Félix e Louise entraram no hospital, irradiando sorrisos. Há pouco tempo haviam descoberto que seus planos tinham se concretizado e, em breve, um novo alguém ia intrometer-se entre dois. Aquilo era motivo de muita alegria, mas naquele dia havia uma pequena ponta de tensão. Era o dia em que veriam os resultados dos exames preliminares de viabilidade, o que nunca deixava de ser um certo motivo de preocupação para futuros pais, mesmo que as chances de que algo estivesse errado fossem sempre muito remotas.
Uma hora depois, os dois saíam das portas com uma sombra no rosto.
No veículo, a caminho de casa, ficaram algum tempo em silêncio. Foi Louise quem falou primeiro.
- Fale...
- O que, querida?
- O que você está sentindo.
Ele parou por um instante para pensar. Era maravilhoso que pudessem saber dessas coisas tão cedo, é claro, antes que as coisas ficassem mais difíceis. Mas nem por isso se tornava motivo de puro alívio.
- Bem... É decepcionante, não?
- Sim.
- O que você está sentindo? Deve ser pior para você...
- Um pouco. Sabe, acho que a mulher sente mais essas coisas... Afinal, ele está dentro de mim...
- E então?
Foi a vez dela fazer uma pausa. Mas respondeu:
- Devemos fazer, é claro.
- Eu acho que sim. É o melhor caminho.
- Eu também penso. Mas não é comigo que eu me preocupo mais...
- Sim, eu sei. Eu não deveria ter contado para ela antes.
- Vai ser difícil, Félix.
Sua expressão ficou dura. Era um momento de conflito que ele antecipava há tempo...
- ... mas é algo que eu devo enfrentar - completou o pensamento voz alta.
* * *
Era o Dia das Nações e ele estava sozinho no trem que se dirigia para a casa da família, no sudoeste da União Européia. Os tempos mudavam, e junto com ele os feriados, mas não a mania das pessoas de juntar os parentes nessas ocasiões. Ele ainda não tinha contado nada e teria que continuar omitindo os fatos. Dizer antes só teria quebrado a harmonia da reunião, então ele preferia deixar para o dia seguinte. Mas não teria como escapar das perguntas, todos já deveria estar sabendo.
Desceu na estação litorânea, observando o plácido tapete azul do Mediterrâneo ao final da tarde. Um alienígena que pousasse na terra jamais imaginaria que aquela beleza na verdade representasse um abismo que cada vez mais se afundava. Do outro lado, um mundo assustador para o europeu comum. Lá, as fronteiras inexistiam não por mútuo acordo, mas por incessantes guerras civis e ascensão de líderes fanáticos. Não haviam progredido um único centímetro no último século, os coitados. Félix se lembrou de sua infância, nos anos 20, e de como o mundo todo se regozijou com a cura para o, na época temível, HIV. Poucos teriam antecipado as conseqüências que um tratamento barato e eficiente contra a doença traria ao continente africano... Apenas os poucos iluminados que desde o século XX profetizavam os efeitos nefastos do crescimento populacional.
Ele alugou uma bicicleta na estação e se afastou do centro urbano, adentrando em uma das regiões mais bucólicas da moderna União. Começou a subir as colinas como o auxílio do pequeno gerador elétrico, que transformava toda a pressão de seus pés nos pedais em impulso. Ali, naqueles montes costeiros, sua família ainda mantinha a antiga propriedade herdada há gerações. Não havia mais muito espaço no país para grandes propriedades, mas, no quesito produção, seus pais não eram tradicionalistas. Isso permitia a eles manter um bom pedaço de chão com a produção maximizada pela moderna tecnologia agrícola. Ele se lembrava de como as terras haviam mudado nos últimos tempos, e seu velho pai garantia que era ainda muito menos eficiente em sua época de jovem.
"Se eles tivessem a cabeça aberta para outras coisas além de técnicas de plantio, eu não precisaria estar tão preocupado agora".
Quando chegou, uma boa quantidade de primos, tios e sobrinhos já infestava a casa. Família tradicionalista, família imensa, era a conseqüência. Ao estacionar a bicicleta e se aproximar, viu como todos o olharam de um modo diferente, com sorrisos abertos, e pensou: "ok, lá vamos nós...".
Abraços, beijos e apertos de mão. E as frases. Sim, as frases clássicas. "Ah, querido, parabéns! Que, lindo!" (tias e primas), "finalmente, o mais novo pai da família!" (tios sóbrios), "como anda Louise? Bem como sempre, não é? Aproveite agora que daqui a pouco a barriga começa a aparecer!" (tios bêbados e os primos), "vai virar papai, tio?" (até os sobrinhos!). E ele, todo sorrisos amarelos e respostas curtas. Como era bom não ter mais tanta intimidade, nessas horas... Era mais fácil disfarçar.
Até que apareceu sua mãe.
- Meu amor, seja bem vindo à sua casa! Que saudades de um abraço de filho!
Ela sempre colocava ênfase no "sua", como se não fosse há vinte anos que ele tivesse se mudado.
- Oi, mãe, muito bom te ver também...
Ela percebeu imediatamente. Parou o abraço e olhou-o nos olhos.
- O que foi, filho?
"Maldita mulher perceptiva", ele resmungou mentalmente.
- Não é nada, mãe. Só estou cansado da viagem.
- É alguma coisa com a Louise?
Não conseguiu responder imediatamente. Aos olhos de sua mãe, era quase como se ele tivesse gritado "sim!".
- O que foi, querido, você pode me dizer...
- Mãe, por favor, vamos conversar sobre isso depois? É um dia de festa e eu quero apenas aproveitar com o pessoal, tudo bem?
- Meu filho, é algo tão ruim assim? Vocês brigaram? Deve estar passando um monte de coisas na cabeça de vocês desde que souberam...
- Mãe, depois, ok?
Ela silenciou. Ele viu que ela estava queimando por dentro para saber, mas também não ia estragar a festa. Afastaram-se e ele foi cumprimentar seu pai, que o recebeu de forma efusivamente embriagada. Depois pegou uma cerveja e foi cumprimentar os primos que fumavam cigarro misto do lado de fora da casa. Pelo menos eles iriam falar algumas besteiras e depois mudar para outros assuntos, em vez de ficar batendo na tecla da gravidez.
Durante o resto da festa ele tentou ficar descontraído, conseguindo até (como a ajuda de alguns tragos do cigarro misto). Mas toda vez que cruzava os olhos com a mãe, via sua expressão preocupada, e isso lhe irritava. Em vez de tentar relaxar também, ela estava enchendo sua cabeça de possibilidades e especulações. E ele sabia que era a mãe que lhe preocupava, não o que havia acontecido. Ela havia esperado tanto tempo por algo que tanto queria... Aceitaria agora o que estava por vir?
A reunião familiar adentrou a noite. Conforme as horas avançavam, os parentes que moravam perto foram se retirando, os que moravam longe subindo para os quartos de hóspedes. E ele ficou com os primos até tarde, mesmo cansado, esperando propositalmente a mãe dormir antes de se retirar.
Mas, no outro dia, não teve como escapar.
Ela veio no seu quarto enquanto ele ainda dormia, lhe chamando delicadamente com beijos e abraços. Ele sorriu de volta, preguiçoso, e foi lentamente acordando. Ela perguntou como andavam as coisas no trabalho, na cidade. Ele respondeu que tudo bem, contou algumas novidades. Ficaram um tempo numa espécie de impasse: ambos falando banalidades, a mãe querendo tocar no assunto, ele relutante em abordá-lo. Até que ela falou sem maiores delongas.
- Então, filho, como está a Louise nesse começo de gravidez?
- Ah, mãe, é algo meio esquisito, sabe? Vou te dizer que nós dois estávamos realmente querendo isso agora, mas não deixa de ser um pouco estranho...
- Sempre é assim, querido. Um filho é algo que muda toda a nossa visão do mundo.
- Nem fale...
Ele se calou. Ela esperou ele falar algo.
- E tudo bem por aqui na terrinha?
"Droga, estou fugindo de novo. Por que as mães ainda conseguem intimidar os filhos, mesmo depois de quase quarenta anos?".
- Tudo bem... A vidinha de sempre, mas uma vidinha boa.
- Que bom!
Nova pausa.
- E vocês, filho, como estão um com o outro?
"Dane-se".
- Mãe, não tem nada a ver com a Louise, se é isso que você está pensando.
- Então me diga, filho! Eu consigo saber direitinho que há alguma coisa te incomodando muito. E não imagino nada além de alguma coisa com Louise para te deixar assim...
- É com a gravidez.
Momento de tensão.
- Qual o problema?
- Os exames preliminares... Os de viabilidade. Nós fizemos.
Inconscientemente, a mãe levou a mão ao pequeno amuleto no pescoço. Ele olhou de relance para o crucifixo, antes de declarar.
- Os resultados mostraram que ele é defeituoso.
A face da mãe se transformou. Sua tensão virou uma expressão de pura e profunda tristeza, carregada de pena e com uma ponta de decepção. Sim, ele conseguia ler sua mãe tão bem quanto ela o lia. E logo após o primeiro impacto, a consciência do que estava por vir começou a ficar evidente.
- Não tem possibilidade dos exames estarem errados?
- Por favor, né, mãe? Nós não os fizemos em alguma clínica da América do Sul.
- Que tipo de problema é?
- É defeito em alguns genes. Os exames detectaram produção inadequada de algumas proteínas. O prognóstico é de significativos defeitos mentais.
- Defeitos mentais... Mas ele é... viável, não?
Agora estavam chegando ao ponto delicado.
- Viável em que sentido, mãe?
- Ele pode nascer... crescer... viver, como toda pessoa, não é?
- Mãe, eu sei o que você está pensando. Mas nós não vamos fazer isso.
- Como?
- Eu e Louise temos isso muito claro. Essa gravidez não pode continuar.
- Como não? O que você está pensando, Félix?
Ela havia aumentado o tom de voz e usado seu nome. A sua desconfiança havia se tornado certeza. Incrível como ele podia prever essas reações, mas ainda assim não conseguia entender. Era algo tão pequeno diante de um mundo tão grande... Claro, ninguém torcia para acontecer. Mas vários amigos já tinham passado pela situação, que era cada vez mais rara com o passar do tempo. Era algo que podia ser resolvido, por que não se preocupar com coisas mais complicadas?
Mas ele sabia. Sua mãe ainda se prendia a códigos de ética ultrapassados. Uma minoria na União, mas que ainda fervilhava em algumas regiões do mundo. Aos seus ouvidos, era como se ele tivesse dito que estava planejando matar alguém.
- Mãe, nós já discutimos sobre isso... Eu nunca pensei que fosse acontecer comigo, mas é a vida. E você sabe muito bem a minha opinião. Louise pensa do mesmo modo.
- Vocês já pensaram que é uma vida que está crescendo na barriga daquela mulher?! E que nenhuma vida deve ser eliminada sem razão?!
- Mãe, se acalme... Não é uma coisa de outro mundo, as pessoas fazem isso sempre. É só por isso que esses casos são cada vez mais raros...
- Não me interessa o que os outros fazem! Se todos fazem errado, isso não justifica que você faça também!
Ela estava falando cada ver mais alto. E aquilo começava a enervá-lo.
- Não estamos fazendo nada proibido, nem prejudicando a ninguém...
- Como não? Vocês estão matando uma pessoa!
- Aquilo não é uma pessoa!
Pronto, ele havia ficado nervoso. Não agüentara a mãe gritando e falando para ele as mesmas coisas que já haviam discutido inúmeras vezes.
Ele suspirou e tentou retomar o tom sereno.
- Mãe, eu sei que você pensa diferente, mas eu sei, e todo mundo sabe, que não existe espaço para um defeituoso no mundo em que vivemos. Nunca teve, só que na sua época as coisas ainda não pareciam ser tão difíceis quanto são hoje. Eu sei que você estava louca por um neto, mas não é esse o filho que eu quero ter.
- Não é você quem escolhe o filho que vai ter... - ela estava lamentando, quase chorando.
- Eu sei que você pensa diferente, mas eu não vou prejudicar a minha vida pelo que você pensa. Eu sei que você sempre quis um neto, e você o terá em breve, sem dúvida... Mas não será esse tipo de neto.
Ela tentou falar em um tom mais baixo, suplicante.
- Meu filho, eu peço que você me ouça, pelo menos uma vez... Não se feche para o que eu vou falar... Eu sei que você não acredita, mas tem coisas aí que não podem ser compreendidas... Você deve senti-las... E eu te peço, meu filho... E para Louise também... Dêem uma chance para essa criança... Uma hora vocês vão sentir ela se movendo, chutando barrigas, e verão que sim, ela está viva... E que, não importa que tenha aquilo que os outros chamem de defeitos, ela será única... O produto do amor de duas pessoas... Ela é um pedaço de vocês dois, com o tempo vocês verão...
- Isso não vai acontecer, mãe.
- Por que, meu filho?
- Porque nós já interrompemos.
Houve uma longa pausa, enquanto ela absorvia aquela informação.
- ... já...?
- Sim, no dia seguinte aos exames. O médico nos deu o remédio e já foi tudo resolvido.
- Vocês... nem pensaram... a respeito?
- Para que, mãe? Não tem muito o que pensar. Para que dar continuidade a um problema, se hoje já temos como resolvê-lo tão facilmente?
- ...
As lágrimas surgiram nos olhos da mãe. Ela se ergueu, tentando ainda não perder o controle. Falou em um tom falsamente resignado.
- Tudo bem... Se vocês acham que era o melhor para vocês... O que eu posso dizer?..
E saiu do quarto.
Mas ele lia a última frase de um modo claro.
"Meu filho é um assassino".
Droga, era isso que ele queria evitar. Não tinha o menor problema com aquilo, mas sabia que sua relação com a mãe havia se alterado para sempre. Ela nunca mais o veria do mesmo modo, sabendo que ele era capaz daquilo que ela considerava uma atrocidade. Porém, não fazia sentido para ele sacrificar uma parte tão grande da sua vida por conta de outra pessoa. Ademais, quem era mais assassino? Não era pior quem tirava do mundo a vaga de alguém que poderia ter uma existência plena? Os habitantes daquela parte do mundo já haviam aprendido a lição: sacrifícios tinham que ser feitos. Em um mundo saturado, não havia espaço de sobra para sustentar a todos.
Arrumou suas coisas rapidamente e saiu sem se despedir de ninguém. Desceu as colinas, chegando na estação, onde o trem elétrico ainda estava sendo carregado para a próxima viagem. Devolveu a bicicleta, pegando sua caução de volta. Pegou um lugar na janela, observando o mar e as terras além. Não pode sentir mais do que raiva daquelas antigas morais que haviam contribuído para deixar o mundo tão caótico, e ainda proliferavam nas periferias do mundo. Um dia, talvez, eles achariam seu próprio caminho. Até lá, era melhor que ficassem lá, e ele aqui. Ilhas de riqueza e de pobreza, sem mais laços de falso altruísmo a ligá-las, assim como não existiam mais laços a ligar pais descontentes a algumas células problemáticas. Era esse o mundo que estava se formando e era o que lhe dava esperanças de um futuro melhor. Um mundo que admitia sua realidade, seu egoísmo e, assim, quem sabe, se tornava muito mais humano.
terça-feira, 7 de abril de 2009
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Trinta dedos enrugados
06 de abril de 2059
Estou enfraquecendo. Ontem conversei com o médico. Acabamos fazendo uma consulta por webcam. Sabe, essas tecnologias tem um sério problema: quando a câmera está na sua cara, não há como disfarçar. Ele sabe e eu sei: não vou longe. Deixei de lado o computador e peguei meu maço de cigarros. Nem o Malboro nem o café me abandonaram nesses últimos anos de solidão.
Mais irreversível que a doença é a saudade. Todos os dias lembro meu avô. Homem bom. Fumava palheiro. Me deixava enrolar a palha quando meu pai não estava por perto. Consigo sentir o cheiro que ele deixava nas minhas mãos. Aliás, ele sempre dizia que eram parecidas com as mãos dele. Um dia eu perguntei por que as pontas dos dedos dele estavam enrugadas e ele sorriu. Me levou até uma torneira, deixamos minhas mãos de molho. Lembro de como os olhos dele brilharam quando ele disse que quando meus dedos também enrugassem, eu não me assustasse: era só água.
Um dia ele desapareceu. Ninguém me explicou por que. Sempre que eu sentia saudades dele, ia até o banheiro, enchia a pia de água e deixava meus dedos enrugarem.
A fumaça do cigarro é a desculpa perfeita pra um choro disfarçado. Finjo que me afogo, minha esposa – tão cuidadosa, minha Teresa – vem me acudir e eu peço um abraço. Choro como quando eu tinha seis anos e meu avô cuidava de mim. Peço um café e ela vai.
O café é herança do meu pai, meu avô não era muito chegado, não. Mesmo com gastrite, meu pai nunca esquecia de deixar que o cheiro do café invadisse nossos quartos e nos desse bom dia. Era a certeza de que mais um dia chegaria e ele estaria ali. Um dia meu filho, neto dele, tomava café conosco e perguntou ao pé do meu ouvido porque as mãos do meu pai eram enrugadas. A cena me pareceu tão familiar e tão bonita, que eu não consegui explicar e disse que ele voltasse para o vídeo-game (na época a novidade era aqueles controles com sensor de movimento).
Quando meu pai faleceu, há uns vinte anos, eu e meu filho paramos ao lado do caixão. Eu segurei a mão dele e o levei para o banheiro. Com as mãos enrugadas, nos despedimos do melhor homem que esse mundo já viu: meu pai. Entre lágrimas rolando no meu rosto, eu sorri. Estávamos iguais. Sempre seríamos iguais.
Ontem meu neto veio aqui. Chegou com as mãos molhadas e enrugadas. Sentou ao meu lado e tomou café comigo, enquanto fingia fumar com uma caneta. Mudaram as coisas. Não sinto mais o cheiro dos livros, não sujo mais minhas mãos com jornal. Mas é na ponta dos meus dedos que está a prova que o tempo sempre passa e que tem coisas que não mudam. Nunca.
Coletiva
“Ah, como começou. Acho engraçado vocês, jornalistas de hoje. Sempre com as mesmas perguntas. Não que no meu tempo tenha sido diferente, mas quando eu comecei a trabalhar nessa área sempre buscava perguntas mais difíceis, mais inteligentes. A idéia era cutucar sempre os entrevistados, sabe como é? Mas naquele tempo tudo era diferente. Existiam mais jornais na cidade. Até uns dois ou três. Além de rádios e televisões. A concorrência ainda era permitida naquela época. Mas tudo bem, vamos voltar à sua pergunta, mocinha.
Naquela época, o pessoal ainda lançava os livros só impressos. Os e-books eram vistos com maus olhos, era coisa de piratas, doía a vista pra ler. Daí a gente veio com essa coisa de projeto literário na internet. Era novidade na época. A gente morava numa cidade no interior de Santa Catarina, Blumenau. Vocês conhecem, né? Então... ninguém fazia disso lá. E a gente começou a escrever de brincadeira, só pra se exercitar. Isso ainda foi muito tempo antes dos patrocínios, dos prêmios, da cadeira na Academia. Pra você ter idéia, naquela época a gente não tinha nem layout no blog. Vê só, era tudo branco, aqueles padrões de quando se monta um site pela primeira vez, sabe? O Rodrigo sempre prometia que ia melhorar a cara do site, mas nunca fez. Só quando a gente conseguiu as verbas de patrocínio mesmo, que já montaram todo o site pra gente, sem a gente precisar fazer esforço.
Mas era assim, começou numa brincadeira entre amigos. A gente vivia querendo escrever, mas nunca tinha saco, nunca tinha tempo. Naquela época todo mundo trabalhava muito ainda. Era todo mundo ainda se estabelecendo nas carreiras. Quando a gente começou, o Félix nem tinha concluído o mestrado ainda, ainda morava no Brasil. O Rodrigo não tinha publicado nada até então. Mas ele já era meio gagá desde aquela época, sabe? Mas escrevia bem, o desgraçado. Agora não passa de um ranzinza, vivendo de direitos autorais.
É faz tempo que a gente não se fala. Todo mundo, na verdade. Sabe como é, né... a vida leva a gente pra lugares diferentes. Agora só conversamos vez ou outra pela internet mesmo. E tá todo mundo super bem, né. Ao menos eu acho. Faz tempo que não falo com o pessoal. Todo mundo publicado, premiado. O Floriano ganhou mais um prêmio esses dias, né? Vi no jornal. O dinheiro vem, né. Mas naqueles tempos, foram tempos difíceis. É uma história longa, que não dá de contar por aqui.
Mas tá vendo aquela livraria ali do outro lado da rua? Vai até e pede uma cópia do “Duelistas”. Sim, “Duelistas”, eu que escrevi. Há, faz uns 30 anos já, conta justamente essa história, de como tudo começou. Escrevi na onda da academia, né. É, quando vieram aqueles prêmios todos, eu aproveitei. Precisava da grana, sabe como é.
O pessoal não gostou, não. Até deu umas brigas por causa disso. A Marina nem olhava mais na minha cara depois de ler o livro. Mas tudo bem, ela sempre arrumava um motivo pra não olhar na minha cara de qualquer forma. Com o tempo a gente fez as pazes. Até lançamos um livro juntos. Sim, sim. Pô, podias ter feito uma pesquisa básica antes, né. É, pelo menos os nomes das obras. Ô pessoal, ajuda a mocinha ali.
Mas então, a gente veio aqui pra falar sobre o lançamento do filme, não veio? Vamos lá, então. Podem perguntar”.
Naquela época, o pessoal ainda lançava os livros só impressos. Os e-books eram vistos com maus olhos, era coisa de piratas, doía a vista pra ler. Daí a gente veio com essa coisa de projeto literário na internet. Era novidade na época. A gente morava numa cidade no interior de Santa Catarina, Blumenau. Vocês conhecem, né? Então... ninguém fazia disso lá. E a gente começou a escrever de brincadeira, só pra se exercitar. Isso ainda foi muito tempo antes dos patrocínios, dos prêmios, da cadeira na Academia. Pra você ter idéia, naquela época a gente não tinha nem layout no blog. Vê só, era tudo branco, aqueles padrões de quando se monta um site pela primeira vez, sabe? O Rodrigo sempre prometia que ia melhorar a cara do site, mas nunca fez. Só quando a gente conseguiu as verbas de patrocínio mesmo, que já montaram todo o site pra gente, sem a gente precisar fazer esforço.
Mas era assim, começou numa brincadeira entre amigos. A gente vivia querendo escrever, mas nunca tinha saco, nunca tinha tempo. Naquela época todo mundo trabalhava muito ainda. Era todo mundo ainda se estabelecendo nas carreiras. Quando a gente começou, o Félix nem tinha concluído o mestrado ainda, ainda morava no Brasil. O Rodrigo não tinha publicado nada até então. Mas ele já era meio gagá desde aquela época, sabe? Mas escrevia bem, o desgraçado. Agora não passa de um ranzinza, vivendo de direitos autorais.
É faz tempo que a gente não se fala. Todo mundo, na verdade. Sabe como é, né... a vida leva a gente pra lugares diferentes. Agora só conversamos vez ou outra pela internet mesmo. E tá todo mundo super bem, né. Ao menos eu acho. Faz tempo que não falo com o pessoal. Todo mundo publicado, premiado. O Floriano ganhou mais um prêmio esses dias, né? Vi no jornal. O dinheiro vem, né. Mas naqueles tempos, foram tempos difíceis. É uma história longa, que não dá de contar por aqui.
Mas tá vendo aquela livraria ali do outro lado da rua? Vai até e pede uma cópia do “Duelistas”. Sim, “Duelistas”, eu que escrevi. Há, faz uns 30 anos já, conta justamente essa história, de como tudo começou. Escrevi na onda da academia, né. É, quando vieram aqueles prêmios todos, eu aproveitei. Precisava da grana, sabe como é.
O pessoal não gostou, não. Até deu umas brigas por causa disso. A Marina nem olhava mais na minha cara depois de ler o livro. Mas tudo bem, ela sempre arrumava um motivo pra não olhar na minha cara de qualquer forma. Com o tempo a gente fez as pazes. Até lançamos um livro juntos. Sim, sim. Pô, podias ter feito uma pesquisa básica antes, né. É, pelo menos os nomes das obras. Ô pessoal, ajuda a mocinha ali.
Mas então, a gente veio aqui pra falar sobre o lançamento do filme, não veio? Vamos lá, então. Podem perguntar”.
domingo, 5 de abril de 2009
O texto inacabado
Manifestantes em Caracas entraram em confronto nesta semana com a polícia local, durante o Encontro Sulamericano de Nações. O motivo seria um movimento pelo fim do embargo de Washington, que já dura desde o regime chavista. A proposta apresentada nesta semana por uma sociedade civil venezuelana, propunha o fim gradual do bloqueio comercial, como feito com o bloqueio que vigorou sobre Cuba durante o primeiro regime castrista. A proposta repercutiu em todo o mundo ganhando apoio por parte da União Européia e do Mercosul. O ministro de Relações Exteriores ressaltou que o apoio à proposta é um dever de qualquer nação sul americana “Especialmente no mês em que comemoramos os cinco anos do Peso Real”, reforçou o ministro em referência à moeda única do Mercosul. Autoridades venezuelanas também buscam apoio na comunidade internacional e exigem o fim do
O som dos manifestantes e os gritos o impediram de terminar o texto. Dentro do café os clientes curiosos se amontoavam nas vitrines e na porta, assistindo de longe a ação policial. Fechou o computador, guardou-o no bolso e pediu a conta à garçonete. Uma venezuelana bonita, de rosto arredondado, olhos um pouco puxados, cabelo escuro amarrado num coque. Ela trouxe o leitor, ele passou o celular em frente ao visor e conferiu o valor debitado. Saiu sem olhar para trás, pensando em um lugar mais tranqüilo para escrever.
Ao sair pela porta viu as pequenas colunas de gás lacrimogêneo, a turba dispersa pela tropa de choque. Seguiu caminho a uma distância segura da confusão até encontrar um táxi. Um modelo meio antigo, ainda movido a gasolina, combustível ainda comum na Venezuela. Incomodou-se quando o motorista deu a partida, desacostumara-se dos motores barulhentos e do cheiro do combustível queimado. O moreno atarracado no volante, já com o carro posto em movimento, olhou pelo retrovisor e perguntou a direção. Ao ouvir a resposta olhou para trás e perguntou: “brasileiro?”.
A jovem correndo rolou por cima do capô, o ombro trincando o vidro enquanto uma placa “abaixo do bloqueio” entrou pelo para-brisas e parou no banco do carona. O motorista freou rápido com o choque e moça foi arremessada no asfalto. Quando o homem virou novamente para o banco traseiro, com olhar assustado, viu apenas a porta aberta e seu passageiro entrando por uma ruela a passos rápidos. Ao virar-se para a frente pôde ver um círculo de manifestantes ao redor da moça estirada no chão, um grupo correndo em direção ao táxi com placas e pedaços de pau e uma garrafa chamejante voando em direção ao vidro já estilhaçado do táxi amassado.
O som dos manifestantes e os gritos o impediram de terminar o texto. Dentro do café os clientes curiosos se amontoavam nas vitrines e na porta, assistindo de longe a ação policial. Fechou o computador, guardou-o no bolso e pediu a conta à garçonete. Uma venezuelana bonita, de rosto arredondado, olhos um pouco puxados, cabelo escuro amarrado num coque. Ela trouxe o leitor, ele passou o celular em frente ao visor e conferiu o valor debitado. Saiu sem olhar para trás, pensando em um lugar mais tranqüilo para escrever.
Ao sair pela porta viu as pequenas colunas de gás lacrimogêneo, a turba dispersa pela tropa de choque. Seguiu caminho a uma distância segura da confusão até encontrar um táxi. Um modelo meio antigo, ainda movido a gasolina, combustível ainda comum na Venezuela. Incomodou-se quando o motorista deu a partida, desacostumara-se dos motores barulhentos e do cheiro do combustível queimado. O moreno atarracado no volante, já com o carro posto em movimento, olhou pelo retrovisor e perguntou a direção. Ao ouvir a resposta olhou para trás e perguntou: “brasileiro?”.
A jovem correndo rolou por cima do capô, o ombro trincando o vidro enquanto uma placa “abaixo do bloqueio” entrou pelo para-brisas e parou no banco do carona. O motorista freou rápido com o choque e moça foi arremessada no asfalto. Quando o homem virou novamente para o banco traseiro, com olhar assustado, viu apenas a porta aberta e seu passageiro entrando por uma ruela a passos rápidos. Ao virar-se para a frente pôde ver um círculo de manifestantes ao redor da moça estirada no chão, um grupo correndo em direção ao táxi com placas e pedaços de pau e uma garrafa chamejante voando em direção ao vidro já estilhaçado do táxi amassado.
terça-feira, 31 de março de 2009
Tema da rodada
E chegou a vez do futuro!
Mas não tããão longe assim...
A proposta é escrever um conto que se passe daqui a 50 anos.
A criação é por conta de cada um, mas é importante que a parte do "futuro" não seja apenas pano de fundo para um texto genérico, e sim algo integrado na essência da história. O marcador padronizado é "conto do futuro".
Vamos botar a cabelça para funcionar, pois todo mundo ainda deve estar vivo até lá! (talvez não o Rodrigo)
Abraços e boa diversão!
Mas não tããão longe assim...
A proposta é escrever um conto que se passe daqui a 50 anos.
A criação é por conta de cada um, mas é importante que a parte do "futuro" não seja apenas pano de fundo para um texto genérico, e sim algo integrado na essência da história. O marcador padronizado é "conto do futuro".
Vamos botar a cabelça para funcionar, pois todo mundo ainda deve estar vivo até lá! (talvez não o Rodrigo)
Abraços e boa diversão!
sexta-feira, 27 de março de 2009
Votação
Está aberta a votação para o tema Deus.
Você tem até o dia 30 de março, segunda-feira, para votar!
Caídos
Uno levantou-se e caminhou com seus passos pesado até o meio do salão. As vestimentas brancas e azuis reluziam no ambiente claro. Olhou em volta e viu que todos estavam ali, esperando suas ordens.
- Iremos intervir.
Sua voz grave, emudecida na maior parte do tempo fez tremer o chão do templo, e criou feições de medo e preocupação no rosto de cada um de seus seguidores. O Uno uniu as mãos esticadas à sua frente e voltou a afastá-las, deixando com que um pó brilhante caísse por entre os dedos e tomasse o chão. Nos brilhos faiscantes que emitiam, viam-se diversas estrelas, e logo elas uniram-se formando o que parecia ser um mapa.
O Uno olhou para o mensageiro, que logo começou a explicar o plano. As frentes organizadas estavam ocupando um território amplo, tanto em terras quanto em poder. Estavam causando danos umas às outras, mas muito além disso, estavam perdendo o controle e atingindo todos ao seu redor.
O anjos se prepararam todos, desde o portador das curas até o das bênçãos. Mas Uno surpreendeu ao chamar dois dos renegados: Penélopos e Ramiriel.
Penélopos há muito vivia trancafiado nos cantos escondidos do palácio celestial. Ele, o Anjo da Discórdia era renegado por todos os outros. Foi convocado para se infiltrar nas organizações armadas que traziam tanto dano aos que as cercam. Depois de suas ações, outro anjo considerado de classe inferior foi chamado por Uno.
Ramiriel nunca conseguiu se enturmar com os outros, que sempre o deixavam de lado. O Anjo do Desapego raramente fazia trabalhos por ordem de Uno. Mas dessa vez foi chamado a intervir, e atuar lado a lado com Penélopos.
E assim, os dois anjos esquecidos deram sua contribuição novamente ao exército celestial. Penélopos foi indispensável para desmontar as estruturas organizacionais dos grupos em combate, com intrigas, traições e golpes inesperados. Ramiriel, por sua vez, atuou logo em seguida, apagando o fanatismo cego de ambos os lados do conflito.
Nas batalhas deste mundo, não há apenas mocinhos e vilões. Muitas vezes os heróis são os que sempre foram considerados os errados. E quem era chamado de mocinho, apenas é mais uma parte da engrenagem bélica.
- Iremos intervir.
Sua voz grave, emudecida na maior parte do tempo fez tremer o chão do templo, e criou feições de medo e preocupação no rosto de cada um de seus seguidores. O Uno uniu as mãos esticadas à sua frente e voltou a afastá-las, deixando com que um pó brilhante caísse por entre os dedos e tomasse o chão. Nos brilhos faiscantes que emitiam, viam-se diversas estrelas, e logo elas uniram-se formando o que parecia ser um mapa.
O Uno olhou para o mensageiro, que logo começou a explicar o plano. As frentes organizadas estavam ocupando um território amplo, tanto em terras quanto em poder. Estavam causando danos umas às outras, mas muito além disso, estavam perdendo o controle e atingindo todos ao seu redor.
O anjos se prepararam todos, desde o portador das curas até o das bênçãos. Mas Uno surpreendeu ao chamar dois dos renegados: Penélopos e Ramiriel.
Penélopos há muito vivia trancafiado nos cantos escondidos do palácio celestial. Ele, o Anjo da Discórdia era renegado por todos os outros. Foi convocado para se infiltrar nas organizações armadas que traziam tanto dano aos que as cercam. Depois de suas ações, outro anjo considerado de classe inferior foi chamado por Uno.
Ramiriel nunca conseguiu se enturmar com os outros, que sempre o deixavam de lado. O Anjo do Desapego raramente fazia trabalhos por ordem de Uno. Mas dessa vez foi chamado a intervir, e atuar lado a lado com Penélopos.
E assim, os dois anjos esquecidos deram sua contribuição novamente ao exército celestial. Penélopos foi indispensável para desmontar as estruturas organizacionais dos grupos em combate, com intrigas, traições e golpes inesperados. Ramiriel, por sua vez, atuou logo em seguida, apagando o fanatismo cego de ambos os lados do conflito.
Nas batalhas deste mundo, não há apenas mocinhos e vilões. Muitas vezes os heróis são os que sempre foram considerados os errados. E quem era chamado de mocinho, apenas é mais uma parte da engrenagem bélica.
quinta-feira, 26 de março de 2009
Em vão
- Por Deus, não faça isso!
- Ele precisa descansar.
- Tenha piedade, eu suplico.
- É justamente por isso que devo matá-lo.
- Não podes. A vida a Deus pertence.
- Ha ha ha. A minha não. Há tempos rompi meus grilhões. A deste aqui... deixe-me ver... creio que não pertença também. Pois bem, é o que veremos na hora que eu apertar o gatilho.
- Por que fazes isso? Não vês que estás no caminho do inferno?
- Qual parte do “Bem-vinda ao inferno” você não entendeu quando nasceu?
- Ó, pobre alma. Deus, perdoa-o. Ele não sabe o que faz e fala.
Ouve-se um clique. É o som da trava sendo puxada.
- Quero ver esse desgraçado estuprar alguém de novo.
Um corpo cai no ribeirão, levando consigo uma grande barra de ferro. Imerge, lentamente, enquanto ela reza entre lágrimas e um silêncio devastador.
- Ele precisa descansar.
- Tenha piedade, eu suplico.
- É justamente por isso que devo matá-lo.
- Não podes. A vida a Deus pertence.
- Ha ha ha. A minha não. Há tempos rompi meus grilhões. A deste aqui... deixe-me ver... creio que não pertença também. Pois bem, é o que veremos na hora que eu apertar o gatilho.
- Por que fazes isso? Não vês que estás no caminho do inferno?
- Qual parte do “Bem-vinda ao inferno” você não entendeu quando nasceu?
- Ó, pobre alma. Deus, perdoa-o. Ele não sabe o que faz e fala.
Ouve-se um clique. É o som da trava sendo puxada.
- Quero ver esse desgraçado estuprar alguém de novo.
Um corpo cai no ribeirão, levando consigo uma grande barra de ferro. Imerge, lentamente, enquanto ela reza entre lágrimas e um silêncio devastador.
A Ilusão
- Sabe, às vezes eu fico pensando se poderia ter sido diferente...
- Todos os tolos pensam nisso. É o refúgio dos fracos.
“Lá vamos nós de novo...”
- Você acha tão ruim assim refletir sobre o que passou, quem sabe como forma de aprendizado para situações futuras?
- Quando não haverá situações futuras, sim. Há coisas que não podem ser modificadas. Quando você descobre pela primeira vez que seus pais trepam, não consegue voltar a acreditar na cegonha.
- Isso é verdade.
Caminhei pela velha catedral abandonada, observando suas minúcias empoeiradas. Era perceptível que ela nunca fora lapidada como deveria. Havia remendos provisórios por toda parte, que nunca se tornaram permanentes. Uma pretensiosa obra abortada em seu início.
- Não é de se admirar que tantas pessoas se neguem a abrir os olhos. Deve ser reconfortante sentir algum sentido maior em sua vida.
- Além de sobreviver e reproduzir? Sim, não é de se admirar que existam tantos idiotas no mundo.
- Você fala deles como se escolhessem voluntariamente a Ilusão. Muitas vezes é apenas uma questão de ignorância.
- Correto. E os ignorantes são idiotas.
Eu sorri. Era um dos raros momentos em que não estávamos em franco conflito, mas mesmo assim era impossível falarmos a mesma língua. Decidi experimentar uma abordagem mais incisiva.
- Mais idiotas me parecem aqueles que se conformam em ver um universo complexo de modo simplista.
- Olhe quem fala. Não tente entrar num duelo de ironia, você não terá chance comigo.
- Eu sei.
Parei diante do altar, vendo o corpo ensangüentado pregado à cruz. Redenção pela dor, alegria e tristeza em uma morte só. Não era só em desertos mortos e igrejas velhas que a Contradição praticava seu jogo sujo.
- Mas não é difícil ver que essas situações possuem muito mais variáveis do que aparentam.
- Sim, sim. Foi a educação familiar, foi a falta de conhecimento, foi uma necessidade por um objetivo cretino em um universo obtuso, etc., etc. Há uma imensidão de desculpas esfarrapadas para justificar a preguiça em pensar.
- Não posso discordar inteiramente. É fácil encontrar nas próprias Escrituras falhas internas que justifiquem a dúvida.
Ele tocou a cruz, que se desintegrou a pó, juntamente com o corpo.
- Por favor, não vamos reduzir a questão a um segmento medíocre de um problema maior. Já passamos dessa fase.
- Mostre-me o problema, então.
- Há!
As paredes da velha catedral se afastaram em uma velocidade alucinante. De repente, as suas abóbadas rivalizavam com o céu. Por todos os lados, ergueram-se símbolos e altares, exibindo desde símbolos abstratos a monstruosidades deformadas. O Cristo morto retornou, ladeado pelo hexagrama e pelo crescente. Aos seus pés, o pequeno Baphomet de cinco pontas estendia seus chifres. Ganesha, Shiva e Visnu apareciam liderando um panteão de enormes proporções. A eles se misturavam deuses desconhecidos, divindades sem nome e titãs de eras passadas. De Zeus a Marte, de Júpiter a Ares, as sedutoras Afrodite, Juno e Astarte lado a lado. Nenhuma mente poderia apreender, mesmo em uma longa observação, toda aquela diversidade de Senhores e Senhoras, sombras esquecidas ou luzes acesas nos corredores do tempo.
E então todas desapareceram em um piscar de olhos. A velha catedral voltou à sua pequenez opressiva, vazia em seu interior. No centro, uma solitária estátua humana, desprovida de qualquer característica chamativa, um altar insosso que a nenhum grande líder inspiraria.
- E este é o rosto do problema.
- O humano?
- O humano. Que outra criatura teria o poder de pensar tanto a ponto de se esquecer da vida real?
- O real varia para cada humano.
- Não me venha com essa, sei que nem você acredita nisso. O real é apenas um, a percepção do real é que varia.
- Não acaba se tornando a mesma coisa, se ninguém jamais terá como se despir de suas percepções particulares?
- Claro que não! Esse é outro refúgio de imbecilidade, achar que sua percepção particular tem alguma relevância para o universo real. Achar que tudo depende de sua própria mente é um meio preguiçoso de se esconder das coisas como elas são. O que nos leva a uma das raízes do problema...
- Fé?
- Ou, como eu prefiro dizer, o ato mentecapto de acreditar nas coisas sem se perguntar o porquê.
- Muitos dirão que a fé traz muitos benefícios para a manutenção da sanidade humana.
- Muitos já disseram que a terra era achatada. Qualquer forma de vida possui mecanismos intrínsecos que zelam pela sua continuidade. As pessoas continuarão sobrevivendo e reproduzindo, quer falem com as paredes ou não. Nada justifica a Ilusão, a não ser a ignorância.
- E os ignorantes são idiotas.
Ele sorriu.
- Vejam só, o papagaio aprendeu a repetir.
Alguma coisa nas suas últimas falas fez ressoar algum acorde no fundo da minha mente. Nada relacionado ao seu último sarcasmo. Mas uma idéia começava a tomar forma. No humano jaziam todas as contradições. Os outros seres, com ou sem mente, seguiam seus rumos de um modo relativamente linear. Pode-se dizer que havia um sentido muito claro e definido em sua vida. Por que não com o humano? Por que a busca pelo que não se pode obter? Quanto mais simples a mente, mais previsível a ação. Quanto mais derivada, mais caótico o comportamento. Onde jazia o cerne da contradição?
Ele, é claro, tomava meu silêncio prolongado como o fim de mais um embate. Se dirigiu para a saída da catedral, onde o portal se abria para a desolação.
- E se... – comecei a falar.
Ele parou.
- E se a fé for um destes... mecanismos intrínsecos de sobrevivência?.. A evolução deu aos humanos seus cérebros enormes e sua capacidade de abstração, abrindo-lhes os olhos para o mundo da imaginação...
- E eles começaram a imaginar toda sorte de tolices. Os desenhos animados japoneses são a prova disso.
- Esse é o ponto... Eles começaram a imaginar toda sorte de tolices e a procurar significados onde estes não existem. Começaram a caçar fantasmas, uma maldição originada de sua própria bênção.
- Vejam só, ele está aprendendo. Eu poderia ter dito essa frase.
- Porém, para conciliar as vantagens da abstração com seus pesares, desenvolveu-se um mecanismo que permita aos humanos lidar com sua abstração, mesmo quando eles prezam por utilizar um outro mecanismo mais adequado, a racionalidade para entender o mundo. Isso faz com que a fé seja uma necessidade humana, mesmo que desprovida de sentido lógico.
- Então a fé é um produto evolutivo que existe para que os miseráveis humanos não pirem todos diante da loucura de universo sem sentido?
- Bem, em outros termos... sim.
Ele parou por um instante. Senti uma pequena ponta de insegurança no modo como ele me olhava.
Mas logo respondeu com sua costumeira expressão de desprezo.
- Ora, que gênio! Acabou de descobrir que a hipocrisia é um atributo evolutivo do humano. Agora crie um grupo de bebês em laboratório para testar sua teoria. Tudo é possível neste mundo, mas só algumas coisas acontecem. Se essa é sua grande idéia, até mais ver.
Ele saiu sem mais palavras. Aquilo só podia significar uma coisa: eu tinha obtido algum tipo de triunfo. Não era uma grande idéia, nem fazia muito sentido, é verdade. Mas eu o havia feito pensar. Não era todo dia que um embate terminava daquele modo. Quem sabe um dia os conflitos poderiam terminar... será?
Fiquei mais um tempo na catedral, observando aquela ruína de tempos passados, lembrando de uma breve e distante época em que ela era revestida de significado. Será que houvera tal período, ou os primeiros tijolos já haviam sido lançados sob um manto de descrença? Bem, como ele havia dito, tudo é possível... Sem mais o que ver ou pensar ali dentro, atravessei o portal e segui seus passos em direção ao deserto morto.
- Todos os tolos pensam nisso. É o refúgio dos fracos.
“Lá vamos nós de novo...”
- Você acha tão ruim assim refletir sobre o que passou, quem sabe como forma de aprendizado para situações futuras?
- Quando não haverá situações futuras, sim. Há coisas que não podem ser modificadas. Quando você descobre pela primeira vez que seus pais trepam, não consegue voltar a acreditar na cegonha.
- Isso é verdade.
Caminhei pela velha catedral abandonada, observando suas minúcias empoeiradas. Era perceptível que ela nunca fora lapidada como deveria. Havia remendos provisórios por toda parte, que nunca se tornaram permanentes. Uma pretensiosa obra abortada em seu início.
- Não é de se admirar que tantas pessoas se neguem a abrir os olhos. Deve ser reconfortante sentir algum sentido maior em sua vida.
- Além de sobreviver e reproduzir? Sim, não é de se admirar que existam tantos idiotas no mundo.
- Você fala deles como se escolhessem voluntariamente a Ilusão. Muitas vezes é apenas uma questão de ignorância.
- Correto. E os ignorantes são idiotas.
Eu sorri. Era um dos raros momentos em que não estávamos em franco conflito, mas mesmo assim era impossível falarmos a mesma língua. Decidi experimentar uma abordagem mais incisiva.
- Mais idiotas me parecem aqueles que se conformam em ver um universo complexo de modo simplista.
- Olhe quem fala. Não tente entrar num duelo de ironia, você não terá chance comigo.
- Eu sei.
Parei diante do altar, vendo o corpo ensangüentado pregado à cruz. Redenção pela dor, alegria e tristeza em uma morte só. Não era só em desertos mortos e igrejas velhas que a Contradição praticava seu jogo sujo.
- Mas não é difícil ver que essas situações possuem muito mais variáveis do que aparentam.
- Sim, sim. Foi a educação familiar, foi a falta de conhecimento, foi uma necessidade por um objetivo cretino em um universo obtuso, etc., etc. Há uma imensidão de desculpas esfarrapadas para justificar a preguiça em pensar.
- Não posso discordar inteiramente. É fácil encontrar nas próprias Escrituras falhas internas que justifiquem a dúvida.
Ele tocou a cruz, que se desintegrou a pó, juntamente com o corpo.
- Por favor, não vamos reduzir a questão a um segmento medíocre de um problema maior. Já passamos dessa fase.
- Mostre-me o problema, então.
- Há!
As paredes da velha catedral se afastaram em uma velocidade alucinante. De repente, as suas abóbadas rivalizavam com o céu. Por todos os lados, ergueram-se símbolos e altares, exibindo desde símbolos abstratos a monstruosidades deformadas. O Cristo morto retornou, ladeado pelo hexagrama e pelo crescente. Aos seus pés, o pequeno Baphomet de cinco pontas estendia seus chifres. Ganesha, Shiva e Visnu apareciam liderando um panteão de enormes proporções. A eles se misturavam deuses desconhecidos, divindades sem nome e titãs de eras passadas. De Zeus a Marte, de Júpiter a Ares, as sedutoras Afrodite, Juno e Astarte lado a lado. Nenhuma mente poderia apreender, mesmo em uma longa observação, toda aquela diversidade de Senhores e Senhoras, sombras esquecidas ou luzes acesas nos corredores do tempo.
E então todas desapareceram em um piscar de olhos. A velha catedral voltou à sua pequenez opressiva, vazia em seu interior. No centro, uma solitária estátua humana, desprovida de qualquer característica chamativa, um altar insosso que a nenhum grande líder inspiraria.
- E este é o rosto do problema.
- O humano?
- O humano. Que outra criatura teria o poder de pensar tanto a ponto de se esquecer da vida real?
- O real varia para cada humano.
- Não me venha com essa, sei que nem você acredita nisso. O real é apenas um, a percepção do real é que varia.
- Não acaba se tornando a mesma coisa, se ninguém jamais terá como se despir de suas percepções particulares?
- Claro que não! Esse é outro refúgio de imbecilidade, achar que sua percepção particular tem alguma relevância para o universo real. Achar que tudo depende de sua própria mente é um meio preguiçoso de se esconder das coisas como elas são. O que nos leva a uma das raízes do problema...
- Fé?
- Ou, como eu prefiro dizer, o ato mentecapto de acreditar nas coisas sem se perguntar o porquê.
- Muitos dirão que a fé traz muitos benefícios para a manutenção da sanidade humana.
- Muitos já disseram que a terra era achatada. Qualquer forma de vida possui mecanismos intrínsecos que zelam pela sua continuidade. As pessoas continuarão sobrevivendo e reproduzindo, quer falem com as paredes ou não. Nada justifica a Ilusão, a não ser a ignorância.
- E os ignorantes são idiotas.
Ele sorriu.
- Vejam só, o papagaio aprendeu a repetir.
Alguma coisa nas suas últimas falas fez ressoar algum acorde no fundo da minha mente. Nada relacionado ao seu último sarcasmo. Mas uma idéia começava a tomar forma. No humano jaziam todas as contradições. Os outros seres, com ou sem mente, seguiam seus rumos de um modo relativamente linear. Pode-se dizer que havia um sentido muito claro e definido em sua vida. Por que não com o humano? Por que a busca pelo que não se pode obter? Quanto mais simples a mente, mais previsível a ação. Quanto mais derivada, mais caótico o comportamento. Onde jazia o cerne da contradição?
Ele, é claro, tomava meu silêncio prolongado como o fim de mais um embate. Se dirigiu para a saída da catedral, onde o portal se abria para a desolação.
- E se... – comecei a falar.
Ele parou.
- E se a fé for um destes... mecanismos intrínsecos de sobrevivência?.. A evolução deu aos humanos seus cérebros enormes e sua capacidade de abstração, abrindo-lhes os olhos para o mundo da imaginação...
- E eles começaram a imaginar toda sorte de tolices. Os desenhos animados japoneses são a prova disso.
- Esse é o ponto... Eles começaram a imaginar toda sorte de tolices e a procurar significados onde estes não existem. Começaram a caçar fantasmas, uma maldição originada de sua própria bênção.
- Vejam só, ele está aprendendo. Eu poderia ter dito essa frase.
- Porém, para conciliar as vantagens da abstração com seus pesares, desenvolveu-se um mecanismo que permita aos humanos lidar com sua abstração, mesmo quando eles prezam por utilizar um outro mecanismo mais adequado, a racionalidade para entender o mundo. Isso faz com que a fé seja uma necessidade humana, mesmo que desprovida de sentido lógico.
- Então a fé é um produto evolutivo que existe para que os miseráveis humanos não pirem todos diante da loucura de universo sem sentido?
- Bem, em outros termos... sim.
Ele parou por um instante. Senti uma pequena ponta de insegurança no modo como ele me olhava.
Mas logo respondeu com sua costumeira expressão de desprezo.
- Ora, que gênio! Acabou de descobrir que a hipocrisia é um atributo evolutivo do humano. Agora crie um grupo de bebês em laboratório para testar sua teoria. Tudo é possível neste mundo, mas só algumas coisas acontecem. Se essa é sua grande idéia, até mais ver.
Ele saiu sem mais palavras. Aquilo só podia significar uma coisa: eu tinha obtido algum tipo de triunfo. Não era uma grande idéia, nem fazia muito sentido, é verdade. Mas eu o havia feito pensar. Não era todo dia que um embate terminava daquele modo. Quem sabe um dia os conflitos poderiam terminar... será?
Fiquei mais um tempo na catedral, observando aquela ruína de tempos passados, lembrando de uma breve e distante época em que ela era revestida de significado. Será que houvera tal período, ou os primeiros tijolos já haviam sido lançados sob um manto de descrença? Bem, como ele havia dito, tudo é possível... Sem mais o que ver ou pensar ali dentro, atravessei o portal e segui seus passos em direção ao deserto morto.
Querido Deus,
Não sei se você vai ler essa carta. Não sei nem se o Papai Noel leu todas as eu que escrevi nos últimos anos. Só escrevo porque minha mãe sempre diz que a gente pode fazer pedidos pra ele e pro Senhor. Sempre funcionou com ele, deve dar certo com o Senhor também.
Vou ser bem sincero: tenho dois pedidos. Não é que eu esteja querendo demais, não, Deus – posso chamar o Senhor assim?. Minha mãe disse que somos amigos. É que um dos pedidos não é pra mim.
Esta noite, como em quase todas desde que eu me recorde, ouço minha mãe e meu pai gritando no quarto ao lado. Na verdade só ele grita. Bem, vou explicar. Ele se tranca no quarto com ela e com minha irmã. Ele grita, minha mãe chora e pede pra que ele não faça isso. Aí ele se cala, eu só ouço minha mãe gritando. Minha irmã também fala alto de vez em quando. Se não me engano, já até ouvi ela falando alguma coisa sobre dor. Meu pai fala bem alto, todos os dias, sobre “aprender como é que se faz”. Aí ele sai em disparada pelo corredor, me lança um olhar fulminante que eu nunca entendi se era de orgulho ou repúdio e sai.
Sabe Deus, a pior parte vem agora. Minha mãe sai do quarto com os olhos inchados e geralmente com algumas marcas vermelhas, às vezes até rochas. Aí ela me abraça e diz que me ama e que é pra eu esquecer. Eu não consigo, sabe. Tenho vergonha de dizer isso pra ela. Sei que ela não me perdoaria por não esquecer. Muito menos se ela soubesse que todas as noites eu vou até o quarto onde minha irmã dorme e tento fazer ela me falar o que acontece. E eu nunca tive resposta.
O que eu queria, Deus, era saber o que acontece lá dentro. Se não conseguir saber, que eu esteja lá um dia. Só pra saber, pra ver. Saber e poder mudar o choro da minha mãe e o silêncio da minha irmã. Ou, se o Senhor for tão bom quanto sempre dizem – veja, não estou duvidando nem desafiando sua santíssima bondade, é só porque não o conheço – que faça isso parar. Eu fico numa boa sem saber o que acontece, desde que isso pare.
O segundo pedido é uma vaga na escola do meu bairro. É bem ruim ter que andar uma hora pra chegar lá. Mas isso, não tem problema, eu posso continuar fazendo.
Espero que o Senhor me atenda, ou pelo menos me responda a essa carta. Vou rezar um terço a mais hoje, pra ver se essa carta chega rápido.
Jackson
Resposta a Tomas
José procurou os olhos da esposa. Do sofá da sala, pôde ver a cabeça de Graça aparecer por trás do armário da cozinha, olhos atentos, procurando os do marido. O filho, ainda calado, aguardava uma resposta.
— Então, pai, é verdade? Ele existe ou não?
Tomas percebeu a gravidade da pergunta quando a mãe se aproximou e sentou-se ao lado do pai. A última vez que tinha visto foi quando Aslan tinha ido pro céu dos hamsters. A essa altura, já se preocupava com o beta no aquário. Será que deus também lembrou de um céu para os peixes?
— Olha, filho — o pai começou enquanto a mãe o sentou entre os dois, no sofá — o que você acha?
— Eu não sei — por que os pais sempre respondem uma pergunta com outra? — eu acho que sim, mas o Pedro disse que não. Que os pais só contam isso pra gente se comportar ou ficar feliz.
— Bem, filho — a mãe começou, trocando um olhar com o pai — de um jeito, o Pedro até tem razão...
— Mas como tem razão? Papai Noel não existe mesmo?
— Na verdade não, Tomas. — o pai reforçou.
— Mas quando eu me comportei e pedi uma bicicleta ele me deu...
— Pois é, filhinho — a mãe retomou — a bicicleta foi a mamãe e o papai que compraram e deixaram embaixo da árvore. Um presente porque a gente ama muito você.
— Então tudo que eu pedi pro Papai Noel...
— Olha, Tomas — o pai interveio novamente — você já tá ficando grandinho e acho que já pode entender. Papai Noel é tipo um faz-de-conta, uma história bonita pra quando a gente é criança. Na verdade ele não existe mas é uma fantasia bonita pra gente acreditar, entendeu?
— Mas... se não tem Papai Noel, como é que tem Natal?
— Não, não é isso, Tomas. E Natal, na verdade, não tem nada a ver com Papai Noel. Natal é o nascimento do filho de Deus.
— Falando nisso, querida, é bom a gente ir andando se não quiser se atrasar pra missa.
— Ah, não! Eu não quero ir pra missa de novo!
— Vamos, Tomas. Se comporta que papai do céu tá vendo.
— Então, pai, é verdade? Ele existe ou não?
Tomas percebeu a gravidade da pergunta quando a mãe se aproximou e sentou-se ao lado do pai. A última vez que tinha visto foi quando Aslan tinha ido pro céu dos hamsters. A essa altura, já se preocupava com o beta no aquário. Será que deus também lembrou de um céu para os peixes?
— Olha, filho — o pai começou enquanto a mãe o sentou entre os dois, no sofá — o que você acha?
— Eu não sei — por que os pais sempre respondem uma pergunta com outra? — eu acho que sim, mas o Pedro disse que não. Que os pais só contam isso pra gente se comportar ou ficar feliz.
— Bem, filho — a mãe começou, trocando um olhar com o pai — de um jeito, o Pedro até tem razão...
— Mas como tem razão? Papai Noel não existe mesmo?
— Na verdade não, Tomas. — o pai reforçou.
— Mas quando eu me comportei e pedi uma bicicleta ele me deu...
— Pois é, filhinho — a mãe retomou — a bicicleta foi a mamãe e o papai que compraram e deixaram embaixo da árvore. Um presente porque a gente ama muito você.
— Então tudo que eu pedi pro Papai Noel...
— Olha, Tomas — o pai interveio novamente — você já tá ficando grandinho e acho que já pode entender. Papai Noel é tipo um faz-de-conta, uma história bonita pra quando a gente é criança. Na verdade ele não existe mas é uma fantasia bonita pra gente acreditar, entendeu?
— Mas... se não tem Papai Noel, como é que tem Natal?
— Não, não é isso, Tomas. E Natal, na verdade, não tem nada a ver com Papai Noel. Natal é o nascimento do filho de Deus.
— Falando nisso, querida, é bom a gente ir andando se não quiser se atrasar pra missa.
— Ah, não! Eu não quero ir pra missa de novo!
— Vamos, Tomas. Se comporta que papai do céu tá vendo.
domingo, 22 de março de 2009
Tema da rodada
Ok, pessoal, vamos fazer uma rodada pesada agora, para agitar as coisas.
O tema da rodada é Deus.
Textos postados até dia 26. Divirtam-se!
O tema da rodada é Deus.
Textos postados até dia 26. Divirtam-se!
terça-feira, 17 de março de 2009
Votação
Está aberta a votação para o tema Macarrão.
Você tem até o dia 20, sexta-feira, para matar a fome e vir votar.
Dzz
- Dzzz!Dzz!Sempre gostei de estragar a sopa dos humanos. Até que me afoguei presa a um fio de macarrão. DZZzz...
Instantâneo
Macarrão instantâneo de novo. É sempre a mesma coisa. Sábado, quatro horas da tarde, levantar ainda meio bêbado, tomar uma ducha e preparar um pacote de macarrão instantâneo. Acho que já provei todos os sabores desse negócio. E todos os sabores são basicamente iguais.
Acho que faz parte do ritual do homem solteiro. Não existe solteiro neste mundo que não tenha uma dieta rica e balanceada à base de macarrão instantâneo. Tem esses merdas que sabem fazer pratos especiais, mas pra mim é tudo meio aboiolado. Na boa, eu já fico bem feliz quando consigo achar algo no fundo da geladeira pra misturar na gororoba. Num dia é um ovo frito. Outro, uma lata de sardinha. Às vezes, milho e ervilha.
Hoje eu misturei com alguns restos da geladeira. Um pouco do cachorro quente da noite passada, queijo e presunto picado, duas fatias de tomate e muito catchup. Catchup é, também, uma necessidade gastronômica de qualquer solteiro que se preze. Não agüenta mais comer sempre pizza de mussarela e calabresa, porque é a que está em promoção? Ele resolve. O cachorro quente prensado que sobrou na noite anterior está com um gosto meio estranho? Ele resolve. O macarrão ficou mais gosmento que efeito especial de filme trash? Ele resolve. Acabou o queijo, o peito de peru e qualquer coisa para colocar entre duas fatias de pão? Ele resolve também.
Essa coisa de morar sozinho é engraçada. Você vive querendo se mudar e morar sozinho, para levar muitas menininhas para o seu apartamento. Mas depois que elas vão no seu apartamento, enxergam a pilha de louça suja em cima da pia e sentem o cheiro azedo que vem da cozinha, nunca mais voltam.
É por isso que eu continuo gastando tanta grana com motel. Quando começa a faltar, é só economizar no macarrão.
Acho que faz parte do ritual do homem solteiro. Não existe solteiro neste mundo que não tenha uma dieta rica e balanceada à base de macarrão instantâneo. Tem esses merdas que sabem fazer pratos especiais, mas pra mim é tudo meio aboiolado. Na boa, eu já fico bem feliz quando consigo achar algo no fundo da geladeira pra misturar na gororoba. Num dia é um ovo frito. Outro, uma lata de sardinha. Às vezes, milho e ervilha.
Hoje eu misturei com alguns restos da geladeira. Um pouco do cachorro quente da noite passada, queijo e presunto picado, duas fatias de tomate e muito catchup. Catchup é, também, uma necessidade gastronômica de qualquer solteiro que se preze. Não agüenta mais comer sempre pizza de mussarela e calabresa, porque é a que está em promoção? Ele resolve. O cachorro quente prensado que sobrou na noite anterior está com um gosto meio estranho? Ele resolve. O macarrão ficou mais gosmento que efeito especial de filme trash? Ele resolve. Acabou o queijo, o peito de peru e qualquer coisa para colocar entre duas fatias de pão? Ele resolve também.
Essa coisa de morar sozinho é engraçada. Você vive querendo se mudar e morar sozinho, para levar muitas menininhas para o seu apartamento. Mas depois que elas vão no seu apartamento, enxergam a pilha de louça suja em cima da pia e sentem o cheiro azedo que vem da cozinha, nunca mais voltam.
É por isso que eu continuo gastando tanta grana com motel. Quando começa a faltar, é só economizar no macarrão.
Lámen
Ah, eu e o Miojo, o Miojo e eu... Um belo relacionamento, iniciado há longínquos anos, e atravessando diversas fases de nossas vidas. Uma história cheia de sabores, dessabores, idas e vindas, que se mantém tórrido até hoje. Afinal, eu ainda como ele várias vezes por semana. Às vezes duas no mesmo dia. Mas confesso que estou velho, já não consigo lidar com dois ao mesmo tempo como antes...
Tudo começou no início da adolescência. Lembro-me muito bem da primeira visão daqueles pacotinhos coloridos, com um pequeno paraíso prateado de sabor. Apaixonei-me imediatamente. Não tinha como resistir: ele era gostoso, barato, nem dava trabalho para ficar no ponto. Alguns minutos de preliminares e tudo era maravilhoso. Confesso, não era muito romântico, mas éramos jovens e apenas queríamos diversão.
Parceiros de todas as horas, continuamos juntos durante toda a juventude. Mas é aquela história: morando na casa dos pais, existiam alguns limites. Tudo mudou quando começou a universidade e passei a morar sozinho. Aí a coisa virou loucura: livres, podíamos usufruir de todos os prazeres possíveis Era todo o dia. Várias vezes ao dia...
Porém, como toda relação, com o tempo foi se desgastando. Vi isso acontecer de modo trágico com outras pessoas: depois de um tempo, já não suportavam o antigo companheiro, que tantas vezes lhes acompanhou em noites frias. Chegam ao ponto de, com um sorriso cruel e mal-agradecido, chamá-lo de "Quinojo". Mas essas pobres criaturas são calouros, daqueles que ainda misturam o tempero na panela. Nunca perceberam que um relacionamento em crise não significa o fim de tudo, apenas é preciso adicionar novos temperos. Desde uma carícia tão singela quanto uma colher de requeijão, até incursões ousadas com carnes quentes e suculentas.
Mas o melhor Miojo é, sem dúvida, o Sabor Larica. Não importam os conflitos anteriores, os tempos imensos sem se ver, a renegação fútil do passado. Na hora do retorno bêbado e solitário ao lar, na alta madrugada, quando nenhum dogão despontou no caminho e até passar manteiga no pão parece uma tarefa hercúlea... Todos sentem aquela vontade de ligar para o velho parceiro e curtir alguns minutos de pura satisfação. Já dizia um antigo ditado suazilandês, o melhor tempero é a cacha... a fome, é claro!
Seja na roupa em que ele aparecer, um Galinhazinha básico, um exótico Carne com Tomate ou um sofisticado Brócolis ao Molho Branco, munido de griffes famosas ou um humilde Renata Express, eu não consigo deixar de tê-lo ao meu lado. Pode não ser mais aquele fogo de tempos idos, cheio de fome e tesão, mas ao menos é um companheirismo sincero, apoiado por necessidades e fraquezas mútuas. Digamos que não se trata mais de uma paixãozinha qualquer. É um caso de amor. Eu e o Miojo, o Miojo e eu...
Tudo começou no início da adolescência. Lembro-me muito bem da primeira visão daqueles pacotinhos coloridos, com um pequeno paraíso prateado de sabor. Apaixonei-me imediatamente. Não tinha como resistir: ele era gostoso, barato, nem dava trabalho para ficar no ponto. Alguns minutos de preliminares e tudo era maravilhoso. Confesso, não era muito romântico, mas éramos jovens e apenas queríamos diversão.
Parceiros de todas as horas, continuamos juntos durante toda a juventude. Mas é aquela história: morando na casa dos pais, existiam alguns limites. Tudo mudou quando começou a universidade e passei a morar sozinho. Aí a coisa virou loucura: livres, podíamos usufruir de todos os prazeres possíveis Era todo o dia. Várias vezes ao dia...
Porém, como toda relação, com o tempo foi se desgastando. Vi isso acontecer de modo trágico com outras pessoas: depois de um tempo, já não suportavam o antigo companheiro, que tantas vezes lhes acompanhou em noites frias. Chegam ao ponto de, com um sorriso cruel e mal-agradecido, chamá-lo de "Quinojo". Mas essas pobres criaturas são calouros, daqueles que ainda misturam o tempero na panela. Nunca perceberam que um relacionamento em crise não significa o fim de tudo, apenas é preciso adicionar novos temperos. Desde uma carícia tão singela quanto uma colher de requeijão, até incursões ousadas com carnes quentes e suculentas.
Mas o melhor Miojo é, sem dúvida, o Sabor Larica. Não importam os conflitos anteriores, os tempos imensos sem se ver, a renegação fútil do passado. Na hora do retorno bêbado e solitário ao lar, na alta madrugada, quando nenhum dogão despontou no caminho e até passar manteiga no pão parece uma tarefa hercúlea... Todos sentem aquela vontade de ligar para o velho parceiro e curtir alguns minutos de pura satisfação. Já dizia um antigo ditado suazilandês, o melhor tempero é a cacha... a fome, é claro!
Seja na roupa em que ele aparecer, um Galinhazinha básico, um exótico Carne com Tomate ou um sofisticado Brócolis ao Molho Branco, munido de griffes famosas ou um humilde Renata Express, eu não consigo deixar de tê-lo ao meu lado. Pode não ser mais aquele fogo de tempos idos, cheio de fome e tesão, mas ao menos é um companheirismo sincero, apoiado por necessidades e fraquezas mútuas. Digamos que não se trata mais de uma paixãozinha qualquer. É um caso de amor. Eu e o Miojo, o Miojo e eu...
segunda-feira, 16 de março de 2009
Penne
Sempre que brigavam, preparava penne ao limone. Para que não acontecesse novamente, resolveu caprichar no tempero.
domingo, 15 de março de 2009
quarta-feira, 11 de março de 2009
Tema da Rodada
Tô com fome e sem vontade de pensar. O tema da rodada é: "Macarrão".
Os textos devem estar postados até o dia 16/03.
Todo mundo pra cozinha!
Os textos devem estar postados até o dia 16/03.
Todo mundo pra cozinha!
quarta-feira, 4 de março de 2009
Votação aberta.
Devido a problemas com duelistas perdidos no meio do mato, carnaval e coisas mais, esta será uma rodada estendida. A votação está aberta até o dia 10. Excepcionalmente, nesta rodada o Félix não poderá participar por motivos particulares. Dia 11 voltamos à nossa programação normal com um novo tema.
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