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terça-feira, 7 de julho de 2009
Espelho da mente
Eu
odeio
ela.
Entendeu, não é? Eu a odeio e não consigo mais agüentar a sua presença. Já fui indiferente. Já tolerei. Já me incomodei um pouco. Já suportei calado. Agora não quero mais ficar me escondendo.
Tudo nela me repudia. Sua fala, sua risada, sua presença, o modo como arreganha os dentes no sorriso... Não posso seguir por perto, porque me irrito com tudo o que ela faz. E o olhar? Ah, aquele maldito olhar! Como eu posso agüentar aquela zombaria disfarçada? Aquele ar de desafio e superioridade reprimido? Aquele brilho... Aquele azul cristalino...
Não!
Eu
odeio
ela!
Sim, eu a odeio e não há nada no mundo que possa mudar isso. A culpa não é minha. Não há nada que eu possa fazer a respeito. Odeio por tudo o que ela me fez passar. Pelo que me fez sofrer. Odeio! Tudo o que ela fez para mim.
Nada. Sim, exatamente nada! Odeio ela ter ignorado. Odeio ela ter desprezado. Silenciosamente, propositadamente! Odeio ela ter sentido pena. Odeio ela ter se condoído. Odeio ela ter se importado! Odeio ela gostar de mim... Odeio ela me amar... FINGIR me amar... não do modo... como eu...
EU
ODEIO
ELA!
Eu a odeio, pois não poderia sentir nada diferente. Toda vez que a vejo começo a pensar, pensar, pensar... e odiar, odiar, odiar! Eu quero que ela se dane, que erre e se machuque, que tenha uma alma cheia de feridas e cicatrizes. Que ela escolha o caminho que quiser. Que faça as escolhas idiotas que achar melhor. E sofra por isso. Sofra e chore! Deixe-a sofrer. Eu não me importo com ela. Não me importo. Para mim ela está morta.
Mas não consigo parar de pensar, e isso me faz odiar mais ainda! Pois toda a vez que eu penso, é com ódio. Ódio por tudo aquilo que ela representa, pelo que ela fez ao seguir sua vida estúpida do modo com seguiu. Tomara que siga para o inferno de uma vez por todas!
Odeio ela, com todo o ódio que meu coração possa conter. Mas sou obrigado a ter ela sempre por perto. Pois ela sempre está nos lugares onde eu vou, nos momentos em que estou. Quando saio, quando vago, é ela quem sempre esbarra comigo, vinda do nada. É ela quem está na sacada do apartamento, quando tento passar às pressas pela rua. Quando disco um telefone qualquer, é ela quem atende. E, como se não bastasse toda a insônia que o ódio já me causa, quando fecho os olhos, é ela quem vem assombrar meus pesadelos! Ela não me deixa descansar, não me deixa ser feliz, arruína tudo em minha vida. Ela que gera esse insano ódio, como um monstro, um parasita, um vampiro de almas que merece ser empalado pelo coração, sofrendo mil eternidades de agonia por cada segundo da minha desgraça!
POR
TUDO
ISSO
EU
EU
eu
amo
ela
eu
amo
ela
E não há nada que eu possa fazer a respeito...
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Um prato frio
Calculista ele era. Já havia planejado a vingança pelo menos umas trinta vezes na ponta do lápis. Preto no branco. Tudo de papel passado. Faltava-lhe um pouco de frieza, mas se aos 63 anos ainda não tinha desenvolvido, dificilmente conseguiria. Costumavam dizer que vingança é um prato que se come frio, mas esperar meio século é tempo para apodrecer a comida. Prato, talheres e até a mesa já deviam estar embolorados. Era treze de outubro. A mesma data em que sua vida havia sido completamente destruída. Um fim trágico para uma criança que tinha tudo para ser um homem de sucesso.
Naquele dia pegou todas suas anotações de planos diabólicos para acabar, de uma vez por todas, com seu algoz. Entre as centenas de pequenos papéis razurados, um o chamou atenção. Era justamente este que ele colocaria em prática. Aos 63 anos já não tinha mais um preparo físico invejável. Os músculos já davam sinais de atrofia e os dedos começavam a enrugar. Mesmo assim era aquele o plano que ele pretendia colocar em prática. Tirou do fundo de seu closet um arco e duas flexas, camisa preta, calça preta e um par de botas sete léguas. Passou pela sala e sacou da gaveta de um pequeno aparador um par de luvas da mesma cor das demais vestes e desceu as escadas com certa dificuldade. Entrou em seu Corcel e saiu em direção ao asilo onde o inimigo o esperava há anos.
Chegando lá, estava certo de não conseguiria pular as grandes muralhas que faziam do asilo uma prisão, mas tinha certeza de que sua astúcia o levaria ao encontro de quem procurava. Com muito esforço arremessou o arco e as flechas para o outro lado do muro, caminhando em direção à portaria do asilo.
- Bom dia, senhor. Em que posso ajudá-lo? - O jovem recepcionista se impressionou com as vestes daquele senhor, mas quem era ele para julgar um ancião que buscava uma casa asilar por conta própria?
- Estou procurando um local para ficar. Minha família está muito atarefada e já não tenho mais idade pra ficar em casa sozinho.
- Certo. É para isso que estamos aqui. Qual a sua idade?
- Sessenta e três e meio.
- O senhor consegue ler e escrever?
- Sim, claro.
- Então assine estes papéis e já o levo para conhecer seu novo lar.
Tremendo como há muito não tremia, assinou todos os papéis. Nem fez questão de ler, pois sabia que em poucas horas estaria saindo por aquela mesma porta, carregado por policiais rumo a outro tipo de asilo um pouco mais sujo e conturbado, mas nem por isso pior do que aquele. Foi orientado pelo rapaz da portaria que subisse a rampa até o primeiro andar para conhecer a área coletiva do local. Lá, observava atentamente à movimentação de seus novos colegas de residência, a fim de saber como chegar ao seu objetivo em poucas horas.
Sua memória recente já estava ligeiramente abalada por algum tipo de doença degenerativa, por isso, carregava consigo as anotações de como faria aquele premeditado assassinado. A vingança que sonhou a cada dia de sua vida desde os treze anos de idade. Só agora, quando não devia mais nada a ninguém, ele teria coragem de realizar seu grande sonho. Retirou os pequenos papéis do bolso e se pôs a ler linha por linha, já acalmado por ter entrado onde precisava. Andou até o piso inferior e pegou sua arma, que ele já não lembraria onde estava não fosse pelas anotações prévias. Se algo saísse fora do previsto, talvez sua memória lhe pregasse uma peça, mas até então tudo estava nos conformes.
Várias horas se passaram e ele nem sequer sentia o tempo. Sentou-se à mesa para o jantar ainda vestido com suas roupas todas pretas. Não tirou a luva nem para comer a sopa que lhe serviram. Foi quando avistou seu irmão mais velho no outro lado do recinto. Entrando vagarosamente com auxílio de um andador, o homem demonstrava uma bela aparência, apesar de frágil. Era a imagem que faltava para despertar a fúria daquele senhor vingativo de sessenta e três anos. Ele se levantou tão rápido quanto podia e fugiu na direção contrária à do irmão rumo ao andar dos quartos. Com arco e flecha já em mãos, entrou no quarto de seu irmão e pôs-se a esperar o momento certo de entrar em cena. A mira já estava na direção da porta quando ouviu o barulho da maçaneta a girar. Sua respiração era ofegante só de imaginar a flecha atravessando o pescoço daquele ser de existência tão abominável. Eis que a porta se abre. O irmão mais velho entra no quarto e com a visão turva percebe a presença de alguém. O mais novo hesita em atirar. O mais velho caminha mais rumo à cama onde escorava-se o mais novo. O mais novo enche os olhos de lágrimas e suas mãos tremem. O mais velho o reconhece, vê o arco e a flecha parados em sua direção, cai e se contorce no chão. O mais novo sai lentamente sem ver uma única gota de sangue. O mais velho agoniza.
Naquele dia pegou todas suas anotações de planos diabólicos para acabar, de uma vez por todas, com seu algoz. Entre as centenas de pequenos papéis razurados, um o chamou atenção. Era justamente este que ele colocaria em prática. Aos 63 anos já não tinha mais um preparo físico invejável. Os músculos já davam sinais de atrofia e os dedos começavam a enrugar. Mesmo assim era aquele o plano que ele pretendia colocar em prática. Tirou do fundo de seu closet um arco e duas flexas, camisa preta, calça preta e um par de botas sete léguas. Passou pela sala e sacou da gaveta de um pequeno aparador um par de luvas da mesma cor das demais vestes e desceu as escadas com certa dificuldade. Entrou em seu Corcel e saiu em direção ao asilo onde o inimigo o esperava há anos.
Chegando lá, estava certo de não conseguiria pular as grandes muralhas que faziam do asilo uma prisão, mas tinha certeza de que sua astúcia o levaria ao encontro de quem procurava. Com muito esforço arremessou o arco e as flechas para o outro lado do muro, caminhando em direção à portaria do asilo.
- Bom dia, senhor. Em que posso ajudá-lo? - O jovem recepcionista se impressionou com as vestes daquele senhor, mas quem era ele para julgar um ancião que buscava uma casa asilar por conta própria?
- Estou procurando um local para ficar. Minha família está muito atarefada e já não tenho mais idade pra ficar em casa sozinho.
- Certo. É para isso que estamos aqui. Qual a sua idade?
- Sessenta e três e meio.
- O senhor consegue ler e escrever?
- Sim, claro.
- Então assine estes papéis e já o levo para conhecer seu novo lar.
Tremendo como há muito não tremia, assinou todos os papéis. Nem fez questão de ler, pois sabia que em poucas horas estaria saindo por aquela mesma porta, carregado por policiais rumo a outro tipo de asilo um pouco mais sujo e conturbado, mas nem por isso pior do que aquele. Foi orientado pelo rapaz da portaria que subisse a rampa até o primeiro andar para conhecer a área coletiva do local. Lá, observava atentamente à movimentação de seus novos colegas de residência, a fim de saber como chegar ao seu objetivo em poucas horas.
Sua memória recente já estava ligeiramente abalada por algum tipo de doença degenerativa, por isso, carregava consigo as anotações de como faria aquele premeditado assassinado. A vingança que sonhou a cada dia de sua vida desde os treze anos de idade. Só agora, quando não devia mais nada a ninguém, ele teria coragem de realizar seu grande sonho. Retirou os pequenos papéis do bolso e se pôs a ler linha por linha, já acalmado por ter entrado onde precisava. Andou até o piso inferior e pegou sua arma, que ele já não lembraria onde estava não fosse pelas anotações prévias. Se algo saísse fora do previsto, talvez sua memória lhe pregasse uma peça, mas até então tudo estava nos conformes.
Várias horas se passaram e ele nem sequer sentia o tempo. Sentou-se à mesa para o jantar ainda vestido com suas roupas todas pretas. Não tirou a luva nem para comer a sopa que lhe serviram. Foi quando avistou seu irmão mais velho no outro lado do recinto. Entrando vagarosamente com auxílio de um andador, o homem demonstrava uma bela aparência, apesar de frágil. Era a imagem que faltava para despertar a fúria daquele senhor vingativo de sessenta e três anos. Ele se levantou tão rápido quanto podia e fugiu na direção contrária à do irmão rumo ao andar dos quartos. Com arco e flecha já em mãos, entrou no quarto de seu irmão e pôs-se a esperar o momento certo de entrar em cena. A mira já estava na direção da porta quando ouviu o barulho da maçaneta a girar. Sua respiração era ofegante só de imaginar a flecha atravessando o pescoço daquele ser de existência tão abominável. Eis que a porta se abre. O irmão mais velho entra no quarto e com a visão turva percebe a presença de alguém. O mais novo hesita em atirar. O mais velho caminha mais rumo à cama onde escorava-se o mais novo. O mais novo enche os olhos de lágrimas e suas mãos tremem. O mais velho o reconhece, vê o arco e a flecha parados em sua direção, cai e se contorce no chão. O mais novo sai lentamente sem ver uma única gota de sangue. O mais velho agoniza.
A moça do forró
Eu tava só voltando da bodega lá, moço. Tava quase escuro, de quando é quase dia mas na verdade ainda não tinha amenhecido. Eu só consegui ouvir um grito de uma moça. Era tudo um breu e eu não via nadica de nada. Quando cheguei perto era a moça do forró. A Irene que não me escute, mas a moça tava com uma saia curtinha, seu delegado... Tinha uma pernas, que deixou todo mundo lá da bodega do Tonho de cabelo em pé. E o seu delegado sabe bem como é isso, né? Mulher é um bicho tinhoso.
Daí eu cheguei perto pra acudir a moça e pedi o que tinha acontecido que o joelho dela tava todo cheio de sangue. Ela nem conseguia falar, homi. Só chorava a pobrezinha. Só deu tempo de pegar ela no colo e colocar no carro. Na hora eu nem pensei que eu tava botando as mão nas perna que todo mundo queria encostar, sabe. Nem tirei lasquinha. Fiquei preocupado, mesmo.
No meio do caminho a moça começou a gritar, desesperada. Disse pra parar, que ela queria descer. Eu fui pro acostamento e ela abriu a porta e saiu correndo como deu. Meio manca, a pobrinha. Eu só via a saia balançando contra a luz dos carro na estrada – eu disse que ainda tava amanhecendo, né, seu delegado? Eu fui atrás.
Quando eu consegui pegar ela pelo braço, ela olhou bem pra minha cara e se pendurou no meu pescoço, moço. Mas eu não fiz nada, não. Desaguou. Eu fui tentar acalmar a moça e ela me disse que tinham tentado matar ela – tão formosa e tão desesperada a moça. Aí eu não sabia o que fazer, né, seu delegado?! Essas coisas a gente nunca sabe como agir.
Pedi pra moça sentar no chão e me contar tim-tim-por-tim-tim-tim o que tinha acontecido e ela pegou minha mão e fez eu apalpar a cabeça dela. Um galo, seu delegado, um galo que eu tive certeza que cabra-macho não agüentava. E daí ela disse que tava saindo do forró com o Tonho, o dono da bodega. E eu bem que estranhei que ele tinha saído cedo. E daí chegou o filho do Tonho, o Zé, tirou o pai do braço dela e deu com um pau na cabeça dela.
E a pobrinha, coitadinha, tentou sair correndo mas não conseguiu. Eu disse que devia ser porque o seu Tonho era casado com a mãe do Zé e ele deve ter ficado brabo, mas aí ela caiu no choro mais ainda, não conseguia parar de soluçar. Foi aí que ela tentou dizer que tinha namorado o Zé. Eu não contive o queixo, seu delegado. O Zé é barra-pesada. Até tampei as perna da moça. Não queria confusão sabe, moço.
Aí ela disse que ficou uns par de tempo sem lembrar de nada quando eles vieram de novo com um saco e tentaram botar ela drento ela acordou e berrou. Daí que eu ouvi. Eu só não entendi, seu delegado, porque eles cascaram fora quando me viram chegar. Eu sou forte, sabe, carrego peixe e barco todo dia. Mas os dois são umas montanha. De certo ficaram com medo que eu contasse pra Dona Ivone, que é irmã da Irene.
É isso, seu delegado. É isso que eu sei. Só isso. E eu juro pro Senhor como falo a verdade. O que? Ela disse que fui eu quem deu com uma peixeira na cabeça dela? Vagabunda! Filha da mãe! Não, seu delegado, eu juro que não fui eu. Foi o Tonho. Eu vi o Tonho correndo. Lá no começo eu disse que não, mas eu vi, seu delegado. Foi o Tonho. Foi o Tonho. Eu vi o saco preto, seu delegado.
domingo, 5 de julho de 2009
Ao Diretor Geral
Não era, em nada, similar a um filme americano. Não havia a luz pendente, não havia o good-cop-bad-cop, não havia espelhos falsos na parede. Não havia, na verdade, parede. Na capoeira baixa e seca, pouco se via além do local iluminado pelos faróis. No contraluz uma silhueta insistia:
― Melhor ir falando. Isso pode levar a noite a toda e não tenho a menor pressa de ir pra depê. O café de lá é uma bosta, mesmo.
No chão, um outro vulto encolhido no capim seco. As mãos atrás das costas. De longe, nem seria visto. Àquela hora, de qualquer forma, não havia ninguém para ver coisa alguma. E o vulto sabia disso.
― Eu já disse, só fiz o que ele pediu. Foi o que disse o vulto. Que outra coisa não era, naquela situação, o sujeito. Apenas um vulto.
― Olha ― continuou a silhueta no contraluz ― eu não tô na minha hora de serviço, não tô de uniforme. Não tem nenhuma regra que eu tenho que seguir. Se você falar, você volta comigo, num pedaço só, inteirinho. Peixe pequeno assim, se se comportar, em um ano, dois, tá fora. Eu até dou um jeito de ajeitar o seu lado lá dentro, pra ficar sossegado. Agora, se me enrolar, eu tenho um saco preto no porta-malas que é o seu número. E daí você nem vai sentir o cheiro da porra do café da depê. Ca-dê-a-mer-da-da-gra-na?
― Eu não peguei nada. Só o que o velho me pagou. Como eu ia saber que a caixa era pra ele?
― Tá me achando com cara de otário? ― A silhueta no contraluz parecia perder um pouco da paciência. ― Você quer que eu acredite que o velho pagou pra acabar com ele mesmo? Você apagou o infeliz pra roubar alguma coisa. Se não era dinheiro era o quê?
― Não roubei nada, não. Numa dessas ele queria se matar e só não tinha coragem pra puxar o gatilho.
― Não, não, não. Eu conheço esse tipo de gente. Fresco e com grana assim, se ele fosse se matar ia tomar um punhado de comprimido com uísque num copo de cristal. Esse tipo nem gosta muito da idéia de uma arma, que é pra não estragar o enterro. Imagina receber uma carta bomba na cara. Caralho, a cabeça do velho tava do avesso! Os braços cortados no cotovelo. As mãos não deu nem pra achar. Gente assim nunca ia arrumar uma dessas pra se matar. Suicídio não cola. Você me diz onde tá a grana, eu pego – até deixo um pouco com você, se você cooperar – e a gente faz a prisão na boa. A hora que você sair, ainda vai ter uma grana te esperando.
― Mas eu já disse, eu mandei a caixa do jeitinho que ele pediu. E foi só. Não roubei nada, não. Não sei de dinheiro nenhum. Só tenho o que ele me pagou pra enviar a caixa.
― Tá certo, você não quer dizer, tudo bem. Já vi que não adianta insistir.
A silhueta no contraluz puxou o vulto do chão, deitou-o com o peito sobre o capô do carro, soltou-lhe das algemas, conferindo se não havia deixado nenhuma marca no pulso.
― Vaza. E fica sabendo que eu tô de olho. Se tu aparecer com alguma grana, eu vou ficar sabendo. Vaza. Corre!
Um vulto partindo, correndo na capoeira, tendo às costas a luz dos faróis de um carro solitário, uma silhueta com um trinta e oito apontado e duas balas. No contraluz, o cano curto fumegava. O corpo, entre o capim seco da capoeira, mais adiante, também. A silhueta saiu da frente do carro, abriu a porta, passou uma chamada pelo rádio acusando uma perseguição ao suspeito. Alguns minutos depois, uma nova chamava pedia uma ambulância. O fugitivo tinha sido alvejado.
― Esse café é uma bosta, hein?
― Não muda nunca. Você devia estar acostumado.
― E aí, alguma novidade da tal caixa?
― Esperando a perícia, ainda.
― Pra mim tá na cara que alguém mandou a bomba pro cidadão pra sair com alguma grana. Grana graúda.
― Sei lá. Tá muito estranho. Mas pode ser. O cara acaba de ganhar uma promoção, vira diretor geral, tá com a grana, alguém fica sabendo e resolve explodir com ele.
― Acho que sim.
― Cara, não fazia nem um mês que o infeliz tinha assumido o cargo.
― Nem deu tempo de aproveitar o dinheiro que tava ganhando.
― Pode dizer o que quiser, mas esse é um cargo que eu não queria ter. O cara que tava no cargo antes foi preso com um desvio de verba animal. E isso porque acabou não pagando o imposto de renda, senão ninguém ia descobrir. Aí vem esse velho, assume o lugar de uma hora pra outra, e recebe uma carta bomba de presente. Prefiro ficar aqui com esse café de bosta e manter a minha cabeça em cima do corpo.
― Mas e aí, chegou a ver a caixa antes de ir pra perícia?
― Pouca coisa. Normal. Toda parda, selo do correio, confidencial escrito na tampa, logo abaixo do nome do cargo. “A/C: Diretor Geral”. Tudo digitado na máquina, nenhuma caligrafia.
― Mas a perícia já não adiantou que as digitais bateram?
― Já, já. Parece que foi o cara que você pegou mesmo. Pena que não deu pra pegar o sujeito. Se espremesse ele, devia dar pra descobrir o que aconteceu, ou porque ele mandou a carta.
― Pode ser, pode ser.
Perto da capoeira, numa casa silenciosa, outra unidade de investigação fazia uma varredura na casa do principal suspeito de ter enviado a caixa. Mesmo à luz do dia, distante, era impossível ver a poça de sangue entre o capim seco lá fora. Do lado de dentro, sob a cama, numa sacola de lixo, uma pilha de dinheiro, separada em notas de cem e cinqüenta. Notas sequenciais, descuidadas. Coisa de amador. O investigador encarregado avaliou por cima algo em torno de uns cinco mil reais. Com uma margem de erro para mais ou para menos, caso algo sumisse ou passasse despercebido. Embaixo de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, na estante da sala, um pedaço de jornal rasgado que tinha, na margem, uma nota escrita à mão, com o endereço da empresa e instruções para o envio de uma encomenda ao Diretor Geral, em uma caixa confidencial, para garantir que não parasse na secretária. A digital, dificilmente poderia ser comparada com algum suspeito, visto que os dedos que ali se encaixavam haviam desaparecido sob uma explosão. No canto do jornal, um pedaço de foto de matéria desatualizada e a data de pouco mais de um mês atrás.
― Melhor ir falando. Isso pode levar a noite a toda e não tenho a menor pressa de ir pra depê. O café de lá é uma bosta, mesmo.
No chão, um outro vulto encolhido no capim seco. As mãos atrás das costas. De longe, nem seria visto. Àquela hora, de qualquer forma, não havia ninguém para ver coisa alguma. E o vulto sabia disso.
― Eu já disse, só fiz o que ele pediu. Foi o que disse o vulto. Que outra coisa não era, naquela situação, o sujeito. Apenas um vulto.
― Olha ― continuou a silhueta no contraluz ― eu não tô na minha hora de serviço, não tô de uniforme. Não tem nenhuma regra que eu tenho que seguir. Se você falar, você volta comigo, num pedaço só, inteirinho. Peixe pequeno assim, se se comportar, em um ano, dois, tá fora. Eu até dou um jeito de ajeitar o seu lado lá dentro, pra ficar sossegado. Agora, se me enrolar, eu tenho um saco preto no porta-malas que é o seu número. E daí você nem vai sentir o cheiro da porra do café da depê. Ca-dê-a-mer-da-da-gra-na?
― Eu não peguei nada. Só o que o velho me pagou. Como eu ia saber que a caixa era pra ele?
― Tá me achando com cara de otário? ― A silhueta no contraluz parecia perder um pouco da paciência. ― Você quer que eu acredite que o velho pagou pra acabar com ele mesmo? Você apagou o infeliz pra roubar alguma coisa. Se não era dinheiro era o quê?
― Não roubei nada, não. Numa dessas ele queria se matar e só não tinha coragem pra puxar o gatilho.
― Não, não, não. Eu conheço esse tipo de gente. Fresco e com grana assim, se ele fosse se matar ia tomar um punhado de comprimido com uísque num copo de cristal. Esse tipo nem gosta muito da idéia de uma arma, que é pra não estragar o enterro. Imagina receber uma carta bomba na cara. Caralho, a cabeça do velho tava do avesso! Os braços cortados no cotovelo. As mãos não deu nem pra achar. Gente assim nunca ia arrumar uma dessas pra se matar. Suicídio não cola. Você me diz onde tá a grana, eu pego – até deixo um pouco com você, se você cooperar – e a gente faz a prisão na boa. A hora que você sair, ainda vai ter uma grana te esperando.
― Mas eu já disse, eu mandei a caixa do jeitinho que ele pediu. E foi só. Não roubei nada, não. Não sei de dinheiro nenhum. Só tenho o que ele me pagou pra enviar a caixa.
― Tá certo, você não quer dizer, tudo bem. Já vi que não adianta insistir.
A silhueta no contraluz puxou o vulto do chão, deitou-o com o peito sobre o capô do carro, soltou-lhe das algemas, conferindo se não havia deixado nenhuma marca no pulso.
― Vaza. E fica sabendo que eu tô de olho. Se tu aparecer com alguma grana, eu vou ficar sabendo. Vaza. Corre!
Um vulto partindo, correndo na capoeira, tendo às costas a luz dos faróis de um carro solitário, uma silhueta com um trinta e oito apontado e duas balas. No contraluz, o cano curto fumegava. O corpo, entre o capim seco da capoeira, mais adiante, também. A silhueta saiu da frente do carro, abriu a porta, passou uma chamada pelo rádio acusando uma perseguição ao suspeito. Alguns minutos depois, uma nova chamava pedia uma ambulância. O fugitivo tinha sido alvejado.
― Esse café é uma bosta, hein?
― Não muda nunca. Você devia estar acostumado.
― E aí, alguma novidade da tal caixa?
― Esperando a perícia, ainda.
― Pra mim tá na cara que alguém mandou a bomba pro cidadão pra sair com alguma grana. Grana graúda.
― Sei lá. Tá muito estranho. Mas pode ser. O cara acaba de ganhar uma promoção, vira diretor geral, tá com a grana, alguém fica sabendo e resolve explodir com ele.
― Acho que sim.
― Cara, não fazia nem um mês que o infeliz tinha assumido o cargo.
― Nem deu tempo de aproveitar o dinheiro que tava ganhando.
― Pode dizer o que quiser, mas esse é um cargo que eu não queria ter. O cara que tava no cargo antes foi preso com um desvio de verba animal. E isso porque acabou não pagando o imposto de renda, senão ninguém ia descobrir. Aí vem esse velho, assume o lugar de uma hora pra outra, e recebe uma carta bomba de presente. Prefiro ficar aqui com esse café de bosta e manter a minha cabeça em cima do corpo.
― Mas e aí, chegou a ver a caixa antes de ir pra perícia?
― Pouca coisa. Normal. Toda parda, selo do correio, confidencial escrito na tampa, logo abaixo do nome do cargo. “A/C: Diretor Geral”. Tudo digitado na máquina, nenhuma caligrafia.
― Mas a perícia já não adiantou que as digitais bateram?
― Já, já. Parece que foi o cara que você pegou mesmo. Pena que não deu pra pegar o sujeito. Se espremesse ele, devia dar pra descobrir o que aconteceu, ou porque ele mandou a carta.
― Pode ser, pode ser.
Perto da capoeira, numa casa silenciosa, outra unidade de investigação fazia uma varredura na casa do principal suspeito de ter enviado a caixa. Mesmo à luz do dia, distante, era impossível ver a poça de sangue entre o capim seco lá fora. Do lado de dentro, sob a cama, numa sacola de lixo, uma pilha de dinheiro, separada em notas de cem e cinqüenta. Notas sequenciais, descuidadas. Coisa de amador. O investigador encarregado avaliou por cima algo em torno de uns cinco mil reais. Com uma margem de erro para mais ou para menos, caso algo sumisse ou passasse despercebido. Embaixo de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, na estante da sala, um pedaço de jornal rasgado que tinha, na margem, uma nota escrita à mão, com o endereço da empresa e instruções para o envio de uma encomenda ao Diretor Geral, em uma caixa confidencial, para garantir que não parasse na secretária. A digital, dificilmente poderia ser comparada com algum suspeito, visto que os dedos que ali se encaixavam haviam desaparecido sob uma explosão. No canto do jornal, um pedaço de foto de matéria desatualizada e a data de pouco mais de um mês atrás.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Novo Tema
O novo tema da rodada será: "Um assassinato que não deu certo".
(Este será também o marcador)
Os textos devem ser postados até o dia 06/07/2009.
(Este será também o marcador)
Os textos devem ser postados até o dia 06/07/2009.
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Temas,
um assassinato que não deu certo
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