quarta-feira, 16 de julho de 2008

Rememoagem

Da meia-água de telhas de barro, observo a atafona distante. Vã e velha. Abandonada. Apenas um moinho em um mundo que já não enxerga gigantes. Obsoleto num mundo elétrico que dá luz e choque sem dar calor.

O tempo dos moinhos se foi, mas ainda me pesa às costas arqueadas. Como as sacas de farinha me pesavam quando garoto, ao entrar e sair por entre as pás ouvindo o gemer da mó. E como as sacas de farinha, os anos se empilham em minhas espáduas e deixam escorrer o branco sobre meus cabelos. Parcos velos que para ceder espaço ao tempo, precipitam-se como de uma ampulheta. E restam-me tão poucos grãos ainda por cair! Grãos alvos de farinha. Alvos do tempo, que os empurra implacável como o vento empurra as pás. Enquanto, dentro do moinho, à pedra resta apenas o vazio por moer e remoer.

Observo a moenda que se rende à idade. E me curvo dócil ao tempo que me arca o corpo. Enquanto o corpo, à última arca, arca. Até que os anos, empilhados todos uns sobre os outros, se desequilibrem e se precipitem junto com os últimos grãos de farinha. Resta-me apenas o tempo que range em migalhas sob a mó.

8 comentários:

Marina Melz disse...

Sou tua fã.

fabioricardo disse...

isso que dá dar um tema que o cara jah tá careca de conhecer (careca, entenderam? careca!).

torço para que quando eu for um senhor experiente e idoso como você, escreva asism tbm :)

Lua Só disse...

nao poderia deixar de dizer:
Este é um dos melhores textos que já li por aqui.
Muito bom mesmo.
Parabéns!

Félix B. Rosumek disse...

bastou o "atafona" para sacar o autor...

"more than one mage was driven insane by the sound of the Millstone relentlessy grinding away"

Cassiane Schmidt disse...

Muito bom, texto delicioso de ler, elaborado numa linguagem poética, sutil, delicada. Parabéns!

Abraços

Thiago Floriano disse...

se fosse só pela construção do texto, ganharia meu voto, sem dúvida... mas ainda to na dúvida... ahahahaha

Rodrigo Oliveira disse...

félix nerd! Mas confesso q tb pensei nisso! milled!

Vivi Bastos disse...

O que dizer que já não se tenha dito...rs

O texto é pura poesia com belas metáforas e de uma construção impecável.

Maravilhoso!!!

Abraços