domingo, 6 de abril de 2008

Adeus ao romance

06/04/08

Não mais o mesmo ser, não mais como era viver. A lua segue a mesma, as estrelas estão no mesmo lugar. Mas não o observador. Alguma coisa está perdida, ou matada, ou morrida. Relatividade? Sim, não mais me alegro de verdade. Onde estão aqueles sonhos, o apressado bater do coração, a linda, amada e desejada doce depressão? Já eram. Au revoir, velhos amigos, divirtam-se no asilo. O mundo me ensinou que de utopia e devaneio o inferno dos poetas está cheio. Saturado, talvez. Há ainda algum modo não falado de poetizar um coração cortado? Sim, tão importante para quem sente, o sentido da vida em versos. Tão banal para quem lê, papel útil apenas para escrever no verso. Como dizia mesmo a música? Adeus ao romance, ao romantismo. Um homem pode mudar o mundo? Sim, sussurra o idealismo. NÃO, grita o pessimismo. Não mais morrer por uma idéia, não mais matar por um amor. A mente pode fervilhar, mas os membros estão lesos pelo frio exterior. Oh, merda, não é mais o brilho dos olhos que me guia o destino, mas amarelos dentes emoldurados por sorriso cínico...

Eu gostaria de poder ficar cego para tudo o que carrego. Aquilo que o mundo me mostrou, e que a chama interna mutilou. Fogo ou brasas? Não, cinzas e fumaça. Por que enxergar a facilidade com a qual abrem as pernas para fugir de suas trevas? Aqueles que, uma faca na mão e um sorriso complacente, disseram ao demente: "temos que levar em conta a nossa verdade deprimente!". Ver (e sentir, ah, sentir!) que um amor exposto não pode mudar o coração do outro, e que de jogos e mentiras é que se faz a vida. Eu gostaria de esquecer de tudo... Amnésia psicológica, e desta vez não alcoólica. Mas eu tenho os olhos bem abertos, eu sou cientista, eu sou cético. Após ter saído da caverna, as sombras deixam de ser só elas. Sei que só mãos e bocas que mudam o universo, só em prosa, nunca em verso. Corações e mentes? Limitados, dependentes. Me obrigo a ver as coisas como elas são, independente do que versa minha oração. Então heroísmo é egoísmo, e amor apenas reprodução. É por isso mesmo que eu queria uma lobotomia, ou qualquer outra cirurgia, de mente ou de espírito. Que me arranquem da cabeça esta maldita consciência. Me dêem a bênção da ignorância, esconjurando a pobreza e a ganância. E despido o conformismo, me façam verdadeiro, para reavivar o idealismo e - quem sabe - ser feliz por inteiro...

7 comentários:

Marina Melz disse...

e quem disse que o félix não poderia escrever sobre romance? curti demais.

Marina Melz disse...

ah, e como prosa poética bem scrita é boa demais.

fabrito disse...

Achei muito bom. Aquelas perguntas sem respostas que comprovam a velha maxima: Ninguém é feliz tendo amado um alguém.

Rodrigo Oliveira disse...

estilo clássico com félix com um novo olhar. Felixinho paz e amor... tá. mais amor do que paz, mas enfim. E com direito ao Mito da Caverna. Nenhum amor mais platônico.

Fábio Ricardo disse...

FelixinhoPaz e Amor não...
é Fefeléco Fefelucho mesmo...

Félix B. Rosumek disse...

brigado, nêni!

Fátima Venutti disse...

Há um verbo "maior" que nos domina. A embriaguez das plavrs nos faz sonhar, de novo e de novo e de novo...
Adorei.

Fátima Venutti