sábado, 5 de julho de 2008

As formigas do Père-Lachaise

A fila caminhava lentamente, como se as câmeras fotográficas pesassem no pescoço de seus portadores. Uma coluna de formigas seguindo algum traço invisível, a caminho do formigueiro. O céu brilhava azul sobre o leste de Paris, imprimindo manchas redondas de reflexos de lentes nas fotografias que seriam reveladas posteriormente. Seguimos o caminho demarcado por correntes grossas que nos levaram até a amurada de pedra, donde, duas estruturas tórreas se elevavam de cada lado do portão. No alto de cada uma, um disco era sustentado por duas tochas cinzeladas na pedra e, no centro deste, pousava esculpida uma ampulheta alada. Fiquei olhando as esculturas na entrada e a fila foi passando sem que eu percebesse. As ampulhetas, imóveis, não deixavam precipitar nem um grão de areia. Ainda que areia fosse tudo o que eram. Compactada, sólida, mas ainda assim areia. Grãos agarrados uns aos outros temendo a queda. E assim, as ampulhetas não se mexiam. Quando tirei os olhos dos muros para entrar, dei por um garoto de pele parda que me olhava inquisidor em roupas rotas, a certa distância. Devia estar ali há tanto tempo quanto eu, mas só lhe dei conta quando a fila das formigas de bermudas se foi portões a dentro. Com uma mesura lhe cumprimentei de onde estava, ao que ele se aproximou, sorriu e me estendeu uma canequinha de alumínio, falando alguma coisa com um sotaque do outro lado do mediterrâneo, provavelmente argelino. O meu francês de banco de escola não pode decifrar perfeitamente o pedido, mas o gesto de quem pede esmola é decifrável em qualquer idioma de um mundo que não se entende. Dentro da caneca, que devia ter sido estendida já a toda aquela fila, tinha apenas um par de moedas. Dei a entender que não tinha dinheiro, o que, obviamente, ele sabia que era mentira. E cruzei apressado por sob as ampulhetas imóveis e as tochas sem brilho.

De longe avistei a longa fila das formigas fotográficas, com o colorido de idiomas e tecidos contornando as ruelas do Pére-Lachaise. Observei-os de longe e me mantive a alguma distância, seguindo solitário até encontrar algumas figuras conhecidas. Cruzei por Wilde e Bergerac. De longe avistei Proust, mas receei me aproximar e apenas continuei meu caminho sem que me notasse. Cruzei com Balzac e me detive por uns momentos com ele, enquanto as formigas multilíngües andavam à minha volta. Não percebi e já estava novamente no meio delas. E naquele formigueiro, eu era mais uma operária. Molière me chamou a atenção e fui a seu encontro. Ao seu lado, La Fontaine lhe fazia companhia. Cumprimentei-os com um inclinar de cabeça, ao que, aos pés de La Fontaine, um movimento diminuto me chamou a atenção. Sobre a pedra, um círculo de formigas se ocupava em desmembrar uma cigarra. Parte a parte, ela era serrada e levada para dentro do formigueiro. As formigas se preparavam para o inverno. Uma pequena cantoria me chamou a atenção e quando levantei percebi que estava novamente em meio àquela multidão, agora cantarolante, de máquinas na mão. La Fontaine me olhou com os olhos frios de pedra e uma vertigem ameaçou de derrubar. Livrei-me da multidão e parti correndo de volta ao portão, me afastando de todos. Das pedras, das pessoas, das formigas. Já novamente debaixo das ampulhetas de pedra, procurei o garoto que havia me abordado. Rondei por ali uns cinco minutos mas ele já se fora. Com peso na consciência, fui junto ao muro onde o avistei pela primeira vez, saquei algumas notas da minha carteira e coloquei-as no canto da amurada com uma pedra em cima, para que o vento não as levasse. Segui os caminhos das correntes sem olhar para as tochas sem luz ou para as ampulhetas imóveis, e voltei para o meu hotel quatro estrelas de pacote pago em vinte e quatro vezes.

5 comentários:

Medéia disse...

Li duas vezes seu texto.
A primeira impressão não foi exatamente boa, mas da segunda vez que li, apreciei cada parte (vagarosamente) e fiquei me imaginando na França... podia ser eu escrevendo... :o)

Gostei! Quem sabe não comece a pagar umas 24 prestações prá tentar ser uma formiga de bermuda (ou saia)...

Viviane Bastos disse...

Ah, ao contrário de Medéia, gamei de primeira. Eu me identifico muito com seu estilo, Rodrigo. E a maioria de seus textos, são originais e de muito bom gosto. Gostei bastante, mas, ainda tenho que ler os textos de todos os duelistas.;)
Abraços

fabioricardo disse...

as descrições foram muito boas. mas pagar viagem em 24 vezes é foda. dá-lhe classe média!

Cris Costa disse...

Rodrigo, excelente narrativa e bela descrição. Parabéns, ótimo texto!
PS: só me assustou a idéia de pagar a viagem em 24 vezes...a viagem tem que ser muito emocionante para que as recordações compensem todos os meses.

Bjs

Rodrigo Oliveira disse...

putz! errei! Era o moleque q tinha de cantar. Droga. Depois corrijo e posto a versão certa no meu blog.