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quarta-feira, 17 de junho de 2009
Fil(ler)osofia da Mancha
- São manchas!
- Eu diria que são pintas.
- Claro que não. São manchas e pronto!
- Defina mancha.
- Como assim?
- Se você acha que pode reconhecer manchas, deve saber do que está falando. Defina mancha.
- Ora, uma mancha é... hum... uma parte com cor diferente do resto.
- E uma pinta?
- Ah, uma pinta é uma parte com cor dif... uh... Seu puto!
- Manchas e pintas são a mesma coisa então?
- Não!
- Então qual a diferença?
- Uma mancha é algo grande e sem forma definida. Uma pinta é algo pequeno e redondo.
- Bem, me parecem pintas, então.
- Não parecem n... Ahnnnn... Ah, deixa eu ver o dicionário!
- Esteja à vontade.
- "Mancha: Laivo, mácula, nódoa".
- E pinta?
- Hum...
- E pinta?
- "Pequena mancha; nódoa; sarda".
- São pintas, então.
- Ah, está aqui no dicionário. É tudo a mesma coisa.
- Não, não é. Há uma diferença. É por isso que são palavras diferentes. Conceitos diferentes.
- Palavras diferentes podem significar a mesma coisa.
- Sim, podem. Mas geralmente significam coisas diferentes. Por isso é bom usar a palavra certa.
- Uma zebra, então, tem listras ou faixas?
- Veja no seu dicionário de novo.
- "Listra: Risca num tecido, de cor diferente da deste. Risca. Riscas que caracterizam o pêlo de certos animais". Só pode ser esse. Só faltou desenhar a zebra.
- Olhe o outro verbete antes de concluir isso.
- "Faixa: Tira de pano para cingir a cintura. Atadura, ligadura. Qualquer coisa em forma de tira". Como as zebras não usam atadura, cinta liga nem nada na cintura, a listra é campeã!
- Não tão fácil. Qual a forma das listras da zebra?
- Bem, elas são compridas e finas.
- E qual a definição de tira?
- Tira é um policial que...
- Sim, sim, e faixa é um brother. No sentido em que estamos usando, é óbvio.
- Ok, vejamos... Droga... Dentre outros significados: "Tira: Listra".
- Se uma faixa é qualquer coisa em forma de tira, e uma tira é uma listra, uma faixa pode ser o mesmo que uma listra.
- Então uma mancha pode ser o mesmo que uma pinta.
- Poder, pode. Mas, no nosso caso, é?
- Se a diferença entre mancha e pinta é o tamanho... Tamanho é algo relativo. Uma pinta para mim pode ser uma mancha para uma pulga.
- Mas quem está analisando é você ou a pulga?
- ...
- Para você, então, deve ser uma pinta. E não uma mancha.
- Mas... mas... pinta é tão feio...
- Bochechar é uma palavra horrível. Nem por isso nós glorificamos o enxaguante bucal antes de dormir.
- Pinta lembra pinto.
- E mancha lembra macho, grande coisa.
- Não lembra não, vocês está forçando a barra.
- Você também. Pinta não lembra pinto. A fêmea do pinto é a perereca.
- Bem, sejam pintas, manchas, laivos ou nódoas, ele não parece muito interessado. Acabou de deitar e está lambendo as bolas.
- O interesse está na mente de quem analisa, e não de quem é analisado. O universo caga e anda para a análise, mas para nós ela é essencial.
- Com certeza... E, pensando bem... Elas não são tão redondas...
- Mais para ovais, eu diria.
- Serão bolas ou ovos?
- Pegue o dicionário.
- Eu diria que são pintas.
- Claro que não. São manchas e pronto!
- Defina mancha.
- Como assim?
- Se você acha que pode reconhecer manchas, deve saber do que está falando. Defina mancha.
- Ora, uma mancha é... hum... uma parte com cor diferente do resto.
- E uma pinta?
- Ah, uma pinta é uma parte com cor dif... uh... Seu puto!
- Manchas e pintas são a mesma coisa então?
- Não!
- Então qual a diferença?
- Uma mancha é algo grande e sem forma definida. Uma pinta é algo pequeno e redondo.
- Bem, me parecem pintas, então.
- Não parecem n... Ahnnnn... Ah, deixa eu ver o dicionário!
- Esteja à vontade.
- "Mancha: Laivo, mácula, nódoa".
- E pinta?
- Hum...
- E pinta?
- "Pequena mancha; nódoa; sarda".
- São pintas, então.
- Ah, está aqui no dicionário. É tudo a mesma coisa.
- Não, não é. Há uma diferença. É por isso que são palavras diferentes. Conceitos diferentes.
- Palavras diferentes podem significar a mesma coisa.
- Sim, podem. Mas geralmente significam coisas diferentes. Por isso é bom usar a palavra certa.
- Uma zebra, então, tem listras ou faixas?
- Veja no seu dicionário de novo.
- "Listra: Risca num tecido, de cor diferente da deste. Risca. Riscas que caracterizam o pêlo de certos animais". Só pode ser esse. Só faltou desenhar a zebra.
- Olhe o outro verbete antes de concluir isso.
- "Faixa: Tira de pano para cingir a cintura. Atadura, ligadura. Qualquer coisa em forma de tira". Como as zebras não usam atadura, cinta liga nem nada na cintura, a listra é campeã!
- Não tão fácil. Qual a forma das listras da zebra?
- Bem, elas são compridas e finas.
- E qual a definição de tira?
- Tira é um policial que...
- Sim, sim, e faixa é um brother. No sentido em que estamos usando, é óbvio.
- Ok, vejamos... Droga... Dentre outros significados: "Tira: Listra".
- Se uma faixa é qualquer coisa em forma de tira, e uma tira é uma listra, uma faixa pode ser o mesmo que uma listra.
- Então uma mancha pode ser o mesmo que uma pinta.
- Poder, pode. Mas, no nosso caso, é?
- Se a diferença entre mancha e pinta é o tamanho... Tamanho é algo relativo. Uma pinta para mim pode ser uma mancha para uma pulga.
- Mas quem está analisando é você ou a pulga?
- ...
- Para você, então, deve ser uma pinta. E não uma mancha.
- Mas... mas... pinta é tão feio...
- Bochechar é uma palavra horrível. Nem por isso nós glorificamos o enxaguante bucal antes de dormir.
- Pinta lembra pinto.
- E mancha lembra macho, grande coisa.
- Não lembra não, vocês está forçando a barra.
- Você também. Pinta não lembra pinto. A fêmea do pinto é a perereca.
- Bem, sejam pintas, manchas, laivos ou nódoas, ele não parece muito interessado. Acabou de deitar e está lambendo as bolas.
- O interesse está na mente de quem analisa, e não de quem é analisado. O universo caga e anda para a análise, mas para nós ela é essencial.
- Com certeza... E, pensando bem... Elas não são tão redondas...
- Mais para ovais, eu diria.
- Serão bolas ou ovos?
- Pegue o dicionário.
terça-feira, 16 de junho de 2009
Comparações
A trezentos metros do solo a cidade parece uma maquete. Constatação simples e fácil de ser verificada, mas era só o que ele conseguia pensar quando o avião decolou. Na altitude do voo as nuvens parecem algodão-doce. Meu deus, como seus pensamentos eram previsíveis. Ele se esticava por cima do passageiro ao seu lado a fim de tentar fazer fotos do céu. O “vizinho”, constrangido e angustiado com a situação, ofereceu-se para fazer as fotos, mas recebeu uma recusa verbal. A seiscentos metros do solo, uma mancha de óleo no oceano parece chocolate meio-amargo. Por essa formulação ninguém esperava, nem ele. A quinhentos metros de altitude, o chacoalhar do avião lembra uma batedeira, o balançar das asas lembra uma bandeira chicoteando o ar e o desespero das pessoas lembra os filmes “lado B” da indústria cinematográfica. A trezendos metros de altitude a descompressão da cabine lembra a explosão de uma bomba caseira. A duzendos metros do mar as máscaras de oxigênio caindo sobre as cabeças dos passageiros lembram forcas. A dez metros de profundidade nada mais lembra, nada. Quem sabe uma hora dessas as manchas de óleo pareçam chocolate meio-amargo, de novo.
Mancha d'arte
Na melancolia cinematográfica de um sofá azul no meio de uma sala, com uma xícara apoiada entre o polegar e o dedo médio e um cigarro dependurado entre o médio e o indicador, estava ele observando sua recém acabada obra. O ambiente era até meio bucólico. O sofá era o único móvel do lugar, exceto por um armário quase imperceptível onde ficavam tintas e pincéis. O chão não tinha piso. Assim como tudo ali, era uma soma de artes. Um pouco de tinta, algumas asas de borboleta, bitucas de cigarro, farelos. As venezianas de madeira davam para o mato.
Á esquerda, ao lado da porta, se empilhavam os livros. Não gostava de estantes pra eles. Geralmente o faziam mal e não mereciam conforto algum. De Sartre a Nietzche. De Bukowski a Saramago. E era só. Quer dizer, poderia ser. Não fossem telas brancas nas paredes.
As pernas cruzadas eram mais do que uma insuportável mania: quase uma marca. Olhava, quieto e extremamente tranqüilo para mais uma de suas obras ainda não começadas. Sabia exatamente o que estaria ali nas próximas horas. Apenas sentia prazer na espera.
Foi descoberto por um amigo de um amigo, aquelas histórias clássicas. O cara era jornalista e um dia viu uma de suas telas por aí. O nome era Mancha IV.
Ele nunca foi de falar muito. Quando os poucos amigos reclamavam da sua solidão, ele nem se dava ao trabalho de argumentar. Sabia que só quem vive só sabe como é difícil verbalizar o prazer da sua própria companhia. Isso foi preponderante, também, para o mistério que surgia cada vez que uma nova obra era divulgada.
Os nomes nunca mudaram: Mancha. As inspirações também não: manchas. E era tudo o que se sabia. Sorria, apenas sorria, quando via algum multimilionário com um quadro seu na sala, junto com as crianças. “Se ele soubesse que foi feito de porra”. E sorria para a fotografia.
Algumas, claro, eram óbvias. Uma tela inteira de manchas de asas de borboleta. Outra com bitucas de cigarro manchadas pela mistura entre lábios e nicotina. Duas – repetidas por um montante em dinheiro capaz de sustentá-lo por meio ano – com as imbecis manchas em tecidos. Mas a maioria delas, impossível de identificar. Borrões de café, um vidro com marcas de corrosão da maresia, gotas de limão em uma tela branca, sangue em lençóis, milhares de marcas de patas molhadas com vinho.
Ria da idiotice das pessoas. A última obra, que rendeu um livro de tentativas de explicações e era só um balde de tinta jogado numa tela. E vivia assim, olhando em volta e pensando nas manchas que lhe trariam dinheiro para passar a vida sentado no sofá azul.
Jogou o cigarro no chão, levantou-se, pisou em cima. Sarcástico, olhou pra cima e viu, na tela pendurada, a obra principal de sua vida: a causa de sua morte. As manchas amarelas de fumaça estavam quase prontas. Pegou as latas de óleo que estavam ao chão. Era hora de ganhar a vida.
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