domingo, 7 de dezembro de 2008

Caçada

06/12/08

Logan caminhava pesadamente pelo deserto branco da península de Labrador. Tinha acabado de deixar o barco e uma nova temporada de trabalho estava para começar. A primavera havia iniciado há pouco e o gelo, naquele ano, parecia melhor que nos anteriores. "Curioso", pensava Logan, "como as atividades daqueles que condenam minha profissão atingem tanto a região quanto as minhas". Nos últimos anos, várias focas haviam perecido por conta do descongelamento das geleiras, segundo aqueles mesmos ativistas que o demonizavam.

Mas Logan tentava não se abater pelo aumento nas dificuldades. A caça estava complicada, a venda mais ainda. Muitos países já não aceitavam a alva e macia pelagem dos filhotes, então ele se contentava em tirar a maior parte de seu sustento das adultas ("e por que então eles aceitam destas?", se perguntava). Nesse momento, caminhava em direção às costas de gelo, onde algumas focas deveriam estar caçando na água e cuidando de seus filhotes recém-paridos. Pelo menos o céu agora estava limpo.

Nas noites anteriores, o barco do seu grupo havia sido surpreendido por uma tempestade fora de época ("esse mundo está todo louco mesmo..."). Decidiram ancorar em uma aldeia Inuit e esperar o tempo melhorar. Como o usual, os esquimós os receberam de modo desconfiado. Afinal, eram eles que vinham das latitudes inferiores do Canadá para caçar as focas, que eram uma importante parte tanto do sustento alimentar quanto econômico dos nativos. Entretanto, após algumas rodadas pagas no bar, o clima ficou tranquilo e amigável. Cordialmente, os caçadores ouviram dos nativos pela vigésima vez as histórias de espíritos naturais e deuses, da benevolente deusa humana Sedna à terrível orca Akhlut. Logan conheceu pela primeira vez a misteriosa deusa-foca, Nainut, que dorme congelada no fundo do oceano. Os espíritos são caprichosos, diziam os esquimós, e o homem deve ser cauteloso ao lidar com a natureza. E então todos explodiram em risadas, nativos e forasteiros, entornaram mais uma dose e foram dormir aquecidos.

Quando os "caprichosos espíritos" resolveram encerrar a tempestade, Logan e seus companheiros seguiram para seu usual ponto de caça. Chegando lá, testaram a comunicação pelos rádios e dividiram-se em duplas. Logan e Etahn iniciaram a caminhada ao local que sabiam ser o melhor da região. Lá, sem dificuldade completariam sua cota, dividida igualmente entre os membros do grupo, segundo os limites legais. Ethan falou que esperava que os outros fossem tão rápidos quanto e logo pudessem estar em suas quentes casas com suas não-menos-quentes esposas. Os homens compartilharam uma risada e prosseguiram silenciosamente.

Ao chegar no ponto determinado pelo aparelho de GPS, tiraram as mochilas e deixaram-nas para marcar o ponto de encontro. Nenhum deles gostava de usar espingardas, pois achavam que danificava demais o pêlo. Assim, cada um pegou seus porretes e saíram separadamente em busca de seus negros alvos, facilmente visíveis sobre o gelo branco.

Não demorou muito para Logan localizar sua primeira vítima. A uma certa distância, viu o escuro animal sair da água para o gelo, provavelmente após uma boa refeição à base de arenque. Era uma fêmea, então esperou um pouco. Se fosse uma solitária, apenas se deitaria ali antes de seguir para mais uma caçada. Se não, se arrastaria desajeitadamente para alguma fresta escondida entre o gelo, mais para o interior. Dito e feito, lá se foi ela. Logan sorriu, estava com sorte.

Seguindo-a cuidadosamente, logo a viu parar ao lado de uma pequena bancada de gelo. E ali estava o grande prêmio de Logan: uma pequena bolota de neve que passou a se agitar alegremente pela volta da mãe. Sim, vários países não mais compravam suas peles, mas os que ainda compravam pagavam bem. Muito bem.

A fêmea deitou-se de lado e o filhote passou a mamar vigorosamente. Aproveitando a distração de ambos, Logan pôde aproximar-se. Há uma distância razoável, entretanto, a fêmea manifestou alguma agitação. Ergueu a cabeça e vasculhou os arredores. Sim, ela o havia percebido. Iria agora tentar fugir para o mar, sua negrura chamando a atenção do predador enquanto o filhote confiava na camuflagem para passar despercebido. Logan tinha que se rápido e não perder de vista a bancada.

A foca se arrastou freneticamente em direção à água, fazendo o maior estardalhaço possível. Mas aquele predador era simplesmente rápido demais. Logan alcançou-a e bloqueou seu caminho em direção ao mar. A foca rosnou, mostrando os dentes, tentando de uma última forma mostrar que se defenderia até o final. Mas este foi rápido: bastou uma pancada firme e certeira do porrete para espirrar sangue vermelho no gelo branco. A foca, já condenada, tremeu e se contorceu. Logan bateu mais uma vez, para a foca parar de se mover. Rapidamente, sacou a faca e cortou as artérias do pescoço do animal. Era a recomendação: diziam que assim os animais morriam mais rapidamente. Logan ainda achava curioso como essa proposta "humanitária" fazia a alegria dos grupos ativistas, mais pelo uso das imagens de todo o sangue espalhado no gelo do que pela morte rápida em si.Sem perder tempo, Logan olhou a paisagem, tentando localizar a bancada de gelo, após a corrida. As paisagens árticas são monótonas, repetitivas e facilmente confundíveis. Porém, seus experientes olhos reconheceram-na em meio às irregularidades. Correu rapidamente e lá encontrou o filhote, que gritou assim que ele se aproximou demais. Pequeno e desajeitado, não tinham como escapar. Logan só precisava se preocupar o ângulo certo do golte, para o sangue não espirrar muito no pêlo claro. Em um último segundo antes de descer o porrete, o filhote fitou-o com seus enormes e negros olhos. Logan parou por um instante. Não, ele já havia tentado ver a situação de um outro modo, há muito tempo atrás. Mas não conseguia enxergar ali a mesma coisa que viam os ativistas de regiões distantes do mundo. "Não é tão diferente de um fazendeiro sacrificando bois, mas nós não os criamos desde que nascem", ponderou, "não seria isto algo muito mais desumano?". O porrete desceu com violência e em segundos o filhote estava morto.
Com os ganchos na ponta dos porretes, carregou as focas por sobre o gelo. Quando avistou de longe o ponto de encontro, viu manchas negras no fim de dois traços vermelhos. Sorriu: Ethan fora mais rápido daquela vez. O rapaz estava aprendendo bem. Porém, o seu filhote compensava a demora. Deixou suas presas junto às outras e voltou para procurar mais.

Repetiram as idas e vindas nas horas seguintes, até que houvesse um número de focas suficientes para esfolar naquele dia. Cada um havia pego mais dois filhotes, um bom resultado. Ao final da tarde, trocaram os porretes pelo material de esfolamento e iniciaram a segunda parte do trabalho. Tirar apenas as peles e deixar o resto para trás era um desperdício que de certa forma incomodava Logan, mas eles não estavam preparados para levar as carcaças. E, ademais, as cotas canadenses eram generosas e focar-se apenas na pelagem dava mais lucro.
Quando havia retirado algumas peles, Logan sentiu um tremor percorrer por toda a superfície de gelo onde estavam. Imediatamente olhou para Ethan e viu que ele também havia notado. Um tremor daqueles podia indicar o pior pesadelo de alguém que caminhasse sobre pedaços de gelo flutuantes: a própria quebra natural daquele pedaço de geleira, na primavera. Era uma ocasião rara e perigosa, mas Logan já havia passado por ela, e estavam ficando mais frequentes conforme o planeta esquentava. O mais novo parecia alarmado, mas Logan tranquilizou-o. Pela força do tremor, se houvesse alguma rachadura, estava ocorrendo em um ponto distante. Tinham que ficar alertas, apenas isso.

Poucos minutos depois, o tremor se repetiu, mais forte.

Agora sim havia motivo para alarme.

Logan ordenou que deveriam terminar aquela última pele o mais rápido possível, entrar em contato com o barco e se dirigir para a região mais distante do mar, onde a geleira era mais espessa. Retornou a atenção para a sua pele e viu, com certa surpresa, o corpo da foca tremer. Desgostoso, se voltou para Ethan, pronto para aplicar-lhe uma reprimenda por ter deixado de matar completamente os animais. Era o que mais irritava os ativistas, a possibilidade de focas sendo esfoladas ainda com um resquício de consciência.
Neste momento, sentiu um impacto poderoso na geleira, e uma dor tremenda no tornozelo.

Quando olhou para baixo, não soube o que na visão lhe horrorizou mais. Se era a miríade de micro-rachaduras se espalhando pelo gelo, ou o fato de haver uma foca semi-esfolada, quase inteiramente sem pele, mordendo o seu calcanhar com uma força terrível. A foca rosnava e mordia, com se estivesse inteiramente viva, espalhando sangue seu e de Logan por todo o lado.

Caiu no chão, sem entender ao certo o que estava acontecendo, socando e tentando se livrar do animal. Sua mão cegamente alcançou o porrete, e bateu com força até que não houvesse sequer mandíbulas intactas que pudessem se prender a ele. Soltou-se da foca, rolando para longe, com o pé seriamente contundido. Foi quando ouviu o grito cortante do companheiro. A cena que presenciou ao conseguir focar novamente a vista lhe abalou a gélida alma como nenhuma outra em sua vida.

Ethan estava no chão, se debatendo com três focas, que lhe atacavam as pernas, tronco e cabeça. E não eram só elas: todas as focas que os cercavam estavam se movendo. Rosnando, se arrastando, mesmo aquelas carcaças inteiramente despeladas. "Meu Deus, eu mesmo matei metade desses animais. E eu sei que matei", pensou desesperadamente o caçador, "isso não pode estar acontecendo!".

Ergueu-se mancando dolorosamente, tentando chegar ao companheiro para ajudá-lo. As focas vieram em sua direção, olhos mortos, bocas vorazes, mesmo os filhotes tentando abocanhá-lo. Abriu caminho em meio a elas gritando, golpeando furiosamente com o porrete, mas parecia não adiantar. Os animais eram jogados para longe com a força das pancadas, e logo voltavam a se mover em direção a ele.

Quando estava chegando em Ethan, houve um novo tremor no gelo, tão intenso que derrubou-o novamente no chão. Um filhote ensanguentado conseguiu morder seu braço e Logan jogou-o longe, se agitando e berrando. Engatinhou até o companheiro, mas as focas já não se interessavam por este: Ethan jazia sem vida, coberto de sangue, o pescoço tomado por um grande ferimento que rompera a jugular.

Logan não teve tempo de lamentar pelo amigo. Levantou-se cambaleante e se viu cercado por animais mortos, mas vivos, querendo dar-lhe o mesmo destino. Tentou correr para longe, mas consegui apenas dar alguns passos antes de um novo tremor e queda. O gelo apresentava rachaduras consideráveis, alguns pesados blocos caíram e rolaram das partes mais elevadas. As focas se aproximaram rosnando, como um coro de vozes infernais cantando o réquiem de um outrora poderoso caçador. Tudo o que Logan podia fazer era gritar, agitando o porrete. Viu-se, subitamente, como a primeira foca que abatera no início do dia: diante de uma morte desconhecida e inevitável, mas ainda assim dando uma última demonstração de que não venderia sua vida de modo fácil...

Subitamente, tudo parou.

Os corpos das focas simplesmente pararam e se esparramaram pelo chão, imóveis, como todos os cadáveres normais deveriam ficar. Não houve novo tremor.

Dentro do silêncio sepulcral do ártico, Logan ouvia apenas a própria respiração pesada, ofegante. Por um segundo, pensou que tudo fora um sonho. Apenas a dor no tornozelo parecia latejantemente lhe dizer que aquilo era real.

Porém, ao invés de despertar de um sonho, Logan estava para adentrar no pior do pesadelo.

Um novo tremor, de força absurda, fez a geleira explodir diante de seus olhos. Grandes blocos de gelo se espalharam pelo céu e pelo mar. Ele caiu de costas, cercado pelas focas inertes, completamente desnorteado.

Encurvado e ofegante, ergueu-se lentamente, encarando ofegante aquela coisa que saía do mar enregelante para se arrastar pesadamente sobre o seu pequeno iceberg, rachando o gelo, quebrando pedaços com seu peso formidável. O cérebro do humano não conseguia compreender exatamente o que visualizava, acostumado a padrões limitados e um mundo concreto, e a imagem penetrava por todas as suas sinapses, destruindo as conexões nervosas de seu cérebro e fazendo sua boca embarcar em um grito louco e descontrolado, enquanto tudo o mais do seu eu se dissolvia num abismo de terror e incompreensão. Num último acesso de racionalidade, relembrou uma recente conversa de bar e pensou que, definitivamente, aquela não era a face que os deuses deveriam ter...
O Kraken procurou pelos seus tripulantes perdidos durante dois dias, mas, diante da desolação da geleira destruída, só puderam concluir que Logan e Ethan tinham sido vítimas de um infortúnio do acaso. O capitão, velho lobo dos mares árticos, sabia que coisas daquelas aconteciam e só restava lamentar pelos companheiros estarem na hora errada, lugar errado. Decidiram que era melhor voltarem para um replanejamento e tentar ainda aproveitar o que desse da temporada de caça. Pararam na mesma aldeia na volta e, num clima pesado e descontrolado, pouco deram atenção aos agitados rumores de um xamã enlouquecido por visões pavorosas que corriam entre os Inuit. Aquela aldeia jamais recebeu caçadores estrangeiros de braços abertos, pois, segundo os habitantes, os forasteiros haviam despertado coisas muito além do controle de qualquer humano. E, aos deuses e espíritos primevos da natureza, era melhor não desafiar.

9 comentários:

Lori e Elisandra disse...

Parabéns Félix, adorei sua história, ficou interessante e prende a atenção de quem le.Esta excepcional.bjus elis

Medéia disse...

Loga foi em homenagem ao Wolverine e sua fase no Ártico?
Adorei!
Parabéns

Rodrigo Oliveira disse...

Rá, tb curti o Logan eheheh No começo achei que não ia trazer nada novo, mas pincelar o lance das lendas e voltar com focas mortas-vivas badass form hell foi um plot animal (animal, sacou?). O toque mitológico tb foi interessante (talvez pq eu curta o tema). Divertido. Curiosidade: a cena do ataque das focas me soou mais engraçada (pelo contraste) do aterrorizante. Só no desenvolver q começou a ficar mais sinistro. Na parte q elas caem inertes especialmente.

Félix B. Rosumek disse...

rodrigo, pior que eu concordo. se fosse numa mídia visual, seria mais assustador, tanto que foi para aliviar esse tom "cômico" que eu coloquei as carcaças esfoladas no meio. mas não adianta, as focas e a próprio som do nome delas já é engraçado... ;)

quanto ao logan, eu fiz uma rápida pesquisa para embasar alguns aspectos do texto. no caso, logan e ethan são dois dos nomes pessoais mais comuns no canadá. obviamente, a conexão com o wolvie deixa o nome bem atraente para um personagem.

por sinal, fora nainut, todos os nomes são reais. quanto à deusa-foca, eu tentei até achar algo sobre etimologia esquimó para criar o nome, mas convenhamos que não é um material muito fácil. então foi no modo random mesmo.

obrigado pelos comentários, pessoal. esse foi um texto que eu realmente curti construir, com potencial para se tornar algo mais bem elaborado.

Vivi Bastos disse...

Me junto ao coro dos demais. você revirou, chacoalhou, desdobrou a imagem inicial e criou essa história única e sensacional. Show!!!!

fabioricardo disse...

o félix vai me bater quando ler isso, mas acho q ele até jah imagina meu comentário.

tava tudo muuuuito bom. até entrar em ação o exagero, a superstição, os zumbis.

eu ainda prefiro as coisas mais sensatas e menos exageradas.

mas valeu muito pelas cenas em que ele mata as duas primeiras focas.

Félix B. Rosumek disse...

bater nada, fábio, sei que nesse aspecto é totalmente uma questão de gosto pessoal. se não tivesse a parte final, algumas outras pessoas poderiam ter achado sem graça (como o rodrigo). eu cogitei realmente encerrar ele antes, quando a primeira parte cresceu mais do que o previsto. mas daí eu mesmo teria achado "normalzinho" demais. essa coisa de realidade não tem nada a ver... ;)

JLM disse...

Confessa, vai: vc já tinha metade do texto pronto qdo sugeriu o tema. Jogou sujo e sangrento, ;)

Falo isso brincando. É pq o texto ficou tão coeso q nem parece q foi escrito em pouco tempo. A imagem inspiradora então, assumiu outro aspecto, com o caçador olhando para oq estava a sua frente, assim como a nossa imaginação.

O texto demonstra tb uma boa pesquisa para a contrução do mesmo e isso ajuda, e muito, para q ele soe verossímel.

Qto à crítica do Fábio, só resta dizer q mesmo os contos mais fantásticos ainda são capazes de trazer duras críticas sociais, talvez até melhor q um texto meramente jornalístico, pois ficarão por mais tempo na mente dos leitores.

Um bom texto e um bom tema. Resta-nos torcer pelas foquinhas.

1 abraço

小彬彬Bing disse...

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