16/06/08
Ah, o homem e suas idades... Como gostamos de olhar para trás e avaliar o que fizemos, o que fizeram, procurar o que já fomos numa vã tentativa de entender o que seremos. Com olhar curioso, observamos remanescentes de uma era esquecida, onde primatas despelados tentavam desesperadamente sobreviver em um mundo de titãs. A nós chegam apenas ossos e pedras, sim, as lascas de um mundo diferente, primitivo e estranho, e nos admiramos com nossa primeva capacidade de moldar o mundo. Ou nos espantamos com a suprema tolice das outras espécies, que jamais tiveram a mesma idéia e assim tiveram seu destino selado em nossas mãos? Seja como for, são as pedras que vemos, e assim a batizamos: Idade da Pedra. Por certo a menos importante das coisas para os daquele tempo, mas é aquilo que nos faz sentido, então interpretamos como quisermos.
Assim nosso espírito primal é incitado quando fitamos armas e invocamos Idades de Bronze, Ferro e sangue, mesmo que sejam apenas algumas das inúmeras invenções de seu tempo. Então, acariciando nossas metralhadoras, mísseis e tanques, pensamos: “como evoluímos!”. Vemos a História como uma escalada inexorável à nossa ascensão, sempre melhorando, aprimorando, dominando, tomados pela visão que o passado é um conjunto de degraus levando ao maravilhoso presente, lar de nossas maiores conquistas, nossos melhores conceitos, nossa maior perfeição. Quem dera aceitássemos que o presente é apenas um resultado fortuito do passado, e que a própria palavra “destino” é uma estupidez sem razão de ser, pois se estamos vivos hoje é apenas porque não morremos ontem. E vice versa.
A ilusão é escancarada pela nossa própria presunção, num tempo em que a Idade Moderna já é ultrapassada e mesmo a contemporaneidade cambaleia para seu obscuro fim. Pobres das pessoas do futuro, se é que alguma haverá, qual o nome que lhes sobra? Idade Presente? Idade do Agora Mesmo, De Verdade? Elas olharão para nós de um pedestal mais alto que o nosso, em irônica superioridade: “de quem os tolos se achavam contemporâneos? Eles riam dos que defecavam em buracos, mas esfregavam papel entre suas nádegas para se dizer ‘limpos’!”. Sem dúvida cometerão o mesmo erro, e acharão que sua Idade é “A Idade”, seus conceitos “Os Conceitos” e sua moral, “A Moral”.
Adoramos fazer isso, whiggistas crônicos: olhar para o passado e interpretá-lo segundo o presente, tanto através dos milênios da espécie como dos anos de cada vida. “Por que não estudei mais, guardei algum dinheiro, paguei minha previdência, bebi menos, deixei ela ir?”, choraminga o ancião decrépito em seu leito de morte. Tolo velho, e que logo cesse sua respiração para parar de proferir besteiras! Que bebam até cair, se lhes é a vontade. Que trabalhem oito horas diárias, se lhes parece importante. Que ignorem o compromisso de amanhã, se o que lhes interessa é o prazer do presente. Podemos mentir para nós mesmos à vontade, mas não conservaremos um futuro para nossos descendentes, pois eles nos serão tão alienígenas quanto os primatas de um mundo de feras e pedras. Cada época é sua época, cada deus em seu contexto, cada geração com sua moral. E nós, “contemporâneos”, assim como todos em todas suas épocas, seguimos nos apegando a valores etéreos como se fossem bastiões sólidos. Sim, a paz está a nosso alcance. Seja tolerante com o diferente. Respeite os outros, todos merecem uma vida digna. Liberdade e direitos iguais. Jesus Cristo vai voltar, aleluia. E o Império Romano nunca cairá...
Ah, o homem e suas idades... Estamos na Idade de Ouro, com certeza. A milésima ducentésima nona, aproximadamente, tão eterna quanto a casa daquele vizinho que esteve ali desde sempre e, num dia qualquer, vejam só: passaram com o trator por cima! Seu brilho refulge em nossos olhos e caminhamos cegamente abraçados em nossas barras reluzentes. Infelizmente nem um abismo encontraremos pela frente, não acordaremos num momento qualquer com um tropeção e baque. Pouco a pouco vamos cansando, caindo, nos transformando, até o dia em que não seremos mais nós. Seremos outra coisa, olhando para trás, jogando dados com a História e apontando: aqui se inicia a Nova Idade. Novos conceitos. Novas verdades. Novas ilusões de uma espécie guiada pela mais maldita de todas as bênçãos, ou a mais abençoada das maldições, como quiser: a capacidade de criar castelos no ar. E jurar de pés juntos que são construídos com os mais nobres blocos de mármore já lapidados neste mundo...
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quinta-feira, 17 de julho de 2008
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Rememoagem
Da meia-água de telhas de barro, observo a atafona distante. Vã e velha. Abandonada. Apenas um moinho em um mundo que já não enxerga gigantes. Obsoleto num mundo elétrico que dá luz e choque sem dar calor.
O tempo dos moinhos se foi, mas ainda me pesa às costas arqueadas. Como as sacas de farinha me pesavam quando garoto, ao entrar e sair por entre as pás ouvindo o gemer da mó. E como as sacas de farinha, os anos se empilham em minhas espáduas e deixam escorrer o branco sobre meus cabelos. Parcos velos que para ceder espaço ao tempo, precipitam-se como de uma ampulheta. E restam-me tão poucos grãos ainda por cair! Grãos alvos de farinha. Alvos do tempo, que os empurra implacável como o vento empurra as pás. Enquanto, dentro do moinho, à pedra resta apenas o vazio por moer e remoer.
Observo a moenda que se rende à idade. E me curvo dócil ao tempo que me arca o corpo. Enquanto o corpo, à última arca, arca. Até que os anos, empilhados todos uns sobre os outros, se desequilibrem e se precipitem junto com os últimos grãos de farinha. Resta-me apenas o tempo que range em migalhas sob a mó.
O tempo dos moinhos se foi, mas ainda me pesa às costas arqueadas. Como as sacas de farinha me pesavam quando garoto, ao entrar e sair por entre as pás ouvindo o gemer da mó. E como as sacas de farinha, os anos se empilham em minhas espáduas e deixam escorrer o branco sobre meus cabelos. Parcos velos que para ceder espaço ao tempo, precipitam-se como de uma ampulheta. E restam-me tão poucos grãos ainda por cair! Grãos alvos de farinha. Alvos do tempo, que os empurra implacável como o vento empurra as pás. Enquanto, dentro do moinho, à pedra resta apenas o vazio por moer e remoer.
Observo a moenda que se rende à idade. E me curvo dócil ao tempo que me arca o corpo. Enquanto o corpo, à última arca, arca. Até que os anos, empilhados todos uns sobre os outros, se desequilibrem e se precipitem junto com os últimos grãos de farinha. Resta-me apenas o tempo que range em migalhas sob a mó.
Muito nova
Um dia, acho que o único dia da minha vida, eu vi meus pais brigando. A minha mãe chorava e meu pai falava alto eu nem lembro direito o quê. E me escondi e chorei. Depois de algum tempo pedi a minha mãe porque duas pessoas que se amam acabam brigando. Ela disse que eu era muito nova pra entender porque aquilo acontecia.
Quando eu tinha 13 anos e tive que viajar às pressas pra me despedir do meu avô pra sempre, eu pedi pra minha mãe porque as pessoas morriam e porque quando isso acontecia ficava uma sensação de que você poderia ter sentido mais, declarado mais e dito mais. Ela me disse que quando eu crescesse eu entenderia.
Aí, um tempo depois, eu senti um amor morrendo dentro do peito. Eu era amada, amava e conseguia visualizar um futuro nítido e claro pra mim e pra ele. De repente, eu travei. Perguntei pra minha mãe porque o desamor acontece exatamente quando não podia acontecer, ela disse que eu não tinha idade pra entender certas coisas.
Quando, há alguns dias, eu senti um buraco no peito inexplicável e uma vontade quase maluca de ligar pra ele e dizer que eu precisava de um abraço – mesmo sabendo que ele não atenderia a um pedido meu -, eu pedi pra minha mãe porque as pessoas vivem achando que o silêncio resolve tudo. Ela me disse que quando eu fosse maior, talvez entendesse.
Ontem eu perguntei pra minha mãe porque as pessoas que se amam também se afastam, porque quando as pessoas se vão a gente percebe o quanto elas eram importantes, porque o desamor acontece quando ele não podia acontecer e porque o silêncio abre tanto espaço pra dúvidas.
Ela olhou bem no fundo dos meus olhos e disse que quando a gente é pequeno é bom acreditar que as respostas vêm com o tempo. Disse também que quando a gente cresce e percebe que não há explicações pra muita coisa, se arrepende de ter visto os anos passarem e a idade aumentar sem ter buscado as respostas lá dentro do peito.
Ela, aos 42, é a pessoa que eu mais confio no mundo. Eu, aos 19, sigo buscando respostas.
Quando eu tinha 13 anos e tive que viajar às pressas pra me despedir do meu avô pra sempre, eu pedi pra minha mãe porque as pessoas morriam e porque quando isso acontecia ficava uma sensação de que você poderia ter sentido mais, declarado mais e dito mais. Ela me disse que quando eu crescesse eu entenderia.
Aí, um tempo depois, eu senti um amor morrendo dentro do peito. Eu era amada, amava e conseguia visualizar um futuro nítido e claro pra mim e pra ele. De repente, eu travei. Perguntei pra minha mãe porque o desamor acontece exatamente quando não podia acontecer, ela disse que eu não tinha idade pra entender certas coisas.
Quando, há alguns dias, eu senti um buraco no peito inexplicável e uma vontade quase maluca de ligar pra ele e dizer que eu precisava de um abraço – mesmo sabendo que ele não atenderia a um pedido meu -, eu pedi pra minha mãe porque as pessoas vivem achando que o silêncio resolve tudo. Ela me disse que quando eu fosse maior, talvez entendesse.
Ontem eu perguntei pra minha mãe porque as pessoas que se amam também se afastam, porque quando as pessoas se vão a gente percebe o quanto elas eram importantes, porque o desamor acontece quando ele não podia acontecer e porque o silêncio abre tanto espaço pra dúvidas.
Ela olhou bem no fundo dos meus olhos e disse que quando a gente é pequeno é bom acreditar que as respostas vêm com o tempo. Disse também que quando a gente cresce e percebe que não há explicações pra muita coisa, se arrepende de ter visto os anos passarem e a idade aumentar sem ter buscado as respostas lá dentro do peito.
Ela, aos 42, é a pessoa que eu mais confio no mundo. Eu, aos 19, sigo buscando respostas.
O menino que não podia envelhecer
Foi na sétima série que Oscar percebeu que havia algo errado com seu corpo. Que ele sempre foi o menorzinho da sala, todos sabiam. O mais baixinho, mais magrinho, com cara de criança, mesmo já tendo 14 anos. Um dia ele reparou, sem um motivo em específico, que não se lembrava da última vez que havia cortado o cabelo. Há anos ele não ia ao cabeleireiro. Tanto o médico quanto o dentista nunca acharam nenhuma doença, nenhuma cárie. E eles eram os melhores especialistas que o vasto dinheiro de seu pai podia pagar. Ele comia bem, mas não conseguia engordar. Jogava futebol com os amigos, andava de bicicleta, mas não ficou nem um pouco mais musculoso, ao contrário do restante de sua turma.
Curioso, resolveu pegar seu álbum de fotos. Seu medo se mostrou real: fazia pelo menos dois anos que ele não havia envelhecido nada. Seu cabelo continuava exatamente do mesmo tamanho desde a quinta série, e não era a toa que ele era o menor da turma. Ele não havia crescido desde então!
Oscar pensou em muitas possibilidades, mas não conseguiu achar nenhuma saída. Mais cedo ou mais tarde seus pais e amigos iriam reparar. O ano estava quase acabando e ele ia para a oitava série, com cara e corpo de um menino da quinta. Alguém iria notar.
A única saída que encontrou foi fugir de casa. Numa manhã de sábado fugiu com uma mochila nas costas para outra cidade. Lá, entrou em um hotel dizendo que seu pai só conseguiria chegar a noite, e então faria o cadastro. A atendente acreditou e lhe deu a chave do quarto. De lá, ele entrou na internet e alugou um apartamento no Centro, utilizando o nome e o número do cartão de crédito de seu pai. Ninguém suspeitaria.
Meses se passaram e Oscar se matriculou no colégio, sempre dizendo que seu pai, um homem muito ocupado, não podia se fazer presente nas reuniões. Oscar usava a senha do banco de seu pai para fazer sempre pequenos saques, de forma que o pai não reparasse que o dinheiro estava sumindo. Voltou para a quinta série, pois não podia apresentar os documentos dizendo que já estava na sétima, com medo que descobrissem quem ele era, antes que descobrissem que ele não podia envelhecer. Passou a chamar-se Dorian e era o melhor aluno de sua sala.
Na sétima vez que cursava a quinta série, já no sétimo colégio diferente das quatro cidades que já havia morado desde que fugiu de casa, Oscar entediou-se e passou a viver uma vida reclusa dentro de casa. Esqueceu de sua família, seu colegas e das risadas. Não via mais graça em vídeo-games, histórias de terror ou em jogar mata-soldado. Não desenhava mais, não mascava chicletes e não sorria.
Oscar, enfim, envelheceu.
Curioso, resolveu pegar seu álbum de fotos. Seu medo se mostrou real: fazia pelo menos dois anos que ele não havia envelhecido nada. Seu cabelo continuava exatamente do mesmo tamanho desde a quinta série, e não era a toa que ele era o menor da turma. Ele não havia crescido desde então!
Oscar pensou em muitas possibilidades, mas não conseguiu achar nenhuma saída. Mais cedo ou mais tarde seus pais e amigos iriam reparar. O ano estava quase acabando e ele ia para a oitava série, com cara e corpo de um menino da quinta. Alguém iria notar.
A única saída que encontrou foi fugir de casa. Numa manhã de sábado fugiu com uma mochila nas costas para outra cidade. Lá, entrou em um hotel dizendo que seu pai só conseguiria chegar a noite, e então faria o cadastro. A atendente acreditou e lhe deu a chave do quarto. De lá, ele entrou na internet e alugou um apartamento no Centro, utilizando o nome e o número do cartão de crédito de seu pai. Ninguém suspeitaria.
Meses se passaram e Oscar se matriculou no colégio, sempre dizendo que seu pai, um homem muito ocupado, não podia se fazer presente nas reuniões. Oscar usava a senha do banco de seu pai para fazer sempre pequenos saques, de forma que o pai não reparasse que o dinheiro estava sumindo. Voltou para a quinta série, pois não podia apresentar os documentos dizendo que já estava na sétima, com medo que descobrissem quem ele era, antes que descobrissem que ele não podia envelhecer. Passou a chamar-se Dorian e era o melhor aluno de sua sala.
Na sétima vez que cursava a quinta série, já no sétimo colégio diferente das quatro cidades que já havia morado desde que fugiu de casa, Oscar entediou-se e passou a viver uma vida reclusa dentro de casa. Esqueceu de sua família, seu colegas e das risadas. Não via mais graça em vídeo-games, histórias de terror ou em jogar mata-soldado. Não desenhava mais, não mascava chicletes e não sorria.
Oscar, enfim, envelheceu.
Crescimento
Thiago Floriano
16/julho/2008
Lucas Tomasi, 25 anos, dedicou esforços nos estudos e, passado um ano, é engenheiro elétrico.
Fernando Luiz da Rosa, 16 anos, se controlou para não fazer tanta bagunça nas aulas. Passado um ano, foi aprovado no vestibular e estuda odontologia.
Joana de Campos, 42 anos, arriscou sair de um emprego estável para buscar a realização profissional. Hoje, passado um ano, é guia turística.
Sebastião da Costa Moraes, 79 anos, perdoou seu irmão mais jovem por desentendimentos antigos e, passado um ano, tem no irmão um grande amigo.
Aline Ferreira Lima e Silva, 22 anos. Passado um ano, aumentou sua idade para 23 anos.
16/julho/2008
Lucas Tomasi, 25 anos, dedicou esforços nos estudos e, passado um ano, é engenheiro elétrico.
Fernando Luiz da Rosa, 16 anos, se controlou para não fazer tanta bagunça nas aulas. Passado um ano, foi aprovado no vestibular e estuda odontologia.
Joana de Campos, 42 anos, arriscou sair de um emprego estável para buscar a realização profissional. Hoje, passado um ano, é guia turística.
Sebastião da Costa Moraes, 79 anos, perdoou seu irmão mais jovem por desentendimentos antigos e, passado um ano, tem no irmão um grande amigo.
Aline Ferreira Lima e Silva, 22 anos. Passado um ano, aumentou sua idade para 23 anos.
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Tema da rodada
O tema de hoje é:
IDADE
boas viajadas a todos. Menos ao Félix. Se ele viajar mais do que na última rodada, minha mente pode não supoertar.
IDADE
boas viajadas a todos. Menos ao Félix. Se ele viajar mais do que na última rodada, minha mente pode não supoertar.
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