quarta-feira, 15 de julho de 2009

O atraso

Ela não era de atrasos. Nunca atrasava, para falar a verdade. Toda sua vida era como um relógio, tudo com data e hora marcada, sem atrasos, sem adiamentos, sem cancelamentos.

Mas nesse dia, percebeu que estava atrasada. Podia ser qualquer dia, menos esse. Justo no seu aniversário de um mês de namoro. Ela sabia que o namorado nunca deu muita bola para essa coisa de datas, mas ainda assim, para ela isso era muito importante. Se já fossem, sei lá, uns quatro anos de namoro, ou até depois de casados, tudo bem. Mas atrasada justo no primeiro aniversário que comemoravam juntos? Não podia ser verdade.

Pensou em ligar para sua mãe. Choraria as mágoas como sempre fazia. Não importava o motivo, grande ou pequeno, sempre que algo a preocupava ou desapontava, ela ligava para sua mãe. Mas dessa vez, ela titubeava. Sabia exatamente o que sua mãe iria dizer. Sua mãe não aprovava seu namoro, nunca gostou do rapaz. Com certeza ia colocar a culpa no namorado da filha, falando sobre más influências e falta de respeito. Ia discursar sobre como a garota havia deixado de ser aquela menina correta. Ia colocar a culpa no namorado. E o pior é que ela sabia que era verdade. Ela, que nunca foi disso, agora estava atrasada e não sabia o que fazer.

Talvez devesse ligar para o namorado. Dizer que estava atrasada e pedir desculpas. Talvez até perguntar o que devia fazer. Mas ficou com medo. Não que tivesse medo do namorado, claro que não, mas ela nunca esteve atrasada antes, então não sabia qual seria sua reação. Será que ficaria nervoso? Poderia, quem sabe, brigar com ela e terminar o namoro? Será que iria xingar? Talvez até bater? Não, não, ele não era disso, tinha certeza. Mas como nunca tinha atrasado antes, não tinha ideia de qual seria sua reação, não sabia o que esperar.

Resolveu, então, respirar fundo e acabar com tantas dúvidas. Mesmo com medo, sabia que adiar ainda mais os problemas não iria resolver nada. Quem sabe seus medos eram bobos, e ela nem tinha com o que se preocupar? Quem sabe era um atraso normal, sem maiores complicações? Fez um rápido sinal da cruz, em silêncio, e entrou na farmácia. Com o pacote do exame de gravidez na mão, sabia que descobriria, de uma vez por todas, se era apenas um atraso, ou se devia se preocupar.

6 comentários:

O Dono do Bar disse...

isto NAO é o final da tua história

- Oi, meu amor. Desculpe pelo atraso!
- Hã? Atraso?
- Sim, disse que viria antes, mas eu quero falar que...
- Estou irritado! Eu vou te perdoar, mas nunca esqueça disso!

JLM disse...

isso aki é um blog de escrita coletiva é?

Marina Melz disse...

Mais ou menos na metade, eu tinha pensado o final. Talvez por ter escrito sobre o mesmo tema!

Félix B. Rosumek disse...

Mesmo achando que alguém iria escrever sobre isso e já tendo lido o texto da Marina, ainda conseguiu me pegar. Fiquei pensando porque a guria estava tão encanada com um atrasinho de nada... Legal!

É o tipo de texto que está ali para a primeira lida, depois vai perdendo força. Mas acredito que a intenção era exatamente essa.

Rodrigo Oliveira disse...

Eu achei meio previsível. Mais uma vez, talvez seja a questão do suporte. Se não fosse esse o tema, talvez conseguisse fazer funcionar o fator surpresa que tentou dar ao texto. Mas tá bem amarrado. Eu tiraria uma ou duas palavras "atrasado(a)" ali do meio que acho que não precisava reforçar. Mas no mais tá bem feitinho.

Júlia Benthien Paniz disse...

Achei muito bom, pensei no final no meio do texto, mas depois achei que não seria mais. Voltei a pensar no penúltimo parágrafo, e daí confirmei. Criativo ;)