sábado, 15 de agosto de 2009

Mondrian Monday

O mundo era todo cores. Fluido, geométrico. Tinha nos olhos um brilho colorido de lilases e, de baixo da língua, escorria-lhe o sabor abstrato que dilatava-lhe as pupilas. No teto do quarto a lâmpada era um sol eclipsado enquanto ele, costas nas cobertas coloridas, era a estrela ao redor da qual rodava o mundo. Do calendário na parede saltaram cores que se espalharam pelo quarto, dançando, trocando de lugar num balé rubikiano. Era todo Kandinski, com as pupilas dilatadas olhando o calendário colorido. Viu os dias riscados, os números vermelhos de um hoje vivo.

Então a pupila contraiu-se, as curvas sinuosas endireitaram-se, as diagonais se ajeitaram paralelas. As cores se desmisturaram e agruparam-se comportadas em suas baias. O gosto se esvaía. Sob a língua, sobre as cobertas. A boca seca. Foi ficando Mondrian, Mondrian... até que todas as cores e todas as linhas se organizaram. Cubículos coloridos de uma só cor. O calendário já não parecia tão atraente. De tão Mondrian, foi-se despedaçando o azul, desbotou-se o vermelho, apagou-se o amarelo. E restaram-lhe os cubículos preto-e-brancos. As cores tinham-se ido todas. As curvas, as diagonais. Era novamente retas, apenas. Retas e cubículos. No calendário, os dias coloridos ficaram para trás. Amanhã o dia era negro.

3 comentários:

MALU FERREIRA disse...

Oieeeeeeeee.. eu voto nesse texto! he he eh Abraços a todos....

Rodrigo Oliveira disse...

Oi, Malu! Valeu pela participação, viu? Mas como já foi comentado em um outro post mais antigo, só serão computados como válidos os votos cometados no post de votação, ok? Apareça! =)

Félix B. Rosumek disse...

Sai dessa vida de drogas, Rodrigo...

Sobre o comentário que tu fez no texto do Fábio, eu concordo com a questão do nome do artista. Eu preferia, pessoalmente, que tu não tivesse citado o autor, e nem que era uma pintura. Daí o tema ficaria menos na parte do "quadro do Kandinski" e mais na intepretação da figura em si (seja lá o que esse troço bizarro queira dizer...). Penso que essa é um direcionamento mais interessante para essa opção de figuras como temas (embora um tema típico nosso dizendo "pintura abstrata" também fosse perfeitamente válido).