domingo, 4 de janeiro de 2009

Xadrez³

— Não falta muito agora. Você tem certeza que é comigo que pretende passar essas últimas horas?

e4

— Obviamente eu não poderia passar com ela, poderia?

c5

— Me espanta que alguém tão sofisticado possa ter feito o que você fez.

Cf3

— Me espanta que alguém tão culta possa pensar assim, detetive. Nunca leu Sade?

d6

— Então é isso? Para quem pretendia ser um novo marquês você está muito mais para Nabokov, doutor.

d4

— Andou perambulando pela minha biblioteca novamente, detetive? Eu aceito o peão.

cxd4

— Não me diga que realmente tudo isso foi feito apenas por uma paixão literária, uma tentativa de igualar-se a Nabokov. E eu também aceito seu presente.

Cxd4

— Ah, ah. Não, foi por uma paixão muito mais carnal. Minhas paixões intelectuais eu prefiro dividir com você. A não ser é claro que você prefira passar estas últimas horas em uma paixão... menos intelectual.

Cf6

— Eu achei que não fizesse o seu tipo. Talvez madura demais?

Cc3

— O fruto recém colhido é de fato mais suculento. Você poderia ser menos austera detetive.

a6

— E o senhor mais ponderado. Quem sabe assim não estaria aqui.

Be2

— Humpf! Você sabe que eu tenho uma queda por xadrez. Especialmente em uma saia de pregas. Acho que foi ela que me capturou primeiro.

e6

— Ela era uma menina!

0-0

— Ora, porque tão na defensiva, detetive. Eu cometi meus pecados. E agora vou pagar por eles. Eu não sou santo, detetive. E ainda que fosse, meus bispos são todos negros, não?

Be7

— Você mais do que ninguém deveria saber que as pretas só deveriam se mexer se as brancas fizessem o primeiro movimento.

f4

— Ah, mas não fui eu quem movi as primeiras peças. Foi ela. Ela e aquela saia xadrez. Foi apenas o impulso decapturar uma dama.

Dc7

— Você poderia ter parado. Você sabe que poderia. Você nunca perde controle, lembra? Não é você que ensaia cada movimento? Agora são os bispos brancos que estão atrás de você. E eles vão capturá-lo. Você deveria ter parado.

Be7

— Peça tocada, peça jogada, detetive.

0-0

— Essa é uma defesa muito pobre para um homem do seu calibre.

g4

— Calma, detetive. Esse roque ainda me ganhará o jogo. Além de proteger o rei.

Te8

— Ou aprisioná-lo?

g5

— Me diga, detetive. Qual o sabor da vingança? É verdade o que dizem? Que ela vem à cavalo?

Cfd7

— Justiça, doutor. Não é de vingança que estou atrás. Se fosse, não estaria aqui com o senhor agora.

f5

— No fundo acho que você gosta de mim, detetive.

Ce5

— O meu respeito intelectual não diminui a aversão pelos seus atos, se é o que quer saber.

Bd3

— É uma pena, detetive. Porque eu gosto de você. Quem sabe com um novo visual eu gostaria até mais. Quem sabe... uma saia xadrez?

Cbc6

— Não vejo graça, além do mais prefiro homens que não estejam presos a tais estereótipos.

Dh5

— Escolha interessante de palavras. Mas por que foge a dama?

Bd7

— Fuga? Olhe o jogo, doutor. Não sou eu que preciso fugir.

Tf4

— Espera que eu o faça?

g6

— O senhor sabe que todas as saídas estão cobertas. Eu sei que o senhor não tentaria nada estúpido. Não é do seu feitio.

Dh6

— Certamente. Dócil como um padre. Ou um bispo.

Bf8

— Essa dama não se deixa capturar tão facilmente, doutor.

Dh3

— Não adianta proteger a dama, detetive, quando o rei é fraco.

Cxd4

— Pra você é tudo um jogo, não?

Bxd4

— E os dois lados precisam caminhar pelas casas brancas e negras.

Bg7

— Você poderia escolher caminhar pelas casas certas, doutor.

Taf1

— E é você quem define quais são essas casas?

Nxd3

— Eu só garanto que as pessoas caminhem nas casas determinadas.

Bxg7

— E quem é esse rei que determina as casas, detetive?

Cxf4

— A sociedade, doutor. Não eu; não você. A sociedade.

Txf4

— Eu tenho uma novidade para você, detetive. Seu rei está em xeque.

Dc5+

— O jogo não acabou.

Rg2

— É tudo uma questão de tempo. Enquanto os peões se movem, o relógio corre.

h5

— Talvez a sociedade não seja perfeita, mas têm torres sobre as quais se erguer. Sem isso, tudo mais ruiria.

Th4

— Até as torres caem. E não se esqueça que se o rei cair, as torres caem com ele.

ef5

— Logo um padre virá vê-lo, antes que tudo termine.

Bf6

— Essa é só mais uma de suas torres em ruína. Pode dispensá-lo.

Te6

— As torres podem ser determinantes para o jogo, doutor.

Txh5

— As torres se contentam em capturam peões. Os reis caem para as damas. E parece que as suas torres já estão caindo, detetive.

gxh5

— Mas a dama continua de pé.

Qxh5

— Sim. As damas é que exigem os maiores cuidados.

Txf6

— Parece que elas é que deveriam ter cuidado com o senhor.

gxf6

— De fato eu adoro capturar uma dama.

De3

— Ela era jovem demais para ser uma dama!

Cd5

— Uma dama bem colocada sem nos coloca em xeque.

Dxe4+

— Mas um verdadeiro rei deve saber se esquivar, doutor.

Rf2

— As damas, detetive, são implacáveis. Xeque!

Dd4+

— Os reis devem ser mais.

Re1

— Mas o rei sempre cai frente a uma saia xadrez. Xeque novamente.

Te8+

— Xeque!

Ce7+

— Uma hora detetive, xeque...

Txe7

— ...

fxe7

— A dama sempre encurrala o rei. O jogo acabou.

De3+

— Não, doutor. O jogo acabou há muito tempo. Só lhe falta deitar o rei.

10 comentários:

Sílvia Mendes disse...

Belo trabalho, a notação é a alma do texto. Curti muito, mas acho que fica mais difícil para o leitor que não conhece o sistema.

fabioricardo disse...

3 palavras: OBRA DE ARTE.

JLM disse...

interessante, mas achei o começo melhor q o final, rodrigo.

as referências e comparações entre a trama e o jogo estavam melhor dosadas, depois praticamente viraram só referências ao jogo, algumas tentando se encaixar meio forçosamente, talvez para atingir o objetivo q vc tinha em mente, mas cansando um pouco o leitor.

minha sugestão seria um texto um pouco menor, mas menos "cheio" de referências.

ah, e duas correçõeszinhas básicas:

"Nunca leu, Sade?" (a vírgula tá sobrando deixa o sentido da frase incorreto, neste caso como se o nome da detetive fosse Sade)

"E os dois lados precisam caminhas pelas casas brancas e negras." (errinho de digistração)

1 abraço

Lori e Elisandra disse...

Adorei Rodrigo, ficou MARA.......Parabéns!!!!!....bjus Elis

Rodrigo Oliveira disse...

Opa, valeu moçada. JLM, valeu os toques. Vou corrigir os erros de digitação (faltou uma revisão melhor). E qto à extensão, acho q um pouco antes do final, perdeu gás mesmo. A minha dificuldade é q eu decidi levar o jogo até o final. Pra contornar isso acho que eu precisaria de uma elipse ali no meio, suprimindo parte do jogo. Tenho q pensar uma saída melhor. Além da dificuldade q a Silva citou, q tb me preocupou um pouco, mas resolvir passar por cima dessa.

Thiago Floriano disse...

cara, ficou muito bom... mesmo! usar o jogo como plano de fundo encaixou muito bem. os diálogos intercalando a vida real e o jogo foram muito bem construídos. infelizmente não vou ter acesso à internet nos próximos 10 dias... não vou poder ler os outros textos e votar... grande abraço a todos... (o ritmo desse comentário continua louco igual ao meu texto)

JLM disse...

no começo até cheguei a imaginar q o jogo era entre Hannibal Lecter e a detetive de O Silêncio dos Inocentes.

Félix B. Rosumek disse...

muito bom, mesmo. se eu tivesse como ler com um tabuleiro de xadrez do lado, para acompanhar os movimentos, sem dúvida teria curtido ainda mais. sem dúvida a qualidade da literatura rodrigana está um passo à frente de nós, pobres amadores. não só pela técnica, mas pela própria criatividade.

Vivi Bastos disse...

A urdidura do texto é engenhosa. E o dialógo rico completa a função de prender o leitor até o final.

m.r.mello disse...

Me fez pensar naquela conferência sobre a "rapidez" do Ítalo Calvino...

Acho que a condução de cada peça foi muito competente e o conto (em sua rapidez) evita a profusão de banalidades que seria esse diálogo numa formatação mais romanesca.

deixa a desejar um pouco no final, realmente, porque fecha o que estava aberto e volátil todo o tempo...um jeitinho clichê de fechar um conto autêntico.