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sexta-feira, 17 de abril de 2009
Cicatriz
Em um impetuoso movimento, ele desenhou seu nome no corpo. Muito mais do que cinco letras gravadas em tinta, era uma declaração de amor e união. Mostrou-lhe, e ela soltou um riso nervoso. Desconversou quando ele perguntou se ela não acharia romântico fazer o mesmo. Duas semanas depois, ela pedia para dar um tempo. Falou que não podia continuar enganando-o, fingindo que sentia um amor tão intenso quanto o dele. Ele se desesperou, chorou, seu mundo seguro e confortável ruiu. Tinha esquecido que, ao contrário de tatuagens gravadas na pele, as paixões nunca duram para sempre.
Sozinho e perdido, ele demorou a se adaptar à nova realidade. Tentou sobreviver em um mundo que lhe parecia pálido e cinzento, desprovido de sua tépida companhia. Buscou apoio nos amigos, mas sua companhia lhe parecia vazia e distante. Procurou o calor de outras mulheres, mas elas lhe pareciam geladas e banais. A presença dela estava em tudo, nos lençóis que outrora compartilhavam e nos versos das músicas que ouviam juntos. Ele tentou se livrar de tudo aquilo, mas não conseguiu atirar fora as lembranças. Tinha sentido que, assim como uma droga inebriante e pesada, as memórias só precisavam de um pequeno estopim para uma recaída.
Pois havia a tatuagem. As letras de seu nome lhe saltavam aos olhos todo dia no espelho. Ele passou a evitar fitá-la, mas não adiantou. Sua presença era sentida, como se queimasse na pele e na mente. O nome, e, trazida à tona pelo nome, a imagem. Não, ele não poderia conviver com aquilo. Sua libertação dependia do fim daquela marca. Então, em uma noite de desespero, ele virou uma garrafa de vodca e pegou uma navalha. Encostou-a na pele e pendeu a respiração. A lâmina deslizou, afundando com facilidade nas camadas mais profundas da pele, e ele quase trincou os dentes com a força que os cerrava. Com cada corte, lágrimas jorravam, lágrimas de dor, na pele e na alma. Cada pedaço de seu corpo lacerado era um pedaço de seu coração arrancado. Resistiu apenas até terminar o serviço, desmaiando e esperando o esquecimento definitivo.
Porém, este não veio, e ele acordou no dia seguinte. Fraco pela hemorragia e com a ferida infeccionada, mas ainda vivo. Aquilo lhe mostrou que, se o corpo poderia sobreviver a uma injúria daquelas, o espírito poderia continuar, mesmo alquebrado. Tentou seguir com sua vida em paz, escondendo de todos o local mutilado. Não precisava mais olhar para nenhuma reminiscência de tempos idos, e, com o passar do tempo, as lembranças dela foram lentamente se esvaindo. Mas seu coração jamais conseguiu bater novamente do mesmo modo. Ele tinha se livrado de tudo o que podia lhe lembrar dela, mas não conseguiu evitar a mácula em sua alma. Tinha percebido que, assim como uma tatuagem extirpada à força, deixando exposta uma marca que jamais se cura, nenhum amor verdadeiro abandonava o coração sem deixar uma eterna cicatriz.
Sozinho e perdido, ele demorou a se adaptar à nova realidade. Tentou sobreviver em um mundo que lhe parecia pálido e cinzento, desprovido de sua tépida companhia. Buscou apoio nos amigos, mas sua companhia lhe parecia vazia e distante. Procurou o calor de outras mulheres, mas elas lhe pareciam geladas e banais. A presença dela estava em tudo, nos lençóis que outrora compartilhavam e nos versos das músicas que ouviam juntos. Ele tentou se livrar de tudo aquilo, mas não conseguiu atirar fora as lembranças. Tinha sentido que, assim como uma droga inebriante e pesada, as memórias só precisavam de um pequeno estopim para uma recaída.
Pois havia a tatuagem. As letras de seu nome lhe saltavam aos olhos todo dia no espelho. Ele passou a evitar fitá-la, mas não adiantou. Sua presença era sentida, como se queimasse na pele e na mente. O nome, e, trazida à tona pelo nome, a imagem. Não, ele não poderia conviver com aquilo. Sua libertação dependia do fim daquela marca. Então, em uma noite de desespero, ele virou uma garrafa de vodca e pegou uma navalha. Encostou-a na pele e pendeu a respiração. A lâmina deslizou, afundando com facilidade nas camadas mais profundas da pele, e ele quase trincou os dentes com a força que os cerrava. Com cada corte, lágrimas jorravam, lágrimas de dor, na pele e na alma. Cada pedaço de seu corpo lacerado era um pedaço de seu coração arrancado. Resistiu apenas até terminar o serviço, desmaiando e esperando o esquecimento definitivo.
Porém, este não veio, e ele acordou no dia seguinte. Fraco pela hemorragia e com a ferida infeccionada, mas ainda vivo. Aquilo lhe mostrou que, se o corpo poderia sobreviver a uma injúria daquelas, o espírito poderia continuar, mesmo alquebrado. Tentou seguir com sua vida em paz, escondendo de todos o local mutilado. Não precisava mais olhar para nenhuma reminiscência de tempos idos, e, com o passar do tempo, as lembranças dela foram lentamente se esvaindo. Mas seu coração jamais conseguiu bater novamente do mesmo modo. Ele tinha se livrado de tudo o que podia lhe lembrar dela, mas não conseguiu evitar a mácula em sua alma. Tinha percebido que, assim como uma tatuagem extirpada à força, deixando exposta uma marca que jamais se cura, nenhum amor verdadeiro abandonava o coração sem deixar uma eterna cicatriz.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Eternos
Olhava o casal apaixonado. Trocavam olhares, toques, sorrisos. Era um grande passo para eles, um dos mais importantes que já haviam tomado juntos. A menina, nervosa, mordia as pontas dos dedos enquanto esperava sua vez, olhando o rosto do namorado em busca de qualquer anúncio de dor. Ele disfarçava as fisgadas da agulha na pele, fingindo não sentir nada, para tranqüilizá-la.
Na hora de pintar a pele, puxou o traço do L bastante para a esquerda. Deixou a ponta elevada, renovando o formato do desenho. O U no final do nome recebeu um traço longo contínuo, que lembrava uma cauda de dragão que se enrascava pela batata da perna.
Nela, a mesma técnica. O acento no A ficou num ângulo que poderia ser perfeitamente utilizado para ser substituído por uma estrela no futuro. O F trazia um espiral que lembrava as tribais da moda, que com um pouco de cor poderia abrigar borboletas, fadas, o que quer que ela precisasse para superar o sofrimento do fim.
Eles eram só amores, só beijos, só carinhos. Ele se fazia de forte para tranquilizá-la, segurava sua mão sem apertar. Ela era só sorrisos, só rubores.
Mas ele já tinha visto essa mesma cena centenas de vezes. Já havia tatuado todos os nomes imagináveis. Amandas, Anas, Nathalias, Larissas, Alices, Marinas. Andrews, Marcelos, Brunos, Thiagos. Todos eles, relacionamentos eternos. “Eternos como uma tatuagem”, cada casal repetia, acreditando ser criativos e românticos.
Mal sabiam que ele, mais do que tatuar nomes, era um especialista em transformar Amandas em índias, Thiagos em borboletas, Anas em dragões, Marcelos em fadas, Marinas em magos medievais, Brunos em anjos. Assim como os romances são eternos como as tatuagens, eles podem ser pintados por cima, renovados, atualizados, trocados. Substituídos. Assim como as tatuagens.
Na hora de pintar a pele, puxou o traço do L bastante para a esquerda. Deixou a ponta elevada, renovando o formato do desenho. O U no final do nome recebeu um traço longo contínuo, que lembrava uma cauda de dragão que se enrascava pela batata da perna.
Nela, a mesma técnica. O acento no A ficou num ângulo que poderia ser perfeitamente utilizado para ser substituído por uma estrela no futuro. O F trazia um espiral que lembrava as tribais da moda, que com um pouco de cor poderia abrigar borboletas, fadas, o que quer que ela precisasse para superar o sofrimento do fim.
Eles eram só amores, só beijos, só carinhos. Ele se fazia de forte para tranquilizá-la, segurava sua mão sem apertar. Ela era só sorrisos, só rubores.
Mas ele já tinha visto essa mesma cena centenas de vezes. Já havia tatuado todos os nomes imagináveis. Amandas, Anas, Nathalias, Larissas, Alices, Marinas. Andrews, Marcelos, Brunos, Thiagos. Todos eles, relacionamentos eternos. “Eternos como uma tatuagem”, cada casal repetia, acreditando ser criativos e românticos.
Mal sabiam que ele, mais do que tatuar nomes, era um especialista em transformar Amandas em índias, Thiagos em borboletas, Anas em dragões, Marcelos em fadas, Marinas em magos medievais, Brunos em anjos. Assim como os romances são eternos como as tatuagens, eles podem ser pintados por cima, renovados, atualizados, trocados. Substituídos. Assim como as tatuagens.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Alegre
- Tristeza.
- Tristeza?
- Tristeza.
- Posso perguntar?
- Se eu não precisar responder.
- Pra que tatuar tristeza?
- ...
- A alegria não é bem mais bonita?
- ...
- Olha, moça, não acho legal ter pro resto da tua vida a tristeza marcada na pele.
- Não quer a grana? Posso atravessar a rua.
- Tá certo. Onde?
(...)
- O que significa?
- O que você acha?
- Ah, deve ser uma coisa importante pra você.
- Certamente.
- Alegria? Força? Coragem?
- Tudo isso.
- Num só símbolo?
- Tu vê, né.
Representação
Ricardo folheava revistas. “Qual é o signo que me define como pessoa?”, questionava-se. Não encontrava nada até que botou os olhos no tradicional yin-yang. Ainda não era aquilo tudo, mas a ideia podia ser boa, afinal, era do equilíbrio daquela figura que surgiam as mutações. Ele definitivamente gostava do conceito de equilíbrio e não abriria mão de ter uma representação disso em seu próprio corpo. “Todo mundo tem tatuagem hoje em dia, por que não posso ter uma?”
O problema todo era definir o que seria tatuado e em qual parte do corpo. Jamais tatuaria o nome da namorada, como fez um velho amigo, ou dragões, lagartos, índios, como a maioria dos homens que conhecia. Resolveu criar um símbolo próprio. Seria marca registrada dele. A representação dele por ele mesmo. Esboçou vários desenhos abstratos até que se lembrou do yin-yang. “As mutações! Posso ter uma própria”. Rabiscou muito até chegar ao ponto que queria.
“É isso. Simplicidade, estética, significado”. Saiu correndo com o papel em mãos. Parou em frente à Casa do Tatuador, mas ainda não sabia qual seria a parte do corpo mais indicada. Bíceps? Antebraço? Costas? Áreas mais escondidas? Pensou muito até definir que faria a tatuagem no pulso. Seria seu mais novo relógio, para o resto da vida. Mostrou o desenho ao tatuador, sentou-se na cadeira e esperou o momento. “Malditas agulhas”, pensou em voz alta.
E fugiu...
O problema todo era definir o que seria tatuado e em qual parte do corpo. Jamais tatuaria o nome da namorada, como fez um velho amigo, ou dragões, lagartos, índios, como a maioria dos homens que conhecia. Resolveu criar um símbolo próprio. Seria marca registrada dele. A representação dele por ele mesmo. Esboçou vários desenhos abstratos até que se lembrou do yin-yang. “As mutações! Posso ter uma própria”. Rabiscou muito até chegar ao ponto que queria.
“É isso. Simplicidade, estética, significado”. Saiu correndo com o papel em mãos. Parou em frente à Casa do Tatuador, mas ainda não sabia qual seria a parte do corpo mais indicada. Bíceps? Antebraço? Costas? Áreas mais escondidas? Pensou muito até definir que faria a tatuagem no pulso. Seria seu mais novo relógio, para o resto da vida. Mostrou o desenho ao tatuador, sentou-se na cadeira e esperou o momento. “Malditas agulhas”, pensou em voz alta. E fugiu...
terça-feira, 14 de abril de 2009
Invisível
O celular a acordou tocando uma música japonesa numa versão americana teen. Abriu os olhos levemente puxados de um castanho profundo e sonolento para ver, sobre a penteadeira, o uniforme passado e dobrado que a aguardava. A saia escura de pregas até os joelhos, a camisa branca de botões, as meias brancas acompanhando as sapatilhas pretas. Despiu o pijama e observou a pele alva e sem manchas no espelho. Quase imaculada, não fosse por uma minúscula espinha na testa, prontamente coberta com pomada. Vestiu-se olhando pela janela do décimo primeiro andar do edifício cor marfim a cidade abaixo dela, há muito acordada. Escovou os cabelos lisos cor de chocolate-quatro-ponto-sete-sete cortados à altura dos ombros e de franja impecável. Olhou-se novamente no espelho com um meio sorriso de contentamento, vendo a imagem do que a mãe categorizaria como “fofa”. Juntou os cadernos dentro da pasta a tiracolo e encontrou os pais para o café da manhã na cozinha branco-minimalista, com o sol filtrado pelo para-sol das janelas. Enquanto o pai lia o jornal do dia e a mãe via as notícias na tevê suspensa, comeu o mamão papaia descascado, tomou o iogurte com o cereal de marca e comeu meia fatia de pão de iogurte com manteiga light e geléia belga, terminando com o suco de laranja. Desceu os onze andares pelo elevador iluminado e sentou-se ao lado do pai no SUV alemão prateado. No rádio, as notícias relidas por um locutor traziam mais do mesmo outra vez. Despediu-se do pai com um beijo no rosto, saltou do carro parado em fila dupla na porta do colégio e entrou pelos portões alaranjados para as aulas do dia.
Sentou-se no mesmo lugar de sempre. Ouviu a mesma professora de toda segunda-feira. Naquela segunda, novamente, depois de já bastante tempo, olhava mais para o relógio do que para a professora. Os ponteiros dos segundos com dificuldade empurravam o dos minutos contra o irresoluto ponteiro menor. A perna saltitava num levantar-e-abaixar na ponta do pé. Rabiscava e desenhava na borda com caderno, com cuidado para não manchar a mão com tinta. Hoje queria a pele alva livre de qualquer mancha. No intervalo ligou do celular para a mãe, avisando que iria almoçar na casa da Renata. Não avisou Renata. Abriu a agenda e viu marcado o apontamento em caneta colorida: Denis - 12h15. Retornou à sala de aula para ver os ponteiros girarem sem saírem do lugar. E os professores, falando, fazerem o mesmo. Desfrutou do friozinho na barriga que não sentia há muito tempo. Não sentia, de fato, há muito tempo. Mas logo, assim que o relógio terminasse a última volta, mudaria isso de novo. O sinal soou avisando o fim das aulas e o início da correria do meio-dia. Os portões alaranjados vomitando infantes corredores nas calçadas, ruas, sinais, entre os carros parados em fila dupla de mães esperando os filhos que estavam recebendo alguma educação.
Saiu a passos rápidos. Seguiu pelas calçadas arborizadas com os cabelos achocolatados ao vento, a pele clara esquentando ao sol. Chegou ao estúdio às 12h13 e entrou rapidamente pela porta de vidro sob o letreiro preto e prata. As paredes brancas decoradas com certificados e fotos de corpos tatuados. Por trás de uma cortina saiu o homem sorridente em camisa sem manga e braços decorados.
— Oi, Mica! Quanto tempo! Bem no horário.
— Oi, Denis. Ainda lembra de mim? — perguntou sorrindo.
— Faz um tempo mas, dos meus clientes todos, de você eu não ia esquecer. —respondeu dividindo uma risada com ela.
— Ah, Denis, se todo mundo fosse igual não ia ter graça.
— O mesmo de sempre, então?
— Isso aí. Pode ser aqui na coxa, do lado de fora. — Ela disse, sentando na maca e levantando a saia que escondia a pela clara da perna jovem.
— Trouxe algum desenho de referência?
— Não, não. Hoje você pode ficar à vontade. Vou deixar o artista criar.
O tatuador ajustou as agulhas esterilizadas, já de luvas brancas, a máscara cobrindo a boca. Mesmo assim, pôde vê-lo sorrir com olhos quando disse “tem certeza que dessa vez não vai querer mesmo que eu use as tintas?” Ela sorriu de volta:
— Pode pôr esses potinhos pra lá! Você devia ficar feliz, ao menos economiza no material. Devia me fazer um desconto, isso sim!
Ele deu uma gargalhada e o zumbido da agulha soou metálico no estúdio. Ela franziu a testa aguardando a primeira estocada, prevendo a dor à qual nunca se acostumava.
A agulha se aproximou da pele macia. Se fosse possível observar de perto, seria possível ver o aço brilhante e delgado se aproximando veloz. Antes do toque, os mínimos pelos da coxa se eriçando, levantando guarda contra a lança tatuadora. Um arrepio percorreria a perna, galgando as costas, até erguer os cabelos da nuca. Só então a agulha tocaria a pele, que se curvaria para dentro oferecendo uma breve resistência que, logo após, cederia, rompendo-se e dando acesso à carne tenra escondida pela brancura. A agulha retornaria pelo mesmo caminho, batendo em retirada do orifício criado, deixando escapar em seu encalce um gota vermelha. Única tinta que mancharia a pela clara. Só aí um impulso percorreria a coxa que se contrairia, o sangue irrigando rápido, sob a pele, os vasos da região enquanto a agulha voltava a cargas por vezes e vezes seguidas, guiadas pelas mãos hábeis do tatuador. Tudo muito rápido. Valiosas frações de segundo.
O artista parava volta e meia para limpar uma área ou outra que estivesse sangrando, para deixar a cliente tomar um ar ou uma água, ou para fazer uma piadinha qualquer. Ela apreciava o momento. Observava de perto o trabalho quando conseguia, admirava o trocar de tom da perna. Via o desenho brotar-lhe pelos poros. Mordia o lábio quando a agulha tocava alguma área mais sensível, se segurava contorcendo-se de riso e dor. Xingou o tatuador duas vezes. Durante todo o trabalho tinha um espelho grande ao lado da maca para poder acompanhar o procedimento. Sem o uso de tintas, o trabalho foi rápido. Em duas horas havia terminado.
Levantou-se segurando a saia e olhou-se no espelho. Havia surgido algo sobre a pele imaculada, alva e sem manchas. Ainda um pouco inchado e manchado pelo pouco de sangue, mas bonito ainda assim. Sim, bonito. E ela sentira cada pequeno ponto. Cada linha, cada nuance. Em breve, invisível para os demais. Depois de um tempo, invisível mesmo para ela. Mas quando desaparecesse por completo dos olhos, ela sempre poderia retornar mais uma vez ao estúdio, se quisesse. Ela sentiria quando a hora chegasse outra vez.
Sentou-se no mesmo lugar de sempre. Ouviu a mesma professora de toda segunda-feira. Naquela segunda, novamente, depois de já bastante tempo, olhava mais para o relógio do que para a professora. Os ponteiros dos segundos com dificuldade empurravam o dos minutos contra o irresoluto ponteiro menor. A perna saltitava num levantar-e-abaixar na ponta do pé. Rabiscava e desenhava na borda com caderno, com cuidado para não manchar a mão com tinta. Hoje queria a pele alva livre de qualquer mancha. No intervalo ligou do celular para a mãe, avisando que iria almoçar na casa da Renata. Não avisou Renata. Abriu a agenda e viu marcado o apontamento em caneta colorida: Denis - 12h15. Retornou à sala de aula para ver os ponteiros girarem sem saírem do lugar. E os professores, falando, fazerem o mesmo. Desfrutou do friozinho na barriga que não sentia há muito tempo. Não sentia, de fato, há muito tempo. Mas logo, assim que o relógio terminasse a última volta, mudaria isso de novo. O sinal soou avisando o fim das aulas e o início da correria do meio-dia. Os portões alaranjados vomitando infantes corredores nas calçadas, ruas, sinais, entre os carros parados em fila dupla de mães esperando os filhos que estavam recebendo alguma educação.
Saiu a passos rápidos. Seguiu pelas calçadas arborizadas com os cabelos achocolatados ao vento, a pele clara esquentando ao sol. Chegou ao estúdio às 12h13 e entrou rapidamente pela porta de vidro sob o letreiro preto e prata. As paredes brancas decoradas com certificados e fotos de corpos tatuados. Por trás de uma cortina saiu o homem sorridente em camisa sem manga e braços decorados.
— Oi, Mica! Quanto tempo! Bem no horário.
— Oi, Denis. Ainda lembra de mim? — perguntou sorrindo.
— Faz um tempo mas, dos meus clientes todos, de você eu não ia esquecer. —respondeu dividindo uma risada com ela.
— Ah, Denis, se todo mundo fosse igual não ia ter graça.
— O mesmo de sempre, então?
— Isso aí. Pode ser aqui na coxa, do lado de fora. — Ela disse, sentando na maca e levantando a saia que escondia a pela clara da perna jovem.
— Trouxe algum desenho de referência?
— Não, não. Hoje você pode ficar à vontade. Vou deixar o artista criar.
O tatuador ajustou as agulhas esterilizadas, já de luvas brancas, a máscara cobrindo a boca. Mesmo assim, pôde vê-lo sorrir com olhos quando disse “tem certeza que dessa vez não vai querer mesmo que eu use as tintas?” Ela sorriu de volta:
— Pode pôr esses potinhos pra lá! Você devia ficar feliz, ao menos economiza no material. Devia me fazer um desconto, isso sim!
Ele deu uma gargalhada e o zumbido da agulha soou metálico no estúdio. Ela franziu a testa aguardando a primeira estocada, prevendo a dor à qual nunca se acostumava.
A agulha se aproximou da pele macia. Se fosse possível observar de perto, seria possível ver o aço brilhante e delgado se aproximando veloz. Antes do toque, os mínimos pelos da coxa se eriçando, levantando guarda contra a lança tatuadora. Um arrepio percorreria a perna, galgando as costas, até erguer os cabelos da nuca. Só então a agulha tocaria a pele, que se curvaria para dentro oferecendo uma breve resistência que, logo após, cederia, rompendo-se e dando acesso à carne tenra escondida pela brancura. A agulha retornaria pelo mesmo caminho, batendo em retirada do orifício criado, deixando escapar em seu encalce um gota vermelha. Única tinta que mancharia a pela clara. Só aí um impulso percorreria a coxa que se contrairia, o sangue irrigando rápido, sob a pele, os vasos da região enquanto a agulha voltava a cargas por vezes e vezes seguidas, guiadas pelas mãos hábeis do tatuador. Tudo muito rápido. Valiosas frações de segundo.
O artista parava volta e meia para limpar uma área ou outra que estivesse sangrando, para deixar a cliente tomar um ar ou uma água, ou para fazer uma piadinha qualquer. Ela apreciava o momento. Observava de perto o trabalho quando conseguia, admirava o trocar de tom da perna. Via o desenho brotar-lhe pelos poros. Mordia o lábio quando a agulha tocava alguma área mais sensível, se segurava contorcendo-se de riso e dor. Xingou o tatuador duas vezes. Durante todo o trabalho tinha um espelho grande ao lado da maca para poder acompanhar o procedimento. Sem o uso de tintas, o trabalho foi rápido. Em duas horas havia terminado.
Levantou-se segurando a saia e olhou-se no espelho. Havia surgido algo sobre a pele imaculada, alva e sem manchas. Ainda um pouco inchado e manchado pelo pouco de sangue, mas bonito ainda assim. Sim, bonito. E ela sentira cada pequeno ponto. Cada linha, cada nuance. Em breve, invisível para os demais. Depois de um tempo, invisível mesmo para ela. Mas quando desaparecesse por completo dos olhos, ela sempre poderia retornar mais uma vez ao estúdio, se quisesse. Ela sentiria quando a hora chegasse outra vez.
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