domingo, 26 de julho de 2009

A dois

Pronto, meu bem. Agora está tudo bem. Está quentinho aí? Espera, deixa eu arrumar seu travesseiro. Levanta a cabeça. Pronto, agora sim, muito mais confortável. Olha, se eu empurrar o cobertor pra baixo do seu corpo, assim, fica mais quentinho. Viu? Sabia que você ia gostar. É esse frio lá fora que não passa. Não para de nevar. Mas aqui dentro, não tem perigo, não. Aqui é quente e confortável. E é silencioso, do jeito que você gosta. Aqui dentro é só você e eu, sem ninguém para atrapalhar. Estamos a quilômetros da civilização, sem trabalho, telefone, sem relógio. Aqui somos apenas nós dois, só você e eu. Durante todo o inverno. Esse inverno é só nosso, meu bem. E ninguém vai poder nos separar. Olha, eu trouxe um chá para você, está bem quentinho. Só toma cuidado para não queimar a boca. É de erva cidreira. Eu sei que você prefere camomila, mas não tinha em casa. Amanhã vou ao mercado e compro para você. Compro também aquele bolo de chocolate que você tanto gosta. Quer tomar o chá, quer? Tudo bem, vamos tomar o chá, então. Eu te ajudo. Vamos primeiro sentar na cama, isso. Isso, força. Pronto, está confortável? Ótimo. Então vamos tomar o chá. Vou soltar a mordaça, mas você precisa me prometer que não vai gritar. Não adianta nada gritar, meu bem, ninguém pode ouvir a gente aqui. Então eu vou soltar a mordaça, mas não grite. Não há motivos. Isso. Viu como é melhor quando você se comporta? Se continuar comportado, posso até soltar as amarras da cama, para você poder caminhar pela casa. Mas lá fora não, lá fora está frio. Está gostoso o chá? O quê? O quê você está tentando dizer? Ah, meu bem, não dá de entender o que você diz. Deve ser o efeito do chá. É eu coloquei alguns calmantes nele, pra você dormir um pouco. Já faz três dias que você está aqui e ainda não tomou um banho decente, né? Então você dorme e eu te dou um banho, para você ficar bem cheiroso pra mim. Isso, meu bem, pode dormir tranquilo. Esse nosso inverno vai ser maravilhoso, você vai ver.

6 comentários:

Júlia Paniz disse...

Esse texto deu medo! Mas ficou bem legal ;)

Viegas Fernandes da Costa disse...
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Jéssica disse...

Que tenso. Só eu imaginei uma cena de pedofilia meio sadomasoquista?

TEeeeeeeeeenso

Félix B. Rosumek disse...

Numa primeira leitura, me lembrou o texto que escrevi sobre ciúmes, o "Nussknacker". Pela fala carinhosa do narrador e pela descoberta aos poucos da situação. Provavelmente por isso não teve tanto impacto para mim. Mas creio que, seu tivesse lido o teu texto sem o conhecimento do outro, teria achado bem mais chamativo.

Na segunda leitura, eu comecei a desenvolver uma intepretação bem bizarra da história, em que tudo seria uma cena sadomasoquista e que o cara estaria ali, de certa forma, por sua vontade (e parece que mais gente teve uma idéia aparecida). Mas a parte do calmante acaba com essa segunda intepretação, embora fortaleça a do sequestro.

Com alguns pequenos ajustes, é possível manter a ambiguidade. Se isso for do teu interesse para o texto, é claro.

Tem uma coisa que dá para a gente discutir, não ficando apenas no comentário: em um texto desse, qual a melhor formatação? No "Nussknacker" eu usei parágrafos separados, algumas vezes usando várias frases no mesmo parágrafo, outras apenas uma oração curta. Isso para dar idéia de pausas e adicionar uma dinâmica à fala do narrador.

No teu caso, optasse por fazer um texto corrido. As pausas ficam apenas por conta da pontuação. Na minha visão, dá um pouco a idéia de um monólogo contínuo, sem muita dinâmica. Por outro lado, há bem mais narração do que ações subentendidas no teu texto, então não sei se a opção de parágrafos funcionaria para lidar com tanto texto.

E aí, o que podemos pensar sobre isso?

Fábio Ricardo disse...

ótimos apontamento,s félix. vou começar pelo final.

a ideia de escrever em bloco foi justamente pra reforçar a intenção de monólogo. usei pra mostrar que só tem uma pessoa ali. Mesmo q o outro personagem se comunicasse de alguma forma, eu não quis que o leitor imaginasse essa cena. a ideia foi chamar a atenção pro individuo dominante. se eu der todo o destaque do texto pra ele, vai reforçar a ideia de que ele é q manda, ele detém o poder. tanto que só ele participa da história.

a ambiguidade ser segurada até o final é uma tecnica que eu quase utilizei. cheguei a bolar o texto desse forma, e só depois dele escrto eu resolvi mudar e prolongar o final, jah avisando antes q a pessoa estava amordaçada e amarrada.
mas foi uma questão meramente pessoal mesmo. po, eu sempre trabalho com essa técnica de soh contar no final o que acontece de verdade. achei q dessa vez podia conta rum pouco antes e ver a reação. eu, pessoalmente, achei pior assim.

soh guardei pra mim a questão de ser um sequestro, uma dominação sexual, e a questão do sexo dos dois personagens, que nao citei em lugar nenhum. e o que eu imaginei foi beeem diferente do q todos disseram aé agora. será que posso contar? heheh

Renata de Melo disse...

Encontrei nesse blog uma coisa que sempre me deixou com água na boca: escritores comentando seus próprios textos!! Adorei!!