quinta-feira, 26 de março de 2009

Querido Deus,

Não sei se você vai ler essa carta. Não sei nem se o Papai Noel leu todas as eu que escrevi nos últimos anos. Só escrevo porque minha mãe sempre diz que a gente pode fazer pedidos pra ele e pro Senhor. Sempre funcionou com ele, deve dar certo com o Senhor também.

Vou ser bem sincero: tenho dois pedidos. Não é que eu esteja querendo demais, não, Deus – posso chamar o Senhor assim?. Minha mãe disse que somos amigos. É que um dos pedidos não é pra mim. 

Esta noite, como em quase todas desde que eu me recorde, ouço minha mãe e meu pai gritando no quarto ao lado. Na verdade só ele grita. Bem, vou explicar. Ele se tranca no quarto com ela e com minha irmã. Ele grita, minha mãe chora e pede pra que ele não faça isso. Aí ele se cala, eu só ouço minha mãe gritando. Minha irmã também fala alto de vez em quando. Se não me engano, já até ouvi ela falando alguma coisa sobre dor. Meu pai fala bem alto, todos os dias, sobre “aprender como é que se faz”. Aí ele sai em disparada pelo corredor, me lança um olhar fulminante que eu nunca entendi se era de orgulho ou repúdio e sai. 

Sabe Deus, a pior parte vem agora. Minha mãe sai do quarto com os olhos inchados e geralmente com algumas marcas vermelhas, às vezes até rochas. Aí ela me abraça e diz que me ama e que é pra eu esquecer. Eu não consigo, sabe. Tenho vergonha de dizer isso pra ela. Sei que ela não me perdoaria por não esquecer. Muito menos se ela soubesse que todas as noites eu vou até o quarto onde minha irmã dorme e tento fazer ela me falar o que acontece. E eu nunca tive resposta. 

O que eu queria, Deus, era saber o que acontece lá dentro. Se não conseguir saber, que eu esteja lá um dia. Só pra saber, pra ver. Saber e poder mudar o choro da minha mãe e o silêncio da minha irmã. Ou, se o Senhor for tão bom quanto sempre dizem – veja, não estou duvidando nem desafiando sua santíssima bondade, é só porque não o conheço – que faça isso parar. Eu fico numa boa sem saber o que acontece, desde que isso pare. 

O segundo pedido é uma vaga na escola do meu bairro. É bem ruim ter que andar uma hora pra chegar lá. Mas isso, não tem problema, eu posso continuar fazendo. 

Espero que o Senhor me atenda, ou pelo menos me responda a essa carta. Vou rezar um terço a mais hoje, pra ver se essa carta chega rápido. 

Jackson 

5 comentários:

Sílvia Mendes disse...

porra

Cynthia disse...

Lembrei das tantas cartas que eu nunca pensei em escrever. Não sei nem mesmo se suportaria.

Rodrigo Oliveira disse...

o bom velhinho marcando presença.

Félix B. Rosumek disse...

Deus não foi o foco, mas serviu de pano de fundo para um assunto bem mais pesado. As coisas mais assustadores são as reais, não os Papais Noel e Papais do Céu... Gostei!

Fábio Ricardo disse...

Não precisava do segundo pedido ,creio. E a linguagem ,se fosse um pouco mais simples, combinaria mais com o pequeno Jackson.

Mas é bom tever explorando novos caminhos com toda essa qualidade :)