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terça-feira, 8 de setembro de 2009

Votação - Idade Média

Pedimos desculpas aos leitores pelo atraso na publicação do post de votação.

Vote, indicando seu texto favorito, até o dia 10/setembro e participe desta disputa literária.


domingo, 6 de setembro de 2009

Gongo

Era um dos últimos bailes dos Luízes, no século XV. Eles ainda não sabiam disso. Esbanjavam nos leilões, nos vinhos, nas dançarinas, altura do volume da música, nas telas renascentistas que enfeitavam as paredes. A comida tinha acabado de ser servida e parte dos convidados já se encaminhava para o salão enquanto alguns poucos ainda chupavam as pontas dos dedos.

Acima das cabeças das figuras mais importantes da burguesia, Valentin, filho do rei, cometia o maior dos pecados: deixava a pele tocar a de uma prostituta.

Ana não utilizava as anáguas e longos vestidos apertados na barriga e no busto. Nem precisava. Suas vestes de moça simples deixavam saliente a circunferência volumosa que ela ostentava na região dos seios. Era sofrida. Diferenciava-se das demais por trocar maquiagens e jóias por água, para que se mantivesse minimamente limpa.

Quanto Valentin foi levado à casa onde Ana vivia, precisava escolher uma das mulheres que tinham acabado de chegar traficadas da cidade grande para iniciar sua vida sexual. Era eximido do pecado e a poderia tocar. Relacionaram-se até que Valentin tivesse que casar com a filha de outro rei. Aquela era a festa de apresentação dele para a família a noiva.

Exaustos, com o corpo deitado ao lado dos lençóis que deveriam, no mínimo, separar os dois corpos, Valentin e Ana se despediam. Até que o quarto foi invadido e o segredo dos dois descoberto. Ana foi morta pelo Padre amigo da família.

Valentin se casou. Todos os dias ia ao túmulo de Ana. Não havia nem esperança de gongo, mas todos os dias ele ia ao cemitério e deitava-se sob o corpo de Ana. A diferença é que agora havia entre eles sete palmos de terra, que os deixavam mais distantes do que o lençol que nunca os separou.

Invasões

As lamparinas se apagaram e só se via o reflexo da luz nas águas do rio. O assobio do vento não era exagerado, mas profundamente tenso. As pessoas congelaram suas expressões, como se tivessem visto um fantasma. A notícia de que os bárbaros estavam chegando ao Império Romano já era por si só assustadora para aquelas pessoas.

Por mais que costumassem dizer que estavam preparados para enfrentar a tudo e a todos, menosprezando a ameaça bárbara, eles tinham receio de não poder ganhar todas as batalhas. Mas ali, naquele momento, em meio à escuridão, só se ouvia o uivar dos ventos e as respirações de cada uma das pessoas escondidas naquela construção abandonada.

Elas olhavam de soslaio uns para os outros, mesmo não os enxergando. Não estavam preparados para lutar. As espadas e armaduras eram pesadas demais para eles. Não tinham sido treinados o suficiente. Não tinham organização. Seus senhores da guerra não o deixaram confiantes para a batalha que estava por vir.

Em poucos minutos começaram a ouvir a movimentação das tropas inimigas. Pareciam vir de todos os lados. O som do galope dos cavalos não dava a dimensão exata de quantos eram. Desde que os visigodos saquearam Roma o sossego já não era algo natural para o exército romano.

Vândalos cercaram a construção com rapidez incrível. Certamente sabiam que ali estava concentrada a tropa romana. Era como se tivessem marcado um jogo, por esporte. Mas era uma batalha a certa distância dos ouvidos dos cidadãos. Quando as espadas começaram a se confrontarem e as cabeças rolaram, nenhum som se ouviu nas cidades.

Os bravos guerreiros, sedentos por sangue, duravam sempre mais do que aqueles mais assustados.

Em menos de uma hora, sobraram apenas restos mortais, espadas, armaduras e os cavalos. Sangue. Espadas. Sangue. Dor. Os cavalos seguiram, sem cavaleiros, sem rumo. Nenhum rumo. Nenhum registro. Nenhuma glória.

Maná

Não havia, no campo, uma espiga madura. Não havia centeio a colher. Não havia raiz sob a terra que não estivesse congelada e morta. Havia apenas uma vastidão branca donde brotavam os ciprestes mudos, como gigantes em pedras de sal. O campo, branco, elíseo de nuvem baixas que cobriam o solo. Da neve nascia apenas o nevoeiro. Uns telhados brancos de palha, com as paredes de barro guardando um silêncio quebrado apenas pelo ronco das barrigas vazias. O único calor brotava do alto. Da presença divina que se irradiava das paredes de pedra dos santos padres. Calor, alimento, proteção. Por trás dos muros distantes subia a fumaça quente desprendendo o cheio do pão. E nas choupanas de barro, palha e neve, brotava a alegria por um deus misericordioso e seus santos homens. Aos poucos, como animais em fins de inverno, alguns bípedes saíam das tocas, envoltos em peles de magros animais padecidos, tentando afugentar o frio cobrindo o próprio lombo, envolvendo-se de esperança e fé em nosso bom senhor.

Eles vinham de todos os pontos. Brotavam de casas que mal se viam, cobertas de neve que estavam. As canelas finas deixando profundas marcas na neve, só não mais fundas pelo pouco peso dos corpos. Iam deixando atrás de si pegadas, como que rastros para retornar às casas escondidas no campo branco. E subiam a escarpada colina guiados pelo calor divino que emanava do santuário. O ar frio parecia já carregar os aromas que estavam por vir. Aqueles pontos pardos aproximavam-se devagar, em meio à neve densa. Iam se acercando do monastério que se elevava, acima da encosta, acima da neve, pairando acima do mundo. A própria natureza parecia respeitar aquelas muradas sagradas. A cada passo, os pontos pardos se aproximavam recitando suas orações, pedindo bênçãos em voz baixa, sem se atrever a levantar os olhos aos céus. Miravam apenas a neve que pisariam no próximo passo, enterrando até as canelas na terra sepulta. Sem dizer palavra, iam aproximando-se uns dos outros à medida que chegavam rente aos muros. Como um rebanho bem guiado pela mão do Pastor, circundaram as muradas à distância, até chegar à retaguarda do enorme baluarte de fé. Aproximaram-se das paredes de pedra sem olharem-se nos olhos. Tocaram o muro de pedra em oração. E só então ergueram o olhar para o alto da amurada. As portinholas de madeira, no alto da construção, estavam ainda fechadas mas o cheiro do maná já anunciava a redenção.

Um rangido alto anunciou a chegada. As portinholas se abriram liberando um vapor branco e aquecido, como o calor do senhor nosso deus e as nuvens de seu palácio celeste. E de lá choveu o maná sobre os fiéis. Uma bênção em meio ao inverno. Uma cornucópia donde brotavam os manjares do éden. Cascas, cascas de todos os tipos! Tocos de raízes, pontas de frutos escurecidos. Grãos esparsos e miolos de espiga. Frutos espremidos, muitos sem vermes. E o rebanho bem disse o senhor que lhe verteu maravilhas.

No alto da amurada um anjo olhava benevolente, com armadura brilhante e lança de fé. Dum odre de couro comungou por aqueles lá embaixo, sorvendo o sangue de nosso senhor Jesus Cristo, celebrando a união entre os homens e os céus. E viu retornarem os pontos pardos às suas tocas, afundando os pés nos mesmos buracos na neve que deixaram ao vir ter com o Senhor. Retornaram com os braços segurando o alimento da semana e a certeza de um deus benevolente que vertia da pedra o maná para os homens de bom coração.

Do alto da colina branca, o monastério sagrado via o campo voltar à quietude invernal. Como se ninguém tivesse por ali passado, exceto pelas pegadas na neve e um ou outro corpo que não conseguira retornar para a toca. Tanto uns quanto outros, seriam em breve recobertos pelo sepulcro branco e sagrado do deus misericordioso e tornariam à terra e ao abraço do pai. A fumaça quente e cheirosa saía do monastério acompanhada do canto gregoriano abençoando cada um dos casebres soterrados em neve colina abaixo. Dentro de cada um deles, as barrigas roncavam em louvor ao Senhor.

Updated. Conforme comentários.

sábado, 5 de setembro de 2009

Eles nunca entenderão

O céu começava a mudar de cor, trocando o branco e azul pelo vermelho e amarelo. Seguindo a trilha no meio da floresta, decidi que era hora de arrumar um abrigo para a noite. Afastei-me do caminho, me embrenhando na mata, seguindo o som de um riacho próximo. Ao encontrar o curso d'água, segui-o em busca de uma pequena porção de área aberta. Finalmente me deparei com uma curva no riacho, onde a ausência de algumas árvores formava uma pequena clareira.

Deixei cair a mochila e a lança das mãos, tirando também o arco e a seteira presos ao corpo. Parei por alguns minutos para ouvir o som da água corrente, o sussurro das folhas ao vento, as tímidas vozes dos pássaros que ainda cantavam. Eu me sentia muito mais disposto agora do que no dia anterior, quando tinha passado o tempo caminhando por áreas mais humanizadas em busca de informações. Agora, a energia de Maira fluía para meu corpo, trazendo consigo as mensagens das redondezas e de distantes regiões, que compartilhavam todas a mesma terra.

Mas antes de meditar com mais concentração, eu precisava cuidar da sobrevivência imediata. Na mochila, de pouco conteúdo, peguei uma pequena rede. Amarrei-a em pequenos arbustos à beira do riacho, deixando a deusa guiar alguns peixes incautos para o seu destino. Enquanto isso, me ocupei da tarefa de arranjar madeira e ramos para construir um abrigo e manter uma fogueira.

Quando o sol já abandonava a terra e apenas o débil reflexo da lua fornecia alguma luz, dei-me por satisfeito com a baixa cobertura de folhas. Chequei a rede, encontrando alguns pequenos infelizes que, junto com os frutos e cogumelos encontrados durante a busca, dariam uma refeição decente. Com as pederneiras, fiz um pequeno fogo para afastar o frio e assar os peixes. Enquanto a madeira crepitava e o cheiro de assado começava a atiçar meu estômago, tirei a última das posses que carregava na mochila: um pergaminho velho e um pequeno estojo com uma pena e alguma tinta. Adicionei uma curta nota aos registros das últimas semanas.

"Hoje saí de Ador, um vilarejo de pescadores na costa de Ludgrim, e obtive informações preciosas sobre os planos elementais. Devo ir à busca dos Irmãos Elementaristas no velho Lar Élfico, embora não espere um calorosa recepção de meus pares para um renegado. As informações de um grupo de aventureiros descendo de Saravossa para as Terras Selvagens se torna mais perturbadora agora, pois minha intuição diz ter alguma ligação com o desequilíbrio em Maira que sinto. A deusa não está falando comigo de modo claro, apenas sei que devo ficar atento, pois acontecimentos de consequências ominosas para o mundo parecem estar se desenrolando".

Os peixes estavam prontos, e fiz rapidamente minha refeição. Joguei um toco volumoso no fogo e deitei sob o abrigo, enrolando-me no manto e pensando nos dias por vir. Seja como forem, devo encontrar os irmãos e, também, estes mercenários que, por motivos desconhecidos, parecem estar na mesma trilha. Dependendo de suas motivações, se forem nobres, talvez eu me junte a eles. De outro modo, terei que matá-los. Se não escutam a voz de Maira, não sabem o que se passa por trás da aparente calma do mundo. E eles nunca entenderão. Afastando os pensamentos, meus olhos se fecharam e logo abandonei a consciência, dormindo tranquilo na sombria floresta que naquela noite era meu lar.

Acordei na completa escuridão. A tocha estava apagada e luz alguma penetrava nas profundidades da caverna, encravada nas entranhas da terra. O som que me despertara de um sono alerta se repetiu: um pequeno arrastar de dedos com garras nas lajes de pedra do chão, junto com uma respiração no limite da audição. Alguma coisa estava se movendo nos ancestrais túneis dos anões, além de um aventureiro em busca de uma saída. E, a julgar pelo seu comportamento, estava faminta. E caçando.

Em um mundo sem luz, eu não poderia confiar tanto em meus sentidos quanto a fera, seja lá qual fosse. Fiz movimentos lentos e silenciosos, sentindo onde estavam a espada e o escudo. Seguros de sua localização, tateei em busca de outra tocha e das pederneiras. Os movimentos da criatura tinham se tornado ainda mais suaves. Ela havia percebido minha presença e sentido minha movimentação, preparando-se para o bote. Eu teria talvez um ou dois segundos entre o movimento brusco de acender a tocha e o ataque. Com todo o corpo tenso e preparado, bati as duas pedras com rapidez e força, despejando faíscas que relampejaram no breu, atendo fogo ao pano embebido em combustível.

Mal a primeira labareda surgiu quando o impacto veio. Uma boca de presas formidáveis se fechou em torno do meu braço, apertando os anéis metálicos da cota de malha. Soquei-lhe a cabeça com força, e a criatura soltou, permitindo-me rolar em busca dos armamentos. Em uma manobra ágil, agarrei a espada e o escudo, voltando-me na direção em que imaginava encontrar-se o oponente, enquanto esmorecia a chama da tocha caída ao chão.

Eu tivera muita sorte: caso o ataque tivesse chego no pescoço, eu seria apenas um saboroso naco de carne agora. Mas uma primeira falha não iria desestimular a fera, afinal, não era tão fácil encontrar alimento nessas paragens, e o animal deveria ter se desorientado para acabar em tais profundezas. Não havia mais preocupação com silêncio agora, pois eu conseguia ouvir seu rosnado furioso, mas ela permanecia fora do círculo de luz. Largando o escudo, peguei a tocha antes que se apagasse. O fogo deveria tornar a criatura um pouco mais cautelosa, se fosse acostumada a viver toda sua vida sob o solo. Avancei com a espada em riste, passos lentos e pequenos, ouvindo o rosnado aumentar de intensidade conforme eu me aproximava. Comecei a distinguir um vulto no limite da visão. E, para meu horror, ele avançou e se revelou. Eu estava esperando algum predador normal que se entoca em cavernas, talvez um urso ou leão perdido, mas não podia contar com aquela monstruosidade sobrenatural que se postava em minha frente.

Parecia uma grande pantera de cor negra, quase azulada. Mas sua cara não era da inexpressividade natural de um animal, mas de uma intensa malignidade irracional. Seu corpo não era de solidez absoluta, parecia deixar passar alguma luz, e eu quase podia imaginar o contorno das paredes por detrás. A suave luz azul que emanava da minha lâmina enfeitiçada atestava: aquilo não era um ser completamente material. Mas o mais terrível era a série de tentáculos que se erguia de seu dorso, portando em suas pontas enormes olhos de pupilas fendidas, como as de uma serpente, que se contraíram com a incidência da luz. Eu conhecia aquela aberração apenas de mitos e fantasias, mas sabia que, se fitasse por alguns segundos aqueles olhos, qualquer esperança de sobreviver seria em vão.

Desviei o olhar dos tentáculos e foquei minha atenção na cabeça de pantera. A minha vida estava por um fio, mas não iria me render tão facilmente. Um aventureiro menos preparado não teria a menor chance, mas este não era meu caso. A cota de malha mágica tinha sido uma bela surpresa para o monstro, e o encantamento lançado sobre a espada poderia me fazer conseguir atingi-lo. Passo a passo, nós nos aproximamos mais, cada combatente tenso, confiando em suas armas, e em dúvida quanto aos truques do oponente. A cada centímetro, minha lâmina brilhava mais, e meu braço acumulava energias para um golpe preciso que poderia resolver o embate com rapidez.

Foi quando escutei um segundo rosnado, vindo de trás.

Apenas tive tempo de soltar uma imprecação, voltando a cabeça e vendo um vulto imenso e semi-transparente pular nas minhas costas. Fui derrubado com o golpe, sentindo as garras tentando me dilacerar por sobre a armadura, mas consegui segurar a espada. O monstro era forte, mas eu não era um guerreiro à toa. Com uma violenta estocada do cabo na criatura sobre mim, consegui ter um pouco de espaço para me virar de costas. Meu braço da espada ficou livre e balancei a pesada lâmina, preparando um golpe com força. Mas, ao me voltar, meus olhos se encontraram com aquelas fendas ofídicas da ponta dos tentáculos.

Não consegui desviar o olhar desta vez. Os músculos perderam a força e senti meu corpo relaxar. A espada caiu no chão, com o barulho de metal ecoando pelo túnel. Minha mente ficou embaçada, sem conseguir mais formular raciocínios lógicos. A minha visão era apenas tomada por aqueles olhos, que pareciam aumentar de tamanho e me engolfar inteiramente. A fera hipnótica pareceu sorrir quando sua boca salivante se aproximou do meu rosto. Lutando com minha força de vontade contra aquela possessão demoníaca, tudo o que eu pude fazer era gritar. Quem encontrasse meu corpo nunca entenderia, mas eu apenas gritei.

Gritei a plenos pulmões para meus exércitos se manterem em posição, enquanto os trebuchets bombardeavam as muralhas do castelo. Os pobres diabos, indefesos, nada podiam fazer diante da destruição causada pelas máquinas de guerra. Algumas tropas desesperadas tentavam atravessas a planície e nos flanquear para destruí-las, mas mal conseguiam chegar sob a chuva de setas assassinas dos arqueiros. Os bravos que não morriam ou debandavam apenas encontravam a morte diante da infantaria que protegia cada trebuchet.

Com o castelo arruinado, observamos ao longe as tropas abandonando seu bastião de defesa e recuando rumo à cidade. Era o momento de avançar. Os mecânicos começaram o lento trabalho de desmontar as máquinas de guerra, enquanto ordenei que a cavalaria seguisse em frente, queimando as fazendas que permaneciam na planície e matando os soldados e camponeses que ainda tentavam defender o território.

Com o cair da noite, ordenei que todas as tropas se agrupassem na alta colina onde jaziam os destroços do outrora poderoso castelo. Montamos acampamento ali, erguendo nossas barracas e fazendo grandes fogueiras. Os curandeiros se ocuparam de tratar os feridos, enquanto os mecânicos reparavam os danos sofridos às máquinas de guerra. Avaliei as perdas que tivemos. Um trebuchet fora perdido em um assalto surpresa de cavalaria, mas ainda havia o bastante para demolir as defesas da cidade. A cavalaria sofrera poucos danos, e a infantaria se mantinha intacta. Porém, aquela era apenas a primeira etapa: romper o perímetro defensivo da cidade e penetramos em seus arredores. Certamente a notícia já se espalhava e as forças do reino inimigo estavam se reorganizando. Não havia tempo para esperar por reforços: se demorássemos demais ali, logo choveriam soldados por todos os lados. Nossa manobra era arriscada e sem retorno: penetrar nas muralhas da cidade e destruir seu núcleo militar, fazendo sobrar pouco mais do que forças esparsas e sem liderança entre nós e a conquista total.

Ao amanhecer do dia seguinte, dei as ordens para meu exército se colocar em movimento. Descemos a colina para o vale onde a cidade se estendia, cercada por muralhas formidáveis e fortalezas defensivas. O plano era simples: nos colocarmos a uma distância segura para permitir que os trebuchets devastassem as defesas, evitando contra-ataques, enfraquecendo a cidade antes de espalhar o terror. Ao final do dia, estávamos em posição, e os mecânicos aproveitaram os últimos momentos de luz para montar as máquinas. Naquela noite iniciamos um bombardeio de dois dias, repelindo as forças que tentavam contra-atacar.

Ao amanhecer do terceiro dia, os batedores que foram deixados para vigiar o território conquistado vieram com a notícia que eu já esperava: as tropas externas do reino tinham se ajuntado na nossa retaguarda, e planejavam um ataque coordenado com as da cidade nas duas direções. Era o momento em que tínhamos que abandonar a segurança de nosso ataque à distância e penetrar de vez nas muralhas.

O avanço até os portões foi fácil, já que os torreões estavam destruídos. Em um bloco único, chegamos quase à distância em que os arqueiros inimigos poderiam nos alcançar de cima das muralhas. Chegou o momento de utilizar o nosso segundo trunfo. Mandei tropas de infantaria tomarem o controle dos aríetes que trazíamos conosco, montados sobre rodas e com pesadas defesas de madeira e metal por cima. Os soldados avançaram, sob flechas normais e incendiárias, sofrendo diversas perdas. Mas era um preço que eu sabia que teria que pagar para colocar os portões abaixo. Finalmente, os remanescentes conseguiram se colocar diante das portas de madeira, e bastaram alguns golpes para que estas fossem abaixo. Era chegada a hora.

Ordenei à cavalaria, avançar, destruir os pontos militares estratégicos e não deixem ninguém vivo. Os capitães assumiram seus regimentos e desceram o restante da colina, prontos para fazer aquilo para o qual foram treinados: matar e destruir. A infantaria e os arqueiros seguiram atrás, penetrando na cidade como rios de devastação. Os inimigos tentaram reagir, mas não estavam preparados para tantos soldados de elite bem armados. Camponeses, mulheres, crianças, para todos a ordem era clara: conquista total. Nenhuma piedade. De toda aquela terra, só poderia haver uma ordem, e eu seria o único e inquestionável rei.

Pois é nessas terras que eu sou o líder, o explorador e o aventureiro. Sem nada a dever, sem passado e sem futuro, com infinitas sagas a viver. Aqueles para quem uma vida só é o suficiente, sei que nunca entenderão.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O ritual

- Ezdras, é chegada a hora.

O velho sábio se levantou, tateando com a ponta dos dedos enrugados o tampo de madeira da mesa em sua frente. O aprendiz o esperava segurando a cortina que dividia o aposento de orações.

- Tudo bem com o senhor, mestre?

- A noite está perfeita, Athomo. Estarei pronto em um segundo.

Ezdras passou as mãos grandes pelos cabelos brancos. Sentiu os fios se soltando da pele e escapando por entre os dedos. Baixou a cabeça em vão, apenas para imagina a dança ébria que fizeram até tocar o solo arenoso da cabana. Há muito os olhos haviam deixado de enxergar as maravilhas das Terras Selvagens, cobertos por uma película de pele esbranquiçada.

O ancião caminhou até a estante empoeirada na parede oeste e pegou suas vestes. Cobriu o corpo castigado pelo tempo com as mantas sagradas dos Deuses, baixou a cabeça e fez uma rápida prece. Caminhou para fora de seus aposentos, onde já ouvia o forte barulho de água corrente. Athomo o ajudou a acomodar-se no trono de madeira que, carregado por oito homens serviria de transporte até o local do ritual.

Todos os sacerdotes e membros da realeza participavam do ritual milenar. O povo aguardava ansioso às beiras do rio Gouoba, olhando para o topo da Grande Cachoeira. Ezdras havia herdado todo o respeito de seu pai, o velho ancião da vida, já há muito falecido. Hoje, aos 86 anos, era ele que deixava este mundo para unir-se aos sábios que os esperavam do outro lado.

Os sacerdotes menores aproximaram-se e ergueram o trono de Ezdras. Athomo acompanhou todo o ritual de perto, com um olhar distante. Não foi permitido que nenhum dos nobres falasse, a nenhum não-místico era permitido usar palavras dentro da Grande Cachoeira. Athomo deu a ordem: os sacerdotes colocaram o trono na areia e Ezdras levantou-se. Não se despediu, não agradeceu e não reclamou de nada. Apenas fez uma prece.

O grande sábio caminhou ao terminar suas palavras, com as velhas sandálias arrastando no chão. O rastro de seus passos ficaria lá até o vento apagá-lo por completo. Só então a Grande Cachoeira estaria novamente aberta para a população. Não se ouviu nenhum choro, nenhuma respiração. Apenas o som de água corrente, cada vez mais ensurdecedor. Ezdras caminhou, concentrado em seus passos apenas, até a borda. Parou a poucos centímetros do penhasco, esticou a mão direita para a frente e murmurou duas palavras. Nunca se soube quais foram as últimas palavras do velho sacerdote.

Com mais um passo, Ezdras deixou este mundo.

A população comemorava ao ver o corpo do sacerdote tomar os céus, sabendo que este ano a colheita voltaria a ser abençoada pelos Deuses. Athomo assumiria em uma questão de dias. Nunca mais se falou o nome de Ezdras naquela vila. E por muitos anos, a paz voltou a reinar.