Mostrando postagens com marcador Cinismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cinismo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Cotidiano

1929
- Não é a coisa mais linda que você já viu?
- Com certeza! Jamais uma criança me pareceu tão linda! (Será que ela não vê que ele tem cara de joelho como todos os outros bebês que acabaram de nascer?) 

1934
- Mãe, mãe, olha meu desenho!
- Nossa filho, que bonito! (Esse é o milésimo desenho igual que ele faz, será que ele tem problemas psicológicos?) 

1942
- Você um dia fica comigo?
- Claro, só acho que não é o momento de estarmos juntos. (Idiota, você é feia e gorda, jamais vou ter coragem de andar na rua com você!) 

1947
- Desculpa, mas eu acho que é o melhor a fazer.
- Eu nunca vou amar ninguém como amei você. (Mas aquela sua amiga é bem gostosa. Vou chorar minhas mágoas pra ela!) 

1952
- Você sabe que ser médico é desapegar-se completamente dos bens materiais para salvar vidas, não é?
- Com certeza. A vida em primeiro lugar. (Por isso vou cobrar caríssimo as minhas consultas: minha vida em primeiro lugar!) 

1955
- Você aceita Tereza como sua esposa, amando-a a respeitando-a todos os dias de sua vida?
- Sim. (Desde que ela não comece a escolher minhas secretárias e nem a mexer nas minhas coisas) 

1965
- Olha, meu amor, nosso bebê!
- Juro, é a coisa mais linda que eu já vi! (Tem a mesma cara de todos os bebês que eu já tirei de barrigas....) 

1974
- Meus pêsames. Você sabe que eu gostava muito do seu pai.
- Obrigado, sei sim. (Enquanto você roubava dinheiro dele era fácil gostar, seu filho-da-puta!) 

1979
- Pai, vou casar.
- Parabéns, filha! Você gosta mesmo dele? (Ele tem dinheiro para te manter e ainda me sustentar no futuro?)

1982
- Olhe lá, coitadinha. Precisamos rezar por ela.
- Fique tranqüila, ela vai sair dessa. Eu tenho fé. (Você ainda não percebeu que ela está morrendo?) 

1988
- Fique tranqüilo, você vai sair dessa. Tenho fé.
- Obrigado. Sei exatamente o que você quer dizer.

AUTO-AJUDA CÍNICA EM 9 PASSOS

1• Seja sincero
2• Desapegue-se de tudo aquilo que for material
3• Viva em coerência com seu modo de pensar
4• Não negue seus instintos, por mais ousados que possam parecer
5• Valorize a natureza
6• Aprecie os pequenos prazeres
7• Exercite-se
8• Liberte-se de pré-conceitos e preconceitos
9• Esqueça as convenções

O cínico e o hipócrita

- Olha lá o cachorrinho! Tadinho... como é que pode? Eu não entendo essas pessoas, crápulas, nojentos. Só porque pegam um pouco de água em casa, abandonam o podre coitado ali, amarrado num poste, sem comida nem água, sofrendo sozinho e esquecido. Monstros nojentos! Como podem ser tão podres a ponto de fazer isso com o pobre animal? Onde estão os donos desse cachorrinho lindo?
- Ali embaixo daquela casa destruída pelo deslizamento.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

A Ilusão

26/12/06

- A cidade está embaixo da água!

- Sim. E daí?

- Como assim "e daí"? Você ouviu o que falei? Enchente, caos, como não havia há mais de uma década!

- E como certamente haverá daqui a mais uma. E daí?

Olhei para ele, transtornado.

- Mas o desastre é agora! As pessoas não querem saber se essa é apenas mais uma enchente e se haverão outras. Elas estão desabrigadas, com frio, com sede, e isso é agora!

Ele suspirou com expressão entediada e tomou um gole da cerveja.

- Esse é o problema.

- O que, as pessoas??

- Também. Mas eu estava me referindo ao seu "aqui, agora". As pessoas querem salvar seu rabo neste instante e, para isso, vão fazer com que o presente seja o momento mais dramático da História. Olhe nas notícias, está todo mundo reclamando, se fazendo de coitado, do caminhoneiro parado na estrada bloqueada à tiazona que perdeu seu portão elétrico.

Acendeu um cigarro.

- E isso é merda. É só mais um grupo de macacos com medo de água.

- Meu Deus, como você pode pensar assim? Não são macacos, são pessoas, são vidas!

- E macacos não são vivos? - respondeu com um sorriso e uma baforada - Ninguém é vítima inocente nessa história. Despelaram o solo e cobriram-no com concreto, agora estão pagando pelas suas escolhas.

- Cem pessoas já morreram, entendeu? Soterradas. Afogadas. Pense no sofrimento que cada uma delas teve ao passar por uma morte horrível destas!

- Coitadinhas, prenderei a respiração durante dez segundos em respeito.

Fiquei paralisado com a resposta absurda. Eu não conseguia lidar com aquilo. A sua falta de compaixão era inaceitável. Não consegui responder, apenas olhar para ele, desolado.
Ele fez uma expressão de desgosto e se ajeitou na cadeira.

- Não me entenda mal. Eu imagino que morrer sem ar seja uma das coisas mais dolorosas do mundo, seja com os pulmões cheios de água ou terra. E sei muito bem que essas mortes afetam muito mais do que cem pessoas. Cada uma tinha uma família. Amigos. Dezenas serão afetados por cada morte, quem sabe centenas, se formos bem otimistas. Teremos alguns milhares de sofredores, se juntarmos todas as mortes. Isso estimando generosamente, pois certamente alguns desses eram medíocres odiáveis.

Parei diante dele e o olhei profundamente nos olhos, tentando articular pausadamente as frases, ver se despertava alguma coisa naquele coração gélido.

- Milhares de pessoas. Sofrendo. E apenas por conta das mortes. Dezenas de milhares, desabrigadas. Perdendo tudo. Pense nisso, por favor.

- Sim, eu pensei.

Ele me encarou de volta, a centímetros do meu rosto.

- E isso é merda.

Balancei a cabeça e sentei num canto, desolado.

- Pode deixar que restarão bastante pessoas no mundo para morrerem ainda, e você poderá continuar correndo em círculos balançando os braços e chorando.

Eu realmente estava com os olhos marejados momento.

- Um idiota correndo em círculos... É essa a visão que você tem de mim?

- Na verdade, sim.

Uma lágrima nasceu. Mas ele continuou.


- Pois no que você está sendo diferente de mim, também aqui parado?

- Eu sinto. Eu sofro. Eu tento ajudar! É assim que as pessoas são. Elas não odeiam umas às outras e a todo o resto. O sofrimento dos outros também nos atinge!

- Você sente. Isso não reconstrói nenhuma casa. Você sofre. Isso não faz nenhum morto ficar de pé. Você tenta ajudar, quem? O seu vizinho, o seu parente, o seu amigo, talvez o dono do mercado da esquina...

- E o que você faz para aqueles que não conhece? Você os vê na TV e derrama uma lágrima idiota como essa? Muito útil de sua parte. Você doa um casaco que não mais usa e que está mofando no seu armário, sob três camadas de roupas velhas? Ótimo, muito caridoso. Mas você tiraria agora o casaco, se estivesse usando um, para esquentar aquele desabrigado?

- Sim, eu faria isso, se o outro estivesse precisando mais do que eu!

- Não, você não faria, e é melhor ficar calado se é para ser hipócrita. Você não abriria a sua casa para abrigar cinco famílias desabrigadas por todo o tempo necessário para elas reconstruírem a sua.

- Mas isso é diferente...

- Não. Nenhuma diferença. Você ajuda no limite da sua conveniência. Se começa a ser inconveniente, você passa a encarar o fato de que, ei, alguns se dão bem, outros se dão mal, fazer o que. Eu também não teria nenhuma reserva em emprestar o isqueiro a um coitado que passasse agora por aqui. Mas, se ele me pedisse um cigarro, é outra história.

- No fundo, tudo o que você faz é ter uma sincera ilusão de que se sentir mal é algo que faz alguma diferença para os outros. Essa é a única diferença entre eu e você. Eu simplesmente não tenho essa ilusão. E lembre-se: aqui não temos expectadores. Você não precisa fazer nenhuma peça de teatro para convencer os outros de que seu altruísmo existe.

Mais uma cerveja aberta.

- Afinal, quem se importa com alguns barracos de pobre soterrados?..

Era incrível o modo como ele achava que a sua estupidez valia para todos. Ele falava a partir de um ponto de vista frio, cruel, desumano, e achava que todos eram assim? Meu Deus, o que pode ter ocorrido para ele ter se tornado aquilo?

- Você fala isso por que está aí, seco, confortável -falei, com raiva - É muito fácil para você dar uma de irônico, querendo aparecer com esse desprezo fútil. Tudo porque você nunca passou por uma situação tão desesperadora...

- Ha! - foi a sua alta e seca risada - e você, já?

Ele passou a cuspir rapidamente as frases.

- Melhor ainda, e isso faria alguma diferença?

- Se eu tivesse sofrido, o sofrimento dos outros seria maior?

- Se minha família tivesse morrido soterrada, isso aumentaria o número de mortos em mais que três?

- E, se eu mesmo tivesse morrido, isso faria sobrarem menos do que seis bilhões neste pedaço de rocha girando de nada a lugar algum num universo sem fim?

Silêncio, tão pesado quanto o céu que nos cobria.

- Aonde você quer chegar com isso? - perguntei, após uma longa pausa.

- A História, humanidade, a vida... Tudo isso é muito maior do que cada um de nós, e vai sobreviver a cada um de nós. Aonde eu quero chegar? Em lugar algum. E esse é outro problema. Existem tolos como você que acham há algum lugar para chegar.

Esvaziou o resto da cerveja, já quente.

- Esqueça os idealismos bonitinhos e fantasias literárias. Não perca tempo se preocupando com o universo.

A derradeira baforada do cigarro.

- O universo não se preocupa com você.

Ele se levantou e saiu. Afastou-se sem pressa, sob as pesadas nuvens do céu sem cores. Ele não havia vencido fácil desta vez. Eu fiquei ainda ali, me perguntando se deveria segui-lo. Mas, desta vez, alguma coisa me obrigava a ficar. Eu não saberia dizer o que, pois, se soubesse, teria falado a ele. Talvez houvesse, no fim das contas, algo mais do que a sua cínica visão poderia enxergar. Ou, quem sabe, era só porque havia um último cigarro, e uma cerveja. Abri, acendi e refleti, enquanto observava aquele eu caminhando lentamente sobre o solo estéril do deserto morto.

***

Esta história é, de certa forma, uma continuação desta.

Escrito na lama

Cinismo é crer que alguém ainda escreva sob as águas. No entanto, se as águas levam tudo, não podem levar as palavras. Continuemos, pois, com todo o cinismo do mundo.