quinta-feira, 7 de maio de 2009

Diálogos

- Cara, viu a nova ópera que vai estrear no teatro?
- Ópera? Desde quando tem isso por aqui?
- Na verdade nunca tem, mas é que agora é cult dizer que gosta de ópera.
- E daí tu vais?
- Não sei, mas to convidando o pessoal.
- A única ópera que ouvi foi Tommy, do The Who, pra dizer bem a verdade.
- Pô, isso era ópera? Eu já ouvi algumas músicas desse cd, mas achei que era rock.
- …

- Cada louco que me aparece. Hoje o Guilherme veio com uns papos de ir ver uma ópera. Quanta maluquice!
- Jura que ele vai? To louca pra ir! Vou até colocar alguma coisa no twitter pra ver se alguém se empolga.
- Não brinca.
- Acho o máximo.

- Viu que aquele comediante que ganhou o Big Brother 13 tá no Zorra Total?
- Não vejo graça nele mesmo.
- Eu também não.
- Na real eu me mato de dar risada com aquele personagem mexicano que ele faz. Mas sei que é cult dizer que não gosta de nada disso.
- Ui! Sério? Vai ler Millôr, que é bem melhor.

- Ô, Guilherme. A que horas é a ópera?

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Françoise

Françoise é o maior produtor cultural do Estado de Santa Catarina. Foda-se Françoise. Foda-se seu sotaque forçado, seus lenços, seus chapéus. Foda-se o bigodinho ridículo, a barba mal feita e o cabelo despenteado. Foda-se Françoise.

Dizem que Françoise ama tanto a arte que escreveu sua primeira ópera na sétima série. Fodam-se as óperas de Françoise. É uma bicha, isso que ele é. Deu o rabo para cada um dos empresários do ramo cultural do estado, por isso que consegue emplacar seu espetáculo nas maiores casas. Uma bicha, eu disse, uma bicha.

Agora ele está na cidade. Se acha o tal, fica no hotel mais caro do centro e faz questão de comer no restaurante que mais atrai a burguesia. Mesmo que ele tenha nascido aqui, nessa bosta de cidade, e pudesse muito bem ficar na casa dos pais dele e almoçar no restaurante da universidade. Foda-se a pretensa beleza Cult de Françoise, que come em lugares caros e só toma suco.

Françoise o caralho. É uma bicha. Uma bicha louca. Eu sei que ele é uma farsa. Eu sei que ele tinha medo de escuro quando era pequeno, e que tinha uma queda pela Mariana, na sétima série. E agora vem, se fazendo de veado só pra conseguir mais fama. Porque está na moda ser boiola. Maldita bicha que se faz de veado só pra fazer sucesso com sua ópera.

Eu sei que Françoise é uma farsa. Uma bichinha que não entende nada de arte. Todas as suas ideias são roubadas. Suas óperas não têm alma porque ele não sabe o que é a alma. É uma bicha, um veadinho que se faz de Cult para vender suas óperas.

Oras, Françoise é o maior produtor cultural de Santa Catarina, era só o que me faltava. Ele nem sabe escrever uma ária que não repita as tragédias já utilizadas por todos os que vieram antes dele. Suas óperas são lixo, lixo. Todas as suas ideias são roubadas. Como ele fazia desde sempre. Desde a sétima série. Foda-se Françoise e suas óperas roubadas.

Essa noite eu vou até lá. Vou encontrar ele nos bastidores, nos túneis escuros do teatro. Ele vai ver só. Françoise, o maior produtor cultural do Estado de Santa Catarina, encontrado esfaqueado atrás do palco durante sua ópera roubada. Sua maldita ópera roubada quando ele estava apenas na sétima série.

Françoise, a bicha. Esfaqueado pelo verdadeiro autor de sua única ópera. Foda-se sua ópera, fodam-se todos os cantores de ópera. Foda-se, Françoise. Foda-se esse seu nome falso. Foda-se esse seu sotaque inventado. Foda-se a sua ópera, Françoise. Foda-se a sua ópera.

Esta noite, Françoise. Essa noite você vai aprender que só a dor cria coisas bonitas, Françoise. Esta noite, Françoise, a bicha, esfaqueado durante sua ópera. Sua ópera. Há! Sua ópera, há! Sua o caralho, Françoise. Ela nunca foi sua. Espera, Françoise. Esta noite, Françoise.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Prima Donna

Do alto do palco era difícil identificar os rostos da platéia. Certamente teria alguns conhecidos, sem dúvida os pais — a mãe de olhos chorosos orgulhosos— mas era-lhe impossível distinguir quais as cabeças enegrecidas pelas sombras lhe eram familiares. Sobre ela, a luz forte cintilava-lhe os cabelos louros espiralados. Um farol brilhante frente um mar de expectativas.

No silêncio que antecedia a primeira nota, permitiu — como se tivesse escolha! — à memória levar-lhe à primeira nota que lhe tocara o coração. Estava de quatro, os joelhos no azulejo, as mãos metidas na espuma, a esponja indo e vindo pelo chão. Um som agudo, poderoso, disparado por uma caixa de som em algum lugar, percorreu cômodos, corredores, adentrou a área de serviço, contornou a tábua de passar e tomou-a por trás. Pôde sentir a nota possuí-la, pondo-a de pé num susto. As notas seguintes a dardejaram quase fazendo-a tombar sobre a pilha de roupas a passar. A melodia envolvente, a potência do som, e, de repente, o silêncio completo.

Seguiu receosa em procura da origem do som. Passou pela cozinha até chegar na sala. Viu a patroa com a última edição da mais famosa revista de personalidades. Colado à capa vermelha de letras brancas, um encarte escuro, com letras douradas e uma daquelas pinturas antigas de homens de peruca e meias até os joelhos.

— Que música era aquela, Dona Marlene?

— Ah, veio nesse CD junto com a revista — disse a patroa atirando o encarte e o CD, recém tirado do aparelho de som, no sofá. — Que gritacêra, né?

— É mesmo. Que alto! Mas até que achei bonito.

— Mesmo? Quer ficar pra você?

— Pode mesmo, Dona Marlene?

— Pode sim, Carmen. Fica de presente. É muita gente gritando pro meu gosto — disse rindo.

— Puxa, ‘brigado, Dona Marlene. E pode deixar que eu já vou terminar o serviço. Depois eu ouvo isso.

— Ouço, Carmen. O certo é ouço. Ouvo não existe.

Voltou ao balde enquanto a patroa ria-se da sua ingenuidade e punha-se a par da nova gravidez da cantora-apresentadora-modelo-atriz de televisão.

O silêncio no palco se sustentava. A excitação da platéia no salão lotado, por pouco, faiscava. Como se houvesse uma eletricidade no ar. A arrepiar-lhe os pelos do braço, como a lembrança daquele dia em que chegou em casa com o CD de brinde da revista de personalidades.

Leu com certa dificuldade os nomes incomuns no verso do encarte — um até bem parecido com o dela — enquanto a música tomava conta do quarto apertado, escorrendo pelas caixinhas de som do portátil no chão, ao lado da cama. O quarto foi se enchendo pelo som que subiu pelos rodapés faltantes, pelos pés da cama, numa melodia fluida, densa, até transbordar-lhe pelos olhos. Naquele dia decidiu o que queria para si. Nos meses seguintes o quarto permaneceu alagado pelas vozes possantes e melodiosas, pelos acordes profundos, penetrantes, reverberantes. Foi à loja de usados em busca dos números passados da revista que também viessem com CDs. Procurou CDs usados dos nomes estampados no verso do encarte. Garimpou nos camelôs títulos semelhantes. E passou todas as suas noites ouvindo aquelas vozes, deixando-se inundar até que elas lhe transbordassem pela boca. Até que ela estivesse ali. No silêncio suspenso, no alto do palco, sob a luz.

Quando abriu a boca pôde ouvir a platéia prender a respiração. Até os cupins nas paredes carcomidas de madeira e as traças nas cortinas furadas de pano vulgar cessaram seu mastigar. O próprio palco de tampo de mesa sobre cavaletes arqueados parou de balançar. As cadeiras de palha trazidas emprestadas dos casebres próximos pararam de gemer. A luz sobre a cabeça iluminou o vestido reformado e fulgurou nos seus cabelos louros quebradiços e enrodilhados. E a primeira nota veio-lhe escalando a garganta, percorrendo o interior do pescoço, saltitando pela língua, apoiando-se nos dentes e, num último impulso, precipitou-lhe dos lábios. Cortou o ar uma nota e meia longe do tom, tremulou até quase chegar perto do tom desejado, e ali ficou. E foi seguida por outras notas rápidas, apaixonadas, igualmente imprecisas. A platéia atenta, a mãe às lágrimas em alguma cadeira nas sombras, o velho pai orgulhoso. O palco finalmente era dela.

sábado, 2 de maio de 2009

Tema da Rodada

Tema da Rodada: "Ópera"
Postem até dia 6.
Deu.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

VOTAÇÃO - CONTINUAÇÃO DE UM CONTO

Leia, vote, participe.

* Esta votação vai até o dia 30/04/09.

INVISÍVEL II

Algum tempo se passou desde a última vez que Mica foi visitar o seu tatuador predileto. Ela já não era mais uma menininha e nem tampouco imaculada. Mas ainda tinha a mesma pele alva e sem manchas de anos anteriores. Embora gostasse mesmo de sentir as agulhas cravadas em sua derme, criando e recriando imagens visíveis apenas por alguns instantes em meio ao sangue que vertia do seu próprio corpo, agora ela sentia necessidade da tinta.

Seria uma quebra de seus próprios paradigmas e não queria que fosse algo pequeno. Ouvia comentários de tatuados com a expressão “fechar as costas” e, por um momento, pensou que esse fosse o caminho. Uma mulher com a pele macia, clara e sem uma mancha sequer, mas com um segredo a revelar tão logo fosse despida. A ideia não foi levada adiante, pois se as costas estivessem todas tomadas pela tinta, não poderia usar roupas que deixassem os ombros à mostra, e ela sabia que isso era algo que não poderia abrir mão.

Ligou para Denis marcando o horário. Em meio a sua agenda repleta de compromissos profissionais não havia mais aquela folga toda após as aulas, como na época em que ainda era uma jovem estudante. Mas ela ainda lembrava o caminho para sua diversão predileta de anos atrás.

- Oi, Mica. Quanto tempo, hein?!
- Pois é. O tempo hoje em dia está cada vez mais escasso.
- Já tem algo em mente pra hoje?
- Sim, hoje vou querer com tinta.

Denis parecia perturbado. Aquele desejo súbito por marcar a pela com tinta era algo que não esperava de sua cliente. Não daquela cliente, pelo menos. Mas, mesmo visivelmente desapontado, foi preparar os materiais.

- Sabe de uma coisa, Denis. Vamos fazer do jeito de sempre. Mas hoje quero fechar as costas.

Denis tornou a sorrir.

Invisível

Quando ela saiu, ele arrumou os apetrechos deixados sobre a mesa. Limpou a máquina, retirou a agulha e recolheu os pedaços de gaze ainda úmidos de sangue. Foi até a porta de vidro e trancou-a, fechando as cortinas por detrás, sem esperar por mais clientes durante a tarde. De volta ao estúdio, Denis pegou a máquina fotográfica, discretamente apoiada ao lado do grande espelho. Deixava suas mãos tremerem visivelmente agora: fazia muito tempo...

Apagou a luz e foi para trás da cortina, onde apenas a tela de um laptop brilhava sobre uma mesinha. Encaixou os fios e deixou os dados fluírem entre as máquinas. Sentado no escuro, ele aguardava, enquanto encostava as gazes no rosto e aspirava o aroma do sangue coagulado. Tendo baixado o que queria, deixou o vídeo rodar várias vezes. Ali estava ele, acariciando suas coxas disfarçadamente enquanto trabalhava, observando sua deliciosa beleza juvenil enquanto ela se contorcia para enxergar seu trabalho. Ele tentava trabalhar o mais próximo possível, mas sem constranger a garota. Mesmo sob a máscara, sentia o cheiro forte de sua fertilidade, tão próxima, tão ao alcance... Ah, se não fosse pelas malditas luvas...

Masturbou-se violentamente, várias vezes, enquanto observava o vídeo. Ela tentava fitar o espelho e, quando o fazia, era quase como se estivesse olhando nos olhos da câmera. Olhos que, naquele momento, eram os seus. Sim, ele a teria... Em algum momento ela seria sua... Ele não sabia quando, nem como, mas em alguma de suas visitas ele fecharia as cortinas da porta de vidro e aquela alva pele seria o palco para outras artes.

Talvez ela se oferecesse abertamente, pois não era seu pêlo que se eriçava quando era tocada? Não percebia ele a rigidez dos bicos de seus seios por baixo das roupas? Mas Denis poderia obter o que queria por outros meios. Se ela fazia desenhos invisíveis, era porque os pais eram rígidos, e ele poderia fazer chantagem... Ou talvez tivesse que usar a força?.. Ele tentava espantar esses pensamentos perversos, mas tremia de pavor e excitação ao fantasiar a cena. Ainda tinha muito medo das conseqüências, mas uma hora ele mandaria tudo ao inferno. E então a teria... Ah, sim! Ele tornaria seu desejo visível e a teria, toda só para si...

domingo, 26 de abril de 2009

Eterna

- Tem certeza?
- Sim, já pensei bastante nisso.
- Mesmo?
- Mesmo.
- Mas por que a mudança?
- É hora de mudar. É hora de ser eterno.
- E se você se arrepender?
- Daí eu vou sempre olhar para ele e relembrar. E crescer.
-Acho estranho, você era diferente.
- Só por que não usava tintas? Era apenas mais uma que você tatuava.
- Mas era diferente, você era especial.
- E continuarei sendo. Mas agora serei especial de outra forma.
- E para outra pessoa.
- E para outra pessoa.

Foram as últimas palavras que trocaram antes do motor começar a vibrar as agulhas no ar. Na nuca da menina, um coração com as letras iniciais de seu nome e do nome do namorado. Uma tatuagem comum, normal. Mas para ele, aquela foi a tatuagem mais difícil de se fazer.

sábado, 25 de abril de 2009

Alegria, alegria

E ele acariciou a nuca dela, sem saber que a ponta dos seus dedos deslizava sobre a tristeza. Conseguia tocá-la.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Invisíveis

Estacionou a minivan francesa sob uma árvore em frente à boutique de roupas da moda. Conferiu a maquiagem no retrovisor interno. O batom cor de pêssego delineando os lábios, a sombra discreta num tom acobreado-esfumaçado, os olhos contornados pela delgada linha negra donde partiam os cílios alongados à rímel. Acionou o alarme sem olhar para trás enquanto os scarpins cor de areia iam pisando o branco e preto da calçada arborizada. Cruzou a rua no final da quadra e entrou no terreno de gramado bem cortado. A porta de vidro embaixo do letreiro em preto e prata do estúdio refletia os cabelos alourados em salão, o tailleur sobreposto a uma camisete branca, o pescoço envolto por duas voltas de ouro branco, a saia pouco acima dos joelhos revelando as pernas recém depiladas que terminavam nos calçados que já pisavam o capacho. A porta se abriu fazendo soar uma campainha eletrônica. Não demorou muito o homem saiu de trás da cortina, tirou a máscara do rosto para revelar um sorriso e disse:

— Bem no horário, Amanda. Só uns cinco minutos e já atendo você, tá?

Ela sorriu de volta em consentimento, cruzou devagar as pernas e pegou uma revista de tatuagens para folhear. A agulha se fez ruidosa do outro lado da cortina sobre a pele de algum desconhecido. Em pouco tempo silenciou. Mais uns minutos depois e o tatuador saiu de trás da cortina com um rapaz jovem de alargador na orelha e o pulso inchado por uma recém terminada tatuagem. O tatuador acompanhou o rapaz à porta, despediu-se e tornou a fechar a porta. Conferiu o relógio na parede e falou:

— Prontinho. Você é o último horário da manhã, o próximo cliente é só lá pelo meio-dia. Agora eu sou todo seu.

Ela sorriu sincera e se levantou, deixando a revista sobre a cadeira. Ele a acompanhou ao outro lado da cortina, logo depois de lançar um último olhar à porta.

Do outro lado da cortina, mais quadros na parede branca, com corpos coloridos em molduras minimalistas. A parede do fundo era de um tom berinjela, as laterais brancas e o piso preto brilhante como o da recepção. Um cabide aguardava num canto próximo à maca e um grande espelho ocupava parte da parede ao lado da mesma. A mulher pendurou o tailleur no cabide, ao que o espelho refletiu um decote revelador na camisete. Pelo reflexo ela pôde ver os braços decorados a envolverem e o rosto sorridente aparecer, por trás, ao lado do seu. Ela sorriu para si mesma. Virou-se e, num movimento rápido, foi colocada sentada sobre a maca. Sentiu a mão habilidosa subir-lhe pelas pernas lisas e pelas ânsias comprimidas no peito. Um punho agarrou-lhe a lingerie por entre as pernas e puxou-a junto com repreensões arraigadas, e entulhos de expectativas não cumpridas. Sentiu a saia subir-lhe ao ventre carente e ofereceu o peito aberto, amplo e leve a outro peito livre. Sentiu um coração bater contra o outro, como dois corações deveriam bater, deixou-se penetrar além da carne. Sentiu a agulha entrar e sair seguindo seu traçado, deixou-se possuir pela arte, pelo artista, por ela mesma. Lançou o corpo para trás e, com as costas sobre a maca, pode ver-se no espelho, de ponta cabeça, os cabelos louros pendurados e o corpo seguro por braços de um colorido bonito. Viu-se sorrir um sorriso pêssego.

Fechou o botão aberto da camisete ajeitando a corrente de ouro branco. Conferiu a aparência no espelho e observou as marcas que ninguém via. Invisíveis, mas mais coloridas que os corpos na parede, mais brilhantes, mais vistosas. Olhou para o homem que retornava do banheiro, sorriu menina e fez um tchauzinho com a mão, depois de assoprar um beijo. Saiu pela porta de vidro pelas calçadas branquepretas sem olhar para trás.

O homem conferiu o relógio. Em meia hora arrumou o estúdio, higienizou todo o lugar, conferiu a agenda. Logo a menina estranha chegaria. Ele gostava dela. Garota bacana. Michaela – 12h15. Ouviu a porta abrindo e saiu de trás da cortina.

— Oi, Mica! Quanto tempo! Bem no horário.
— Oi, Denis. Ainda lembra de mim?

A única menina que ele conheceu ou ouvir falar que fazia tatuagens sem tinta. Assim, a sessão não demorou. Em duas horas a cliente olhava-se no espelho, com a saia levemente levantada. A menina pagou o tatuador, despediu-se com um beijo no rosto, e saiu feliz com a saia balançando pela calçada e os cabelos achocolatados vivos sob o sol. Percorreu as quadras até o prédio onde morava, cumprimentou o porteiro simpático e entrou no elevador no térreo. Apertou o botão do décimo primeiro andar e o aparelho se pôs em movimento. No display escuro apareceu em vermelho a sigla “G1”. A porta se abriu e a garota ruborizou-se à visão da mãe. A mulher hesitou por um instante e logo entrou no elevador.

— Oi, fofinha. Como foi lá na Renata?
— Tudo bem — Respondeu a menina com um sorriso franco.

As duas olharam para a frente e viram, no espelho do elevador, dois sorrisos largos refletidos. Um vestido de saia de pregas e uniforme escolar; outro de tailleur, ouro branco e lábios de pêssego.

No espelho do estúdio, o homem se perguntava que tatuador que se preza teria as duas clientes mais fiéis sem uma marca sequer no corpo. “Tatuador de bosta”, pensou divertido rindo pra si mesmo.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Tema da Rodada

O tema da rodada será "Continuação de um conto". Para tanto os duelistas terão, até o dia 26, que criar uma continuação (tomem a palavra como lhes convier) do conto vencedor da última rodada. Neste caso, o conto "Invisível".

Bola pra frente.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Votação

Está aberta a votação para os textos com o tema Tatuagem.

Coloque sua opinião neste tópico até o dia 20 de abril, segunda-feira.

Cicatriz

Em um impetuoso movimento, ele desenhou seu nome no corpo. Muito mais do que cinco letras gravadas em tinta, era uma declaração de amor e união. Mostrou-lhe, e ela soltou um riso nervoso. Desconversou quando ele perguntou se ela não acharia romântico fazer o mesmo. Duas semanas depois, ela pedia para dar um tempo. Falou que não podia continuar enganando-o, fingindo que sentia um amor tão intenso quanto o dele. Ele se desesperou, chorou, seu mundo seguro e confortável ruiu. Tinha esquecido que, ao contrário de tatuagens gravadas na pele, as paixões nunca duram para sempre.

Sozinho e perdido, ele demorou a se adaptar à nova realidade. Tentou sobreviver em um mundo que lhe parecia pálido e cinzento, desprovido de sua tépida companhia. Buscou apoio nos amigos, mas sua companhia lhe parecia vazia e distante. Procurou o calor de outras mulheres, mas elas lhe pareciam geladas e banais. A presença dela estava em tudo, nos lençóis que outrora compartilhavam e nos versos das músicas que ouviam juntos. Ele tentou se livrar de tudo aquilo, mas não conseguiu atirar fora as lembranças. Tinha sentido que, assim como uma droga inebriante e pesada, as memórias só precisavam de um pequeno estopim para uma recaída.

Pois havia a tatuagem. As letras de seu nome lhe saltavam aos olhos todo dia no espelho. Ele passou a evitar fitá-la, mas não adiantou. Sua presença era sentida, como se queimasse na pele e na mente. O nome, e, trazida à tona pelo nome, a imagem. Não, ele não poderia conviver com aquilo. Sua libertação dependia do fim daquela marca. Então, em uma noite de desespero, ele virou uma garrafa de vodca e pegou uma navalha. Encostou-a na pele e pendeu a respiração. A lâmina deslizou, afundando com facilidade nas camadas mais profundas da pele, e ele quase trincou os dentes com a força que os cerrava. Com cada corte, lágrimas jorravam, lágrimas de dor, na pele e na alma. Cada pedaço de seu corpo lacerado era um pedaço de seu coração arrancado. Resistiu apenas até terminar o serviço, desmaiando e esperando o esquecimento definitivo.

Porém, este não veio, e ele acordou no dia seguinte. Fraco pela hemorragia e com a ferida infeccionada, mas ainda vivo. Aquilo lhe mostrou que, se o corpo poderia sobreviver a uma injúria daquelas, o espírito poderia continuar, mesmo alquebrado. Tentou seguir com sua vida em paz, escondendo de todos o local mutilado. Não precisava mais olhar para nenhuma reminiscência de tempos idos, e, com o passar do tempo, as lembranças dela foram lentamente se esvaindo. Mas seu coração jamais conseguiu bater novamente do mesmo modo. Ele tinha se livrado de tudo o que podia lhe lembrar dela, mas não conseguiu evitar a mácula em sua alma. Tinha percebido que, assim como uma tatuagem extirpada à força, deixando exposta uma marca que jamais se cura, nenhum amor verdadeiro abandonava o coração sem deixar uma eterna cicatriz.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Eternos

Olhava o casal apaixonado. Trocavam olhares, toques, sorrisos. Era um grande passo para eles, um dos mais importantes que já haviam tomado juntos. A menina, nervosa, mordia as pontas dos dedos enquanto esperava sua vez, olhando o rosto do namorado em busca de qualquer anúncio de dor. Ele disfarçava as fisgadas da agulha na pele, fingindo não sentir nada, para tranqüilizá-la.

Na hora de pintar a pele, puxou o traço do L bastante para a esquerda. Deixou a ponta elevada, renovando o formato do desenho. O U no final do nome recebeu um traço longo contínuo, que lembrava uma cauda de dragão que se enrascava pela batata da perna.

Nela, a mesma técnica. O acento no A ficou num ângulo que poderia ser perfeitamente utilizado para ser substituído por uma estrela no futuro. O F trazia um espiral que lembrava as tribais da moda, que com um pouco de cor poderia abrigar borboletas, fadas, o que quer que ela precisasse para superar o sofrimento do fim.

Eles eram só amores, só beijos, só carinhos. Ele se fazia de forte para tranquilizá-la, segurava sua mão sem apertar. Ela era só sorrisos, só rubores.

Mas ele já tinha visto essa mesma cena centenas de vezes. Já havia tatuado todos os nomes imagináveis. Amandas, Anas, Nathalias, Larissas, Alices, Marinas. Andrews, Marcelos, Brunos, Thiagos. Todos eles, relacionamentos eternos. “Eternos como uma tatuagem”, cada casal repetia, acreditando ser criativos e românticos.

Mal sabiam que ele, mais do que tatuar nomes, era um especialista em transformar Amandas em índias, Thiagos em borboletas, Anas em dragões, Marcelos em fadas, Marinas em magos medievais, Brunos em anjos. Assim como os romances são eternos como as tatuagens, eles podem ser pintados por cima, renovados, atualizados, trocados. Substituídos. Assim como as tatuagens.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Alegre

- Tristeza.
- Tristeza?
- Tristeza.
- Posso perguntar?
- Se eu não precisar responder.
- Pra que tatuar tristeza?
- ...
- A alegria não é bem mais bonita?
- ...
- Olha, moça, não acho legal ter pro resto da tua vida a tristeza marcada na pele.
- Não quer a grana? Posso atravessar a rua.
- Tá certo. Onde?

(...)

- O que significa?
- O que você acha?
- Ah, deve ser uma coisa importante pra você.
- Certamente.
- Alegria? Força? Coragem?
- Tudo isso.
- Num só símbolo?
- Tu vê, né. 

Representação

Ricardo folheava revistas. “Qual é o signo que me define como pessoa?”, questionava-se. Não encontrava nada até que botou os olhos no tradicional yin-yang. Ainda não era aquilo tudo, mas a ideia podia ser boa, afinal, era do equilíbrio daquela figura que surgiam as mutações. Ele definitivamente gostava do conceito de equilíbrio e não abriria mão de ter uma representação disso em seu próprio corpo. “Todo mundo tem tatuagem hoje em dia, por que não posso ter uma?”

O problema todo era definir o que seria tatuado e em qual parte do corpo. Jamais tatuaria o nome da namorada, como fez um velho amigo, ou dragões, lagartos, índios, como a maioria dos homens que conhecia. Resolveu criar um símbolo próprio. Seria marca registrada dele. A representação dele por ele mesmo. Esboçou vários desenhos abstratos até que se lembrou do yin-yang. “As mutações! Posso ter uma própria”. Rabiscou muito até chegar ao ponto que queria.

“É isso. Simplicidade, estética, significado”. Saiu correndo com o papel em mãos. Parou em frente à Casa do Tatuador, mas ainda não sabia qual seria a parte do corpo mais indicada. Bíceps? Antebraço? Costas? Áreas mais escondidas? Pensou muito até definir que faria a tatuagem no pulso. Seria seu mais novo relógio, para o resto da vida. Mostrou o desenho ao tatuador, sentou-se na cadeira e esperou o momento. “Malditas agulhas”, pensou em voz alta.

E fugiu...

terça-feira, 14 de abril de 2009

Invisível

O celular a acordou tocando uma música japonesa numa versão americana teen. Abriu os olhos levemente puxados de um castanho profundo e sonolento para ver, sobre a penteadeira, o uniforme passado e dobrado que a aguardava. A saia escura de pregas até os joelhos, a camisa branca de botões, as meias brancas acompanhando as sapatilhas pretas. Despiu o pijama e observou a pele alva e sem manchas no espelho. Quase imaculada, não fosse por uma minúscula espinha na testa, prontamente coberta com pomada. Vestiu-se olhando pela janela do décimo primeiro andar do edifício cor marfim a cidade abaixo dela, há muito acordada. Escovou os cabelos lisos cor de chocolate-quatro-ponto-sete-sete cortados à altura dos ombros e de franja impecável. Olhou-se novamente no espelho com um meio sorriso de contentamento, vendo a imagem do que a mãe categorizaria como “fofa”. Juntou os cadernos dentro da pasta a tiracolo e encontrou os pais para o café da manhã na cozinha branco-minimalista, com o sol filtrado pelo para-sol das janelas. Enquanto o pai lia o jornal do dia e a mãe via as notícias na tevê suspensa, comeu o mamão papaia descascado, tomou o iogurte com o cereal de marca e comeu meia fatia de pão de iogurte com manteiga light e geléia belga, terminando com o suco de laranja. Desceu os onze andares pelo elevador iluminado e sentou-se ao lado do pai no SUV alemão prateado. No rádio, as notícias relidas por um locutor traziam mais do mesmo outra vez. Despediu-se do pai com um beijo no rosto, saltou do carro parado em fila dupla na porta do colégio e entrou pelos portões alaranjados para as aulas do dia.

Sentou-se no mesmo lugar de sempre. Ouviu a mesma professora de toda segunda-feira. Naquela segunda, novamente, depois de já bastante tempo, olhava mais para o relógio do que para a professora. Os ponteiros dos segundos com dificuldade empurravam o dos minutos contra o irresoluto ponteiro menor. A perna saltitava num levantar-e-abaixar na ponta do pé. Rabiscava e desenhava na borda com caderno, com cuidado para não manchar a mão com tinta. Hoje queria a pele alva livre de qualquer mancha. No intervalo ligou do celular para a mãe, avisando que iria almoçar na casa da Renata. Não avisou Renata. Abriu a agenda e viu marcado o apontamento em caneta colorida: Denis - 12h15. Retornou à sala de aula para ver os ponteiros girarem sem saírem do lugar. E os professores, falando, fazerem o mesmo. Desfrutou do friozinho na barriga que não sentia há muito tempo. Não sentia, de fato, há muito tempo. Mas logo, assim que o relógio terminasse a última volta, mudaria isso de novo. O sinal soou avisando o fim das aulas e o início da correria do meio-dia. Os portões alaranjados vomitando infantes corredores nas calçadas, ruas, sinais, entre os carros parados em fila dupla de mães esperando os filhos que estavam recebendo alguma educação.

Saiu a passos rápidos. Seguiu pelas calçadas arborizadas com os cabelos achocolatados ao vento, a pele clara esquentando ao sol. Chegou ao estúdio às 12h13 e entrou rapidamente pela porta de vidro sob o letreiro preto e prata. As paredes brancas decoradas com certificados e fotos de corpos tatuados. Por trás de uma cortina saiu o homem sorridente em camisa sem manga e braços decorados.

— Oi, Mica! Quanto tempo! Bem no horário.
— Oi, Denis. Ainda lembra de mim? — perguntou sorrindo.
— Faz um tempo mas, dos meus clientes todos, de você eu não ia esquecer. —respondeu dividindo uma risada com ela.
— Ah, Denis, se todo mundo fosse igual não ia ter graça.
— O mesmo de sempre, então?
— Isso aí. Pode ser aqui na coxa, do lado de fora. — Ela disse, sentando na maca e levantando a saia que escondia a pela clara da perna jovem.
— Trouxe algum desenho de referência?
— Não, não. Hoje você pode ficar à vontade. Vou deixar o artista criar.

O tatuador ajustou as agulhas esterilizadas, já de luvas brancas, a máscara cobrindo a boca. Mesmo assim, pôde vê-lo sorrir com olhos quando disse “tem certeza que dessa vez não vai querer mesmo que eu use as tintas?” Ela sorriu de volta:

— Pode pôr esses potinhos pra lá! Você devia ficar feliz, ao menos economiza no material. Devia me fazer um desconto, isso sim!

Ele deu uma gargalhada e o zumbido da agulha soou metálico no estúdio. Ela franziu a testa aguardando a primeira estocada, prevendo a dor à qual nunca se acostumava.

A agulha se aproximou da pele macia. Se fosse possível observar de perto, seria possível ver o aço brilhante e delgado se aproximando veloz. Antes do toque, os mínimos pelos da coxa se eriçando, levantando guarda contra a lança tatuadora. Um arrepio percorreria a perna, galgando as costas, até erguer os cabelos da nuca. Só então a agulha tocaria a pele, que se curvaria para dentro oferecendo uma breve resistência que, logo após, cederia, rompendo-se e dando acesso à carne tenra escondida pela brancura. A agulha retornaria pelo mesmo caminho, batendo em retirada do orifício criado, deixando escapar em seu encalce um gota vermelha. Única tinta que mancharia a pela clara. Só aí um impulso percorreria a coxa que se contrairia, o sangue irrigando rápido, sob a pele, os vasos da região enquanto a agulha voltava a cargas por vezes e vezes seguidas, guiadas pelas mãos hábeis do tatuador. Tudo muito rápido. Valiosas frações de segundo.

O artista parava volta e meia para limpar uma área ou outra que estivesse sangrando, para deixar a cliente tomar um ar ou uma água, ou para fazer uma piadinha qualquer. Ela apreciava o momento. Observava de perto o trabalho quando conseguia, admirava o trocar de tom da perna. Via o desenho brotar-lhe pelos poros. Mordia o lábio quando a agulha tocava alguma área mais sensível, se segurava contorcendo-se de riso e dor. Xingou o tatuador duas vezes. Durante todo o trabalho tinha um espelho grande ao lado da maca para poder acompanhar o procedimento. Sem o uso de tintas, o trabalho foi rápido. Em duas horas havia terminado.

Levantou-se segurando a saia e olhou-se no espelho. Havia surgido algo sobre a pele imaculada, alva e sem manchas. Ainda um pouco inchado e manchado pelo pouco de sangue, mas bonito ainda assim. Sim, bonito. E ela sentira cada pequeno ponto. Cada linha, cada nuance. Em breve, invisível para os demais. Depois de um tempo, invisível mesmo para ela. Mas quando desaparecesse por completo dos olhos, ela sempre poderia retornar mais uma vez ao estúdio, se quisesse. Ela sentiria quando a hora chegasse outra vez.

domingo, 12 de abril de 2009

Tema

Vamos, então, a mais uma rodada.

O tema do texto é tatuagem. Sem contextos, formatos, visões. Confio na criatividade de vocês.

Textos postados até 16 de abril.

(Desculpem o atraso!)

terça-feira, 7 de abril de 2009

Votação - Conto do futuro

Está aberta a temporada de votos. Opa! Aqui não é espaço pra fazer graça.

Então está certo. Declaro aberta a votação para o tema conto do futuro.
Escolha o melhor texto e indique nos comentários deste tópico. Afinal, aqui o seu voto decide quem vai levar a rodada.

Grande abraço a todos.

Um breve relato histórico

Hoje nasce o primeiro filho de um de meus netos. Sou extremamente reticente em crer que serei bisavô, então fica difícil chamá-lo de bisneto. Parece que foi ontem que conheci a mãe dos meus filhos, mas na verdade já se passam exatos cinquenta anos. Naquela época ainda se fazia parto por cesariana. Aliás, geralmente optava por essa modalidade quem tinha dinheiro, o que dava uma boa vantagem a quem não tinha dinheiro pelo menos na hora de nascer. Eu estava falando de crianças. Elas são sempre muito engraçadas por sua curiosidade.

Certa vez, estava eu na casa de uma tia quando meu primo caçula pegou um disco de vinil e perguntou: “Mãe, o que é esse CD gigante?!”. Quem esperaria que hoje o CD não existe mais e ouvimos música em vinil novamente? Para muitos era impossível imaginar isso. Mais recentemente um de meus netos chegou em minha casa, olhou para a televisão e perguntou: “O que é essa corda atrás da TV, vô?” Ele se referia ao cabo de energia, que já deve ter virado peça de museu há cerca de vinte anos. Mas estas questões tecnológicas não são o mais importante. O mundo mudou mesmo é nas relações.

Há cinquenta anos as tendências de comportamento já davam demonstrações de que teríamos uma nova era pela frente. A banalização do divórcio foi só o começo. Em pouco tempo a estrutura familiar já nem lembrava aquela que conhecemos no final do século XX. Hoje temos as instituições completamente enfraquecidas a não ser pelo estado, que deu uma reviravolta surpreendente após o colapso econômico de 2008. Família? Religião? Como eles eram fortes naquela época. Agora, pouco se ouve falar.

Mas e as relações interpessoais? As relações de trabalho? E o sexo? Nada se manteve inalterado. Afinal, com todo o avanço da ciência, cinquenta anos são uma eternidade. As pessoas hoje, juro, estão mais amáveis do que naquela época. Algo que minha mente idosa ainda não conseguiu compreender, mas agradece. As relações de trabalho realmente se alteraram de tal forma após as seguidas crises econômicas que, em determinado momento, parecia que os papeis se inverteriam, dando grande força ao proletariado. Doce ilusão. Neste aspecto tudo é muito parecido com o início dos anos 2000, a não ser pela obrigatoriedade de parar de trabalhar após a aposentadoria, que agora é levada a sério.

O sexo? A banalização foi crescente e intensa no período entre as décadas de 20 e 30, com grande estímulo da mídia para situações puramente sexuais sem a mínima sensualidade. Aos poucos, pequenos grupos começaram a tentar resgatar a sensualidade sem ser puritanos. Ninguém estava ali para negar o sexo, apenas torná-lo ainda mais prazeroso e intenso. Foi assim que o mundo ocidental começou a dar valor aos antigos ensinamentos orientais, incorporando técnicas milenares que sofriam enorme preconceito até 2035.

João Pedro Cândido de Pangloss
06 de abril de 2059