quinta-feira, 16 de abril de 2009

Eternos

Olhava o casal apaixonado. Trocavam olhares, toques, sorrisos. Era um grande passo para eles, um dos mais importantes que já haviam tomado juntos. A menina, nervosa, mordia as pontas dos dedos enquanto esperava sua vez, olhando o rosto do namorado em busca de qualquer anúncio de dor. Ele disfarçava as fisgadas da agulha na pele, fingindo não sentir nada, para tranqüilizá-la.

Na hora de pintar a pele, puxou o traço do L bastante para a esquerda. Deixou a ponta elevada, renovando o formato do desenho. O U no final do nome recebeu um traço longo contínuo, que lembrava uma cauda de dragão que se enrascava pela batata da perna.

Nela, a mesma técnica. O acento no A ficou num ângulo que poderia ser perfeitamente utilizado para ser substituído por uma estrela no futuro. O F trazia um espiral que lembrava as tribais da moda, que com um pouco de cor poderia abrigar borboletas, fadas, o que quer que ela precisasse para superar o sofrimento do fim.

Eles eram só amores, só beijos, só carinhos. Ele se fazia de forte para tranquilizá-la, segurava sua mão sem apertar. Ela era só sorrisos, só rubores.

Mas ele já tinha visto essa mesma cena centenas de vezes. Já havia tatuado todos os nomes imagináveis. Amandas, Anas, Nathalias, Larissas, Alices, Marinas. Andrews, Marcelos, Brunos, Thiagos. Todos eles, relacionamentos eternos. “Eternos como uma tatuagem”, cada casal repetia, acreditando ser criativos e românticos.

Mal sabiam que ele, mais do que tatuar nomes, era um especialista em transformar Amandas em índias, Thiagos em borboletas, Anas em dragões, Marcelos em fadas, Marinas em magos medievais, Brunos em anjos. Assim como os romances são eternos como as tatuagens, eles podem ser pintados por cima, renovados, atualizados, trocados. Substituídos. Assim como as tatuagens.

3 comentários:

Marina Melz disse...

Sou suspeita, mas a idéia é do cacete. Acho que se fosse um pouco mais instrospectivo e um pouco menos 'jornalístico' teria acertado mais em cheio. Mas gostei.

Rodrigo Oliveira disse...

Pra discordar da Marina, acho q se fosse mais introspectivo ficaria meio blasé. Acho q o tom é esse mesmo. A visão do tatuador foi uma abordagem bacana, diferenciou um pouco do resto. Seguiu um pouco a linha de histórias de coração partido, como o do félix (q era bem esperado q fosse acontecer) mas foi levado de forma bem legal. no ponto, curti.

Félix B. Rosumek disse...

A mesma idéia, execuções diferentes. A visão do tatuador foi um pouco inusitada e por isso ficou legal.

A lista de nomes é bem sugestiva aos conhecidos, eu só não sabia dos caras. Foi bom para vocês? Hahahahahaah!