 10 de junho.

Vote, participe! Quem decide o ganhador do Duelo de Escritores é você.

Onde há fumaça

Tinha uns 13 anos quando começou. Uma coisa meio maluca. Não lembrava exatamente onde tinha ouvido o som de uma guitarra e muito menos como uma delas foi parar na poltrona ao lado da sua cama. Bem, mas isso realmente não importa. Começou a tocar e isso é tudo. Uns sete anos depois – seis, talvez – começou a se apresentar junto com seus ídolos. Era músico de apoio, mas participava das cervejadas, orgias e viagens dignas de um astro adorado por multidões.

Sempre dizia que onde há fumaça, há show. Aos poucos, começou a ser reconhecido como um dos melhores. Deixou a barba crescer, com o dinheiro que ganhava, adotou um visual que combinava mais com uma banda de rock do que com a criação evangélica. Teve mulheres, muitas mulheres. Teve amigos, poucos. Conhecidos, milhares.

Depois de quatro horas, num dia de inverno, os bombeiros chegaram, chamados pelos vizinhos que viram a fumaça passando por baixo da porta. E para eles, onde há fumaça, há fogo.

Anéis de fumaça

- Que legal! Me ensina?
A voz vinha da menina sentada junto ao balcão, aparentemente sozinha. Eu, largado no sofá vermelho, nem reparei que ela estava ali. Estava envolto em mim mesmo, ouvindo o blues que tocava ao fundo e soprando anéis de fumaça.
A menina se aproximou e sentou no sofá ao lado, de três lugares. Ela se vestia como um rapaz, com seu moletom cinza velho e fora de moda, a camiseta pólo listrada, o all star branco sujo, o cabelo picotado numa franja que caía sobre o olho, o piercing, a tatuagem, a calça xadrez. Acendeu seu próprio cigarro e tragou fazendo força com as bochechas.
- Ensinar o quê?
- As bolinhas. Gosto de bolinhas.
Hum, ok. Bolinhas. Não era exatamente o que eu gostaria de ouvir numa quinta-feira à noite, mas foda-se, ela era gatinha. Dei mais uma tragada no cigarro, enchendo a boca de fumaça. Inclinei a cabeça para trás e liberei três perfeitos anéis de fumaça.
- Isso?
- É, como faz? Como faz?
- Você enche a boca de fumaça, sem tragar. Deixa a boca num formato meio redondo e usa o maxilar pra expulsar a fumaça de dentro da boca.
- Meio redondo?
- É, assim.
E fiz um bico deixando a boca com um formato arredondado. Ela deu risada.
- Acho fofo.
- O que?
- Tua boca, assim. Acho fofo.
Fiz um sinal pro garçom e pedi dois chopes.

sábado, 6 de junho de 2009

Transmissão

* Nota do autor: para ler este texto, deixe à vista na parte inferior do navegador apenas a linha atual, sem revelar as outras. Vá avançando linha por linha, uma por vez, na velocidade em que o texto exigir.



Alô, alguém está me escutando?

...

Por favor, respondam, respondam! Qualquer linha, qualquer frequência, QUALQUER UM, merda!

...

Droga, droga... Se alguém estiver escutando, evite a nossa área, entenderam, EVITEM NOSSA ÁREA! Eu não vejo nada aqui, diabos. Essa fumaça sobe do solo como se fosse direto do inferno, não consigo enxergar mais do que um metro na minha frente. Merda, isso é até bom, no fim das contas! Tínhamos acabado de chegar, caminhamos um pouco para dentro dessa maldita névoa. Nem deu para nos acostumarmos. De repente, tudo era um caos! Disparamos como animais, sem efeito algum. Talvez até tenhamos acertado uns aos outros. Mas aqueles outros sons e os gritos que vieram depois nunca seriam por causa de algum disparo. Maldições, eu precisaria dar três tiros no meu estômago antes de gritar daquele jeito! E as coisas estavam por todos os lados. Não sei o que era, não dá para ver na... Merda, estou ouvindo um barulho vindo dali. Não pode ser um dos nossos... Ei! Quem está aí? Meu deus, é você, Rob? Espere, onde você está? Merda, merda, merda de fumaça! Estou indo, ainda tenho alguma munição! Espere... OH, MERDA! ROB, CUIDADO! NÃO!.. NÃO!... ROB! Merda, tenho que fugir! Rob, meu deus... Pare de gritar, morra de uma vez... MORRA!

...

...

...

E-eu... acho que... uh... escapei... Droga, Rob! Eu ouvi tiros, vários. E o som daquela coisa. E os gritos de Rob. E sons que só poderiam... só poderiam... merda, MERDA, só poderiam ser de um corpo humano sendo rasgado como... como... como uma merda de bonequinho de papel! Eu vi um vulto, pela primeira vez agora e tenho que sair daqui, aquela coisa nunca poderia ser humana! Seja o que for, essas coisas devem ter uma força imensa. E nenhuma mente. Aquilo só poderia ser selvageria total! Oh, cara, cara, como vamos sair dessa? Como eu vou sair dessa, se é que tem mais alguém vivo ainda. Espero que alguém esteja me ouvindo, pelo menos isso tudo não vai ser em vão. O que estou dizendo? Eu estou vivo ainda, não estou? Por enquanto, não é? Bastou alguns segundos para Rob... Merda, merda, NÃO PENSE NISSO! Se ao menos eu conseguisse enxergar alguma coisa. Seja o que for aquilo, não caça com os olhos. Ou enxerga de um modo diferente do nosso. Será que eu consegui fugir? Para onde vou no meio dessa merda? Largamos tudo no desespero, não tenho a menor idéia de como me localizar. Vou continuar camin...

...

Oh, merda...

...

Merda...

...

T-tem... ten alguma coisa por aqui...

...

Deus, me desculpe por qualquer coisa, me salve, por favor...

...

E-está vindo... Estou vendo alguma coisa, está vindo para cá... Esta ficando ficando mais nítido... Oh, meu deus, meu deus, pelo menos faça ser rápido... Por favor... E... E... OH MERDA O QUE É ISSO POR DEUS DE QUE INFERNO NÃO MORRA MORRA MORRA DEMÔNIO MORRAAARRGGHH ARRGGGHH MEU AAAHH BRAÇO AAAAHHHH AAHAHH AAAAARRRRRRHHHHHH..........................

Checklist - 16/04/2004

» 7kg de Contra-filé - OK
» Sal grosso - OK
» 6kg de carvão - OK
» 1 carteira de cigarros - OK
» 2 garrafas de vodka
» cirrose
» câncer no pulmão - OK

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Fumaça de São Pedro

Retornava de longe para casa. Tinha passado não se sabe quanto tempo distante. Pouco importava, de qualquer forma. Ia e vinha conforme o vento lhe enfunasse as asas. De onde vinha não deixava saudades, pra onde retornava, não lhe deram falta. Seguia, apenas, o vento. E um magnético extinto que lhe guiava os caminhos.

O vento passava tranqüilo por nuvens e azuis ensolarados enquanto, do alto, via as telhas de barro, as chaminés de tijolos e as ruas de pedras tão conhecidas. Lá embaixo, uma sombra de asas abertas escorria veloz por paredes, ruas e praças. Contra o céu azul, ele era apenas um arrulhar malhado diminuto. Baixou a altitude, já entre os prédios, preparando o pouso. Ao virar da última esquina antes da praça, contornando o imenso prédio abobadado, num susto arremeteu com um bater de asas violento, perdendo na manobra umas boas plumas que caíram ao chão para serem pisoteadas por milhares de calçados italianos. Só foi encontrar pouso numa amurada de uma sacada distante do chão. Lá embaixo, a Praça de São Pedro fervilhava com milhares de pessoas. Não tanto quantos os sapatos, anotado esteja, visto que para cada uma destas, dois daqueles teremos, mas ainda assim, de fato, eram muitas, muitas pessoas, a ponto de não haver, observe bem, pouso seguro para um pombo sequer. Por pouco, diga-se em verdade, as próprias plumas que deixara não caíram sobre os calçados, ao invés de embaixo deles. Todo espaço estava ocupado por um mar, por falta de metáfora melhor, de gente que, volta e meia, olhava para cima, com expressão pesada, para os pombos na sacada alta, reunidos num arrulhar aturdido e confuso.

Foi só com um movimento brusco, vindo fundo da sacada, que dispersou-se as aves. Um homem de vestes longas e escuras, vindo da porta que dava acesso à sacada, sacudia o braço obrigando os pombos a buscar pouso novo nos beirais das janelas fechadas próximas dali. O homem não resistiu a uma espiadela por sobre o parapeito, para ver a praça abarrotada de cabeças que se ergueram em expectativa. Recolheu-se rapidamente e retornou para o aposento onde outros homens sisudos, estes de cabeças baixas como se pesassem, e mãos unidas em frente ao corpo, cercavam uma cama enorme e ricamente decorada, separada do mundo por um dossel fino de seda, com uma barra de algodão, como bem observou alguém. Retornando, o homem da sacada pode ver, por uma fresta do dossel, os olhos claros do velho deitado na cama. Baixou os seus em respeito ou vergonha frente às sobrancelhas brancas e se juntou aos outros homens de mãos unidas ao redor da cama.

O velho, no entanto, não olhava o homem que retornava da sacada. Não via, mesmo, a sacada, ou a praça com suas pessoas, sapatos e penas de pombos pisadas. Via além dos telhados de barro, das paredes de pedras, das ruas estreitas. Via uma chaminé distante, longe dos olhos, a boca suja de fuligem, um calor abraseirado escapando-lhe das ventas. Via a boca estreita, a passagem apertada, as paredes escuras que desprendiam fuligem à passagem do seu pensamento. Via a luminosidade da abertura inferior, o vermelho das brasas sob o branco das cinzas. Via a passagem se alargar e dar espaço para uma cozinha italiana simpática, com cheiro de manjericão, trigo e tomate. Via a velha em frente às brasas, uma pilha de cartas antigas e amareladas nas mãos, enroladas por uma fita de cabelo desgastada, com os olhos fixos nas janelas basculantes.

A velha, no entanto, não olhava os vidros das janelas. Não via, mesmo, a sua sacada simples de cacos de azulejos vermelhos. Nem via as casas vizinhas amontoadas sobre as ruelas estreitas de pedras centenárias. Via por entre as paredes, por entre as ruas, os bairros. Via além dos pombos, da praça, do obelisco. Além das portas majestosas guardadas por alabardeiros suíços. Via as escadas jamais vistas mas muito imaginadas, os salões luxuosos. Via as escadas, a porta de madeira com maçaneta dourada. Via o círculo de homens de negro. Via o dossel. A abertura estreita, uma fresta apenas, por onde via o velho de olhos claros deitado em lençóis brancos.

O velho então, já não via mais nada. Os olhos abertos como as janelas escancaradas de um quarto vazio. Uma umidade ainda restava nas rugas que corriam do canto do olho fundo até o travesseiro. Não mais que uma gota. No alto do prédio, não tardou, subiu uma fumaça escura, que se espalhou como uma revoada pelo céu ensolarado. Ouviu-se um arrulhar sonoro da praça, que assustou os pombos empoleirados nas janelas. Uma algazarra que se espalhou pelas ruas, cafés, casas. E longe, uma velha também olhava a fumaça escura. De dentro de uma cozinha, pelos vãos de uma janela, ela olhava a fumaça que se espalhava no céu, levada pelo vento. E a velha atirou uma a uma, as cartas da pilha às brasas. Viu os eu te amos arderem, as saudades queimarem, os beijos incendiarem e as promessas tornarem-se cinzas. Atirou a fita às chamas, já mais altas, e o conjunto liberou uma fumaça esbranquiçada, que escalou as paredes estreitas de fuligem, espremeu-se pela boca aberta apertada, e lançou-se ao ar, branca, contra o céu azul. Quisera eu dizer que as fumaças se encontraram, que se misturaram no ar num balé gaseiforme. Mas não foi assim que aconteceu, e me seria impreciso, para não dizer irreal ou mentiroso, dizê-lo. O que sucedeu foi que o vento soprou e dissipou de um golpe as fumaças, que nunca se encontraram, afinal. A fumaça esbranquiçada mal deixou a chaminé já dissipou-se quase por completo. A fumaça preta, por pouco, é verdade, mas não chegou a sair da praça. Da fumaça esbranquiçada dos eu te amos queimados, beijos abrasados e promessas incineradas, pouco se sabe. Da fumaça preta, muito já se tem falado. Desde aquela comoção barulhenta, repentina e uníssona da praça, que assustou os pombos nos batentes das janelas altas, que bateram em retirada, num arrulhar nervoso, despejando, no susto, penas e fezes sobre a Praça de São Pedro.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Tema

E o tema para essa nova rodada é: fumaça.

Já que o exercício também é de interpretação, o tema é só esse.

Textos postados até o dia 06 e junho.