segunda-feira, 6 de julho de 2009

Um prato frio

Calculista ele era. Já havia planejado a vingança pelo menos umas trinta vezes na ponta do lápis. Preto no branco. Tudo de papel passado. Faltava-lhe um pouco de frieza, mas se aos 63 anos ainda não tinha desenvolvido, dificilmente conseguiria. Costumavam dizer que vingança é um prato que se come frio, mas esperar meio século é tempo para apodrecer a comida. Prato, talheres e até a mesa já deviam estar embolorados. Era treze de outubro. A mesma data em que sua vida havia sido completamente destruída. Um fim trágico para uma criança que tinha tudo para ser um homem de sucesso.

Naquele dia pegou todas suas anotações de planos diabólicos para acabar, de uma vez por todas, com seu algoz. Entre as centenas de pequenos papéis razurados, um o chamou atenção. Era justamente este que ele colocaria em prática. Aos 63 anos já não tinha mais um preparo físico invejável. Os músculos já davam sinais de atrofia e os dedos começavam a enrugar. Mesmo assim era aquele o plano que ele pretendia colocar em prática. Tirou do fundo de seu closet um arco e duas flexas, camisa preta, calça preta e um par de botas sete léguas. Passou pela sala e sacou da gaveta de um pequeno aparador um par de luvas da mesma cor das demais vestes e desceu as escadas com certa dificuldade. Entrou em seu Corcel e saiu em direção ao asilo onde o inimigo o esperava há anos.

Chegando lá, estava certo de não conseguiria pular as grandes muralhas que faziam do asilo uma prisão, mas tinha certeza de que sua astúcia o levaria ao encontro de quem procurava. Com muito esforço arremessou o arco e as flechas para o outro lado do muro, caminhando em direção à portaria do asilo.

- Bom dia, senhor. Em que posso ajudá-lo? - O jovem recepcionista se impressionou com as vestes daquele senhor, mas quem era ele para julgar um ancião que buscava uma casa asilar por conta própria?
- Estou procurando um local para ficar. Minha família está muito atarefada e já não tenho mais idade pra ficar em casa sozinho.
- Certo. É para isso que estamos aqui. Qual a sua idade?
- Sessenta e três e meio.
- O senhor consegue ler e escrever?
- Sim, claro.
- Então assine estes papéis e já o levo para conhecer seu novo lar.

Tremendo como há muito não tremia, assinou todos os papéis. Nem fez questão de ler, pois sabia que em poucas horas estaria saindo por aquela mesma porta, carregado por policiais rumo a outro tipo de asilo um pouco mais sujo e conturbado, mas nem por isso pior do que aquele. Foi orientado pelo rapaz da portaria que subisse a rampa até o primeiro andar para conhecer a área coletiva do local. Lá, observava atentamente à movimentação de seus novos colegas de residência, a fim de saber como chegar ao seu objetivo em poucas horas.

Sua memória recente já estava ligeiramente abalada por algum tipo de doença degenerativa, por isso, carregava consigo as anotações de como faria aquele premeditado assassinado. A vingança que sonhou a cada dia de sua vida desde os treze anos de idade. Só agora, quando não devia mais nada a ninguém, ele teria coragem de realizar seu grande sonho. Retirou os pequenos papéis do bolso e se pôs a ler linha por linha, já acalmado por ter entrado onde precisava. Andou até o piso inferior e pegou sua arma, que ele já não lembraria onde estava não fosse pelas anotações prévias. Se algo saísse fora do previsto, talvez sua memória lhe pregasse uma peça, mas até então tudo estava nos conformes.

Várias horas se passaram e ele nem sequer sentia o tempo. Sentou-se à mesa para o jantar ainda vestido com suas roupas todas pretas. Não tirou a luva nem para comer a sopa que lhe serviram. Foi quando avistou seu irmão mais velho no outro lado do recinto. Entrando vagarosamente com auxílio de um andador, o homem demonstrava uma bela aparência, apesar de frágil. Era a imagem que faltava para despertar a fúria daquele senhor vingativo de sessenta e três anos. Ele se levantou tão rápido quanto podia e fugiu na direção contrária à do irmão rumo ao andar dos quartos. Com arco e flecha já em mãos, entrou no quarto de seu irmão e pôs-se a esperar o momento certo de entrar em cena. A mira já estava na direção da porta quando ouviu o barulho da maçaneta a girar. Sua respiração era ofegante só de imaginar a flecha atravessando o pescoço daquele ser de existência tão abominável. Eis que a porta se abre. O irmão mais velho entra no quarto e com a visão turva percebe a presença de alguém. O mais novo hesita em atirar. O mais velho caminha mais rumo à cama onde escorava-se o mais novo. O mais novo enche os olhos de lágrimas e suas mãos tremem. O mais velho o reconhece, vê o arco e a flecha parados em sua direção, cai e se contorce no chão. O mais novo sai lentamente sem ver uma única gota de sangue. O mais velho agoniza.

5 comentários:

Marina Melz disse...

Bã. A idéia do assassinato não ter dado certo e mesmo assim o irmão agonizar ficou muito boa. Eu mudaria algumas coisas que me soaram meio irreais - tipo o cara entrar no asilo assim, numa boa, e o arco e a flecha. Mas eu curti. Bastante.

Rodrigo Oliveira disse...

tem esses detalhezinhos pra justificar no texto, mas captou bem mesmo o lance do assassinato que não deu certo. Não foi só frustrado, teve aquele algo a mais. Curti.

Fábio Ricardo disse...

achei muito bom!
mas pq nao colocar um velho revolver, há muito guardado no fundo da gaveta, ao inves de um arco e flecha?

o arco roubou atençao daquilo que deveria ser o mais importante no texto.

Thiago Floriano disse...

concordo com vcs, mas acho que o jeitão esquisito do personagem, que não conseguiu resolver a história em 50 anos condiz com esse tipo de peculiaridades. talvez tivesse que explorar mais o perfil psicológico dele, isso sim...

Félix B. Rosumek disse...

Eu curti a maluquice do arco e flecha, ficou bem interessanta a imagem de um velhinho caduco que passou a vida toda elaborando planos fantasiosos de vingança.

Pelo modo como intepretei o final, o assassinato não deu certo porque o mais velho infartou antes do mais novo dar o disparo? Se foi isso, achei mó legal!

É um texto que ia se beneficiar muito de uma revisão, por conta de alguns errinhos na escrita. E nas frases finais o tempo verbal muda par ao presente. Acho que fica realmente mais cinematográfica a narração no presente, mas a transição teria que ser mais bem marcada (todo o último parágrafo poderia ser uma seção à parte contada nesse tempo). Do modo como está, a transição é meio esquisita.