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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Jesus e Judas

- Sim Judas, serás tu o pecador.
- Sai fora, Jesus, nem vem com esse papo não.
- Pois duvidas?
- To falando, nunca te trairia.
- Pois saibas que me negarás por três vezes.
- Vou não!
- Vai sim.
- Não.
- Eu disse que sim.
- Não!
- Viu?
- Ah, sai fora, essa não valeu, foi pegadinha.
- Judas, todo homem peca, e todo homem tem seu preço.
- Tais dizendo que vou te trair por dinheiro, Jesus?
- Sim, por dinheiro.
- Quanto?

Ele

Se Jesus tivesse nascido lá pela década de 40, teria, doidão, participado de uma comunidade alternativa nos anos sessenta. Talvez, chapado e com batas coloridas, teria feito sinal de paz e amor em meio a um mutirão jovem. Para se tornar conhecido e revolucionário, talvez ficasse pelado em frente ao Palácio do Planalto. 

Se ele tivesse nascido em 50 e poucos, seria dançado o rock de Elvis com calças boca de sino vermelhas. Se fosse brasileiro ouviria Doces Bárbaros e se curtisse rock teria descoberto o Aerosmith. Quem sabe seria conhecido por lutar pela independência de países africanos?

Se tivesse nascido lá por sessenta, em oitenta dançaria Michael Jackson e vibraria com Thriller. Estamparia capas de jornais pelo auxílio nas Diretas Já e teria votado no Collor. Teria ele criado o perdão ao virar amigo de Collor?

Como nasceu bem antes de tudo isso, virou Jesus Cristo. 

Porque Jesus não volta pra terra

- É, Jesus, tão sentindo tua falta lá.
- Pois é. Tenho visto cada coisa. Esses dias soube de um outdoor enorme com meu nome estampado. Isso que é saudade, hein.
- É, Jesus. É verdade.
- Caminho e vida também.
- Aliás, vais fazer alguma coisa no teu aniversário?
- Então. O povo me confunde. Não lembro do dia em que nasci, por motivos óbvios. Agora não tenho certeza se é 25 de dezembro ou 1º de janeiro.
-É, Jesus!
(Alguém abre a porta)
- Quem é no telefone, Chico?
- É Jesus!
- Desliga essa porcaria e pára de conversar com esses teus amigos invisíveis! Vamos Jantar.

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Conto inspirado na música homônima da banda “3 hit combo!”. Confira o primeiro álbum “The Pai Mei Education EP” na íntegra, através do Tramavirtual. Clique aqui. (http://tramavirtual.uol.com.br/artista.jsp?id=41581)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Crise em Terra Nova

Sr. Lúcio, o senhor já pode entrar. O Dr. Javésio lhe aguarda.

***

Dr. Javésio, esse é o Sr. Lúcio da PQ&P Comunicação e Marketing.

— OBRIGADO, GABRIEL. BOM DIA ,MEU JOVEM. ENTÃO É VOCÊ QUE TEM A SOLUÇÃO PRA MINHA EMPRESA?

— Bom dia, Dr. Javésio. Eu tenho certeza que o senhor não se arrependerá de confiar sua conta à PQ&P.

— COMO MEU ASSISTENTE JÁ DEVE TER LHE FALADO, A TERRA NOVA EMPREENDIMENTOS & INCORPORAÇÕES PASSA POR ALGUNS... PERCALÇOS, DEVIDO AO CENÁRIO MACROECONÔMICO. A CRISE NOS ATINGE A TODOS, COMO SABE.

— Certamente. É justamente por isso que acredito que nossa abordagem pode ajudar a reverter o enfraquecimento de imagem da Terra Nova.

— ENFRAQUECIMENTO DE IMAGEM?

— Dr. Javésio, é notório nas pesquisas recentes que a Terra Nova Empreendimentos & Incorporações já não apresenta os números expressivos do seu período áureo.

Mas a Terra Nova ainda é líder em nosso mercado, a linha de produtos cresceu e participação de vendas entre os formadores de opinião ainda é marcante.

— De fato, Seu Gabriel. Mas é preciso encarar os fatos de frente e sem maquiagem. Se a Terra Nova não estivesse com dúvidas, não teria nos chamado. Além do que, a imagem da empresa, ainda que forte junto aos formadores de opinião e público geral, já encontra nova concorrência. Como disse o Dr. Javésio, a crise nos atingiu a todos.

— MAS NÃO É UM CRISE FINANCEIRA QUE VAI NOS TIRAR DA LIDERANÇA.

— E é para garantir isso que trago a nossa proposta. Nesses tempos duvidosos, precisamos marcar nosso território no mercado. Defender e melhorar a imagem de nossa empresa. Encontrar um representante de nossa marca.

— UMA PERSONALIDADE? COMO AQUELA PROPAGANDA DE COREGA?

— Não exatamente. Uma personalidade já carrega uma imagem própria. Nós pensamos em começar do zero. Sugerimos a criação de um personagem para representar a Terra Nova.

— UM DESENHO ANIMADO?

— Não. Precisamos de uma abordagem mais séria. Usaremos um ator, obviamente, para interpretar um personagem que consiga se comunicar como o nosso público.

— SIM... UM PERSONAGEM FORTE, PORTENTOSO, LUTADOR, QUE NÃO SE ABATE FRENTE À CRISE, À IMAGEM DA TERRA NOVA.

Café, Dr. Javésio?

— NÃO ATRAPALHE, GABRIEL. NÃO VÊ QUE ESTAMOS TENDO UMA GRANDE IDÉIA?

— Na verdade, nós sugerimos o contrário...

— O CONTRÁRIO? VOCÊS ESTÃO LOUCOS!?

— Pense bem, Dr. Javésio. Não foi o senhor mesmo que disse que esta crise financeira nos atingiu a todos? Pois então! Agora que estão todos se sentindo sós, nós vamos mostrar a eles que eles não estão sós. Nós estamos com eles.

— NA CRISE?

— Igualmente na crise. Ao invés da força, vamos usar a fraqueza, no lugar do heroísmo, o cidadão comum. Vamos dar o público não alguém distante, o lutador vitorioso e imbatível, mas vamos abraçá-los no seu fracasso, no momento de fragilidade, vamos dizer a eles que somos como eles.

— MAS NÓS SOMOS FORTES. IMBATÍVEIS! MANTIVEMOS A LIDERANÇA DE MERCADO DESDE QUE A CONQUISTAMOS.

Sim, nós somos o sucesso!

— Mas o seu público não. E é com ele que precisamos nos identificar.

— MAS NÃO É A NOSSA IMAGEM QUE QUEREMOS MELHORAR?

— E a melhor forma de fazer isso é nos tornarmos mais próximos de nossos consumidores. Falar como eles, dos assuntos deles, estar no meio deles. E um personagem que represente tudo isso, que represente eles, é a nossa melhor opção agora.

— E QUANTO TUDO ISSO CUSTARIA?

— Essa é a melhor parte. O maior custo da produção será o casting. E como temos apenas um ator, não sairá muito caro.

— VOCÊ TROUXE OS ORÇAMENTOS?

— Obviamente. Aqui estão.

— ...

— ...

— MUITO CARO.

— Mas Sr...

Doutor!

— Mas Dr. Javésio, de acordo com o nosso budget, essa verba se enquadraria perfeitamente à nossa realidade.

— LÚCIO, EU SOU O PRESIDENTE DA TERRA NOVA EMPREENDIMENTOS & INCORPORAÇÕES, RAPAZ. EU SEI O QUE SE ENQUANDRA OU NÃO À REALIDADE DA MINHA EMPRESA.

— Sim, senhor. Mas eu lhe garanto, esse personagem, esse mascote é melhor solução para melhorar a imagem da sua marca.

— POIS BEM, VAMOS FAZER O TAL MASCOTE. MAS SEM O ATOR. GABRIEL, CHAMA LÁ O MEU FILHO. ELE VAI FAZER O COMERCIAL.

— Mas Sr...

Doutor!

— Doutor! Dr. Javésio...

— SEM DESCULPAS, RAPAZ. E ANDE LOGO COM A PRODUÇÃO DESSE COMERCIAL, QUE EU QUERO ISSO NO AR EM SETE DIAS!

Nova vida

15/12/08

Sua respiração estava mais difícil, ele notou pela primeira vez. Não era mais aquela inspiração profunda e vigorosa, seguida por uma expiração suave e tranquila. Agora, os pulmões não estavam mais puxando o ar com tanta vontade, e ele podia ouvir um fraco chiado saindo da garganta na expiração. Não era tão aparente quanto as mãos enrugadas que ele encarava. Outrora as fortes mãos de um carpinteiro, agora apenas as rugas tinham permanecido. O vigor se fora.

Ergueu-se com alguma dificuldade e olhou-se no espelho. A face estava murcha, os cabelos esbranquiçados, os olhos caídos e sem brilho. Será que aquele corpo alquebrado aguentaria uma temporada no deserto? Sim, se ele confiasse no Pai, e esta confiança ele tinha acima de tudo, certo? Afinal, não tinha arrastado um peso enorme por quilômetros, em um corpo muito mais sofrido e torturado que este? Sim, ele tinha que ter esta certeza. Mas não pôde evitar um pequeno tremor de insegurança na espinha.

Não era para ser assim. Por que o Pai havia deixado sua forma carnal ficar tão decadente desta vez, em vez de mantê-la em glória por toda uma vida? Seria uma nova provação? Será que aquele era o caminho que Ele havia escolhido para seu filho desta vez? Entretanto, por que as pessoas não se condoíam diante do sofrimento de uma morte lenta? Seria mesmo necessária uma morte violenta, no auge, para que todos o reconhecessem novamente? Porém, ele não sabia como iria reagir agora, diante de uma morte dolorosa... Quer dizer, ele deveria fazer o que o Pai lhe exigisse, pois seu amor era infinito, certo? Um novo calafrio percorreu o corpo, ao imaginar um chicote violento e as costas idosas cobertas de sangue...

A porta do quarto de abriu. Ela fez uma pequena reverência e falou com doçura:

- Inri, está na hora do culto.

Ele sorriu com benevolência e respondeu que já estava indo. Bem, desta vez o Pai escolhera outro caminho para ele. Uma vida longa, saudável e cercado por jovens discípulas. Não era de se reclamar. Afinal, ele sabia o que era uma morte na cruz e não a desejaria para mais ninguém. Muito menos para si mesmo.