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terça-feira, 27 de maio de 2008

Mudanças

É engraçado ver como eu mudei desde que você apareceu. Uma mudança sutil, de hábitos, de vontades. Você fez com que eu emagrecesse, amadurecesse e me tornasse uma pessoa um pouco mais cética. Você fez com que eu passasse a encarar as notas do violão como música, realmente. É angustiante saber que mesmo sem você aqui, a melodia continua me fazendo pulsar como há tempos.

É engraçado ver como você mudou desde que eu apareci. Você se tornou um pouco mais audacioso, passou a acreditar em muitas das minhas certezas, se tornou independente. É angustiante ver em você o reflexo de um pouco do que eu fui, com as minhas manias, as minhas caretas e as minhas gírias.

É engraçado e extremamente angustiante ver em você um tipo de espelho, um espelho de alguém que eu sei que não existe mais.

(15/05/2008)

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Lados

A imagem refletida mostra apenas uma parte do ser. A parte aparentemente mais completa e mais constante. Uma pequena parte que tenta se manter firme, esbelta, pura e agradável. O outro lado não se reflete em imagem. O outro lado se esconde sob a máscara fria e neutra da imagem. É um lado obscuro e instável, quase inatingível aos olhos alheios. Mais ou menos como a lua, que mostra uma face e esconde a outra. É o ser. O ser que tem um lado refletido no espelho e outro oculto em seu próprio receio. Vez ou outra, os dois lados entram em conflito. O externo se altera em discordância com o interno aflito. De acordo com a intensidade da guerra, um pode tomar a forma em semelhança ao outro. E isso não é raro. O fato é que o lado imagem se reflete no espelho, mas também reflete no lado que é outro e não tem espelho que possa externar.

Sósias

Eu moro com um cara que é minha cara. Ele é igualzinho a mim, e isso é estranho, chega a ser assustador. É claro que temos nossas diferenças, a maioria delas bem visíveis. Mas temos o mesmo cabelo, a mesma barba, o mesmo tipo físico e a mesma forma de andar.

Mesmo assim, cada vez que o vejo de frente, nossas diferenças saltam mais aos meus olhos. O cabelo dele nunca está bem penteado, se revolta facilmente e não pára no lugar. A barba comprida, ao invés de ser um charme, não passa de desleixo. Dá pra ver que ele não faz a barba por preguiça mesmo.

Desde sempre foi assim. Somos quase iguais, mas as pessoas ao lado dele não combinavam tanto com ele quanto as ao meu lado. Ele tinha um ar de inutilidade, de vadiagem mesmo, que sempre mostrou como a gente é diferente um do outro.

Às vezes as pessoas nos confundem um com o outro. Diversas vezes me vi sendo julgado por alguém que olhava pra mim, mas na realidade enxergava ele. É ele que nunca está com a roupa combinando, é ele que tem os olhos cansados, que quase não se abrem. É ele tem o rosto marcado, que perde horas e horas todas as manhãs tentando ficar igual a mim.

E mesmo assim, ele ri da minha cara. Ri do meu desemprego, das minhas falhas. Ri da incerteza de um futuro, da minha pose de sabichão mesmo quando não tenho nada do que me orgulhar. Ele ri até do meu orgulho besta, dos bons trabalhos que eu faço, mas que quando eu olho estes trabalhos ao lado dele, vejo que são tolos e que não me trazem dinheiro algum.

Mesmo eu sendo o cara bonito, bem vestido e cheio de estilo, ele que é feio, desleixado e nerd, ri da minha cara. Ri cada vez que eu olho para ele. Ri cada vez que eu percebo que quem está ali sou eu mesmo. Refletido no espelho embaçado do banheiro, mostrando todos os defeitos que eu tento esconder de mim mesmo.

domingo, 25 de maio de 2008

Visão ancestral

25/05/08


O vento uiva forte entre os picos nevados da titânica cordilheira. Onde terras colidem e se moldam de acordo com forças implacáveis, abrem-se penhascos temerosos, erguem-se paredões ciclópicos e tapetes esbranquiçados derramam-se pelas fendas. Entre rochas tão antigas quanto o tempo, abre-se uma caverna, profunda garganta estendendo-se ao coração da gelada montanha. Lá, as paredes se recobrem com carapaças de gelo, e a gruta cintila ante os poucos raios de luz que se atrevem a perscrutar seus segredos. Quando a massa de terra se aproxima de seu pai celeste, poucos graus de diferença fazem a caverna transpirar, gotejando em ecos pelas galerias insondadas. Mas, em breve, novamente o sol mingua e a umidade cristaliza em dentes e espelhos, seguindo seu ciclo natural.

Aquilo que na caverna repousa, entretanto, dificilmente seria considerado algo natural. Em meio a uma penumbra quase viva, que ruge, uiva e assobia, permanece lá, parado, ante uma colossal muralha de gelo. Longe de qualquer coisa considerada viva, ou sensciente, sem estar próximo, ou distante, de qualquer entidade remotamente próxima. A própria montanha cora, em vergonha juvenil, ante o que abriga em seu interior. Um pária, deslocado por sua perenidade em um mundo de coisas efêmeras.

Sua atitude não é outra senão indiferença, fitando em estase a imagem refletida no gelo. O único lampejo de familiaridade onde tudo o mais lhe é estranho, caminhos distintos de uma evolução cega em um universo insano. Não que aquela imagem fosse causar indiferença em qualquer olhar que nela pousasse. A mais perturbadora das visões é aquela que fala de eras estranhas e paisagens incognoscíveis, éons e distâncias avassaladoras para entes de mente estreita e curta existência. Confrontados com uma abominação de eras esquecidas, tudo o que lhes parece sólido, concreto, certo, é destroçado em cacos de incompreensão e desespero, pois têm consciência de sua ignorância e mediocridade ante dimensões muito além de sua pobre imaginação. Para esses, nada mais pode ser extraído daquele reflexo que medo, horror e loucura. O seu dono, porém, tem ali sua única companhia, onde permanece em silencioso devaneio, entre vagas memórias de um tempo além do tempo. E, quando o gelo vira água e o espelho se torna rocha, ele permanece no mesmo estado, solitário, apenas esperando o que lhe são instantes, fugazes segundos antes da parede congelar de novo.

Aqueles poucos que nas montanhas vivem da caverna não ousam se aproximar. Seja considerada divina ou amaldiçoada, por ali acham melhor não passar. Dizem que, assim como mortos deuses esperam sonhando nas profundezas do oceano, também nas alturas do mundo se escondem coisas que é melhor não descobrir, vindas de lugares e épocas ignotas, e cuja simples menção em tomos ancestrais causa arrepios e pesadelos nos mais sensíveis. E mais de um sábio transtornado já se aventurou nos cumes em busca de conhecimento proibido, apenas para pelas montanhas (ou outra coisa, sussurram) ser devorado.

Alheio a tudo isso, ele permanece na caverna. Sua paciência é infinita, pois mais de uma estrela já morreu sob seu olhar. Espera os astros dançarem e certas forças do universo se ajustarem, para, quem sabe, retomar aquilo que já teve e ser aquilo que já foi. Muito mais do que uma imagem distorcida fracamente refletida em uma parede de gelo. Uma aberração grotesca despida de glórias passadas, enclausurada nos confins extremos de um mundo que não é seu.

sábado, 24 de maio de 2008

O outro lado do espelho

Quando entrei no quarto ele estava em frente ao espelho, perscrutando a imagem refletida. Levantava uma mão e acena para si mesmo, mais estudando os movimentos do que propriamente se cumprimentando. Dei uns minutos até me fazer perceber.

— Bom dia, Seu Antônio.

—‘Dia, doutor.

— Tudo bem?

— Tudo. O doutor já percebeu uma coisa? Olha só.

Deixei a prancheta sobre a cama e me aproximei do paciente, preenchendo o restante do espelho com o meu reflexo. Ele acenou para as imagens novamente.

— Viu? Ele é canhoto. Eu sou destro mas o meu reflexo é canhoto.

— Ele não é canhoto, Seu Antônio. É só um reflexo.

— Não. Eles são todos canhotos.

A ênfase no todos, demorando para terminar a palavra, já prenunciava que eu teria mais um consulta daquelas.

— Eles? — Tive que perguntar.

— Os reflexos! E eles já estão entre nós, misturados com a gente e a gente nem percebe.

— Os reflexos? Do espelho?

— Eles já não estão só no espelho. Veja! Nós somos todos destros. Os reflexos é que são todos canhotos. Mas eles estão vindo para o nosso lado, tomando o lugar. Eles estão planejando uma invasão!

— Os reflexos ou os canhotos? — Perguntei já ficando meio preocupado.

— Todos os canhotos são reflexos! Eles descobriram um jeito passar para o nosso lado e daí nos aprisionam do outro lado. Eles estão trocando de lugar. Enquanto as pessoas de verdade ficam presas no outro lado do espelho, os reflexos estão aqui. Entre nós. Se preparando para dominar a gente! Os reflexos estão entre nós!

Ele já estava ficando agitado demais, então tive a desculpa para aplicar-lhe uma injeção calmante. Para ajudá-lo a descansar, afirmei. Preparei uma seringa cheia e apliquei-lhe sobre alguns queixumes. Quando apliquei a segunda, ele estranhou o aumento da dosagem. Mas afirmei que era só porque ele estava muito agitado e precisava dormir. Só na terceira dosagem ele percebeu que o êmbolo descia sob a pressão do meu polegar esquerdo.

Ele sabia demais.

Afastou-se assustado, cambaleando com pernas frouxas, já apresentando os efeitos da droga. Olhos esbugalhados, correu até o espelho, mirando-se uma última vez. Lá dentro viu a minha imagem, por sobre seu ombro, despedindo-se com um aceno da mão direita.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Tema: Reflexo

E o tema da próxima rodada é REFLEXO.

Não quero limitar, de forma alguma, os significados da palavra.
Então, mãos à obra!!

Abraço aos duelistas e leitores.