quinta-feira, 25 de junho de 2009

Dona Valquíria

Dona Valquíria é moça direita. A lâmpada da cozinha da casa dela é a primeira a acender na rua ainda escura. E tem um cheiro de café passado lá perto bem cedinho, que acho que Dona Valquíria acorda mesmo para agradar o seu Chico - tão velhinho o pobre. Logo que ele sai, com o dia já claro, ela começa a limpeza da casa. Ouve umas músicas altas, estende as roupas no varal e fica ainda mais bonita com os pés entre a grama verde de primavera e a terra cor de chocolate.

O cheiro de flor da Dona Valquíria é de se sentir de longe. E quando ela sai vestindo o terninho vermelho, o cabra sempre se pergunta aonde vai a moça bonita, já que no telefone não se sente cheiro nem se vê formosura. Um pecado, dizem, Dona Valquíria casada com o velhote. E ele nem aí, anda de braço dado com ela, que mais parece filha do que esposa.

E ela chega a noitinha, trazendo pão pro Chico. Mas tem um dia, lá pela metade do mês, que ela chega feliz, com um sorriso nos lábios. E vem com pressa, atropelada. E todo mundo fica na espreita. Naquele dia, todas as cortinas da rua ficam com frestas, só esperando ela passar.

Dona Valquíria parece moça de televisão naquela noite. Até as estrelas somem do céu porque sabem que ninguém brilha mais que ela. As flores do perfume parecem impregnadas na saia rodada e o vermelho do uniforme sem graça engraça os lábios de Dona Valquíria. As pernas dela, torneadas, morenas feito chocolate e os seios – que balançam levemente, no ritmo do passo – envoltos por uma blusa colada da cor das folhas na primavera.

Um dia o moço lá da esquina resolveu seguir a Dona Valquíria. Até hoje ninguém conseguiu arrancar dele o que viu e sempre que fala no assunto o desgramado engasga. Chegou até a desmaiar. Outro dia ouvi falar que ela fazia apresentações – subia até no palco, a Dona Valquíria. Disseram que do lado de fora do lugar onde ela entrava, só se ouvia um tun-tun-tun que parecia batida de coração. Tudo conversa a boca pequena.

A única coisa que se sabe é que ela volta ao amanhecer e, no dia seguinte, não se sente o cheiro do café na casa do Seu Chico.

9 comentários:

Fábio Ricardo disse...

tbm nao utilizou a informação da falta de filhos... se a dna do tema pode, eu tbm posso! hahaha

JLM disse...

kkk, boa fábio. tá bom tá bom, como diria no zorra, se ela pode entrão vc tb poooooode!

mas será q ñ fica implícito no texto essa informação? eu consegui ver isso qdo a marina bota o chigo + velho e nas noites da metade do mês. vi d+?

marina, gostei mto do "balançam levemente, no ritmo do passo", mexeu com a minha imaginação. mãs, como sou chato chatíssimo, achei meio exagerado o "Chegou até a desmaiar."

Marina Melz disse...

Palmas, JLM! Essa foi a idéia. Não pode ter filhos não necessariamente quer dizer um problema de fertilidade.

Thiago Floriano disse...

pois é... imaginei se o fato de ele ser velho demais não permitisse que tivesse filhos... mas creio que é um daqueles textos que não funcionaria fora do duelo... pra mim, faltou alguma coisa... a hora que descobrir o que, aviso...

Fábio Ricardo disse...

eu acho que o velhinho até poderia sim ter filhos. mas só quis dizer q nao ficou explicito.
nao poder ter filhos tem um mone de motivos, o inicial q eu pensei era por causa de trabalho. foda ter filhos E trabalhar E fazer um mestrado ou doutorado E cuidar da casa e assim por diante. Mas qualquer que seja o motivo, nao vejo necessidade de isso ter a obrigação de aparecer no texto.

Rodrigo Oliveira disse...

Gostei do texto. Com as liberdades que vc se deu, talvez tenha ficado mais fácil tangenciar alguns aspectos do personagem. Nem todos, talvez, precisassem ser explorados. Mas fazendo isso, a dificuldade cresce (e talvez o exrecício). Fora isso, acho q o texto funciona sim fora do Duelo. Acho inclusive, q funciona melhor. tb acho q nao precisava do desmaio. acho q se o tal moço resolvesse simplismente ficar só ele com o segredo, se negando a contar, ficaria mais verossimel. Mas gostei mesmo, foi da narrativa. do estilo. Isso me ganhou.

Thiago Floriano disse...

é, rodrigo... pensando por esse aspecto, tens razão. funcionaria melhor fora do duelo pq não teria a obrigatoriedade de ela ter 38 anos e não poder ter filhos... realmente...

Félix B. Rosumek disse...

Concordo os últimos comentários: o texto funcionaria até melhor fora do duelo. Isso porque, como texto, ficou legal. O estilo de narrativa é interessante.

Dentro do duelo, tem, em um certo nível, um distanciamento do tema. Fora o casamento com Francisco, as características propostas da personagem foram mais acessórios que focos. Digamos que, se o tema tivesse sido "Valquíria tem 27 anos, trabalha como secretaria e não tem filhos", a história poderia ser exatamente a mesma.

A questão da idade é um ponto a se chamar a atenção. O modo como o texto está escrito realmente não passa a idéia de uma mulher de 38 anos. A coroa pode estar mais enxuta o possível, mas tudo no texto (particularmente o uso constante do "moça") sugere uma mulher mais nova. Um detalhe que pode ser revisto sem dificuldade para o texto ficar mais fiel ao tema.

Em resumo: o texto, per si, eu curti mesmo. Mas tem algumas questões referentes ao tema.

Mateus disse...

Achei bastante visual! Muito legal! Parabéns!