quinta-feira, 16 de julho de 2009

A sétima badalada

Olhou para trás. Pouco via além das duas linhas fundas sulcadas na neve que se estendiam até debaixo de suas rodas de madeira. No mais, tudo era branco. À exceção dos troncos escuros dos pinheiros que conseguiam se fazer ver através do nevoeiro.

Um bufar resmungado atraiu-lhe a atenção para ao enorme animal à sua frente, com as patas peludas enfiadas na neve e lufadas nebulosas saindo-lhe das narinas. Sacudia a crina, vez por outra, para livrar-se dos flocos que se acumulavam. Mesmo a besta já estava impaciente. Sacou da casaca grossa o relógio de bolso. Já chegava a aurora, diziam os ponteiros na linguagem muda dos relógios. O dia, ainda mais calado, não dizia nada, enterrado na neve e névoa.

Longe, um sino soou a badalada lúgubre do aguardo vão. À segunda badalada, a besta resmungou, com que adivinhando o comando para partir. Uma terceira badalada soou enquanto a neve começava a já cobrir os rastros da carroça. À quarta badalada, nada mudou. À quinta, apenas um suspiro quente em forma de nuvem despencou por baixo do bigode penteado. A sexta badalada trouxe o som de algo se quebrando. Frágil, perdido na neve, próximo e irremediavelmente distante.

Quando uma forma finalmente divisou-se tênue, entre os troncos encobertos pela neve, já não havia mais badalos, marcas na neve ou aguardo. Havia apenas o silêncio branco. E um suspiro quente em forma de nuvem pendurado no ar.

4 comentários:

Félix B. Rosumek disse...

Nossa, esse ficou bem difícil de entender... Eu li várias vezes e ainda não saquei o que aconteceu na história, e onde exatamente o atraso se encaixa.

Acredito que tenha uma lógica aí. Mas, se mesmo após várias leituras bem atentas, o leitor não consegue compreender, pode ser necessário alguma dica a mais.

Rodrigo Oliveira disse...

bah, esse eu achei que tava bem simples. Não tentei encobrir nada. vou ter que reler pra ver o que rolou e depois comento. Mas só depois da votação, pra não influenciar.

Fábio Ricardo disse...

me perdi no algo se quebrando...

Viegas Fernandes da Costa disse...

Rodrigo, lembrei-me de um diálogo do filme "Cinema Paradiso", o rapaz que aguardou sob a janela da escolhida os quase 100 dias determinados. Ela chegou tarde, não? Tarde demais, é verdade! Gostei da construção deste.
Abraço,
Viegas