quarta-feira, 16 de julho de 2008

Muito nova

Um dia, acho que o único dia da minha vida, eu vi meus pais brigando. A minha mãe chorava e meu pai falava alto eu nem lembro direito o quê. E me escondi e chorei. Depois de algum tempo pedi a minha mãe porque duas pessoas que se amam acabam brigando. Ela disse que eu era muito nova pra entender porque aquilo acontecia.

Quando eu tinha 13 anos e tive que viajar às pressas pra me despedir do meu avô pra sempre, eu pedi pra minha mãe porque as pessoas morriam e porque quando isso acontecia ficava uma sensação de que você poderia ter sentido mais, declarado mais e dito mais. Ela me disse que quando eu crescesse eu entenderia.

Aí, um tempo depois, eu senti um amor morrendo dentro do peito. Eu era amada, amava e conseguia visualizar um futuro nítido e claro pra mim e pra ele. De repente, eu travei. Perguntei pra minha mãe porque o desamor acontece exatamente quando não podia acontecer, ela disse que eu não tinha idade pra entender certas coisas.

Quando, há alguns dias, eu senti um buraco no peito inexplicável e uma vontade quase maluca de ligar pra ele e dizer que eu precisava de um abraço – mesmo sabendo que ele não atenderia a um pedido meu -, eu pedi pra minha mãe porque as pessoas vivem achando que o silêncio resolve tudo. Ela me disse que quando eu fosse maior, talvez entendesse.

Ontem eu perguntei pra minha mãe porque as pessoas que se amam também se afastam, porque quando as pessoas se vão a gente percebe o quanto elas eram importantes, porque o desamor acontece quando ele não podia acontecer e porque o silêncio abre tanto espaço pra dúvidas.

Ela olhou bem no fundo dos meus olhos e disse que quando a gente é pequeno é bom acreditar que as respostas vêm com o tempo. Disse também que quando a gente cresce e percebe que não há explicações pra muita coisa, se arrepende de ter visto os anos passarem e a idade aumentar sem ter buscado as respostas lá dentro do peito.

Ela, aos 42, é a pessoa que eu mais confio no mundo. Eu, aos 19, sigo buscando respostas.

4 comentários:

Cassiane Schmidt disse...

Muito bom menina! Convém buscar as respostas dentro de nós, pois assim, elas nos chegarão diretamente, sem interferências, sem ruídos... O coração é o conselho silencioso, o melhor que há.Contudo muitas vezes esquecemo-nos dele e saimos em busca de vãs respostas.

Thiago Floriano disse...

sim, esse é um texto perfeitamente a la marina... é "a mesma pira de sempre", escrita de forma diferente, mas fazendo a gente pensar cada vez mais... gostei desse

Rodrigo Oliveira disse...

ah! Marina dentro de Marina. É quase como john malkovich. Mas com um pano sujo no nariz :P

Vivi Bastos disse...

Evocou sentimentos reconhecíveis em mim. Parabéns!