terça-feira, 23 de junho de 2009

Gerúndio

- Boa tarde, senhor Valdir. Eu poderia estar conversando com o senhor um momentinho?

Assim começava o dia de Valquíria. Com a voz irritantemente estridente atingindo com força os tímpanos do cidadão ao lado do telefone. Ao mesmo tempo em que ele, invariavelmente, contorcia os músculos do rosto em clara indigestão sonora, ela erguia o canto dos lábios num sorriso sacana.

- Eu gostaria de estar oferecendo ao senhor um novo produto de uma nova promoção que gostaríamos que o senhor estivesse vindo a fazer parte.

Valquíria é uma mulher inteligente, sabe há anos que o gerúndio não se faz necessário. Mas sabe, também, que ele é terrivelmente odiado. E é por isso mesmo que insiste em usar cada sílaba de forma tônica, em um destaque mortal. A resposta, normalmente, é a mesma:

- Não, obrigado. Não tenho interesse.

- Mas senhor, o senhor ainda nem descobriu do que se trata este produto que nós gostaríamos que o senhor estivesse adquirindo. E se for – e olha que é! – uma super promoção irresistível, que o senhor com certeza estaria tendo interesse em adquirir? Imagina só a oportunidade que o senhor estaria deixando de aproveitar, não é mesmo?

- Mesmo assim, não tenho interesse. Tenha um bom dia.

- Mas que falta de educação, meu senhor. Já me despachando assim, dessa forma rude? O senhor nem deixou que eu estivesse lhe dizendo o meu nome e já vai me enxotando que nem cachorro magro?

- Tá bom, me desculpe. Como é seu nome?

- Walquíria Elizabeth das Graças de Jesus. Walquíria com dábliu, Elizabeth com zê e tê agá, e Graças de Jesus normal mesmo, né? Porque nas Graças de Jesus a gente não pode mexer não.

Repetia a cada ligação a mesma frase, puxando uma risada anasalada ao final da explicação. Valquíria de Albuquerque Ferreira e Braga não tinha o nome com “dábliu” e muito menos as Graças de Jesus junto a si, cética que é. Mas isso também era uma ótima ferramenta para manipular o pobre senhor Valdir, ou quem quer que fosse, ao outro lado da linha. Valquíria era sádica, explorava o sofrimento do homem que, angustiado, já deveria estar olhando para o relógio, na outra ponta da ligação.

- Desculpe, Dona Walquíria, mas...

- Walquíria Elizabeth, por favor. Com dábliu e zê, tê e agá, lembra?

- Isso, isso. Dona Walquíria Elizabeth, me desculpe mas não tenho interesse em comprar nada não.

- Mas meu senhor! E quem falou em comprar? Não lhe disse agorinha mesmo que nós gostaríamos é que o senhor estivesse vindo a fazer parte de um seletíssimo grupo de clientes que já estão fazendo bom uso de nosso produto?

- Sim, mas...

- Então, meu senhor, tudo o que o senhor precisa fazer, é confirmar alguns dados para nós estarmos fazendo o seu cadastro junto ao nosso sistema, e o senhor já poderá estar desfrutando de nossos benefícios. O nome do senhor é Valdir Souza da Silva?

- Não, não. É Valdir de Souza Silva.

- Ah, sim. O senhor aguarde um minutinho que eu vou estar atualizando o nosso sistema.

No momento em que a música – uma bossa nova irritantemente calma – começava a tocar, Valquíria afastava o fone do rosto, se reclinava na cadeira e acendia um cigarro. A cada ligação, o mesmo processo. Pegava a caneta tinteiro e marcava suas anotações no formulário de pesquisa que tinha sobre a mesa. Nome, idade, escolaridade, número de filhos, profissão, tempo de permanência na ligação telefônica, grau de irritabilidade. Todos os dados de Valdir descritos detalhadamente no formulário que havia projetado para sua tese de doutorado.

- Senhor Valdir, nosso sistema se encontra temporariamente fora do ar. O senhor poderia estar aguardando mais uns minutinhos na linha enquanto estaremos restabelecendo a nossa conexão com o servidor?

- Olha, não tenho interesse não. Já estou atrasado, pois quando você ligou, eu estava de saída.

- Mas senhor, se o senhor vir a estar desligando o telefone, não vai poder estar vindo a fazer parte do nosso seletíssimo grupo de clientes.

- Não tenho interesse, passar bem.

Valquíria colocava, após cada ligação, o telefone de volta no gancho. Desligava o gravador e anotava os dados. Em cima da mesa, pilhas diversas de papéis demonstravam os resultados de sua pesquisa sobre o grau de irritabilidade dos moradores de uma grande cidade ao telefone. Anotava mais um X no formulário enquanto sorria, ao perceber que mesmo após quatro meses de dezenas de ligações diárias, nenhum entrevistado sequer perguntara qual era o produto em questão.

8 comentários:

JLM disse...

e o velho chico?

Lou disse...

E ela não poder ter filhos?

Mesmo assim, gostaria de estar comentando que eu achei o texto bem bom. haha.

Fábio Ricardo disse...

Ué, o personagem principal é a Valquíria. Ela é casada e não pode ter filhos, mas isso nao necessariamente precisa aparecer em todos os textos que ela aparece...

JLM disse...

se bem q vc escapou um pouquinho do tema, né?

do "trabalha como operadora de marketing" da marina pra sua "tese de doutorado [e] pesquisa sobre o grau de irritabilidade dos moradores" me pareceu uma fuga pela tangente. talvez necessária para se encaixar na idéia q vc teve, q foi ótima, aliás.

só deixou a impressão dq o texto foi feito às pressas desta vez, sem ligar mto pras palavras da marina.

Fábio Ricardo disse...

Na verdade não foi feito às pressas não... eu soh quis fazer uma adaptação da personagem... ao inves de ser telemkt por profissao, era por estudos. E tbm iria utilizar o fato dela nao poder ter filhos, ao inves de ser estéril, por algum outro motivo que a impossibilitasse, pra adaptar ao máximo o tema. mas acabei nem usando essa segunda parte.

foi um experimento de manipulação do tema mesmo, e nao desatenção...
mas pode ser considerado fuga do tema, por isso.

Thiago Floriano disse...

interessante... talvez se deixasse a história do doutorado só pro último parágrafo, estivesse ficando um pouco melhor... o que o senhor me diz, senhor?

Rodrigo Oliveira disse...

nah... não comprei. se ainda achasse uma saída pra tudo, talvez ainda fosse um exercício sobre o tema bem sucedido. Mas assim, não ficou nem na manipulação do tema, nem respeitando ele. Essa não é a Valquíria. fail pra tu.

Félix B. Rosumek disse...

Cara, pega o que falei para a Marina em todos os aspectos e mutiplica por cinco.

Texto, como texto: muito bom! Mesmo. A idéia foi muito foda e a execução ótime.

Texto, como texto do duelo: ficou muito distante do tema. Usou apenas o nome da personagem e o telemarketing, das cicno características propostas da personagem.

Eu acheoi o texto mó legal e acho que, se tivesses deixado ele para alguma rodada (com o tema "telefone", talvez) ele ganhava meu voto fácil.