quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Dívida amarga

A França vivia quase meio século de prosperidade. O clima favorecia a agricultura, alimentando uma população crescente, os trabalhos artesanais progrediam fortalecendo o comércio entre os cidadãos e a moeda se mantinha estável. Com a melhoria das estradas, o comércio entre as vilas começava a progredir lentamente.

Nem tudo corria bem, entretanto. Enquanto monarcas se banqueteavam com faisões e porcos defumados, o povo não participava igualmente dessa prosperidade. Os pesados impostos cobrados pelo Estado recaíam sobre as classes populares, como a família de Frimas, jovem artesão que vivia com esposa e os dois filhos gêmeos, Alexandre e Rouben.

Foi exatamente no dia do aniversário de nove anos dos filhos, que dois homens vestindo roupas da guarda real bateram à porta do casebre que abrigava a família de Frimas. Feliz pelas comemorações do aniversário dos garotos, o jovem não raciocinou antes de abrir a porta e dar de frente com os homens que já o procuravam a semanas. Um golpe firme, porém contido, atingiu Frimas na altura do joelho, fazendo com que seu corpo caísse de lado em frente à casa.

Antes mesmo que pudesse pensar em se levantar, um pé o impelia em direção ao solo, colocado sobre sua cabeça. A ponta de lança apontada em direção a seus olhos servia como um último convencimento. O outro homem invadiu a casa, caminhou com passos firmes em direção à mesa onde os garotos protegiam-se agarrados à mãe.

- Por favor, nós vamos pagar! Nós vamos conseguir o dinheiro! – chorava a matriarca, provocando soluços nos dois pequenos.

As costas da mão direita do guarda atingiram com força o rosto da magra mulher. Rouben, um dos garotos, correu em direção à estante, onde agarrou um saco de moedas e correu porta afora. Afoito, olhava para trás quando atingiu com força o corpulento soldado que aguardava do lado de fora da porta de entrada do casebre. Com a pancada, caiu ao chão e deixou cair de suas mãos o pequeno saco de couro, que espalhou algumas poucas moedas pelo terreno arenoso da propriedade.

Com uma risada, o guarda apanhou o pequeno recipiente das moedas. O menino levantou-se e correu em sua direção, mas um empurrão o lançou longe. O momento de distração foi o suficiente para que Frimas girasse o corpo e lançasse o guarda ao chão. Chutou-lhe a cabeça sem piedade, fazendo voar longe o chapéu preto. Antes do segundo chute ser desferido, o segundo guarda chega na porta pronto para impedi-lo. Frimas ergue os braços, rendendo-se, mas o guarda corpulento que se levantava cravou a lâmina fria de sua adaga entre as costelas do artesão.

O pequeno Alexandre deu um grito e correu na direção dos guardas, com uma velha faca de cozinha em mãos. Os homens entraram no casebre, abandonando o corpo já inerte de Frimas no chão. Um dos guardas segurou o menino e o desarmou, enquanto o outro fechava a porta e partia decidido em direção da esposa de Frimas.

O pequeno Rouben agarrou o saco de moedas, que havia caído no momento da briga, e abraçou seu pai pela última vez. Arrancou o cordão que Frimas levava junto ao pescoço e colocou em seu bolso. Olhou uma última vez sobre seu ombro direito, com o rosto já coberto de lágrimas e jurou vingança enquanto corria para a segurança das matas, sob os gritos que tomavam o afastado vilarejo.

4 comentários:

Marina Melz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marina Melz disse...

Comovente.

Félix B. Rosumek disse...

"mas o guarda corpulento que se levantava cravou a lâmina fria de sua adaga entre as costelas do artesão"

20/20!

boa ação, gostei.

Rodrigo Oliveira disse...

jááááááár!Qdo eu vi o começo na França pensei: putz dois textos no mesmo lugar. Mas não. Era outra França. O tempo tem dessas. às vezes passa um segundo e o lugar já não é mais o mesmo. Já vendo os dois textos 'franceses', parece q nem tudo muda, mesmo passado alguns séculos.