quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Carne Viva

Viveu a vida inteira em 100%. Se existem pessoas que são ou 8 ou 80, ele era apenas 80, o tempo todo. Viveu, amou, sofreu. Aproveitou cada dia, cada semana, como se fossem os últimos. Não se planejava com o futuro, pois estava mais interessado no presente. Até mesmo em seus melhores sonhos, como o de ser pai, nunca conseguiu visualizar seu filho adolescente. Apenas como uma criança. De certa fora, nunca imaginou que viveria muito tempo.

Tinha pouco menos de 30 anos. Há cinco, já havia percebido seu problema, mesmo que os outros não o percebessem, ou fingissem que não. Sua contagem regressiva corria em ritmo alucinado. Ele, o cara cujos amores duravam três semanas, cujos empregos nunca chegavam a um ano, cuja vida fervia com a vontade de logo acabar.

Vivia em carne viva, e sofria muito por isso. Mas tinha a certeza total e absoluta de que cada lágrima valia a pena. Para ele, dois meses de sofrimento eram pouco, comparados à doçura de duas semanas de felicidade.

Um dia, comprou uma moto. Uma V-Blade, estilo custom, que sempre viu nos filmes e sempre sonhou em pilotar. Nem foi tão caro assim. O dinheiro que guardou para sua pós-graduação foi um bom investimento. Passou no banco e zerou a conta. Encheu os bolsos e mandou e-mails durante todo o dia.

Despedia-se. Da ex-namorada, da melhor amiga, do grande amor de sua vida e da dona de seus pensamentos. Dos amigos mais próximos e mais verdadeiros. No Orkut, disse um adeus geral, a todos os que faziam seus Natais melhores.

Subiu na moto e partiu. Abasteceu quando necessário. Rodou e rodou, sem lugar para ir, sem ponto de chegada ou qualquer expectativa. Rodou por muito tempo, 100% por segundo. Rodou até não mais ter dinheiro para abastecer e seguir com a jornada. Antes do último quilômetro rodado, estacionou sob um caminhão.

Demoraram meses até descobrirem o que aconteceu. Demoraram meses para entender.

Não demorou muito para ser mais um saudoso esquecimento.

4 comentários:

Fábio Ricardo disse...

texto de abril desse ano.

Rodrigo Oliveira disse...

Sei lá, acho que faltou. Parece um texto bem mais antigo. O texto ficou meio 'flat', sem um clímax forte ou construção de tensão. Posso estar meio crítico demais, mas achei até um pouco clichê... com um ar meio ginasial... (mas gostei da frase do 8-80)

Marina Melz disse...

já tinha lido no blog. gosto dele. mas confesso que tenho certo preconceito com algumas coisas ali - alguns termos bobos, que eu acho que quebram o ritmo de literatura. enfim.

Félix B. Rosumek disse...

Parece que o tema evocou sentimentos e reflexões pessoais em mais gente, hein? O texto é de abril, mas o personagem esta aí. De uma forma ou outra, é a diferença ligada ao afastamento.