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sexta-feira, 7 de março de 2008

Intuitivo

Marina Melz
07/03/2008 (Desculpem o atraso!)

Ela estava lá para esquecer do mundo. Já não agüentaria um segundo mais pensando em vivendo freneticamente cada uma de suas emoções. Fez a vigem em sete vezes no cartão de crédito, mas não queria pensar em como ia pagá-la. Deixou em casa roupas para lavar, pisos para limpar e uma vida inteira para botar em ordem. Estava sentada degustando um de seus principais vícios, o café, seu cheiro e seu gosto.

Ele, ao contrário, estava ali por pura obrigação. Detestava pessoas, detestava viagens e não conseguia ver beleza alguma em qualquer das paisagens. Mas alguma coisa o dizia que deveria estar ali. Um instinto, um ímpeto, uma quase intuição. Na falta de outro lugar sentou-se ao lado dela.

“Charmoso”. “Deve puxar papo, saco”.

Uma comunicação se tornou inevitável. Pensamentos eróticos também. Foram duas horas de papo quando descobriram que ficariam no mesmo andar do hotel. Ela tentando não pensar, ele imaginando que a viagem poderia não ser tão chata como o esperado.

“Dane-se”. “Eu sabia que meu instinto não me enganaria”.

Ela bebia, ele observava. Ela bebia mais, ele pensava mais. Ela já não pensava, ele arquitetava pensamentos. Precisava achar a maneira certa.

“Agora não quero pensar, amanhã terei tempo”. “Agora não quero pensar, amanhã escondo o corpo em algum lugar”.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Dormentes

O sol mal subiu e você já estava na plataforma. Estação cheia. Um desfile de malas, mochilas e sacolas. Lá de trás uma fumaça preta anunciava a chegada. O povo se aproximou da beirada da plataforma. E lá no meio você. Com apenas uma maletinha de mão, praticamente vazia, embarcando numa viagem que sabe-se lá quanto tempo ia levar. Mas, enfim, você entrou. É bem verdade, meio assustado. Passar pelos corredores estreitos com um trem em movimento se balançando de um lado para o outro talvez não tenha sido o melhor dos começos. Mas logo você encontrou uma cabine com espaço. Lá dentro apenas um casal de uns trinta e poucos anos. Depois de instalado, você se apresentou. Ele era maestro, ela professora. Estavam em lua-de-mel. Talvez por isso tivessem bem mais bagagens que você. Eram um casal divertidos e fizeram os primeiros quilômetros da viagem passarem rápido. O único incômodo era a sensação de estar atrapalhando. Os dois ali, em lua-de-mel, e você atrapalhando ali na cabine. Mas eles pareciam não se importar. Pela janela você apreciava a paisagem exuberante na tarde ensolarada enquanto conversava e sentia o balanço dos vagões sobre os trilhos. Com o tempo, porém, a companhia do casal começou a ficar meio cansativa. Provavelmente pela proximidade constante. Com uma desculpa qualquer você pegou a mala e saiu a procura de outra cabine, prometendo voltar para retomar a conversa.

Passando pelas cabines você vê pela porta de vidro uma moça sozinha, olhando pela janela. O cabelo castanho amarrado para cima revelava a nuca e o pescoço longo e delicado. A bagagem parecia de apenas uma pessoa. Você estava com sorte. Com duas batidinhas no vidro, para não assustar a moça, você abre a porta e pergunta com umsorriso — que você acreditava sedutor e ela achou meio bobo — se o assento estava vago. Ela respondeu que sim com outro sorriso. Ela era uma estudante de música de pouco menos de trinta anos. Interessante, bonita. Vocês conversaram e logo se deram bem. Lá fora o sol continuava a iluminar a paisagem e dentro da cabine o clima estava ainda melhor. Você anda voltou algumas vezes a sua antiga cabine para visitar os recém-casados, mas quando o trem parou numa estação no meio do caminho e você viu, pela janela, os dois na plataforma de desembarque, uma tristeza repentina lhe apertou o peito. Eles acenaram cercados pela bagagem volumosa enquanto o trem se afastava seguindo viagem. Ao menos lhe restava ainda a companhia da sua nova colega de cabine. Masfaltavam ainda algumas estações para você descer quando ela disse que havia chegado a sua parada. Da plataforma da estação ela mandou-lhe um beijo e foi ficando para trás enquanto o vagão retomava a viagem. Na cabine apenas você e a sua mala, que afundava pesada no estofado do banco a sua frente. Olhando a paisagem, com a testa contra o vidro, você adormeceu ao embalo do trem. A paisagem continuava lá. Os túneis surgiram e se foram, escureceu e tornou a clarear. E a paisagem continuava lá. Mas você não percebeu porque havia adormecido. Só acordou quando um funcionário, de uniforme negro impecável, veio lhe chamar. Chegara a sua estação.

Você desceu meio desajeitado, com todas as suas malas, a bagagem caindo aqui e ali. Algumas provavelmente tinham até ficado para trás. Vendo a sua cara de atordoado na plataforma, cercado pela própria bagagem, o funcionário não se conteve e riu. “Pobre, homem. Não deve nem saber onde está”. Com o orgulho ferido e achando-se mais esperto você ainda respondeu “Ao menos posso ir aonde quiser, que não tenho trilho algum que seguir”. E só com a cabeçapara fora do trem o funcionário concluiu: “Meu senhor, esse trem não corre sobre trilhos”.Só então você percebeu a falta dos dormentes, do metal, da linha reta e previsível dos trilhos. E o trem saiu serpenteando em todas as direções, como se cada passageiro pudesse escolher o caminho a seguir. E você ficou na plataforma, cercado por toda a sua bagagem e coberto pela fumaça preta que saía da chaminé enquanto o trem ia se afastando.

A Viagem

Thiago Floriano
06/fevereiro/2008

Tudo começou com um som estridente. Tremi um pouco, mas logo comecei a ver tudo ao meu redor. Segui em frente. Sorriram as pessoas à minha volta. Procurei um lugar melhor para me acomodar. Enfrentei chuva, sol e uma série de intempéries. Enfim, me estabilizei. E quando isso aconteceu, comecei a reduzir a força. Até que chegou uma hora, que tinha certeza que chegaria. O motor parou. Minha vida era como uma viagem de trem.

A viagem

Félix B. Rosumek
05/03/08

Na estação lotada, as pessoas se acotovelavam e empurravam, loucas para garantir seu lugar e começar a viagem. Pacientemente, segui o fluxo e embarquei no veículo. Por pura sorte, consegui uma vaga na janela e acomodei-me enquanto o motor começava a funcionar. O trecho seguia por terras ermas, mas ligava algumas importantes metrópoles locais. Assim, o vagão lotou rapidamente. Seria um longo e tortuoso passeio.

O trem iniciou seu caminho pela pacífica planície. Aquela paz lá fora, em contraste com o barulho do interior, me fez lembrar de minha infância. Bons tempos de inocência e inconsciência, quando o mundo parecia mais simples e todos eram pessoas nas quais podíamos confiar... E a juventude, então? A inocência saía de cena, dando lugar à inconseqüência. Inconseqüência e inconsciência... Tempos de aprendizados, revoluções e sonhos. Sim, muitos sonhos. O futuro era glorioso e o mundo, uma incógnita a ser desbravada. E eu me impacientava com minhas limitações, mas sabia que meu tempo iria chegar.

Conforme a locomotiva engolia os trilhos, a planície ficava para trás e entrávamos em território montanhoso. Logo à frente, uma negra boca se abria em meio à montanha. Fomos engolidos e apenas duas luzes não queimadas no vagão espantavam a escuridão. O matraquear da locomotiva, enquanto isso, ecoava assustadoramente pelo túnel. Uma criança encolheu-se nos braços da mãe, choramingando de medo, provavelmente fazendo o caminho pela primeira vez. Olhando para ela, senti-me novamente a criança solitária e assustada que fora arrancada de sua terra pela vida, sem braços de mãe para consolá-la. Um órfão sem amigos e amores, sem raízes e famílias, a transitar cegamente pelo mundo em busca de um lugar que pudesse chamar de casa. Expulso, infeliz, irrequieto, solitário, jamais me sentindo realmente bem onde quer que estava. E eu apenas podia seguir sendo feliz pela metade, esperando meu tempo chegar.

A saída foi anda mais enervante que o túnel em si. A íngreme serra se descortinou diante de nós, fantástica e assombrosa. Os trilhos escorregavam por um declive acentuado, quase uma queda livre num penhasco. Não era uma sensação para estômagos fracos. Uma mulher na minha frente começou a passar mal e a discutir com seu marido, que não quisera pagar pelo avião. Ele respondeu rispidamente que dinheiro não dava em árvores e uma pesada discussão se iniciou. Uma acusava outro de negligência, e outro lamentava ter casado com uma. Lembrei então de quantas vezes já não tinha passado por aquilo. Quantas frustrações, quantas brigas. Inúmeras paixões idealizadas e amores eternos despedaçados, seus momentos agradáveis obliterados pelas amargas lembranças de finais cruéis. E eu chorava minhas desilusões, tentando acreditar que meu tempo iria chegar.

Depois de minutos que pareceram eternidades, atingimos o fundo do rochoso vale entre os montes. O terreno ficava pedregoso e as rochas faziam os vagões saltarem em solavancos. Um homem se impacientou com a tremedeira, tentando inutilmente manter seu computador portátil parado, enquanto mantinha duas ligações simultâneas no celular. Em uma delas, falava desculpas suplicantes e monossílabos afirmativos, com os olhos faiscando. Na outra, a faísca virava chama e gritava furiosamente com quem estava do outro lado, cuspindo ordens impossíveis e prazos inviáveis. Sua atitude ambígua me fez lembrar das infinitas vezes que eu enfrentei a arbitrariedade e hipocrisia dos outros. Quantas vezes tinham me falado que eu deveria abaixar a cabeça, acatar a realidade e deixar o romantismo de lado, enquanto fosse um peão num jogo de reis (e quantos, dos que se corrompiam, resgatavam o idealismo quando ascendiam aos tronos)? Quantos me aconselharam a vender a alma, a ser esperto e tirar vantagem de sistemas falhos. E quantas as vezes em que fui condenado e crucificado por tentar me manter fiel, não às palavras da serpente, mas aos meus próprios ideais? Oportunidades perdidas, facadas pelas costas, conflitos desgastantes... E eu podia apenas amargar minhas derrotas, me perguntando em meio à raiva: será que meu tempo iria chegar?

Finalmente, o trem reiniciou a subida, lenta e penosamente. Após algumas horas, deixávamos a serra para trás e novamente deslizávamos com velocidade na planície. O trem chegou à próxima parada e as pessoas jorraram por suas portas. Saí do mesmo modo que entrei, calmo e sem pressa. Enquanto os outros brigavam por táxis ou se socavam nos ônibus, deixei a estação para trás a pé. Olhei ao meu redor e saudei a paisagem, velha conhecida, mas que mesmo assim ainda conseguia me fascinar. Eram apenas alguns quilômetros antes de chegar em casa e, finalmente, ter ela em meus braços outra vez. Queria lhe contar as novidades, dizer que tudo dera certo na viagem e como as coisas iriam melhorar.

Olhei para os trilhos e sorri. O trem ainda tinha uma longa jornada pela frente, mas eu não precisava mais me preocupar com seus futuros solavancos. Pois sabia que meu tempo havia chegado.

quarta-feira, 5 de março de 2008

A Última Viagem

Fábio Ricardo
05/03/08


Caminhou até a porta e olhou para o relógio. A madrugada já estava avançada e ele tinha a infeliz certeza de que aquele 13 de março não sairia de sua memória. Desabotoou o sujo macacão, tirou-o e o pendurou no ombro, depois de trocar as botas pelo par de chinelos já cansados pelo tempo.

Desceu a escada de ferro, caminhou poucos passos e parou. Não costumava fazer isso, mas uma tristeza súbita fez com que se virasse e lançasse um último olhar à velha locomotiva 331, já castigada pelas inúmeras viagens.

Dentro daquele monstro metálico, circundado pelos ruídos característicos e envolvido pelo sacolejar constante, seu José passou boa parte de sua vida. Lembrava-se como seu pai o ensinara a limpar os trilhos, emprego que teve até o dia de sua morte. O então mirrado Zezinho entrou para a empresa como entregador de recados. Tudo que ele precisava fazer era levar o malote de correspondências até o vagão, e deixar que as cartas tomassem seu rumo.

Passou pelos mais diversos cargos dentro da Companhia, até chegar ao posto que ocupava naquele 13 de março: maquinista. Seu pai, que nunca tivera o privilégio de ocupar cargos além da limpeza, estaria orgulhoso de seu primogênito. Com todos esses pensamentos, uma lágrima escorreu pelo rosto daquele homem, que em frente da locomotiva mais parecia um menino, aquele menino que aprendeu com o pai a limpar os trilhos do trem.

Virou-se de costas e falou baixinho uma breve despedida. Não entendia o motivo que fazia os homens modernos adorarem tanto seus carros e ônibus, seu trânsito caótico. Não entendia o motivo dessa mudança radical, de viajar apenas nos rios de asfalto, enquanto haviam tantos trilhos a serem percorridos.

Naquele 13 de março, seu José enxugou a lágrima que insistia em avançar por seu rosto, torcendo que um dia a velha – e agora triste – locomotiva voltasse a apitar.



*O conto é uma ficção e não tenta reviver uma história verídica, mas serve de homenagem à Locomotiva a Vapor 331 e a José Pacheco, maquinista que dedicou tantas horas àquelas viagens entre Blumenau e Trombudo Central. A História conta que a última viagem oficial da locomotiva teve fim às 17h do dia 12 de março de 1971, mas testemunhas afirmam ter visto o trem passar por volta das 2h pela estação do Encano, fazendo um retorno silencioso a Blumenau, onde seria, para sempre, silenciada.

sábado, 1 de março de 2008

Tema da rodada

Atendendo a um pedido de leitor, vou colocar um tema que acho muito interessante:

Viagem de trem

Os participantes têm até o dia 6 de março para postarem seus textos.

ps: O duelista Rodrigo está de aniversário neste dia 2 ;) Parabéns!