segunda-feira, 27 de abril de 2009

INVISÍVEL II

Algum tempo se passou desde a última vez que Mica foi visitar o seu tatuador predileto. Ela já não era mais uma menininha e nem tampouco imaculada. Mas ainda tinha a mesma pele alva e sem manchas de anos anteriores. Embora gostasse mesmo de sentir as agulhas cravadas em sua derme, criando e recriando imagens visíveis apenas por alguns instantes em meio ao sangue que vertia do seu próprio corpo, agora ela sentia necessidade da tinta.

Seria uma quebra de seus próprios paradigmas e não queria que fosse algo pequeno. Ouvia comentários de tatuados com a expressão “fechar as costas” e, por um momento, pensou que esse fosse o caminho. Uma mulher com a pele macia, clara e sem uma mancha sequer, mas com um segredo a revelar tão logo fosse despida. A ideia não foi levada adiante, pois se as costas estivessem todas tomadas pela tinta, não poderia usar roupas que deixassem os ombros à mostra, e ela sabia que isso era algo que não poderia abrir mão.

Ligou para Denis marcando o horário. Em meio a sua agenda repleta de compromissos profissionais não havia mais aquela folga toda após as aulas, como na época em que ainda era uma jovem estudante. Mas ela ainda lembrava o caminho para sua diversão predileta de anos atrás.

- Oi, Mica. Quanto tempo, hein?!
- Pois é. O tempo hoje em dia está cada vez mais escasso.
- Já tem algo em mente pra hoje?
- Sim, hoje vou querer com tinta.

Denis parecia perturbado. Aquele desejo súbito por marcar a pela com tinta era algo que não esperava de sua cliente. Não daquela cliente, pelo menos. Mas, mesmo visivelmente desapontado, foi preparar os materiais.

- Sabe de uma coisa, Denis. Vamos fazer do jeito de sempre. Mas hoje quero fechar as costas.

Denis tornou a sorrir.

6 comentários:

Rodrigo Oliveira disse...

Putz, massa. Conseguiu captar bem o tatuador e desenvolveu mto bem a Mica. O final teve um par de reviravoltas em meia duzia de palavras q ficou show.

Vivi disse...

Olha, está muito bom e envolvente. E devo dizer que incorporou bem a idéia de continuação.

Félix B. Rosumek disse...

Ficou legal, sim! Mas vide o comentário no texto do Fábio também.

Cris Costa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cris Costa disse...

òtima continuação...captou bem a essência dos personagens.
Parabéns!

Fábio Ricardo disse...

gostei muito! ela nao podia fechar as costas por causa da tinta... mas nunca precisou da tinta para satisfaze-la.