segunda-feira, 16 de junho de 2008

Ao oceano,

Desde pequeno, eu sempre quis ver várias coisas. Talvez porque nunca tenha tido a chance de enxergar ou talvez porque é normal desejar o que não podemos ter. Mas hoje, hoje foi diferente. A veemência dos meus desejos nunca foi tão grande e eu nunca senti tanto por não poder sair da escuridão.

Quando eu ouvia a voz dos meus pais, eu sentia uma emoção diferente. Eu sempre fui melhor com sons do que com os outros três sentidos que me restam. Eu consigo identificar de longe o ritmo do andar da minha esposa, esteja ela apressada ou vindo calmamente em minha direção. Hoje, quando ela chegou e me avisou que eu te conheceria, eu confesso que não senti lá muita empolgação.

Todos dizem que não há imagem melhor do que ver a sua frente o mar, ou o oceano. A minha falta de visão sempre me angustia e a coisa mais linda que eu já pude ver em nada se difere da mais horrível. Mas eu resolvi tentar sentir essa emoção que o fracasso dos meus olhos insistia em roubar de mim.

Quando eu coloquei os pés descalços na areia, tive uma estranha sensação de já ter estado ali antes. Minha memória sensitiva me causou arrepios, talvez por nunca ter estado ali antes. Andei, de braço dado com ela, em sua direção. Ouvir as ondas e a melodia constante que muitos não são capazes de perceber. Aquilo, sim, me dava paz. Mas eu sabia que hoje eu iria além.

Entramos no barco e eu pedi que a minha esposa me descrevesse o lugar onde estávamos. Sentindo a brisa e o cheiro do mar, consegui imaginar da forma mais peculiar do mundo as pedras, os pássaros e um pedaço de terra indo embora. Não tenho idéia de como as cores são, mas desde pequeno o médico me diz para imaginar tudo em duas cores – um suposto preto, um suposto branco. Assim eu evitaria frustrações.

Eu pedi a ela quais eram as suas cores. Com certo receio, ela disse que estávamos no exato ponto em que o verde e o azul de fundiam e não havia distinção. Ainda não consigo saber quais são essas cores, mas por muito pouco o céu não de abriu pra mim, tamanha a emoção que eu senti.

O motorista parou. Eu não conseguia te ver, é verdade. Confesso que os sons que eu imaginei virem de você também eram diferentes. Eu ouvia um quase silêncio. Um quase que fazia com que pela primeira vez eu sentisse um silêncio cheio de alguma coisa. É isso. Você não vai entender porque eu não sei explicar direito, mas ali, nos teus braços, eu senti o silêncio mais cheio de toda a minha vida.

A salinidade, a brisa gelada, o balanço. A inconstância da tua música, a serenidade da tua continuidade. O oceano. Eu estava ali, muito mais do que vendo o oceano, eu o sentia em todas as células do meu corpo. Fiquei imóvel, imune. Tive que ir.

Eu volto. Volto não para te ver, mas para conseguir me sentir pequeno sem enxergar o tamanho do mundo longe da minha escuridão. Volto porque hoje comprovei que os poetas não mentiam quando diziam que há um oceano em cada um de nós.

2 comentários:

Julia disse...

Só uma coisa me vem à cabeça: LINDO!

Rodrigo Oliveira disse...

Gostei da abordagem. enfoque interessante. Fiquei um pouco na dúvida em se dirigir ao oceano como pessoa. naõ sei se gosto. nem sei porque. Mas curti.