sábado, 16 de agosto de 2008
Escasso e excesso (Informação e Olimpíada)
Sobra futebol, ginástica, basquete.
Falta roubo, crime, invasão.
Sobra treinamento, garra, suor.
Falta emprego, saúde, habitação.
Sobra estratégia, dor, técnica.
Falta diversão, segurança, investimento.
Sobra narração, emoção, torcida.
Falta Brasília, Rocinha, Brasil.
Sobra Beijin, Vila Olímpica, China.
Falta o dia-a-dia, a realidade, o que é de todos.
Sobra o raro, o sonho, o que é de poucos.
Falta a verdade, a medalha.
Sobra a Olimpíada, a decepção.
Brasil, o país do...
Maikel Felpes da Rosa Filho, brasileiro, solteiro, natural de Blumenau/SC, sempre quis entender porque o Brasil é conhecido como país do futebol. Ele já comemorava seu décimo aniversário e nunca tinha comemorado sequer um título de seu país nesse esporte. Acompanhara bem de perto as copas de 2038 e 2042, além das Olimpíadas de 2040, e não lembrava de algum grande feito do futebol brasileiro. Tinha lá um time razoável no masculino e um bom time no feminino, mas nada que pudesse incomodar as grandes potências africanas.
Seu pai lhe ensinara desde cedo que deveria seguir o exemplo de determinação daquele que deu origem a seu nome, o maior ídolo do esporte olímpico de todos os tempos: Michael Phelps, o nadador que conquistara 21 ouros olímpicos ao longo de sua brilhante carreira, entre 2004 e 2016. Sendo assim, incentivou o pequeno Maikel Felpes Filho a praticar esportes desde muito novo e decepcionou-se ao saber que o pequeno seria jogador de vôlei. “Mas por que vôlei?”, indagava desesperado.
Aos poucos, o pequeno Felpes ia mostrando que não seria mais um em quadra. Destacava-se a cada ano que passava. Conhecia os antigos ídolos da modalidade que mais trazia títulos à terra tupiniquim. Lembrava do saque “jornada nas estrelas”, característico de Bernard nos anos oitentas e reutilizado por Tande nos noventas. Citava estrelas como Giba e Nalbert, que marcaram época no início do novo milênio, entre tantos outros astros do voleibol brasileiro.
Mailkel Felpes, o pai, queria que o filho jogasse futebol, afinal, o Brasil é o país do futebol. Lembrava dos tempos gloriosos contados por seu avô, que vibrava a cada gol de romário em 1994 e não cansava de contar sobre o gol de falta do Branco contra a Holanda. Mas tudo parecia muito longe da realidade. O pequeno Felpes nunca vira um espetáculo de futebol internacional de alto nível ser vencido pela seleção brasileira.
Prova da madrugada
Jogos olímpicos
"A maior celebração da paz mundial segue hoje com novas competições e atletas em busca do primeiro lugar. Teremos uma grande rodada e esportes coletivos com a...".
Os homens se preparavam na concentração. A fala era pouca, a voz mais atuante era a do narrador televisivo.
"... grupos de homens e mulheres se enfrentarão num embate sem guerra, onde apenas um emergirá com o ouro, mas todos serão vencedores..."
O clima era tenso, mas todos no aposento tinham a mente tranquila. Era para aquilo que estavam ali. Era seu foco. Seu objetivo. Sua vida.
"... o espírito olímpico permeia a todos, atletas e público, como se pode ver no emocionado abraço das vencedoras da competição de ontem no pódio e a ovação da platéia local para..."
Em breve, os homens confrontariam outros onze. E não poderiam errar. Pequenos deslizes e anos de preparação poderiam ir por água abaixo. Era hoje. Ou nunca.
" pois o esporte apaga as diferenças e une os homens. Um enfrentamento pacífico onde corre apenas suor e não sangue, e onde o prêmio é a glória e não a morte..."
Fecharam os zíperes das malas, pegaram as máscaras e checaram por uma última vez as balas. Uma nuvem cobriu o sol que banhava Munique. Aquele setembro seria realmente negro.
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Os Irmãos van Loon (ou A Mulher de Prata)
O verão belga era agradável. O sol esquentava sem tornar-se demasiadamente quente. O clima de euforia e as cores e festejos e esperanças e sonhos transbordavam. E o mundo, que deixava as marcas tristes e monocromáticas de uma guerra, hasteava uma bandeira branca, com cinco anéis coloridos. Uma bandeira jamais vista, em nação alguma. Uma bandeira para todos. Sob ela, nove homens, um sonho, um objetivo. Dourado como o sol do verão belga. Como os cabelos da bela moça que, da arquibancada próxima, assistia as disputas mais acirradas. O olhar percorrendo os corpos de músculos suados expostos. Homem a homem. Ela conferiu cada um dos competidores, uns atrás dos outros de um lado. Uns atrás dos outros do outro. Entre eles, apenas a corda estendida, tensionada, disputada pelos dois times. Os últimos homens da delegação dos Países Baixos eram os van Loon. Envergando juntos o azul, branco e vermelho, eram a âncora que suportava a equipe, enquanto os outros se encarregavam de puxar para si a corda e, com ela, os adversários. Eles sabiam que, se quisessem se sagrar campeões, teriam de confrontar-se com as suas próprias cores, a favorita Grã-Bretanha, finalista das últimas olimpíadas. Mas eles tinham a âncora holandesa. Os irmãos van Loon. Willem e Antonius.
Mas quiseram os deuses olímpicos que o sol brilhasse nos cabelos louros daquela moça. E que seu olhar se detivesse sobre os van Loon. E entre os jogos, ela se encontrava secretamente com Willem e com Antonius, sem que um soubesse do outro. E quiseram os deuses que, inspirado pelos anéis estampados na bandeira branca, Willem lhe propusesse também um anel. Casar-se-iam, conforme os planos do van Loon mais velho, após os jogos, e ela retornaria com ele para os Países Baixos. Mas a moça, confusa e ofuscada pelo esplendor dos atletas, apaixonada por ambos, prometia-se também ao mais moço dos irmãos. Propusera-lhe Antonius que ficassem juntos após os jogos. Ele ficaria na Bélgica com ela, para muitos outros verões, deixando que a delegação retornasse sem ele à terra natal. E foi o fio louro de cabelo que acabou com a âncora holandesa. A maior esperança do cabo-de-guerra dos Países Baixos perdeu-se na disputa, não pela vulgar corda olímpica, mas pelo delicado fio sedoso dos cabelos de uma belga.
A moça não conseguia decidir-se entre apenas um dos irmãos. Eles, apaixonados e cegos pelos radiantes cabelos ensolarados, cravam-se como âncora no solo e angariavam vitórias no torneio, junto com seus companheiros. Finalmente a grande final se pintou toda de azul, vermelho e branco. De um lado, a equipe britânica, do outro, os Países Baixos. Entre eles, uma corda. E uma mulher. A moça de cabelos cor de ouro sentou-se na primeira fila para torcer por seus amantes. Sorrindo-lhes e acenando, ambos tomavam para si os gestos. Mas quiseram os olímpicos que a moça de cabelos de ouro, tornasse-se a mulher de prata. E foi, ironicamente, o anel de ouro na mão da moça, que tirou o ouro da mão dos van Loon. Com o sol batendo-lhe nas madeixas louras, ela levantou a mão e, sorrindo, fez com a cabeça um sinal afirmativo que abriu um sorriso imediato no rosto de Willem, cuja alegria lhe rendeu forças para cravar-se ainda mais profundo no solo, selando qualquer chance dos britânicos moverem-no. Com isso o time dos Países Baixos retomou a ofensiva, puxando os adversários e arrastando-os com a corda. Mas o sorriso de um van Loon, foi a desilusão do outro. Ao perceber sua derrota para o irmão mais velho, ao perceber que perdera sua amada, Antonius perdeu também as forças. Partiu-se então a âncora holandesa, e afundou o sonho dourado. A mulher de prata assustou-se ao ver os britânicos arrancarem os seus desafiantes do chão e, com corda e adversários puxados para o seu lado do campo, sagrarem-se campeões do cabo-de-guerra das Olimpíadas de 1920. Mais assustada, ficou a moça ao ver seu futuro marido aturdido sob os punhos e insultos do irmão mais novo. Assustou-se ainda mais quando a violência generalizou-se na arena, entre o próprio time. Amargurou-se quando Willem, sabendo de tudo, desistira do casamento.
A lembrança do ouro perdido dos van Loon restou cintilante no dedo da mulher de prata. Desde então, nunca mais houve outro campeão de cabo-de-guerra nos jogos olímpicos.
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Tema
O tema escolhido por ele para essa rodada é: Histórias de Olimpíadas.
Todos têm até o dia 16 de agosto, sábado, para escrever e postar.