quinta-feira, 17 de julho de 2008

Efêmero

16/06/08

Ah, o homem e suas idades... Como gostamos de olhar para trás e avaliar o que fizemos, o que fizeram, procurar o que já fomos numa vã tentativa de entender o que seremos. Com olhar curioso, observamos remanescentes de uma era esquecida, onde primatas despelados tentavam desesperadamente sobreviver em um mundo de titãs. A nós chegam apenas ossos e pedras, sim, as lascas de um mundo diferente, primitivo e estranho, e nos admiramos com nossa primeva capacidade de moldar o mundo. Ou nos espantamos com a suprema tolice das outras espécies, que jamais tiveram a mesma idéia e assim tiveram seu destino selado em nossas mãos? Seja como for, são as pedras que vemos, e assim a batizamos: Idade da Pedra. Por certo a menos importante das coisas para os daquele tempo, mas é aquilo que nos faz sentido, então interpretamos como quisermos.

Assim nosso espírito primal é incitado quando fitamos armas e invocamos Idades de Bronze, Ferro e sangue, mesmo que sejam apenas algumas das inúmeras invenções de seu tempo. Então, acariciando nossas metralhadoras, mísseis e tanques, pensamos: “como evoluímos!”. Vemos a História como uma escalada inexorável à nossa ascensão, sempre melhorando, aprimorando, dominando, tomados pela visão que o passado é um conjunto de degraus levando ao maravilhoso presente, lar de nossas maiores conquistas, nossos melhores conceitos, nossa maior perfeição. Quem dera aceitássemos que o presente é apenas um resultado fortuito do passado, e que a própria palavra “destino” é uma estupidez sem razão de ser, pois se estamos vivos hoje é apenas porque não morremos ontem. E vice versa.

A ilusão é escancarada pela nossa própria presunção, num tempo em que a Idade Moderna já é ultrapassada e mesmo a contemporaneidade cambaleia para seu obscuro fim. Pobres das pessoas do futuro, se é que alguma haverá, qual o nome que lhes sobra? Idade Presente? Idade do Agora Mesmo, De Verdade? Elas olharão para nós de um pedestal mais alto que o nosso, em irônica superioridade: “de quem os tolos se achavam contemporâneos? Eles riam dos que defecavam em buracos, mas esfregavam papel entre suas nádegas para se dizer ‘limpos’!”. Sem dúvida cometerão o mesmo erro, e acharão que sua Idade é “A Idade”, seus conceitos “Os Conceitos” e sua moral, “A Moral”.

Adoramos fazer isso, whiggistas crônicos: olhar para o passado e interpretá-lo segundo o presente, tanto através dos milênios da espécie como dos anos de cada vida. “Por que não estudei mais, guardei algum dinheiro, paguei minha previdência, bebi menos, deixei ela ir?”, choraminga o ancião decrépito em seu leito de morte. Tolo velho, e que logo cesse sua respiração para parar de proferir besteiras! Que bebam até cair, se lhes é a vontade. Que trabalhem oito horas diárias, se lhes parece importante. Que ignorem o compromisso de amanhã, se o que lhes interessa é o prazer do presente. Podemos mentir para nós mesmos à vontade, mas não conservaremos um futuro para nossos descendentes, pois eles nos serão tão alienígenas quanto os primatas de um mundo de feras e pedras. Cada época é sua época, cada deus em seu contexto, cada geração com sua moral. E nós, “contemporâneos”, assim como todos em todas suas épocas, seguimos nos apegando a valores etéreos como se fossem bastiões sólidos. Sim, a paz está a nosso alcance. Seja tolerante com o diferente. Respeite os outros, todos merecem uma vida digna. Liberdade e direitos iguais. Jesus Cristo vai voltar, aleluia. E o Império Romano nunca cairá...

Ah, o homem e suas idades... Estamos na Idade de Ouro, com certeza. A milésima ducentésima nona, aproximadamente, tão eterna quanto a casa daquele vizinho que esteve ali desde sempre e, num dia qualquer, vejam só: passaram com o trator por cima! Seu brilho refulge em nossos olhos e caminhamos cegamente abraçados em nossas barras reluzentes. Infelizmente nem um abismo encontraremos pela frente, não acordaremos num momento qualquer com um tropeção e baque. Pouco a pouco vamos cansando, caindo, nos transformando, até o dia em que não seremos mais nós. Seremos outra coisa, olhando para trás, jogando dados com a História e apontando: aqui se inicia a Nova Idade. Novos conceitos. Novas verdades. Novas ilusões de uma espécie guiada pela mais maldita de todas as bênçãos, ou a mais abençoada das maldições, como quiser: a capacidade de criar castelos no ar. E jurar de pés juntos que são construídos com os mais nobres blocos de mármore já lapidados neste mundo...

4 comentários:

Cassiane Schmidt disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Thiago Floriano disse...

um ensaio sobre o tempo, por félix rosumek

Rodrigo Oliveira disse...

Rodada gerou bons textos. Curti bastante esse. Menos, conto, mas bem bacana. E o mundo continua a girar.

Vivi Bastos disse...

Aprecio esse estilo discursivo. E o seu texto está primoroso.