sexta-feira, 25 de julho de 2008

Eu sei

Blumenau, 25 de julho de 2008.

Estou começando agora o maior desafio de minha vida até hoje: escrever meu primeiro Best Seller. Um livro que vai ser lido por milhões de pessoas no planeta inteiro. Como eu sei disso?

Eu só sei.

Sei, como sei que no jogo de domingo o Palmeiras vai vencer o Grêmio por 3 a 1. Como sei que até o final da tarde de hoje a Petrobrás aumenta 2,36% e as ações do Itaú caem 0,74%. Sei como sei que às 19h37min de hoje um Vectra bordô com placas de Gaspar vai se chocar uma Fiorino branca, placas de Blumenau. Dentro da Fiorino, um cachorro Poodle que voltava de uma tosa vai ser o único ferido no acidente.

Eu simplesmente sei.

Sei que esta noite Ademar Borba será preso pelo assassinato de sua esposa, que vai ser encontrada por ele na cama com o síndico do prédio, o senhor Coelho. Eu simplesmente sei.

No começo, tentei tirar vantagem deste dom recém descoberto. Comecei com apostas em um bolão de futebol entre os amigos, passei a comprar algumas rifas que eu sabia que seriam premiadas e um dia cometi o erro de jogar na Mega Sena.

Depois daquilo, minha vida começou a desmoronar. Quanto mais eu esforçava minha mente para prever os acontecimentos, melhor eu ficava. Sabia tudo, com cada vez mais detalhes e maior previsão. Com R$ 25 milhões na conta bancária, larguei o emprego e mudei de cidade. Não pude conviver comigo mesmo depois do dia em que cumprimentei um amigo na rua e vi que sua mãe iria morrer em menos de duas horas.

Não havia nada que eu pudesse fazer. Meu amigo não sabia. Eu não pude contar.

Naquela noite, eu não dormi. Comecei a raciocinar e logo percebi que se fosse meu amigo, e não sua mãe, a vítima, eu não saberia o que dizer. Eu não tinha como mudar o futuro. Apenas tinha como me aproveitar dele. No começo, eu não conseguia saber bem como se dariam as mortes, apenas sabia que elas iriam acontecer. Hoje, com muito treino, já consigo detalhes bastante claros sobre crimes, acidentes, fatos corriqueiros. Nada passa despercebido.

Há 20 anos eu vivo num tempo que não é meu. Nunca mais trabalhei na vida. Tenho todos os luxos que um homem já sonhou em ter. Consigo a mulher que eu quiser, pois sei exatamente o que elas querem ouvir.

Mas não consigo me relacionar. Talvez por saber, no exato momento em que olho nos olhos de uma pessoa, o dia e a forma de sua morte. Sei se ela irá me trair, se ela vai me amar, se ela vai ficar doente e se ela vai me fazer sofrer.

E em todos os futuros, eu sempre sofro. Agora, como que fugindo do sofrimento iminente, o medo me impede de sair de casa. Fico aqui, zapeando os canais de TV, respondendo as perguntas que os repórteres fazem no jornal, antes mesmo dos entrevistados pensarem no que vão dizer.

E essa manhã eu descobri que serei o autor de um Best Seller, sem nunca ter escrito um texto com mais de duas páginas. Comecei a escrever, pois o futuro nunca mente. Na terceira tecla que apertei, minha visão já ficou mais clara. Esta obra só se tornará um sucesso dessa magnitude pela forma brutal com que seu autor irá morrer, assim que escrever o ponto final da última frase de sua obra.

Eu não sei o que escrever num livro como este. Pela primeira vez em toda minha vida, me deu um branco. Não sei o que escrever. Só sei que preciso escrever. Sem parar. Escrever, escrever, escrever. Pois assim que eu parar, esta terá sido a última coisa que escrevi.

Eu só sei. Eu simplesmente sei.

4 comentários:

Felipe disse...

Uau!
Eu realmente fiquei de cara agora! ótimo texto!

Félix B. Rosumek disse...

presciência é bem paranormal e foi bem trabalhada no texto. a cena de um cara vendo tv e respondendo perguntas dos repórteres antes do entrevistado é genial e merecia constar num filme. gostei!

JLM disse...

legal, gostei. lembrou um conto q escrevi há anos onde um leitor encontrava um livro q narrava a sua vida do início a fim.

1 abraço.

Yke Leon disse...

Caramba, muito bacana, muito bem escrito, bem construído... parabéns!

Yke Leon, do www.revolutear.blogspot.com