quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O Último Café de Peter.

— Olá, Peter.
— Hã...desculpa, nós nos conhecemos?
— Sim, claro. Eu conheço você.
— Como assim?
— Peter, nós precisamos conversar. Você não se importa se eu me sentar com você, não é? Bom.
— Olha, amigo, desculpa mas... tem alguma coisa que eu posso fazer por você?
— Não, Peter. Infelizmente já não há nada que você possa fazer por mim. Nada.
— Então com licença que o meu café tá esfriando, beleza?
— Calma, rapaz. Eu só quero falar com você.
— Mas eu não tenho certeza se quero falar com você. Nem te conheço e você já vem sentando na minha mesa. Dá pra fazer o favor de escolher outra mesa? O lugar tá vazio. Escolhe qualquer mesa. Aquela lá perto da janela. Aproveita e aprecia a vista.
— Não. Eu prefiro aqui no canto. É bem mais aconchegante. E mais... discreto.
— Péra lá! Você não tá me cantando, tá?
— Ah, ah, ah! Não. Pode ficar tranqüilo, Peter. Não é nada disso.
— Você vem aqui, senta na minha mesa e começa a falar um monte de coisas sem sentido. Dá pra fazer o favor de explicar? Eu to tentando tomar o meu café em paz. Aliás, como você sabe o meu nome?
— Ah, Peter. Eu sei muitas coisas sobre você. Na verdade, acho que eu sei tudo sobre você.
— Olha, cara. Não sei qual é a sua, mas se você não vai trocar de mesa, me dá licença que eu vou...
— Sente-se! Sente-se e tome seu café. Você não vai a lugar nenhum.
— Eu, er... olha, quem é você? Se é dinheiro que você quer...
— Eu não quero dinheiro. Na verdade não quero mais nada de você. É por isso que estou aqui.
— Olha, senhor, eu não tô entendendo nada. Quem é você, como me conhece, como sabe o meu nome?
— Como eu disse, Peter, eu sei tudo sobre você. Do seu nome ao seu endereço. Sei que você gosta de duas colheres de açúcar no seu café. E sei que a segunda é sempre menos cheia do que a primeira. Sei que você vem aqui quase todos os dias ao fim da tarde, pede um café e fica lendo revistas. Eu sei tudo sobre você. Eu sei coisas sobre você que nem você sabe. Assim como no fundo eu sabia que eu dia nós teríamos que ter essa conversa.
— Quem, quem é você? Você tá me seguindo?
— Eu não preciso seguir você para saber dessas coisas. Peter, eu sou seu Criador.
— Meu o quê!?
— Eu sei que você não acredita em mim e acha que sou louco. Mas eu sei disso justamente porque eu o criei um cético. Fui eu quem criou você e todo esse mundo a sua volta.
— Você quer dizer... você é... Deus? Rá! Eu devo estar maluco!
— Hum... É, talvez seja assim que você me veja. Eu não esperava esse ponto de vista... Mas, não. Eu não sou Deus. Sou simplesmente seu Criador.
— Criador? Como assim?
— Esse café que você está tomando, você próprio, até esse corpo que eu estou usando agora. Tudo isso é obra minha. Minha criação. Você é minha criação. Eu criei você!
— Ih, acho que não, hein! Quem me criou foi minha mãe, lá no Paraná.
— Tem certeza?
— Claro que sim. Do que você tá falando?
— Essas suas lembranças... da sua infância, do seu passado... você tem certeza que as viveu? Que elas realmente aconteceram?
— Claro, ué? Você acha que eu inventei isso?
— De forma alguma. Eu sei que você não inventou nada. Eu as inventei. Fui eu quem criou essas suas memórias, o seu passado. Fui eu quem lhe implantou essas lembranças. Lembranças que você tem, mas jamais viveu. Lembranças que eu criei e lhe dei.
— Hã?
— As suas lembranças de criança, por exemplo. Cada passo seu foi arquitetado por mim. Eu criei essas lembranças para que você tivesse um passado. Peter, você nunca foi criança. Você nunca teve que aprender a andar, você nunca quebrou seu braço quando caiu do trepa-trepa na segunda série. De fato, você nunca caiu daquele trepa-trepa. Que por sinal, também nunca existiu. São apenas lembranças. Um passado criado por mim para você. Para que você tivesse uma história.
— Do que você tá falando?! Você fez alguma coisa comigo? Algum tipo de experiência? É isso? Eu sou só um rato de laboratório pra você?
— Não, não. Não foi nenhuma experiência. Essas lembranças já foram criadas com você. Veja: você não poderia existir sem um passado, sem uma história. Ninguém simplesmente existe. Por isso quando criei você também criei a sua história.
— Tá. Você não é Deus, nem um cientista e também não parece nenhum alienígena que me abduziu. Quem é você, afinal?
— Seu Criador.
— Meu Criador.
— Seu Criador.
— E você também criou todo o resto.
— Tudo que você conhece.
— E você quer que eu acredite nisso?
— Você não precisa acreditar. Mas sim, eu gostaria que você entendesse.
— Como é que eu vou entender? O que é o “Criador”, afinal? Você é um tipo de força superior que criou a existência e agora está aqui tomando um café comigo.... peraí, da onde veio o seu café? A moça não trouxe.
— Não ela não trouxe.
— Então...
— Sim. Eu criei isso também.
— Por quê?
— Porque eu gosto de café.
— Não, não. Porque você me criou. Porque você criou o mundo, a existência, sei lá. E o que você tá fazendo aqui?
— Na verdade o princípio é o mesmo. Eu criei tudo isso porque eu gosto. Porque me dá prazer. Assim como esse café. Porque simplesmente gosto de criar.
— Então eu só sou um joguete num teatro cósmico?
— Meio melodramático, você, não?
— Ué, não foi você que me criou assim?
— Talvez eu tenha exagerado na dose de sarcasmo. Mas sim. Que bom que você está começando a compreender.
— Tudo bem. Digamos que eu engula esse papo todo, que você me criou, criou a existência...
Essa existência. A sua existência.
— Então existem outras?
— Mas é claro! Uma infinidade.
— E você criou todas elas?
— Não, não. Apenas algumas.
— E quem criou as outras?
— Não sei. Algumas delas foram criadas por outros como eu. Mas outras, ou ao menos outra, não sei quem criou.
— Outra? Você quer dizer a sua?
— Isso.
— Então existem outros como você e outros ainda acima de você nessa história de criação, de existência e tudo mais?
— Creio que sim, mas não sei se há como ter certeza.
— E eu? Então eu sou a base da pirâmide? O último elo da cadeia?
— Não necessariamente. Você também poderia ser um Criador.
— Como assim? Tipo ter um aquário de peixes?
— Não, nada disso. Veja: com um aquário, você estaria dando condições dos peixes viverem em um ambiente. Mas você não criou os peixes. Você apenas os colocaria no aquário.
— Então como?
— Você gosta de ler, certo?
— Certo.
— Qual seu escritor favorito?
— Você já não deveria saber isso?
— Eu já sei: Pedro Mondebaján. Só estava tentando criar um clima de conversa normal.
— Desculpa aí, seu Criador, mas de normal essa conversa não tem nada.
— Tem razão, deve ser bem estranho para você. Voltemos ao seu escritor favorito então, que também é uma criação minha, se é isso que você está imaginando.
— Ele é?
— É, mas isso não vem ao caso.
— Quando Mondebaján escreve suas narrativas, ele cria sua própria história. Seu próprio universo, seus personagens, as personalidades destes personagens, toda aquela existência.
— Quer dizer que se eu escrever uma narrativa, eu também seria um Criador?
— Exatamente. Dentro daquele pequeno universo, daquela pequena existência, você seria o Criador. E seus personagens provavelmente veriam você assim como hoje você me vê.
— Então os personagens de Pedro Mondebaján são criações dele? E ele é o criador daquele universo?
— Em teoria. Mas veja, Pedro Mondebaján também é minha criação. Assim como a personalidade e a história dele. Logo as histórias criadas por ele, são na verdade, minha criação. Entendeu?
— Putz, pior é que entendi. Então, se eu criar alguma coisa, um romance por exemplo, eu seria o Criador daquele universo, certo?
— Isso.
— Mas se, como você disse, você me criou, a minha imaginação, os meus anseios e personalidade, também seriam fruto da sua criação.
— Você está pegando o jeito, Peter.
— Logo as minhas criações são na verdade, suas criações!
— Hum, de certa forma...
— Logo eu não posso ser um Criador, porque minhas criações na verdade são suas.
— Raciocínio interessante...
— Você parece surpreso.
— Na verdade estou um pouco.
— Mas como? Se, teoricamente, foi você quem me criou? Você deveria saber que eu chegaria a esse raciocínio. Ou não?
— Não sei... Talvez de alguma forma, as criações tenham certo livre-arbítrio afinal de contas...
— Tipo, um destino não traçado?
— Mais ou menos. Como se os personagens que criamos para viver as histórias criadas por nós, tivessem alguma forma de vida própria, uma pseudo-independência.
— Você quer dizer que a relação é mais ou menos essa? Tipo, você como Criador, é como se fosse um escritor e eu, supostamente sua criação, seria um personagem que vive uma história que você criou?
— Exatamente. Finalmente você entendeu.
— Bom, confesso que ao menos é uma analogia interessante.
— Não é não.
— Não é?
— Não.
— Por quê?
— Porque não é uma analogia.
— ?
— Não é como se um fosse um escritor e você meu personagem. É exatamente isso. Você é um personagem. Não há analogia alguma nisso. Nenhuma metáfora nem qualquer outra figura de linguagem. Você é um de meus personagens.
— Você quer dizer que você é um escritor e eu sou um personagem criado para algum romance.
— Um texto, na verdade. Um diálogo de poucas páginas. Não sei se vai ser uma peça, um conto ou só mais um arquivo perdido no meu HD. Mas definitivamente não um romance.
— Então quer dizer que eu não existo?
— Olhe a sua volta. É claro que você existe!
— Mas eu sou real?
— Se você pensar bem, o que é real? A cor da minha roupa, por exemplo, chega a você através dos seus olhos, que enxerga os raios de luz refletidos nela como sendo marrons. Mas na verdade, você não tem como dizer se ela é de fato marrom, tem?
— Acho que não?
— Claro que não. Mas você diz que é real. Veja, quando eu coloco a sua colher dentro deste copo com água, (não faça essa cara. Eu já criei uma xícara de café na sua frente. Qual o problema de criar um copo d’água?) ela parece estar partida. Os seus olhos a enxergam partida. Mas será que ela realmente está?
— Ilusão de ótica?
— A idéia é essa. Mas estenda o conceito a todos os sentidos. A tudo. Digamos que assim como os seus olhos podem lhe enganar e faze-lo perceber as coisas diferentes, todos os sentidos façam o mesmo. Logo você não poderia saber se uma parede realmente é lisa, se o café realmente já esfriou, se seu cheiro realmente continua exalando ou se os sons que você ouve, são realmente como você os ouve. Dessa forma, o que é real?
— Não entendi.
— Você é tão real quanto qualquer coisa. Afinal, ninguém sabe o que é realmente real. Depende de como você, e qualquer objeto, interage com o universo no qual está inserido.
— Então nada é real.
— Nada, tudo. Qual a diferença? O que importa é que você é tão real quanto qualquer coisa.
— Tanto quanto qualquer coisa neste universo, nessa existência, você quer dizer.
— Pode ser.
— Bom, se eu sou seu personagem, você deve ter me criado para viver alguma história.
— Certamente.
— Que tipo de história?
— Esse é o problema. Na verdade é por isso que eu queria falar com você desde o começo.
— Sobre a minha história?
— Na verdade o problema é que não há história. Não consegui criar nenhuma história para você. Estou sem idéias. Pode chamar de um “bloqueio”.
— Como assim? Tem que ter uma história, não tem? Não pode ter um personagem sem uma história, pode?
— Receio que não, Peter. Sinto muito.
— O que quer dizer? Que cara é essa?
— Receio que sem histórias não possam haver personagens.
— Ei! O que você vai fazer? Péra aí!
— Sinto muito. Não é algo que eu queira fazer, Peter. Mas toda história precisa de um ponto final. Mesmo essa.
— Espera! Não!
— Adeus, Peter. Sinto Muito.

FIM.

15 comentários:

Rodrigo Oliveira disse...

Criado já há algum tempo,em abril ou maio de 2008. Postando pq tá na mão e queria ouvir (ou ler) os comentários de vcs. Da próxima vez tento postar algo menos extenso :)

Labes disse...

O Camus disse assim: "Se você quiser filosofar, escreva seus romances". E eu digo assim: Se tu quiseres nos fazer filosofar, Rodrigo, continue a postar estes algos extensos. Baita diálogo. Abraço.

Labes disse...

O Camus disse assim: "Se você quiser filosofar, escreva seus romances". E eu digo assim: Se tu quiseres nos fazer filosofar, Rodrigo, continue a postar estes algos extensos. Baita diálogo. Abraço.

Gabriela Magnani disse...

Eu fiquei com medo desse!

Sílvia Mendes disse...

Eu ia falar sobre filosofia, mas já falaram. A leitura desse teu texto me lembrou muito as leituras de Jostein Gaarder. O teu nível de escrita sobe cada vez mais Rodrigo. Estou esperando por um livro seu... ^^

Thiago Floriano disse...

cara, isso foi muito bom! ainda to tentando digerir meus próprios comentários pra poder escrever por aqui...

Fábio Ricardo disse...

ah, vai se foder!
Eu voto no Rodrigo.
Simples assim, nem quero ler mais nada, escrever mais nada.
Isso aqui tá simpesmente magnifico.
Rodrigo, te mata de uma vez, que melhor que isso tu não consegue ficar.

Labes disse...

Fábio, tu é muito foda!

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Fabrício Wolff disse...

Muito bom texto, Rodrigo. A idéia é ótima e o texto prende a leitura. Não dá para parar antes de chegar ao final. Parabéns!

Félix B. Rosumek disse...

Muito bom. Não deixa de ser aquela meta-literatura que todos já fizemos, mas em uma versão muito bem feita (estratégia "cabum" em esteróides!), não algo feito por falta de tempo ou idéias (talvez na época em que foi feito?). O café ficou só como apoio, mas é normal isso ser feito nos temas amplos.

A essência filosofia foi bem construtivista e abre espaço para longas discussões, mas dentro de sua proposta foi bem trabalhada. A pergunta "o que é real" pode analisada a fundo, mas sob ópticas diferentes (principalmente perguntando "qual o conceito de real?" - isso responde a várias das questões sugeridas pelo texto).

Um detalhe: tem algum significado especial em um paranaense chamado Peter? Foi algo que soou estranho.

Indelével disse...

To de bocaberta!
Muuuuuito booom, tudo!

Rodrigo Oliveira disse...

valeu moçada. félix, é isso aí mesmo. qdo o texto foi escrito, foi numa sentada (ui) só. Naquela semana tinha visto o primeiro filme de Narnia e o nome Peter pulou pro texto, acho. Pra nao perder o bonde do texto, deixei. E no final, acabou q não troquei. Até pq funcionou com o nome do escritor Pedro. Acho só q vou trocar o Paraná aqui pelo Vale onde o nome Peter (como Péter e não Píter)é mais comum. Ou sei lá. ainda vou pensar certinho pq tanto Peter como Paraná vieram de supetão e calhou q nunca mais mexi no texto. Mas precisa de uma versão reeditada sim. Valeu!

Marina Melz disse...

tá, não vou comentar porque seria redundante. vou só parafrasear: duca!

Thiago Floriano disse...

o cara conseguiu até fazer o fabrício wolff comentar no blog!! hahaahahahah

Vivi Bastos disse...

Já afundando no óbvio:
Do início ao fim, magistral.