domingo, 16 de agosto de 2009
Abstrato
Enquanto se ouviam sussurros por todo o salão, o artista gargalhava por dentro e comprovava: o absurdo deve ser mesmo genial.
sábado, 15 de agosto de 2009
Mondrian Monday
O mundo era todo cores. Fluido, geométrico. Tinha nos olhos um brilho colorido de lilases e, de baixo da língua, escorria-lhe o sabor abstrato que dilatava-lhe as pupilas. No teto do quarto a lâmpada era um sol eclipsado enquanto ele, costas nas cobertas coloridas, era a estrela ao redor da qual rodava o mundo. Do calendário na parede saltaram cores que se espalharam pelo quarto, dançando, trocando de lugar num balé rubikiano. Era todo Kandinski, com as pupilas dilatadas olhando o calendário colorido. Viu os dias riscados, os números vermelhos de um hoje vivo.
Então a pupila contraiu-se, as curvas sinuosas endireitaram-se, as diagonais se ajeitaram paralelas. As cores se desmisturaram e agruparam-se comportadas em suas baias. O gosto se esvaía. Sob a língua, sobre as cobertas. A boca seca. Foi ficando Mondrian, Mondrian... até que todas as cores e todas as linhas se organizaram. Cubículos coloridos de uma só cor. O calendário já não parecia tão atraente. De tão Mondrian, foi-se despedaçando o azul, desbotou-se o vermelho, apagou-se o amarelo. E restaram-lhe os cubículos preto-e-brancos. As cores tinham-se ido todas. As curvas, as diagonais. Era novamente retas, apenas. Retas e cubículos. No calendário, os dias coloridos ficaram para trás. Amanhã o dia era negro.
Então a pupila contraiu-se, as curvas sinuosas endireitaram-se, as diagonais se ajeitaram paralelas. As cores se desmisturaram e agruparam-se comportadas em suas baias. O gosto se esvaía. Sob a língua, sobre as cobertas. A boca seca. Foi ficando Mondrian, Mondrian... até que todas as cores e todas as linhas se organizaram. Cubículos coloridos de uma só cor. O calendário já não parecia tão atraente. De tão Mondrian, foi-se despedaçando o azul, desbotou-se o vermelho, apagou-se o amarelo. E restaram-lhe os cubículos preto-e-brancos. As cores tinham-se ido todas. As curvas, as diagonais. Era novamente retas, apenas. Retas e cubículos. No calendário, os dias coloridos ficaram para trás. Amanhã o dia era negro.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Novo Tema
O tema da rodada será:
Seguindo a ideia do Félix com a foto do Caçador de Focas, vamos levar isso ainda mais para um ponto intangível.
Os textos devem ser postados até dia 16/08 e o marcador será "Foto: Pintura Abstrata"
Depois que terminarem de me xingar, podem começar a escrever.
Update: A pedidos: a autoria da obra de Kandinski.
Seguindo a ideia do Félix com a foto do Caçador de Focas, vamos levar isso ainda mais para um ponto intangível.Os textos devem ser postados até dia 16/08 e o marcador será "Foto: Pintura Abstrata"
Depois que terminarem de me xingar, podem começar a escrever.
Update: A pedidos: a autoria da obra de Kandinski.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Votação - Assassinato de uma criança
Está aberta a votação para os textos com o tema Assassinato de uma criança.
Você tem até o dia 10 de agosto para escolher o melhor texto e deixar sua opinião.
Vote! O Duelo de Escritores é decidido com o seu voto.
Sozinha
Esta história é baseada em fatos reais.
A hora chegou e ela não podia mais adiar. As bocas que precisava alimentar ali estavam, magras, famintas, desesperadas. Não havia descanso, não havia escolha. De algum modo, ela precisava se mexer. Correr atrás, sozinha. Sem companheiro e sem pai. Era o caminho que ela havia seguido, e agora pagava o preço pelas suas decisões.
Ainda era escuro quando saiu. Para um exterior implacável, sedento por sangue, suor e sofrimento. Os caminhos, que antes eram os mesmos, não mais serviam. Todo dia era uma nova jornada ao incerto. Cruzava com miríades de rostos, cegos, indiferentes. Quando muito, desconfiados e agressivos. Seguiam suas aventuras nada românticas em tempos de inglória e dificuldade. Um mundo saturado, onde o que não faltava eram outros, atolados em seus próprios problemas com o qual lidar.
Caminhos estreitos. Vielas escuras. Rostos esqueléticos. Não havia piedade, não havia deus. A cada esquina, uma chance. A cada dobra, uma decepção. Vazio e cansaço. De tentar e de não conseguir, mas mesmo assim tendo que seguir adiante.
O fim do dia lhe trazia novamente mãos vazias. Escassez e fadiga. Mais energia gasta em buscas fúteis. O tenro enlace da morte apertando mais o seu abraço. O retorno ao lar, que de redentor já nada mais tinha. Alternativas esgotadas, ausência de perspectivas. Despido de todas as aspirações possíveis, o universo se reduzia à necessidade básica que a tudo mais obliterava.
A hora chegou e ela não podia mais adiar. As bocas que precisava alimentar ali estavam, magras, famintas, desesperadas.
Inclusive a sua.
Pequenas e indefesas, não tinham como reagir. Uma a uma, tremulavam por instantes, antes de jazerem inertes. Ossos quebrados, órgãos mastigados. O que havia se esvaído como leite retornava em forma de carne e sangue. O estômago se enchia, o monstro se acalmava. O fim de um laço primordial, rompido nas penúrias extremas de uma vida sem oportunidades.
Mas não havia culpa, não havia arrependimento. O que importava era sobrevivência. Haveria uma nova temporada e, com ela, novas bocas para alimentar. Quiçá desta vez conseguissem ir mais longe. Pois era para isso que ela precisava seguir vivendo. Por enquanto, a rata satisfeita apenas se enrodilhou e deixou a aurora chegar.
A hora chegou e ela não podia mais adiar. As bocas que precisava alimentar ali estavam, magras, famintas, desesperadas. Não havia descanso, não havia escolha. De algum modo, ela precisava se mexer. Correr atrás, sozinha. Sem companheiro e sem pai. Era o caminho que ela havia seguido, e agora pagava o preço pelas suas decisões.
Ainda era escuro quando saiu. Para um exterior implacável, sedento por sangue, suor e sofrimento. Os caminhos, que antes eram os mesmos, não mais serviam. Todo dia era uma nova jornada ao incerto. Cruzava com miríades de rostos, cegos, indiferentes. Quando muito, desconfiados e agressivos. Seguiam suas aventuras nada românticas em tempos de inglória e dificuldade. Um mundo saturado, onde o que não faltava eram outros, atolados em seus próprios problemas com o qual lidar.
Caminhos estreitos. Vielas escuras. Rostos esqueléticos. Não havia piedade, não havia deus. A cada esquina, uma chance. A cada dobra, uma decepção. Vazio e cansaço. De tentar e de não conseguir, mas mesmo assim tendo que seguir adiante.
O fim do dia lhe trazia novamente mãos vazias. Escassez e fadiga. Mais energia gasta em buscas fúteis. O tenro enlace da morte apertando mais o seu abraço. O retorno ao lar, que de redentor já nada mais tinha. Alternativas esgotadas, ausência de perspectivas. Despido de todas as aspirações possíveis, o universo se reduzia à necessidade básica que a tudo mais obliterava.
A hora chegou e ela não podia mais adiar. As bocas que precisava alimentar ali estavam, magras, famintas, desesperadas.
Inclusive a sua.
Pequenas e indefesas, não tinham como reagir. Uma a uma, tremulavam por instantes, antes de jazerem inertes. Ossos quebrados, órgãos mastigados. O que havia se esvaído como leite retornava em forma de carne e sangue. O estômago se enchia, o monstro se acalmava. O fim de um laço primordial, rompido nas penúrias extremas de uma vida sem oportunidades.
Mas não havia culpa, não havia arrependimento. O que importava era sobrevivência. Haveria uma nova temporada e, com ela, novas bocas para alimentar. Quiçá desta vez conseguissem ir mais longe. Pois era para isso que ela precisava seguir vivendo. Por enquanto, a rata satisfeita apenas se enrodilhou e deixou a aurora chegar.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Não brinca com isso, cara!
Eu peguei a arma, e com ela ainda apontada pro chão, puxei o gatilho. Ela fez aquele barulho de girar o tambor, e de bater o cão da arma, aquela parte que tem pra puxar atrás. Eu vi que não tinha problema, não tinha acontecido nada, então mirei na direção da varanda, imaginando um bandido, um inimigo que tinha que ser morto, e puxei de novo o gatilho. Aconteceu a mesma coisa, o mesmo barulho, e o tambor girou de novo. Nessa hora o Serginho já viu que eu tinha a arma na mão, e eu virei pra ele, como que brincando de polícia e ladrão.
Quando ele olhou pra mim, eu apontei a arma pra ele, nós dois em cima da cama, e puxei o gatilho, com a arma apontada pro rosto dele. A única coisa que eu ouvi foi ele gritando bem alto “não brinca com isso, cara!”, e um barulho de trovão, um estouro, se sobrepondo à voz dele.
- Não brinca com isso cara! – a voz de Serginho foi abafada pelo ruído alto como um trovão, que ecoou pelas ruas do bairro Vila Nova. Uma cortina de fumaça se ergueu dentro do quarto, no sétimo andar do edifício. Ao se dissipar, a névoa mostrou o corpo do garoto caído ao lado da cama. Por um segundo, o outro menino pensou que ele estivesse brincando, fingindo ter sido atingido. O laudo do Instituto Médico Legal, porém, viria mais tarde confirmar a morte com um tiro à queima-roupa, logo abaixo de seu olho esquerdo.
A próxima coisa que eu vi foi uma fumaça que apareceu no quarto, e o Serginho caído no chão, ao lado da cama. Eu pensei que ele estava só brincando, fingindo ter sido atingido pelo meu tiro imaginário. Só que quando eu me debrucei sobre a cama, pra olhar ele, e vi todo aquele sangue, me toquei que ele não tava fingindo, eu tinha matado ele.
Ao perceber o sangue no rosto do amigo, e também espalhado no chão ao seu redor, largou o revólver e se desesperou. Logo entendeu o que tinha acontecido. Ele havia matado seu melhor amigo. A primeira ação que teve foi a de correr na direção da varanda. Chegou até o parapeito e se debruçou do sétimo andar, imaginando a trajetória que seu corpo faria até atingir o chão. Aquele pensamento, para ele, durou apenas uma fração de segundo, mas na verdade, durou tempo suficiente para que a empregada, que estava no andar de baixo do apartamento duplex, chamasse o vizinho para ver o que havia acontecido. E até para que ele chegasse ao local onde o garoto havia morrido, e conseguisse chegar na varanda, a tempo de impedir que mais uma vida se perdesse, segurando o rapaz e impossibilitando o salto planejado.
Quando ele olhou pra mim, eu apontei a arma pra ele, nós dois em cima da cama, e puxei o gatilho, com a arma apontada pro rosto dele. A única coisa que eu ouvi foi ele gritando bem alto “não brinca com isso, cara!”, e um barulho de trovão, um estouro, se sobrepondo à voz dele.
- Não brinca com isso cara! – a voz de Serginho foi abafada pelo ruído alto como um trovão, que ecoou pelas ruas do bairro Vila Nova. Uma cortina de fumaça se ergueu dentro do quarto, no sétimo andar do edifício. Ao se dissipar, a névoa mostrou o corpo do garoto caído ao lado da cama. Por um segundo, o outro menino pensou que ele estivesse brincando, fingindo ter sido atingido. O laudo do Instituto Médico Legal, porém, viria mais tarde confirmar a morte com um tiro à queima-roupa, logo abaixo de seu olho esquerdo.
A próxima coisa que eu vi foi uma fumaça que apareceu no quarto, e o Serginho caído no chão, ao lado da cama. Eu pensei que ele estava só brincando, fingindo ter sido atingido pelo meu tiro imaginário. Só que quando eu me debrucei sobre a cama, pra olhar ele, e vi todo aquele sangue, me toquei que ele não tava fingindo, eu tinha matado ele.
Ao perceber o sangue no rosto do amigo, e também espalhado no chão ao seu redor, largou o revólver e se desesperou. Logo entendeu o que tinha acontecido. Ele havia matado seu melhor amigo. A primeira ação que teve foi a de correr na direção da varanda. Chegou até o parapeito e se debruçou do sétimo andar, imaginando a trajetória que seu corpo faria até atingir o chão. Aquele pensamento, para ele, durou apenas uma fração de segundo, mas na verdade, durou tempo suficiente para que a empregada, que estava no andar de baixo do apartamento duplex, chamasse o vizinho para ver o que havia acontecido. E até para que ele chegasse ao local onde o garoto havia morrido, e conseguisse chegar na varanda, a tempo de impedir que mais uma vida se perdesse, segurando o rapaz e impossibilitando o salto planejado.
Amadurecência
Começou com o sorriso. Cada um dos dentes de leite foi amarelado com cafeína e nicotina. Ficaram escuros até que tivessem que ser arrancados. Depois, veio a pureza. Fez com que transasse com os tipos mais sórdidos, sujos e cruéis. Por vezes até enganada por uma paixão febril, mas geralmente consciente que o sangue que jorrava entre suas pernas abertas era apenas uma necessidade fisiológica. Aí veio a sanidade. Forçou a imaginar os pais morrendo, os caixões fechando, o namoradinho na cama com outra, com duas, três... Enlouqueceu-a. Tornou-se masoquista. Colocava bem alto as trilhas sonoras de momentos que não aconteceriam mais, leu em tom de ironia as cartas nunca lidas. Por fim, o golpe de misericórdia: violou-lhe a inocência. Com requintes de crueldade. Mentiu, inventou, imaginou choros e declarações que nunca existiram, pensou no futuro, sentiu doer o passado. Entendeu, enfim, o que era a mentira.
Olhou o espelho e teve certeza. A criança tinha morrido.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Tema
Mais uma rodada se encerra, e com ela, um novo tema surge. Os duelistas terão até o dia 6 de agosto (quinta-feira) para postar seus textos referentes ao tema:
O assassinato de uma criança.
para fins de organização, os marcador deve ser "assassinato criança".
Bons assassinatos a todos!
O assassinato de uma criança.
para fins de organização, os marcador deve ser "assassinato criança".
Bons assassinatos a todos!
domingo, 26 de julho de 2009
Votação
Está aberta a votação de mais uma rodada do Duelo de Escritores.
Você pode colocar, aqui nos comentários, o nome (e se quiser, os motivos) do duelista ou do texto que você mais gostou. No dia 30, conheceremos o vencedor!
Você pode colocar, aqui nos comentários, o nome (e se quiser, os motivos) do duelista ou do texto que você mais gostou. No dia 30, conheceremos o vencedor!
A dois
Pronto, meu bem. Agora está tudo bem. Está quentinho aí? Espera, deixa eu arrumar seu travesseiro. Levanta a cabeça. Pronto, agora sim, muito mais confortável. Olha, se eu empurrar o cobertor pra baixo do seu corpo, assim, fica mais quentinho. Viu? Sabia que você ia gostar. É esse frio lá fora que não passa. Não para de nevar. Mas aqui dentro, não tem perigo, não. Aqui é quente e confortável. E é silencioso, do jeito que você gosta. Aqui dentro é só você e eu, sem ninguém para atrapalhar. Estamos a quilômetros da civilização, sem trabalho, telefone, sem relógio. Aqui somos apenas nós dois, só você e eu. Durante todo o inverno. Esse inverno é só nosso, meu bem. E ninguém vai poder nos separar. Olha, eu trouxe um chá para você, está bem quentinho. Só toma cuidado para não queimar a boca. É de erva cidreira. Eu sei que você prefere camomila, mas não tinha em casa. Amanhã vou ao mercado e compro para você. Compro também aquele bolo de chocolate que você tanto gosta. Quer tomar o chá, quer? Tudo bem, vamos tomar o chá, então. Eu te ajudo. Vamos primeiro sentar na cama, isso. Isso, força. Pronto, está confortável? Ótimo. Então vamos tomar o chá. Vou soltar a mordaça, mas você precisa me prometer que não vai gritar. Não adianta nada gritar, meu bem, ninguém pode ouvir a gente aqui. Então eu vou soltar a mordaça, mas não grite. Não há motivos. Isso. Viu como é melhor quando você se comporta? Se continuar comportado, posso até soltar as amarras da cama, para você poder caminhar pela casa. Mas lá fora não, lá fora está frio. Está gostoso o chá? O quê? O quê você está tentando dizer? Ah, meu bem, não dá de entender o que você diz. Deve ser o efeito do chá. É eu coloquei alguns calmantes nele, pra você dormir um pouco. Já faz três dias que você está aqui e ainda não tomou um banho decente, né? Então você dorme e eu te dou um banho, para você ficar bem cheiroso pra mim. Isso, meu bem, pode dormir tranquilo. Esse nosso inverno vai ser maravilhoso, você vai ver.
Equinócio
A luz... A luz que outrora brilhava, desvanece
O calor, que antes acalentava, não mais aquece
Tudo se dissipa, tudo se apaga, tudo vira pó e nada
Com lentidão morosa, a vida presente se torna passada
Fim da linha, quem diria?
Eu, como poucos, já sabia
Uma ascensão para cada queda, um verão para cada inverno
Não há sentido - não há existência - em um Éden que seja eterno
Saudades, ah, saudosismo!
Conversas alegres entre amigos
Onde o riso é semeado pela memória de tempos idos
E oculta o medo de futuros de tais alegrias desprovidos
Pois estes tempos, e todos os tempos, são o aqui e agora
Não há mais show, não há mais jogo, quando passa sua hora
O teatro vivo fecha suas cortinas, sobram só as fotografias
Nas margens da estrada, camas quentes em estalagens frias
Meus amigos, meus queridos...
Em breve, corações partidos...
Não mais pessoas, não mais ilhas a serem desbravadas
Só serão múmias estáticas, em estase embalsamadas
Ah, meu amor! Meu divino, verdadeiro e inatingível amor!
Não mais me atormentará, cegando-me com alegria e dor!
Minha querida e amada, a mais ardente lembrança cultivada!
O altar sagrado numa catedral de memórias idolatradas!
O calor, que antes acalentava, não mais aquece
Tudo se dissipa, tudo se apaga, tudo vira pó e nada
Com lentidão morosa, a vida presente se torna passada
Fim da linha, quem diria?
Eu, como poucos, já sabia
Uma ascensão para cada queda, um verão para cada inverno
Não há sentido - não há existência - em um Éden que seja eterno
Saudades, ah, saudosismo!
Conversas alegres entre amigos
Onde o riso é semeado pela memória de tempos idos
E oculta o medo de futuros de tais alegrias desprovidos
Pois estes tempos, e todos os tempos, são o aqui e agora
Não há mais show, não há mais jogo, quando passa sua hora
O teatro vivo fecha suas cortinas, sobram só as fotografias
Nas margens da estrada, camas quentes em estalagens frias
Meus amigos, meus queridos...
Em breve, corações partidos...
Não mais pessoas, não mais ilhas a serem desbravadas
Só serão múmias estáticas, em estase embalsamadas
Ah, meu amor! Meu divino, verdadeiro e inatingível amor!
Não mais me atormentará, cegando-me com alegria e dor!
Minha querida e amada, a mais ardente lembrança cultivada!
O altar sagrado numa catedral de memórias idolatradas!
Passou-se o apogeu...
(e ninguém se apercebeu)
O ápice foi cruzado...
(num arrastão desgovernado)
Agora a vida é queda...
(agora a vida é treva)
Até sua final solução...
(quem sabe por sua própria mão)
(e ninguém se apercebeu)
O ápice foi cruzado...
(num arrastão desgovernado)
Agora a vida é queda...
(agora a vida é treva)
Até sua final solução...
(quem sabe por sua própria mão)
...adeus, doce verão...
...venha, entre, amargo inverno...
... com lembranças crepitando na danação...
... a labareda débil em nosso suave inferno...
...venha, entre, amargo inverno...
... com lembranças crepitando na danação...
... a labareda débil em nosso suave inferno...
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Realidade 24h
A temperatura cai. O frio chega. Sinto o bater de queixos, e você? Falta coberta. Vem aqui. Me abraça. Vamos fazer um inverno quente? O nosso inverno.
Olha ali, coitadinhos. Estamos abraçados. Não me engano, mas minha pele, sim: parece que esquentou. Pega aqui, moço. Se enrolem também. Abraça, abraça forte. Somos todos amigos agora. Eu te dou meu casaco e você me dá seu frio. O inverno também é vosso: o vosso inverno.
O que é, moço? Tenho, sim, quer que eu acenda? Quer uma ponta da coberta? Moço de camiseta, deve estar congelando. Espera: passo frio mas dou a ele a minha parte da coberta. Olha ali, o moço tá indo pra aquele café! Tem fumaça saindo da xícara, o vidro escorre: tem aquecedor. Aqui não tem e o filho-da-puta acabou com o pouco fogo do meu isqueiro. Não adianta. Aqui faz frio. Nem meu, nem seu.
É um inverno só deles.
terça-feira, 21 de julho de 2009
Silêncio
— Silêncio!
Acordou sobressaltado no escuro. Os olhos baços à meia luz, ouvindo murmúrios baixos. Esfregou com os dedos os olhos que arderam salgados e divisou as duas loiras juntas, lado a lado, nas poltronas vermelhas na escura platéia quase vazia.
— No. Hay. Banda!
O homem no palco declamava pausado e com potência. Um poderoso staccato à capela, num sotaque castelhano.
— There is no band.
Com os olhos, se acostumando a pouca luz e a mente à vigília, pôde melhor divisar as mulheres nas poltronas escuras.
— And yet, we hear a band — Continuou o apresentador sob acordes gravados.
E tudo escureceu numa tela preta e num chiado eletrônico que cessou baixinho. Silêncio. Já vira o filme por vezes sem conta. E sempre acabava por vê-lo de novo. Tentava sempre revê-lo, na esperança de outro final. De uma guinada na história. De um personagem que pudesse surgir e valer-lhe, de fato a audiência. Mas o filme sempre insistia em passar de novo. No hay banda. E de novo estava ele em Silêncio.
Levantou-se, derrubando a vasilha de plástico ao chão. Caminhou sobre os milhos em cima do tapete e abriu a janela da sala. O inverno entrou frio pelo apartamento. Lá fora, as ruas de luzes brancas, todas em silêncio. Por cima dos telhados pontiagudos, o inverno se estendia até o velho teatro. Viu as luzes, o movimento, as pessoas distantes. Mas tudo era silêncio. Subiu no beiral da janela, aguardou o vento frio e lançou-se na corrente, acompanhando o ar gelado por sobre os telhados germânicos. Sobrevoou a movimentação. Atores, músicos, poetas. Artistas. Quadro de esteta elaborada. No palco, um latino estendia a mão, ao que respondia um clarinete invisível. Estendeu o braço a outro lado.
Respondeu-lhe um trombone, também invisível. Do alto, com o público e os outros artistas em volta, num grande círculo, a cena lembrava um ritual pagão. Todos vestidos de peles dançando ao redor da fogueira. The bonfire of De Palma. O vento soprou frio de novo e ele se deixou levar. Enrodilhou-se numa nuvem úmida e adormeceu no silêncio de um sussurro linchiano.
Acordou sobre o sofá com dor nas costas e atrasado. Saiu apressado para o compromisso. A cidade ensolarada, o velho teatro. Tomou o lugar à mesa. O discurso manso seguiu até que levantasse a cabeça para o público. Lá atrás, na última fila da platéia, um casal idoso o olhava com olhos famintos. Engoliu em seco, o ar frio. Um clarim fez-se soar distante. Mas não havia banda.
Acordou sobressaltado no escuro. Os olhos baços à meia luz, ouvindo murmúrios baixos. Esfregou com os dedos os olhos que arderam salgados e divisou as duas loiras juntas, lado a lado, nas poltronas vermelhas na escura platéia quase vazia.
— No. Hay. Banda!
O homem no palco declamava pausado e com potência. Um poderoso staccato à capela, num sotaque castelhano.
— There is no band.
Com os olhos, se acostumando a pouca luz e a mente à vigília, pôde melhor divisar as mulheres nas poltronas escuras.
— And yet, we hear a band — Continuou o apresentador sob acordes gravados.
E tudo escureceu numa tela preta e num chiado eletrônico que cessou baixinho. Silêncio. Já vira o filme por vezes sem conta. E sempre acabava por vê-lo de novo. Tentava sempre revê-lo, na esperança de outro final. De uma guinada na história. De um personagem que pudesse surgir e valer-lhe, de fato a audiência. Mas o filme sempre insistia em passar de novo. No hay banda. E de novo estava ele em Silêncio.
Levantou-se, derrubando a vasilha de plástico ao chão. Caminhou sobre os milhos em cima do tapete e abriu a janela da sala. O inverno entrou frio pelo apartamento. Lá fora, as ruas de luzes brancas, todas em silêncio. Por cima dos telhados pontiagudos, o inverno se estendia até o velho teatro. Viu as luzes, o movimento, as pessoas distantes. Mas tudo era silêncio. Subiu no beiral da janela, aguardou o vento frio e lançou-se na corrente, acompanhando o ar gelado por sobre os telhados germânicos. Sobrevoou a movimentação. Atores, músicos, poetas. Artistas. Quadro de esteta elaborada. No palco, um latino estendia a mão, ao que respondia um clarinete invisível. Estendeu o braço a outro lado.
Respondeu-lhe um trombone, também invisível. Do alto, com o público e os outros artistas em volta, num grande círculo, a cena lembrava um ritual pagão. Todos vestidos de peles dançando ao redor da fogueira. The bonfire of De Palma. O vento soprou frio de novo e ele se deixou levar. Enrodilhou-se numa nuvem úmida e adormeceu no silêncio de um sussurro linchiano.
Acordou sobre o sofá com dor nas costas e atrasado. Saiu apressado para o compromisso. A cidade ensolarada, o velho teatro. Tomou o lugar à mesa. O discurso manso seguiu até que levantasse a cabeça para o público. Lá atrás, na última fila da platéia, um casal idoso o olhava com olhos famintos. Engoliu em seco, o ar frio. Um clarim fez-se soar distante. Mas não havia banda.
Nosso inverno
Aqui não tem chuva, não tem frio
Inverno de verdade só pra baixo do Rio
Tempo ruim aqui não tem, ô
No nosso inverno é céu azul, amém!
Você que vem do Sul
Com o Ceará vai se encantar
Aqui também tem praia e mar, ô
Quero ver você querer voltar
-- REFRÃO -- 2x
Vem que tem
Menina, micareta tem
Vem dançar
Forrozear até o inverno acabar
--
Toda hora tem forró
Atrás do trio vem que tem axé
Mas uma hora vai dar saudade, ê
De no Estaleiro ver o sol nascer
Já tá na hora, tá na hora
De pra Santa eu voltar
Meu coração não demora, iai
Pra em Floripa desembarcar
-- REPETE REFRÃO -- 2x
Inverno de verdade só pra baixo do Rio
Tempo ruim aqui não tem, ô
No nosso inverno é céu azul, amém!
Você que vem do Sul
Com o Ceará vai se encantar
Aqui também tem praia e mar, ô
Quero ver você querer voltar
-- REFRÃO -- 2x
Vem que tem
Menina, micareta tem
Vem dançar
Forrozear até o inverno acabar
--
Toda hora tem forró
Atrás do trio vem que tem axé
Mas uma hora vai dar saudade, ê
De no Estaleiro ver o sol nascer
Já tá na hora, tá na hora
De pra Santa eu voltar
Meu coração não demora, iai
Pra em Floripa desembarcar
-- REPETE REFRÃO -- 2x
Tema: Nosso Inverno
O tema da rodada que começa hoje é:
"Nosso Inverno"
Os duelistas têm até o dia 26, domingo, para aquecer-nos com sua arte!
"Nosso Inverno"
Os duelistas têm até o dia 26, domingo, para aquecer-nos com sua arte!
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Votação
A votação está aberta para esta rodada do Duelo. Deixe seu voto nos comentários deste post. E não te demores mais a votar. Tu estás atrasado!
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Cronologia, percepção e convenção: um breve ensaio sobre o tempo
Um velho conhecido costumava andar pela Grécia e vivia rodeado de pensadores. Todos demonstravam grande habilidade na oratória e raciocínio lógico deveras apurado, mas nenhum conseguiu ajudá-lo a sanar sua dúvida mais cruel. Os gregos usavam duas palavras distintas para se referir ao tempo. “Chronos”, tempo cronológico, mensurável, dos dias, anos, épocas. E o “kairos”, tempo divino, anacrônico, incomensurável, ou apenas “um momento”. Sempre entendi o tempo mais como kairos do que como chronos. Deixem-me explicar.
Há muito venho refletindo acerca do que é, de fato, o tempo. Se tempo é a duração de algo em relação a um determinado padrão estabelecido, como uma rotação “do Sol em torno da Terra”, por exemplo, estou certo de que os dias, meses e anos nada mais são do que convenções. O tempo é uma convenção? Com efeito, afirmo que não.
O tempo é algo muito além do que a visão simplista das convenções sociais. O tempo é divino. O tempo é mundano. O tempo é vivido. O tempo sou eu. Sim, sou eu. É você também. Se pensarmos que o tempo pode ser a sua percepção da duração dos fatos, o tempo nada mais é do que a resposta de seu cérebro para estímulos aos quais a ele seus sentidos apresentam. “Essa tarde está custando a passar, não?”
Será que o tempo de uma jornada de oito horas de trabalho na segunda-feira é o mesmo de uma sexta-feira? Se o tempo é uma percepção individual, será que podemos mudá-lo a nosso bel prazer? São dúvidas sensatas, meus caros. Pensem nisso. E não me venham com perguntas tolas, afinal! O que mais é o presente se não o exato momento em que o futuro vira passado? Tudo o que podemos esperar, tudo o que podemos ver, tudo o que podemos sentir é apenas um momento. O momento kairos, costumo dizer. Um único instante que resume toda a existência. Um único instante que não nos diz absolutamente nada. Isto é o tempo. Isto é a vida.
Sem mais delongas, quero cumprimentar o reitor desta nobre universidade e, em nome dele, todos os demais componentes desta mesa, assim como os acadêmicos participantes dessa jornada. Peço perdão pelo atraso e tenham todos um bom dia.
Há muito venho refletindo acerca do que é, de fato, o tempo. Se tempo é a duração de algo em relação a um determinado padrão estabelecido, como uma rotação “do Sol em torno da Terra”, por exemplo, estou certo de que os dias, meses e anos nada mais são do que convenções. O tempo é uma convenção? Com efeito, afirmo que não.
O tempo é algo muito além do que a visão simplista das convenções sociais. O tempo é divino. O tempo é mundano. O tempo é vivido. O tempo sou eu. Sim, sou eu. É você também. Se pensarmos que o tempo pode ser a sua percepção da duração dos fatos, o tempo nada mais é do que a resposta de seu cérebro para estímulos aos quais a ele seus sentidos apresentam. “Essa tarde está custando a passar, não?”
Será que o tempo de uma jornada de oito horas de trabalho na segunda-feira é o mesmo de uma sexta-feira? Se o tempo é uma percepção individual, será que podemos mudá-lo a nosso bel prazer? São dúvidas sensatas, meus caros. Pensem nisso. E não me venham com perguntas tolas, afinal! O que mais é o presente se não o exato momento em que o futuro vira passado? Tudo o que podemos esperar, tudo o que podemos ver, tudo o que podemos sentir é apenas um momento. O momento kairos, costumo dizer. Um único instante que resume toda a existência. Um único instante que não nos diz absolutamente nada. Isto é o tempo. Isto é a vida.
Sem mais delongas, quero cumprimentar o reitor desta nobre universidade e, em nome dele, todos os demais componentes desta mesa, assim como os acadêmicos participantes dessa jornada. Peço perdão pelo atraso e tenham todos um bom dia.
A sétima badalada
Olhou para trás. Pouco via além das duas linhas fundas sulcadas na neve que se estendiam até debaixo de suas rodas de madeira. No mais, tudo era branco. À exceção dos troncos escuros dos pinheiros que conseguiam se fazer ver através do nevoeiro.
Um bufar resmungado atraiu-lhe a atenção para ao enorme animal à sua frente, com as patas peludas enfiadas na neve e lufadas nebulosas saindo-lhe das narinas. Sacudia a crina, vez por outra, para livrar-se dos flocos que se acumulavam. Mesmo a besta já estava impaciente. Sacou da casaca grossa o relógio de bolso. Já chegava a aurora, diziam os ponteiros na linguagem muda dos relógios. O dia, ainda mais calado, não dizia nada, enterrado na neve e névoa.
Longe, um sino soou a badalada lúgubre do aguardo vão. À segunda badalada, a besta resmungou, com que adivinhando o comando para partir. Uma terceira badalada soou enquanto a neve começava a já cobrir os rastros da carroça. À quarta badalada, nada mudou. À quinta, apenas um suspiro quente em forma de nuvem despencou por baixo do bigode penteado. A sexta badalada trouxe o som de algo se quebrando. Frágil, perdido na neve, próximo e irremediavelmente distante.
Quando uma forma finalmente divisou-se tênue, entre os troncos encobertos pela neve, já não havia mais badalos, marcas na neve ou aguardo. Havia apenas o silêncio branco. E um suspiro quente em forma de nuvem pendurado no ar.
Um bufar resmungado atraiu-lhe a atenção para ao enorme animal à sua frente, com as patas peludas enfiadas na neve e lufadas nebulosas saindo-lhe das narinas. Sacudia a crina, vez por outra, para livrar-se dos flocos que se acumulavam. Mesmo a besta já estava impaciente. Sacou da casaca grossa o relógio de bolso. Já chegava a aurora, diziam os ponteiros na linguagem muda dos relógios. O dia, ainda mais calado, não dizia nada, enterrado na neve e névoa.
Longe, um sino soou a badalada lúgubre do aguardo vão. À segunda badalada, a besta resmungou, com que adivinhando o comando para partir. Uma terceira badalada soou enquanto a neve começava a já cobrir os rastros da carroça. À quarta badalada, nada mudou. À quinta, apenas um suspiro quente em forma de nuvem despencou por baixo do bigode penteado. A sexta badalada trouxe o som de algo se quebrando. Frágil, perdido na neve, próximo e irremediavelmente distante.
Quando uma forma finalmente divisou-se tênue, entre os troncos encobertos pela neve, já não havia mais badalos, marcas na neve ou aguardo. Havia apenas o silêncio branco. E um suspiro quente em forma de nuvem pendurado no ar.
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