quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O castelo ao mar

O mar, negro, imenso. As ondas estourando com violência na costa de rochas pontiagudas. Um penhasco de incontáveis metros envolto em névoa. Pendurado à beira do abismo, uma edificação monumental. O limo sobe-lhe pelas paredes, pedaços dos telhados jazem desabados. Um titã caído, lembrança nebulosa de épocas passadas.

Em um seis de junho do sexto ano do século, na madrugada umbrática do frio inverno, a luz da Lua se curva de modo bizarro para penetrar na janela de uma torre. Lá dentro, uma mesa redonda com duas cadeiras. Sobre a mesa, copos de vinho embaçados, uma adaga enferrujada e um velho tabuleiro de xadrez.

Um bispo viaja através do tabuleiro, devorando um cavalo desavisado.

- Boa jogada, Sir Andrew.

- Apenas uma armadilha de sua parte, eu imagino, meu caro.

Sir Michael retruca com um sorriso e um gole de vinho da taça cristalina.

- Naturalmente, artifícios e armadilhas fazem parte de um jogo de xadrez.

- Não só do xadrez, como de qualquer disputa, Sir Michael.

- Não é o jogo uma guerra simbólica? O xadrez é uma arte, assim como a guerra.

- E a própria vida.

- Poético, sublime – responde Sir Michael, movendo uma peça.

Sir Andrew olha gravemente para o tabuleiro. Fora uma jogada estranha, mas seus pensamentos não se detêm apenas no jogo. Passaram-se muitos minutos silenciosos antes que faça seu movimento.

- O amor de Lady Caleria não seria decidido por um jogo de xadrez, de qualquer forma.

- Talvez soubéssemos, se o cavalheiro tivesse a paciência de esperar até o desfecho, antes de usar sua lâmina – ironiza Sir Michael.

- E como eu poderia imaginar que sua oferenda de vinho teria temperos, por assim dizer, tão... exóticos? – o outro replica, com um sorriso.

Sir Michael apenas movimenta seu outro cavalo, saltando para ameaçar o rei e a dama simultaneamente. Sir Andrew resmunga.

- Não pense que o movimento tenha me passado despercebido, Sir. Não é em toda arapuca que desprevenido eu caio. Mas às vezes não temos muita escolha em nossos movimentos...

- Paciência, meu caro. A Lua já se vai e teremos muito tempo para pensarmos em nossas próximas escolhas.

- Sim, velho amigo – conclui Sir Andrew, sombrio – ao menos desta vez poderemos pensar...

A Lua morre com o nascer do dia. O Sol ressurge para iluminar a velha costa. A luz se espalha debilmente em uma torre condenada. Dois esqueletos jazem em cadeiras na penumbra, diante de um velho tabuleiro de xadrez. As peças permanecem curiosamente bem posicionadas, no interior morto de um castelo esquecido pelo tempo.

5 comentários:

Félix B. Rosumek disse...

Minha vez de atrasar! Podem dar esporro! Hehehe...

Desculpa da vez: acesso à lan house na praia.

Quanto ao texto, ficou mais "seco" do que eu gostaria, por conta do tempo (eu tinha outro texto para postar, mas essa idéia me veio há apenas algumas horas atrás). Provavelmente eu encaixaria mais um diálogo antes da menção à lady. Fica aí um primer para um futuro texto melhor.

fabioricardo disse...

bacana, bacana... gostei principalmente da conversa inicial no texto, falas muito bem colocadas, todo um charme inglês à mostra.

Lori e Elisandra disse...

gostei felix, quem diria que eram dois esqueletos.....Parabéns....bjus elis

Vivi Bastos disse...

Félix, boa sacada. Gosto muito do início.

Rodrigo Oliveira disse...

meu, isso dava altas aventuras! Uma pegada irmãos Grimm, o visual foi mto legal. Agora to numas de estudar espaço na literatura, e interessante como o início do texto, com o espaço, a ambientação, ditou bem o 'tom' da peça. Curti. Conhecendo os seus textos, com um tempo a mais acho q pode render ainda mais, entrelaçando mais história. Mas de qq forma tb bacana.